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sábado, 10 de janeiro de 2026

Tente outra vez

Tente outra vez (Facebook)

Tente outra vez 

Dom João Santos Cardoso 
Arcebispo de Natal (RN)  

Recebi, há poucos dias, uma mensagem de um amigo. Era uma partilha simples, nascida do impacto provocado por um vídeo igualmente singelo: uma idosa pede que toque a música “Tente outra vez”, de Raul Seixas, convida o neto a escutá-la e, com ternura firme, o exorta a jamais desistir dos seus ideais. Nada de discursos elaborados. Apenas a sabedoria silenciosa de quem viveu, caiu, levantou-se e aprendeu a confiar.  

O vídeo, de fato, comove e desperta muitas lembranças. Mas percebi algo ainda mais profundo na reflexão que recebi: ela ia além do impacto imediato. Convertia sentimento em sentido, memória em esperança, saudade em fé. Confesso que fiquei profundamente tocado por essa partilha. Ela me acompanhou em silêncio e me provocou interiormente, como fazem as experiências verdadeiramente espirituais: não se impõem, mas permanecem; não gritam, mas insistem.  

Fui, então, ouvir “Tente outra vez”. Sempre apreciei a arte de Raul Seixas pela densidade existencial e pela coragem de pensar a vida sem superficialidade. Nessa canção, há algo que ultrapassa o tempo e o gênero musical: uma sabedoria que toca o coração humano em sua fragilidade e, ao mesmo tempo, em sua força. Ao afirmar que “a canção não está perdida”, que “a água viva ainda está na fonte” e que “há dois pés para cruzar a ponte”, o autor fala diretamente à condição humana, tantas vezes ferida e cansada, mas nunca definitivamente derrotada.  

Essa canção soa, no limiar deste novo ano, como um sussurro de Deus que infunde esperança no meio do cansaço da alma. “Ela nos lembra que, quando tudo parece perdido, a última palavra nunca é o fracasso; que a fé é justamente isso: acreditar que ainda existe um caminho, mesmo quando os olhos já não conseguem enxergar. De fato, a fé não é a negação da dor, mas a confiança perseverante de que a vida continua aberta à graça”.  

Tente outra vez, de Raul Seixas, é um convite a recomeçar sempre com confiança. Assim é a vida nas mãos de Deus: às vezes o silêncio dói, às vezes a queda é real, mas o Senhor nos chama a levantar, afinar o coração e lutar novamente. Quem confia em Deus aprende que o impossível não é um muro, mas um apelo à perseverança.  

A reflexão toca precisamente esse ponto: tentar outra vez é um ato de fé; é dizer “eu confio”, mesmo sem compreender plenamente; é acreditar que Deus age naquele intervalo invisível entre a dor e a esperança. Por isso, vale a pena não desistir, porque Deus nunca desiste de nós.  

Aquela avó, que diz ao neto “tente outra vez!”, evoca experiências e recordações desses mestres da vida cujos conselhos, simples e cheios de sabedoria, despertam saudades, não uma saudade vaga ou indiferenciada, mas uma saudade que tem nome, rosto e lugar. Uma saudade que não paralisa, mas sustenta; que dói, mas também ensina. Nas palavras e nos gestos desses mestres, que marcaram profundamente a nossa história, ressoa algo de muito profundo, quase como um eco do próprio amor de Deus. Ali se revela algo essencial: a fé não nasce apenas de conceitos, mas de vínculos; não se aprende apenas nos livros, mas na escuta atenta daqueles que nos precederam no caminho da vida.  

Talvez seja assim que Deus nos educa: por meio da memória que aquece, da palavra que insiste, da canção que se recusa a terminar. Cada vez que a vida nos pedir coragem, que a fé em Deus e as vozes que nos ensinaram a amar se unam para repetir ao nosso coração: a canção não acabou… tente outra vez 

Santo Agostinho, mestre da interioridade, ajuda-nos a compreender esse dinamismo ao ensinar que a esperança gera duas atitudes fundamentais: a indignação diante do que fere a vida e a coragem para não se render ao desânimo. Perseverar, portanto, não é ingenuidade, mas maturidade espiritual; é um gesto profundamente humano e, ao mesmo tempo, autenticamente cristão. Porque, no fim, a fé não elimina as quedas, mas nos ensina a levantar, e cada recomeço, ainda que frágil, já é sinal de que Deus continua a escrever a nossa história. 

 


quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Você sabia que São José também teve uma anunciação?

"Le Songe de saint Joseph" de Georges de La Tour. tableau réalisé, vers 1642. | Domaine public

Valdemar De Vaux - publicado em 01/01/26

A liturgia inclui o anúncio feito a José do nascimento de Jesus. Uma Anunciação paralela à da Virgem Maria que mostra como Deus coopera com o homem.

Anunciação é sinônimo da Virgem Maria. A Igreja usa este termo, cunhado com este propósito, para se referir ao evento bíblico (cf. Lucas 1,26-38 ) em que o anjo Gabriel anuncia a Maria que será a mãe do Salvador, ao que a jovem de Nazaré responde com o famoso "fiat": "Assim seja". Mas este relato, que só se encontra no terceiro Evangelho, o de Lucas, encontra um paralelo em Mateus, que alguns chamam de "Anunciação a José", nos versículos 18 a 26 de seu primeiro capítulo.

Esta passagem é lida na missa de 18 de dezembro de cada ano, como preparação para a solenidade da Natividade do Senhor.

O Papa João Paulo II, em sua exortação apostólica Redemptoris Custos sobre o marido de Maria, publicada em 1989, fala de uma estreita analogia (§3) entre os dois relatos evangélicos:

"'O mensageiro divino introduz José no mistério da maternidade de Maria'. Assim como a mãe de Jesus, um anjo se aproxima do justo quando ele decide repudiar secretamente Maria porque ela está grávida. Esta é uma forma de respeitar a lei, mas também a reputação de Maria.

'Eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse: José, filho de Davi, não temas receber Maria como sua esposa, porque o que nela é gerado vem do Espírito Santo. Ele dará à luz um filho, e você o chamará de Jesus (que significa: O Senhor salva), porque ele salvará seu povo de seus pecados'" (Mt 20-21).

A irrupção da graça

© Collection Dagli Orti/Aurimages

Assim como a Virgem Maria, José experimenta assim a irrupção da graça em sua vida. Embora seu plano esteja completo, o homem de Nazaré permite que Deus o perturbe. Por sua determinação de seguir a vontade do Pai, ele deposita sua fé no cumprimento das promessas recebidas de seus ancestrais, listadas anteriormente em uma genealogia bastante tediosa: "Ao despertar José, ele fez o que o anjo do Senhor lhe havia ordenado" (v. 24). João Paulo II pode então dizer que José "manifesta assim uma disposição de vontade semelhante à de Maria a respeito do que Deus lhe pediu através de seu mensageiro".

Mais amplamente, explica a biblista Agnès de Lamarzelle em um artigo na Nouvelle Revue théologique, há em ambos os textos, o de Lucas e o de Mateus, as diferentes características do "gênero literário das anunciações" relativamente comum no universo bíblico: uma situação bloqueada de uma perspectiva humana, uma intervenção divina - perturbadora na maioria das vezes -, a revelação do plano divino, a objeção e o sinal humano, e o cumprimento pela obediência do servo de Deus que recebe o anúncio.

Ao destacar José, o evangelista Mateus permite que o leitor veja a vinda do Salvador de uma nova perspectiva, identifique-se com o justo e entenda melhor como Deus age neste mundo. Não pela onipotência, exceto talvez pelo poder do amor, mas pela cooperação da graça, que é a primeira, e da vontade humana. Enquanto o próprio Jesus está prestes a nascer, um sinal preeminente da presença do Pai em nossas vidas, como podemos participar cada um, à nossa maneira, no desenvolvimento do plano de Deus para a humanidade?

Fonte: https://pt.aleteia.org/

EXEGESE: História e mistério

As Sagradas Escrituras (Comunida Oásis)

EXEGESE

Arquivo 30Dias nº  01 - 1998

História e mistério

Por Ignace de la Potterie

História e Mistério é o título do livro que acompanha a última edição da 30Giorni . Trata-se de uma coletânea das principais contribuições que publiquei nesta revista mensal desde 1992. Na introdução, mencionei que queria explicar o que é exegese cristã. Mas por que esse título aparentemente dialético , História e Mistério?

Um princípio hermenêutico de São Gregório Magno

Segundo Gregório, o exegeta cristão, ao ler a Bíblia, ascende da história ao mistério, " ab historia in mysterium surgit " ( Homilia sobre Ezequiel I, 6, 3). Gregório explica: "Quanto mais cada santo progride na Sagrada Escritura, mais essa mesma Sagrada Escritura progride nele [...], porque as palavras divinas crescem com aquele que as lê" (I, 7, 8). Esse princípio de leitura das Escrituras foi inspirado em Gregório por sua visão inicial do livro de Ezequiel, sobre o qual ele estava comentando.

O profeta, em sua visão, viu uma "carruagem" puxada por "quatro seres viventes". As rodas da carruagem giraram, e Gregório reflete sobre estas palavras do texto: " Spiritus vitae erat in rotis " ( Ezequiel 1:20). Eis o comentário: o fato de o espírito estar nas rodas da carruagem é um símbolo da Escritura na qual o Espírito está presente. O texto bíblico é como uma roda giratória: sobe, depois desce, mas apenas para subir novamente. O texto, portanto, cresce (sobe), "cresce com quem o lê".

E a razão, explica Gregório, é que a Sagrada Escritura, "ao propor o texto, revela o mistério" (" dum narrat textum prodit mysterium ") e, assim, consegue narrar o passado "de modo a também predizer o futuro". Esta forma de ler as Escrituras era muito difundida na tradição patrística e medieval, e foi recentemente estudada com grande erudição por Pier Cesare Bori em L'interpretazione infinita. Ancient Christian hermeneutics and its transformations (Bolonha, Il Mulino, 1987). 

Vejamos um caso concreto dessa exegese. Gregório comenta o episódio bíblico dos dois filhos de Isaac, isto é, Esaú e Jacó ( Gênesis 1:10) . (27:3-8). Jacó era o segundo filho, mas havia comprado o direito de primogenitura de seu irmão com um prato de lentilhas. Isaac estava cego, e sua esposa arquitetou um truque para enganá-lo: vestiu Jacó com uma pele de cabra para que o marido o confundisse com Esaú, que tinha mais pelos. Lembro-me de que, em Lovaina, nosso professor, comentando essa passagem, disse: "Não é uma mentira, mas um mistério", o que parecia significar que tal episódio permanecia incompreensível para ele.

Na realidade, porém, era inquestionavelmente uma mentira, um engano. Mas como São Gregório explica isso? Precisamente para este caso, ele nos pede que "ascendamos da história ao mistério", recorrendo a uma leitura alegórica da passagem, ao seu significado espiritual. A partir desse episódio, diz Gregório, revela-se a importância do direito de primogenitura na história da salvação. O velho Isaac não pode dar a bênção ao verdadeiro primogênito, Esaú, que havia ido caçar e representa o povo judeu. A bênção é dada a Jacó, o segundo filho, que aparece sob a forma de seu irmão mais velho: é, portanto, ele quem recebe a bênção em seu lugar, mas Jacó representa os pagãos.

O significado é, portanto, que os pagãos devem participar das bênçãos destinadas a Israel. Assim, entende-se que, com essas bênçãos recebidas, Jacó receberá o nome de Israel ( Gênesis 35:10). Os pagãos devem participar das bênçãos prometidas ao povo escolhido. O horizonte, portanto, se expandiu imensamente.

A transição "da história para o mistério" não se dá apenas para eventos históricos, como neste caso. Ela também se dá, e repetidamente, para termos usados ​​na tradição cristã, mas que vieram do paganismo. No suplemento da revista, demos um exemplo típico: o termo Theotokos , um título dado pelos cristãos a Maria no século II (por volta de 180), era usado no mundo helenístico para a deusa da fertilidade, Cibele (a mãe dos deuses).

O primeiro a aplicá-lo à mãe de Jesus foi Orígenes, causando assim um verdadeiro escândalo entre os cristãos. Mas, posteriormente, os Padres da Igreja o utilizaram regularmente, purificando-o de suas conotações pagãs. Assim, no Terceiro Concílio Ecumênico (o de Éfeso, em 431), apesar da recusa de Nestório, que não queria ouvir falar do termo Theotokos , o significado desse título foi proclamado como dogma: Maria, a mãe de Jesus, é verdadeiramente a Mãe de Deus. 

História e mistério: ambos necessários para a fé

A importância da história no cristianismo é inegável. Lutero já havia enfatizado isso claramente. Certa vez, perguntaram-lhe: " Quid est interpretatio? ", "O que significa interpretar?" (Era, naturalmente, a Bíblia.) Ele respondeu: "

«Qui non intelligit rem non potest ex verbis sensum elicere », «Aquele que não compreende o evento é incapaz, quando confrontado com o texto , de compreender o seu significado ». Este princípio de Lutero teve grande ressonância na hermenêutica contemporânea (cf. Hans Georg Gadamer, Paul Ricoeur). Deve-se notar que, no texto de Lutero, propõe-se uma espécie de relação triangular entre o evento histórico , o texto que o narra e o significado que se busca. De fato, é preciso perguntar onde reside o significado : no evento ou no texto ? Ou talvez em ambos? Mas, então, qual é a relação entre o evento e o texto? Qual dos dois tem prioridade?

Ao colocarmos toda a ênfase no texto, corremos o risco de transformá-lo em uma mera criação literária, um “teologumenon”; se, em vez disso, dermos toda a prioridade à história, ficamos expostos ao historicismo ou ao fundamentalismo. O mérito de Lutero (a ser enfatizado hoje, seguindo Bultmann) reside em ter insistido na importância da história para a interpretação. No entanto, faltava-lhe um elemento essencial: ele não levou em conta o fato de que entre o texto e nós (que buscamos o significado ) existe uma longa distância, a saber, a tradição que transmite e atualiza o texto para chegarmos ao sentido. Lutero permaneceu fechado na sola Scriptura ; aqui vemos, com o ensinamento católico, a importância da tradição para a busca do significado.

A necessidade da história para a interpretação das Escrituras também foi sublinhada pelo Padre Henri de Lubac, mas em conexão com a obra do Espírito. Isso também é essencial para a passagem da história ao mistério. Recordemos as principais obras de Henri de Lubac sobre este problema: o livro sobre Orígenes intitulado precisamente História e Espírito ; e o livro sobre Orígenes intitulado Umatika Historikôs . 

Problemas de hoje

Segundo um artigo de Charles Kannengiesser citado no volume (pp. 17-20), a exegese dos Padres (lembremos que começamos com Gregório Magno) não seria mais praticável hoje porque estamos sujeitos aos ditames do Iluminismo. Kant, de fato, havia indicado o princípio fundamental em A Religião Dentro dos Limites da Razão : "Uma fé histórica fundada simplesmente em fatos não pode estender sua influência além dos limites de tempo e lugar aos quais a informação que permite um juízo de credibilidade pode chegar" (Bari, Laterza, 1980, p. 110). A transição de um fato histórico particular (necessariamente coincidente) para uma verdade necessária da razão seria, portanto, ilegítima.

Para responder a este desafio do racionalismo, recordemos alguns textos fundamentais de São João. Ele cita dois textos essenciais sobre a verdade, um referente a Jesus: "Eu sou a verdade" ( Jo 14,6); o outro referente ao Espírito: "O Espírito é a verdade" ( 1 Jo 5,6). Quem ousaria, na linha do kantismo, afirmar que estamos lidando aqui com uma "verdade necessária da razão"?

Para Jesus, que foi sem dúvida um homem concreto da história, sua vinda é mencionada como um evento: "A graça da verdade veio por meio de Jesus Cristo" ( Jo 1,17). A verdade de Jesus foi, portanto, um "evento", não uma verdade "puramente fortuita", mas uma verdade que "permanece entre nós" ( 2 Jo 2); a verdade de Jesus foi, de fato, um evento histórico, mas um evento revelatório : o homem Jesus revelou-se como o Filho de Deus e, portanto, no Filho o Pai revelou-se (cf. Jo 14,9).

Mas a crise provocada pelo racionalismo parece agora ter sido superada na filosofia contemporânea. É significativo (ver pp. 157-162 do livro) que vários filósofos contemporâneos pareçam ter redescoberto a noção joanina de verdade. Um deles, Bernard Ronze, publicou recentemente um livro, L'essence du christianisme (Paris, 1996) (A Essência do Cristianismo), que começa com esta frase decisiva: "A noção de evento aparece como fundamental nos Evangelhos e nos escritos apostólicos" (p. 17).

Todos os leitores da 30Giorni sabem o quão fundamental é a noção de "evento" no pensamento e nos escritos de Monsenhor Luigi Giussani: devemos redescobrir "a maravilha do evento de Cristo". Essa redescoberta do evento de Cristo, com a ajuda do Evangelho de João, também nos ajudará a redescobrir a passagem "da história para o mistério".

Fonte: https://www.30giorni.it/

Hoje a Igreja celebra a solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus

Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus | ACI Digital.

Por Redação central

1 de jan de 2026 às 00:01

A solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus (Theotokos) é a mais antiga que se conhece no Ocidente. Nas Catacumbas ou antiquíssimos subterrâneos de Roma, onde se reuniam os primeiros cristãos para celebrar a Santa Missa, encontram-se pinturas com esta inscrição.

Segundo um antigo testemunho escrito no século III, os cristãos do Egito se dirigiam a Maria com a seguinte oração: “Sob seu amparo nos acolhemos, Santa Mãe de Deus: não desprezeis a oração de seus filhos necessitados; livra-nos de todo perigo, oh sempre Virgem gloriosa e bendita” (Liturgia das Horas).

No século IV, o termo Theotokos era usado frequentemente no Oriente e Ocidente porque já fazia parte do patrimônio da fé da Igreja.

Entretanto, no século V, o herege Nestório se atreveu a dizer que Maria não era Mãe de Deus, afirmando: “Então Deus tem uma mãe? Pois então não condenemos a mitologia grega, que atribui uma mãe aos deuses”.

Nestório havia caído em um engano devido a sua dificuldade para admitir a unidade da pessoa de Cristo e sua interpretação errônea da distinção entre as duas naturezas – divina e humana – presentes Nele.

Os bispos, por sua parte, reunidos no Concílio de Éfeso (ano 431), afirmaram a subsistência da natureza divina e da natureza humana na única pessoa do Filho. Por sua vez, declararam: “A Virgem Maria sim é Mãe de Deus porque seu Filho, Cristo, é Deus”.

Logo, acompanhados pelo povo e levando tochas acesas, fizeram uma grande procissão cantando: “Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores agora e na hora de nossa morte. Amém”.

São João Paulo II, em novembro de 1996, refletiu sobre as objeções expostas por Nestório para que se compreenda melhor o título “Maria, Mãe de Deus”.

“A expressão Theotokos, que literalmente significa ‘aquela que gerou Deus’, à primeira vista pode resultar surpreendente; suscita, com efeito, a questão sobre como é possível que uma criatura humana gere Deus. A resposta da fé da Igreja é clara: a maternidade divina de Maria refere-se só a geração humana do Filho de Deus e não, ao contrário, à sua geração divina”, disse o papa.

“O Filho de Deus foi desde sempre gerado por Deus Pai e é-Lhe consubstancial. Nesta geração eterna Maria não desempenha, evidentemente, nenhum papel. O Filho de Deus, porém, há dois mil anos, assumiu a nossa natureza humana e foi então concebido e dado à luz por Maria”, acrescentou.

Do mesmo modo, afirmou que a maternidade da Maria “não se refere a toda a Trindade, mas unicamente à segunda Pessoa, ao Filho que, ao encarnar-se, assumiu dela a natureza humana”. Além disso, “uma mãe não é Mãe apenas do corpo ou da criatura física saída do seu seio, mas da pessoa que ela gera”, disse são João Paulo II.

Por fim, é importante recordar que Maria não é só Mãe de Deus, mas também nossa porque assim quis Jesus Cristo na cruz, quando a confiou a São João. Por isso, ao começar o novo ano, peçamos a Maria que nos ajude a ser cada vez mais como seu Filho e iniciemos o ano saudando a Virgem Maria.

Saudação à Mãe de Deus

Salve, ó Senhora santa, Rainha santíssima,
Mãe de Deus, ó Maria, que sois Virgem feita igreja,
eleita pelo santíssimo Pai celestial,
que vos consagrou por seu santíssimo
e dileto Filho e o Espírito Santo Paráclito!
Em vós residiu e reside toda a plenitude
da graça e todo o bem!
Salve, ó palácio do Senhor! Salve,
ó tabernáculo do Senhor!
Salve, ó morada do Senhor!
Salve, ó manto do Senhor!
Salve, ó serva do Senhor!
Salve, ó Mãe do Senhor,
e salve vós todas, ó santas virtudes
derramadas, pela graça e iluminação
do Espírito Santo,
nos corações dos fiéis
transformando-os de infiéis
em servos fiéis de Deus!

Fonte: https://www.acidigital.com/

Leão XIV: inauguremos uma era de paz e amizade entre todos os povos

Angelus, 01/01/2026 - Papa Leão XIV (Vatican News)

No Angelus da Solenidade de Maria Santíssima Mãe de Deus, o Papa convida a começar o novo ano com um coração convertido, capaz de transformar o mal em bem, o sofrimento em consolação e os conflitos em caminhos de reconciliação. Na 59ª Jornada Mundial da Paz, Leão XIV exorta à oração pelas nações feridas pela guerra e pelas famílias marcadas pela violência.

https://youtu.be/U8wOc8s0QXg

Thulio Fonseca – Vatican News

“Queridos irmãos e irmãs, feliz ano novo!”

Após celebrar a Solenidade de Maria Santíssima Mãe de Deus, o Papa Leão XIV rezou o Angelus com os fiéis reunidos na Praça São Pedro, na manhã desta quinta-feira (01/01). No primeiro Angelus do ano, que coincide com a 59ª Jornada Mundial da Paz, o Pontífice dirigiu uma forte exortação à humanidade para renovar o tempo presente, abrindo-o à esperança, à reconciliação e à paz: 

“À medida que o ritmo dos meses se repete, o Senhor convida-nos a renovar o nosso tempo, inaugurando por fim uma era de paz e amizade entre todos os povos. Sem este desejo de bem, não faria sentido virar as páginas do calendário nem preencher as nossas agendas.”

O Jubileu e o “estilo” de Deus

Recordando o Jubileu que está prestes a se concluir, Leão XIV destacou o legado espiritual deixado pelo Ano Santo, que ensinou a cultivar a esperança concreta de um mundo novo. Um caminho que passa pela conversão do coração e pela transformação interior:

“O Jubileu, que está prestes a terminar, ensinou-nos como cultivar a esperança de um mundo novo: convertendo o coração a Deus, de modo a transformar os erros em perdão, a dor em consolação, os propósitos de virtude em boas obras.”

Esse dinamismo, explicou o Papa, revela o próprio modo de agir de Deus na história, um “estilo” marcado pela misericórdia e pela proximidade. É assim que Deus salva o mundo do esquecimento, oferecendo-lhe o Redentor, Jesus Cristo, o Filho Unigênito que se faz nosso irmão e ilumina as consciências de boa vontade, para que o futuro seja construído como uma casa acolhedora para todos.

Praça São Pedro durante o Angelus desta quinta-feira, 01/01   (@Vatican Media)

O coração de Cristo não é indiferente 

Na contemplação do mistério do Natal, o Papa convidou os fiéis a dirigir o olhar para Maria, a primeira a sentir bater o coração de Cristo. No silêncio do seu ventre virginal, o Verbo da vida manifesta-se como um pulsar de graça, revelando o amor de Deus pela humanidade. “Por isso, o coração de Jesus bate por cada homem e cada mulher: por quem está preparado para o acolher, como os pastores, e por quem não o deseja, como Herodes.” Um coração que não permanece indiferente, mas pulsa pelos justos, para que perseverem no bem, e pelos injustos, para que mudem de vida e encontrem a paz: 

“O Salvador vem ao mundo nascendo de uma mulher: paremos para adorar este acontecimento, que resplandece em Maria Santíssima e se reflete em cada nascituro, revelando a imagem divina impressa no nosso corpo.”

Um apelo à paz nas nações e nas famílias

Por fim, Leão XIV renovou o apelo à oração pela paz, ampliando o horizonte do olhar cristão para as feridas do mundo e da vida cotidiana:

“Neste Dia, rezemos todos juntos pela paz. Antes de tudo, pela paz entre as nações ensanguentadas por conflitos e miséria, mas também pela paz nos nossos lares, nas famílias feridas pela violência e pela dor. Certos de que Cristo, nossa esperança, é o sol da justiça que jamais se põe, peçamos com confiança a intercessão de Maria, Mãe de Deus e Mãe da Igreja.”

Fiéis e peregrinos reunidos na Praça São Pedro   (@Vatican Media)

Rejeitar toda forma de violência

Após a oração mariana, o Papa saudou com afeto os cerca de 40 mil fiéis reunidos na Praça de São Pedro e recordou que, desde 1º de janeiro de 1968, celebra-se o Dia Mundial da Paz. Leão XIV destacou a mensagem que proferiu ao ser eleito: “A paz esteja com todos vocês”, definindo-a como uma paz desarmada e desarmante, dom de Deus e fruto de seu amor incondicional, confiado à responsabilidade de cada pessoa. Convidou os cristãos a iniciarem o novo ano construindo a paz, desarmando os corações e rejeitando toda forma de violência, e manifestou apreço pelas inúmeras iniciativas de promoção da paz realizadas em todo o mundo.

Na conclusão, ao recordar o oitavo centenário da morte de São Francisco, o Santo Padre concedeu a todos a bênção bíblica: “O Senhor te abençoe e te guarde; mostre a ti o seu rosto e tenha misericórdia de ti; volte para ti o seu olhar e te dê a paz”, e pediu a intercessão da Santa Mãe de Deus para que acompanhe o caminho do novo ano.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Normal, discreto e divino

Normal, discreto e divino (Foto/Crédito: Opus Dei)

Normal, discreto e divino

Alguns conterrâneos de Jesus não acreditaram em que o poder de Deus pudesse manifestar-se em alguém “tão normal”. O Senhor quer continuar nos encontrando na vida cotidiana através das práticas simples de piedade que procuramos viver.

22/02/2021

Estamos em um sábado. Jesus está na sinagoga de Nazaré. Vêm à sua mente, talvez, muitas recordações familiares da sua infância e juventude. Quantas vezes terá ouvido lá a palavra de Deus! Os seus compatriotas, que o conhecem há muito tempo, foram recebendo várias notícias sobre os milagres que fez em cidades vizinhas. E isto tem um efeito estranho: a familiaridade com Jesus converte-se num obstáculo para eles. “Donde lhe vem essa sabedoria e essa força miraculosa? Não é ele o filho do carpinteiro? ” (Mt 13, 54-55), perguntam-se. Surpreende-os o fato de que a salvação possa vir de alguém que viram crescer dia a dia. Não acreditam que o Messias possa ter vivido entre eles de modo tão discreto e despercebido.

Como os conterrâneos de Jesus

Os habitantes de Nazaré pensam conhecer bem a Jesus. Tem certeza de que as coisas que se contam dele não podem ser verdade. “Não é Maria sua mãe? Não são seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? E suas irmãs não vivem todas entre nós? De onde lhe vem pois tudo isto? ” (Mt 13, 56). Em um povoado onde não se faz imagens de Deus e onde nem sequer se pronuncia seu nome, um de seus conterrâneos afirma que ele é o Messias... impossível. E mais, conhecem sua origem, conhecem seus pais, conhecem sua casa: “Era uma família simples, próxima de todos, integrada normalmente no povoado”[1]. Não entendem como alguém tão igual a eles possa fazer milagres. “A vida normal de Jesus, o operário provinciano, não parece esconder qualquer mistério; a sua proveniência revela-O como um igual a todos os outros”[2]. O filho de Deus trabalhava com José em sua oficina; “a maior parte de sua vida foi consagrada a essa tarefa, numa existência simples que não despertava nenhuma admiração”[3]. Por que a normalidade da vida de Jesus constituía um motivo para não acreditar em sua divindade?

Embora possa aparecer algo alheio a nós, reservado a aqueles que conviveram com Cristo, na verdade nós também suspeitamos muitas vezes da normalidade. O que é especial, chamativo, extraordinário é que nos atrai; o que quebra o ritmo encanta-nos. Costuma acontecer que nossa capacidade de assombrar-nos adormece, que naturalmente acontecem muitas coisas, que nos fechamos em certas rotinas, passando por alto os milagres que se dão atrás da normalidade. Sem ir mais longe acostumamo-nos muitas vezes inclusive ao maior de todos eles, à presença do Filho de Deus na Eucaristia. O mesmo, porém, pode acontecer com nosso encontro pessoal com Cristo na oração, com essa serenata de jaculatórias à Virgem que é a recitação do santo rosário ou com os momentos em que queremos preencher nossa mente e nossos afetos com a doutrina cristã através da leitura espiritual. Habituamo-nos talvez a ter tão à mão nosso criador. O dispensador de todas as graças, o amor que satisfaz qualquer desejo, está encerrado numa infinidade de sacrários espalhados por todo o globo. Deus quis tornar presente toda sua onipotência nos espaços que a normalidade lhe oferece. É dali que ele atua. Assim, muitas vezes sem brilho, surgem inumeráveis milagres à nossa volta.

Nos bastidores do cotidiano

Essa normalidade de Deus pode desconcertar-nos porque a contrapomos a uma espontaneidade que talvez julguemos elemento essencial de uma relação. O que é normal pode parecer muito previsível porque nele falta aparentemente a criatividade, o fator surpresa, a paixão do amor verdadeiro. Achamos talvez falta de algo distintivo que faça de nossa relação com Deus uma aventura inigualável, única e irrepetível, um testemunho espetacular que possa inclusive mexer com outras pessoas. Podemos pensar que a normalidade uniformiza e desperdiça a contribuição que cada um pode dar. É verdade que, diante do que é sempre igual a reação compreensível é o habituar-se.

Sabemos, no entanto, que Deus convida-nos a encontrá-lo no que é mais comum, nas coisas de cada dia. Assim é também o amor humano, que cresce e se torna mais profundo não só se valendo de grandes momentos especiais e sim nesses silêncios, cansaços e incompreensões dos dias compartilhados; simplesmente estando juntos. “Há algo de santo, de divino, escondido nas situações mais comuns”[4] que gostaríamos de descobrir. Acontece que, embora nossa relação com Deus aconteça no meio da normalidade, a processão se dá interiormente. Seu amor apaixonado pode mover-se bem comodamente entre os bastidores da normalidade, no hoje sem espetáculo, sem fogos de artifício mas como brasas ardentes. A razão é que nós sabemos que estamos sendo olhados a cada momento, e com um carinho novo. Não importa a Deus o quão normal seja minha vida: é minha e isso lhe basta. Deus, de fato, oferece-nos a oportunidade de fazer de nossa vida algo excepcionalmente singular e especial; ele só sabe contar de um em um. Nunca faz comparações entre seus filhos. Chamou a cada um antes da criação do mundo (cfr. Ef 1,4): não existe ninguém igual a mim e, por isso, sou inimitável e absolutamente amável para Deus.

Os mimos parecem monótonos

Esse espaço de normalidade no qual o Senhor atua torna possível que nossa vida esteja, como diz São Paulo, “escondida com Cristo em Deus” (Col 3,3); cheia de dias iguais em que aparentemente não acontece nada e, no entanto, está acontecendo o mais inaudito. “Nesta constância para continuar em frente dia a dia, vejo a santidade da Igreja militante. Essa é muitas vezes a santidade ‘da porta do lado’”[5]. Poderia parecer de fora, que a monotonia tomou conta de quem procura viver essa santidade nas coisas normais. Para desmascarar essa visão superficial, no entanto, São Josemaria comparava os pequenos e constantes costumes de piedade dessa alma com os mimos que uma mãe tem com seu filho pequeno: “Plano de vida: monotonia? Os mimos de uma mãe, monótonos? Não dizem sempre a mesma coisa os que se amam?”[6]. Ao mesmo tempo, Deus está concentrado em nós e não deixa de pensar em nós nem de amar-nos em nenhum instante; não importa quão normal seja nossa vida, e sim que seja tão excepcional para ele.

São Bernardo de Claraval escrevia ao Papa Eugênio III, grande amigo seu que foi beatificado depois, para animá-lo a não descuidar a vida de oração constante e evitar assim ser absorvido pelas atividades de seu novo ministério: “Afasta-te das ocupações pelo menos durante algum tempo. Qualquer coisa menos permitir que elas te arrastem e te levem aonde não queres. Queres saber aonde? À dureza do coração”[7]. Sem algumas práticas de piedade concretas, diárias, o coração corre o perigo de fechar-se ao amor de Deus e tornar-se duro. Sem o seu carinho, até o mais santo pode perder o rumo. Sem Ele ao nosso lado, ficamos logo sem forças.

Em maio de 1936, São Josemaria estava dando uma palestra e propôs aos que escutavam que pedissem a “graça para cumprir o meu plano de vida de tal modo que aproveite bem o tempo. Por que me deito e levanto fora de horas?”[8]. E podemos perguntar: o que tem a ver o amor de Deus com a hora de ir descansar? Essa é a maravilha da normalidade de Deus. Importa-lhe, e muito, nosso sono, nossa saúde, nossos planos. E, sobretudo, não quer que fiquemos inquietos no fim do dia para tentar fazer mais coisas do que já foi feito, porque quem atua é sempre Deus.

Para garantir nossa liberdade

Ao começar seu pontificado, Bento XVI alertava contra um perigo constante e que talvez estivesse presente naquela sinagoga de Nazaré que mencionamos no começo: “O mundo é redimido pela paciência de Deus e destruído pela impaciência dos homens”[9]. A normalidade parece-nos sempre excessivamente lenta, talvez pensemos que chega tarde. Desejamos que as coisas boas e santas se realizem o quanto antes. Às vezes é difícil entender porque o bem tarda tanto a chegar, porque o Messias demora tanto tempo que inclusive “começa por estar nove meses no seio de sua mãe, como todo homem, com uma naturalidade extrema”[10].

Na realidade, com essa forma de aparecer, talvez o que Deus busque seja garantir a liberdade dos homens, estar seguro de que nós também queremos estar com ele, ora rezando alguns minutos, interrompendo nossas atividades para dedicar algumas palavras a Maria ou fazer qualquer outra coisa. Se Deus se manifestasse de modo diferente, nossa resposta teria que ser indiscutível. Por isso vemos que Jesus parece feliz passando despercebido nas cenas do evangelho. Os magos, por exemplo, devem ter ficado surpreendidos ao ver o rei dos judeus nos braços de uma mulher jovem, num lugar tão simples. Deus não quer subjugar os homens. A personalidade de seu Filho é tão atraente que Deus escolheu manifestar-se na normalidade para dar-nos um espaço de liberdade. Quer filhos livres, não deslumbrados. Sabe que nada nos estimula tanto como descobrir pessoalmente um tesouro escondido. Agradecer e desfrutar dessa liberdade - com todas as suas luzes e suas sombras - ajuda-nos a compartilhar sua paciência diante de tantas coisas que, à primeira vista, podem parecer um obstáculo para a redenção e constituem, no entanto, o caminho normal através do qual Deus se manifesta.

Por isso mesmo, seus mandamentos e suas normas são também um dom e um convite. Pode-se resumir esta realidade recorrendo a dois dos maiores pensadores da tradição cristã: “Continuando por esta linha, São Tomás de Aquino pôde dizer: ‘A nova Lei é a graça do Espírito Santo’; não uma norma nova, mas a interioridade nova dada pelo próprio Espírito de Deus. No fim, essa experiência espiritual da verdadeira novidade no cristianismo foi resumida por Agostinho nesta famosa fórmula: ‘Da quod iubes et iube quod vis – concedei o que mandais e depois mandai o que quiserdes’”[11]. Entendem-se bem então alguns parágrafos inflamados do salmista que podem nos servir para agradecer esta liberdade a Deus: “Com meus lábios proclamo todas as normas de tua boca. No caminho de teus preceitos deleito-me mais do que em todas as riquezas. Quero meditar teus mandatos e fixar o olhar em teus caminhos” (Sl 119, 13-15).

Deus está na normalidade

Vivemos numa época de fenômenos de massa, de pessoas que tem milhões de seguidores, fotos ou vídeos que se tornam virais em poucos minutos. Diante deste panorama, continua vigente o que dissemos sobre a normalidade na qual o Senhor atua? Não ignoramos que Deus é paciente e nos disse que a sua ação é como a do levedo: não se pode distingui-lo da massa e, apesar de seja lá o que for, chega a toda ela. Deus é o primeiro interessado em salvar o mundo, muito mais do que nós. De fato, é ele que impulsiona, que inflama e que sustenta. A nós, só cabe unir-nos a esse movimento de santidade: “Com a maravilhosa normalidade do divino, a alma contemplativa transborda em afã apostólico”[12].

O Papa Francisco convida-nos precisamente a deixar-nos invadir pela vibração apaixonada da graça: “Quanto bem nos faz ter, como Simeão, o Senhor ‘nos braços’ (Lc 2,28). Não só na cabeça e no coração, mas nas mãos, em tudo que fazemos: na oração, no trabalho, nas refeições, ao telefone, na escola, com os pobres, em toda parte. Ter o Senhor nas mãos é o antídoto contra o misticismo isolado e o ativismo desenfreado, porque o encontro real com Jesus endireita tanto o devoto sentimental como o frenético factótum. Viver o encontro com Jesus é também o remédio para a paralisia da normalidade, é abrir-se à cotidiana agitação da graça”[13]. Com Cristo queremos liberar-nos da paralisia de pensar que Deus não está na normalidade.

“Maria santifica as coisas mais pequenas - fazia notar São Josemaria - aquelas que muitos consideram erroneamente como intranscendentes e sem valor: o trabalho de cada dia, os pormenores de atenção com as pessoas queridas, as conversas e visitas por razões de parentescos ou de amizade. Bendita normalidade, que pode estar repassada de tanto amor de Deus! ”[14].

Diego Zalbidea


[1] Francisco, ex. ap. Amoris laetitia, n. 182.

[2] Bento XVI, A infância de Jesus, Editorial Planeta, São Paulo, 2012.

[3] Francisco, encíclica Laudato Si’, n. 98.

[4] São Josemaria, Entrevistas, n. 114.

[5] Francisco, ex. ap. Gaudete et exultate, n. 7.

[6] São Josemaria, Roteiro de uma palestra, 22/08/1938. Citado em Pedro Rodríguez, Edição Comentada de Caminho, Quadrante, São Paulo, 2014, p. 229.

[7] São Bernardo de Claraval, Carta ao Papa Beato Eugênio III.

[8] São Josemaria, Roteiro de uma palestra, 22/08/1938. Citado em Pedro Rodríguez, Edição Comentada de Caminho, Quadrante, São Paulo, 2014, p. 230.

[9] Bento XVI, Homilia, 24/04/2005.

[10] São Josemaria, E Cristo que passa, n. 148.

[11] Bento XVI, Jesus de Nazaré II, Planeta, São Paulo.

[12] São Josemaria, É Cristo que passa, n. 120.

[13] Francisco, Homilia, 2/02/2018.

[14] São Josemaria, É Cristo que passa, n. 148.

Fonte: https://opusdei.org/pt-br

Ano Novo: 5 motivos teológicos para não acreditar em superstições

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Cibele Battistini - publicado em 31/12/25

A fé católica, fundada na revelação divina e na razão iluminada pela graça, sempre se posicionou de forma clara contra a superstição.

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Embora práticas supersticiosas estejam culturalmente difundidas — como acreditar em “azar”, amuletos, horóscopos ou sinais místicos desvinculados de Deus — a Igreja ensina que tais atitudes contradizem a fé verdadeira. A seguir, apresentamos cinco motivos teologais que explicam por que um católico não deve aderir à superstição.

1 - A SUPERSTIÇÃO VIOLA O PRIMEIRO MANDAMENTO

O Primeiro Mandamento — “Amar a Deus sobre todas as coisas” — exige que toda confiança última esteja em Deus. A superstição, ao atribuir poder sobrenatural a objetos, rituais ou sinais, desloca essa confiança.

O Catecismo da Igreja Católica é explícito:

“A superstição é um desvio do culto que prestamos ao verdadeiro Deus” (Catecismo da Igreja Católica, n. 2111).

Quando alguém acredita que um objeto “traz sorte” ou que um gesto evita o mal independentemente da vontade divina, passa a atribuir poder salvífico a algo criado, o que se aproxima da idolatria.

2 - A SUPERSTIÇÃO CONTRADIZ A VIRTUDE TEOLOGAL DA FÉ

A fé teologal é a adesão livre e consciente à verdade revelada por Deus. Superstições não se baseiam na Revelação, mas no medo, na ignorância ou em tradições culturais sem fundamento teológico.

São Tomás de Aquino ensina que:

“A superstição é um vício oposto à religião, pois oferece culto indevido ou de modo indevido”
(Suma Teológica, II-II, q. 92, a. 1).

Assim, a superstição não é apenas um erro intelectual, mas um desvio moral que enfraquece a fé autêntica.

3 - A SUPERSTIÇÃO NEGA A PROVIDÊNCIA DIVINA

A fé católica professa que Deus governa todas as coisas com sabedoria e amor. Acreditar que acontecimentos dependem de “sorte”, “azar” ou forças ocultas é negar, ainda que implicitamente, a ação da Providência.

A Sagrada Escritura afirma:

“Todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8,28).

Santo Agostinho criticava duramente a crença em presságios e sinais supersticiosos, afirmando que eles afastam o cristão da confiança filial em Deus.

4 - A SUPERSTIÇÃO INSTRUMENTALIZA O SAGRADO

No cristianismo, os sacramentos e sacramentais não são “amuletos”. Seu efeito depende da graça de Deus e da disposição interior do fiel, não de um automatismo mágico.

O Catecismo ensina:

“A atitude supersticiosa pode afetar até mesmo o culto que prestamos ao verdadeiro Deus, quando se atribui uma importância quase mágica a certas práticas” (CIC, n. 2111).

Usar objetos religiosos como proteção automática, sem fé, conversão ou vida sacramental, transforma o sagrado em instrumento mágico — algo incompatível com a teologia católica.

5 - A SUPERSTIÇÃO ESCRAVIZA O HOMEM AO MEDO, ENQUANTO A FÉ LIBERTA

Cristo veio libertar o ser humano do medo da morte, do mal e das forças ocultas. A superstição, ao contrário, alimenta ansiedade e dependência.

Jesus ensina:

“Não tenhais medo” (Mt 14,27).

São João Paulo II reforça essa ideia ao afirmar que a fé cristã é um encontro com Cristo vivo, não um sistema de ritos para controlar o destino.

A superstição não é uma simples “crendice inofensiva”, mas um desvio teológico que fere a fé, a razão e a liberdade do cristão. O católico é chamado a viver uma fé madura, centrada em Deus, iluminada pela razão e sustentada pela confiança na Providência.

Crer verdadeiramente é abandonar o medo e confiar plenamente naquele que é o Senhor da história.

Fonte: https://pt.aleteia.org/

A Mensagem de Ano Novo da CNBB

A Mensagem de Ano Novo da CNBB (cnbb)

PRESIDÊNCIA DA CNBB ENCERRA O ANO COM MENSAGEM DE ESPERANÇA E ALERTA DIANTE DOS DESAFIOS DO PAÍS

29/12/2025

A poucos dias do fim do ano, a Presidência da CNBB dirige uma mensagem ao povo brasileiro marcada por esperança cristã e profunda preocupação com a realidade social, política e ética do país. Inspirados na passagem bíblica “a esperança não decepciona” (Rm 5,5), os bispos recordam o Natal como sinal de que nenhuma escuridão é definitiva e reafirmam a esperança como força transformadora da história.

O texto reconhece avanços importantes em 2025, especialmente nas áreas da saúde, com o fortalecimento do Sistema Único de Saúde; da economia, com queda do desemprego, estabilidade da inflação e crescimento do PIB; e da sustentabilidade, destacando a realização da COP-30 no Brasil, o protagonismo em energias renováveis e o aumento de investimentos em práticas ambientais, sociais e de governança. Também são citadas experiências positivas no campo da participação popular e do cooperativismo.

Ao mesmo tempo, a mensagem expressa inquietação diante de retrocessos éticos, sociais e democráticos. Entre os pontos criticados estão o elevado custo da dívida pública, o enfraquecimento da ética e o aumento da corrupção, a fragilização das instituições democráticas, a flexibilização de marcos legais, o desrespeito aos povos originários, as ameaças à proteção ambiental, a persistente desigualdade social, o crescimento da violência, especialmente o feminicídio, e a disseminação de discursos de ódio e radicalismos.

A presidência reafirma a sacralidade da vida humana, da concepção ao fim natural, manifestando-se contra qualquer iniciativa de legalização do aborto, e sublinham que defender a vida implica também combater a fome, a miséria e a desigualdade. A democracia é apresentada como patrimônio do povo brasileiro, que exige cuidado, diálogo e compromisso com o bem comum.

Por fim, a mensagem convoca a todos a serem construtores da paz, promotores da justiça e da responsabilidade social, reafirmando a esperança como caminho para a pacificação do país.

Confira (aqui) a mensagem na íntegra.

Fonte: https://www.cnbb.org.br/

Retrospectiva 2025: um ano de fé, encontro e esperança

Retrospectiva 2025 (Vatican News)

O vídeo revisita os momentos mais significativos do Ano Santo de 2025. O Papa Francisco abre a Porta Santa da Basílica de São Pedro na noite de Natal de 2024, dando início ao Jubileu. Em seguida, a doença do Pontífice, sua morte e o carinho das milhares de fiéis que participam de suas exéquias. O início do Conclave e a eleição do Papa Leão XIV como 267º sucessor de Pedro. Até a primeira viagem apostólica do Pontífice à Turquia e ao Líbano e às celebrações natalinas.

https://youtu.be/Tfl2qTs3Yz8

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

A Igreja no Brasil em 2025

Centenas de milhares de pessoas em luto comparecem ao funeral do papa Francisco na praça de São Pedro, no Vaticano, em 26 de abril de 2025. | Daniel Ibáñez/EWTN

Por Nathália Queiroz*

30 de dez de 2025 às 13:57

Em 2025, a Igreja no Brasil e no mundo viveu mudanças institucionais, perdas, celebrações e debates públicos, envolvendo decisões governamentais, a morte do papa Francisco, a eleição de Leão XIV, novos dados sobre religião no país, canonizações, consagrações nacionais e polêmicas envolvendo líderes religiosos.

1- Autorização de aborto em meninas de até 14 anos

Em 8 de janeiro entrou em vigor a resolução do Conanda, órgão do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania, que autoriza aborto em qualquer mês de gestação em meninas de até 14 anos vítimas de estupro. No ordenamento jurídico brasileiro, todo ato sexual com menor de 14 é um estupro presumido. A norma havia sido aprovada em 23 de dezembro de 2024 por 15 votos a 13.

2- Igreja no Brasil reza pela saúde do papa Francisco

Bispos e dioceses brasileiras rezaram pelo papa Francisco, internado por 38 dias em Roma por pneumonia bilateral, recebendo alta em 23 de março.

3- Frei Gilson lidera audiência digital e reúne multidões em eventos presenciais

Em março, frei Gilson Azevedo, padre dos Carmelitas Mensageiros do Espírito Santo, da diocese de Santo Amaro (SP), reuniu cerca de 1 milhão de pessoas para rezar online ao vivo às 4h no rosário da madrugada na Quaresma, gerando críticas e ataques de pessoas da esquerda.

Ele liderou a audiência digital no país com 153,8 milhões de horas assistidas em suas transmissões ao vivo e realizou eventos presenciais no Brasil e no exterior, incluindo encontro com 500 mil pessoas em João Pessoa em 27 de dezembro. Seus shows intercalam momentos de música, pregação baseada na Palavra de Deus e oração.

4- Morte do papa Francisco

O papa Francisco morreu em 21 de abril, aos 88 anos, de um acidente vascular cerebral. O Brasil decretou luto de sete dias no país e cerca de 200 mil pessoas participaram do funeral na praça de São Pedro, no Vaticano, no dia 26 de abril, incluindo o presidente Lula e uma comitiva, bispos e cardeais do país e brasileiros que estavam em Roma para a canonização de Carlo Acutis que seria no dia 27 de abril, mas foi adiada por causa da morte do papa.

4- Morre a irmã Inah Canabarro Lucas, a pessoa mais velha do mundo, aos 116 anos

A pessoa mais velha do mundo, a freira gaúcha, irmã Inah Canabarro Lucas, morreu no dia 30 de abril, aos 116 anos. Nascida em 27 de maio de 1908, Inah morava em Porto Alegre (RS), na Casa de Acolhida Santo Enrique de Ossó que fica junto à Casa Provincial das Irmãs Teresianas do Brasil, comunidade em que foi aceita aos 19 anos, em 1927.

5- Conclave e eleição do papa Leão XIV

O conclave para a eleição do novo papa começou no dia 7 de maio e teve a participação de seis cardeais eleitores do Brasil: cardeal Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo (SP); cardeal Orani Tempesta, arcebispo do Rio de Janeiro (RJ); cardeal Sergio da Rocha, arcebispo de Salvador (BA); cardeal Paulo Cezar Costa, arcebispo de Brasília (DF); cardeal Leonardo Steiner, arcebispo de Manaus (AM); e cardeal Jaime Spengler, arcebispo de Porto Alegre (RS). O cardeal Robert Prevost, prefeito dom Dicastério para os Bispos, foi eleito no dia 8 de maio e tomou o nome Leão XIV. É o primeiro papa nascido nos EUA na história.

6- Censo 2022 mostra queda no número de católicos e aumento dos evangélicos e pessoas sem religião no Brasil

O mês de junho começou com a divulgação dos números do Censo Demográfico 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O Censo 2022 mostrou que o número de católicos no Brasil é de 56,7%, uma queda de 8,4 pontos percentuais em relação a 2010. Os evangélicos aumentaram 5,2 pontos percentuais, chegando a 26,9% da população. Também houve aumento de 1,4 pontos percentuais dos que se declaram sem religião, chegando a 9,28%, e dos seguidores da umbanda e do candomblé, que são 1,05% da população.

7- Divino Pai Eterno é proclamado patrono de Goiás

Lei sancionada em Goiás reconheceu o Divino Pai Eterno como patrono do Estado. A devoção, que começou no século XIX, se tornou a maior manifestação religiosa do Centro-Oeste brasileiro e reúne milhões de pessoas todos os anos em Trindade (GO). A Romaria do Divino Pai Eterno é celebrada todos os anos, compreende dez dias e termina no primeiro domingo de julho.

8- Brasil é consagrado a São Miguel Arcanjo

Em12 de agosto, o Brasil foi consagrado a são Miguel Arcanjo no plenário do Congresso Nacional, com uma imagem peregrina oficial do arcanjo, vinda do Monte Gargano, na Itália. A imagem percorreu diversas regiões do país, levando a consagração de cidades e dioceses à proteção de são Miguel Arcanjo. A iniciativa foi promovida pelo Instituto Hesed em parceria com o bispo de Piracicaba (SP), dom Devair Araújo Fonseca.

9 – Canonização de Carlo Acutis e Pier Giorgio Frassatti

A canonização ocorreu em 7 de setembro, no Vaticano. No Brasil, a cerimônia foi acompanhada ao vivo na Paróquia São Carlo Acutis, na diocese de Santo Amaro (SP), que fica no campus do Centro Universitário Ítalo Brasileiro e na capela Nossa Senhora Aparecida e São Carlo Acutis, em Campo Grande (MS), onde ocorreu o milagre que permitiu a beatificação de Carlo Acutis.  Na capital sul-mato-grossense, 4,5 mil pessoas participaram das celebrações.

O Santuário Cristo Redentor, no Rio de Janeiro (RJ), projetou uma imagem de Carlo Acutis para homenagear o novo santo.

10- Brasil ganha primeiro santuário do mundo dedicado a são Carlo Acutis

Em 12 de outubro, a capela Nossa Senhora Aparecida e São Carlo Acutis, em Campo Grande, foi elevada a santuário, o primeiro do mundo dedicado ao santo.

11- Igreja na COP 30

COP 30, Conferência das Partes signatárias do tratado da Organização das Nações Unidas (ONU) para combate às mudanças climáticas que aconteceu em Belém (PA) de 10 a 21 de novembro e reuniu representantes de 194 países e da União Europeia. O secretário de Estado da Santa Sé, cardeal Pietro Parolin, participou com uma comitiva vaticana.

Cardeais apresentaram na COP o documento  “Um chamado por justiça climática e a casa comum: conversão ecológica, transformação e resistência às falsas soluções” no qual condenaram o capitalismo  ‘capitalismo verde’, a mineração e o ‘monocultivo energético’. Eles também exigiram uma transformação econômica radical.

A Igreja também organizou atividades paralelas à COP para conscientizar sobre o cuidado com a casa comum e discutir sobre a ecologia integral e a justiça climática.

12- Padre Júlio Lancellotti é proibido de transmitir missas e usar redes sociais

Outro episódio de repercussão no país foi a determinação do arcebispo de São Paulo, cardeal Odilo Scherer, proibindo o padre Júlio Lancellotti, pároco de São Miguel Arcanjo, na Mooca, de transmitir missas e de se manifestar nas redes sociais. O anúncio foi feito pelo padre Júlio em 14 de dezembro. O padre disse aceitar a decisão com “espírito de obediência”.

A primeira missa do padre depois da proibição do arcebispo teve protesto dos participantes contra dom Odilo.

*Escrevo para a ACI Digital há nove anos e desde 2023 sou correspondente no Brasil para o telejornal EWTN Notícias. Sou certificada em espanhol pelo Instituto Cervantes. Tenho experiência em redação de conteúdo religioso para mídias católicas em português e espanhol e em tradução de sites religiosos. Sou casada, tenho quatro filhos e sou catequista há cerca de 20 anos. Escrevo de Petrópolis (RJ).

Fonte: https://www.acidigital.com/

Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF