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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Igreja no Brasil: Desafio no combate ao feminicídio

Shutterstock

Paulo Teixeira - publicado em 15/01/26

Somente em 2024, foram registrados 1.450 feminicídios no país, um aumento de 12% em relação ao ano anterior, e o <strong>maior número já registrado desde a criação da lei Maria da Penha </strong>que endurece as penas para quem comete esse crime brutal.

Padre Rodolfo, assessor da Comissão Episcopal Vida e Família da CNBB, provoca uma reflexão interna nas comunidades religiosas. O segundo nível da justiça é moral e teológico. O sacerdote argumenta que o feminicídio é um escândalo que fere o plano de Deus. Para ele, a Igreja não pode ser conivente com discursos que justifiquem a submissão ou a posse da mulher pelo homem, pois tais deformações educativas são o berço da violência.

O padre é direto ao apontar a responsabilidade da formação cristã nesse processo. "O feminicídio não surge 'do nada', mas é fruto de uma longa cadeia de omissões, conivências e deformações educativas", destaca o sacerdote. Ele reforça que a verdadeira justiça divina exige que o Evangelho seja usado para libertar e não para oprimir, transformando a cultura do descarte em uma cultura do cuidado e da igualdade fundamental.

Uma missão para o novo ano

Ao iniciar 2026, o desafio é transformar os protestos e as reflexões em ações concretas. A união entre a pressão popular e o despertar da consciência religiosa aponta para um caminho de esperança. A justiça que as mulheres buscam passa pela educação das novas gerações, pelo acolhimento nas paróquias e pela fiscalização rigorosa das leis.

O Padre Rodolfo considera que reconhecer os erros do passado é o que permitirá à sociedade avançar. "Esses erros, entre outros, são, em grande parte, fruto de ignorância, medo, insegurança e de uma cultura patriarcal que ainda não foi suficientemente convertida pelo Evangelho", afirma. O compromisso de 2026, portanto, é fazer com que a justiça deixe de ser uma palavra em cartazes ou sermões para se tornar a garantia real de que nenhuma mulher a mais terá sua vida interrompida pelo ódio.

Educar a consciência

Superar este cenário exige mais do que leis; exige uma transformação na base da formação humana. O Padre Rodolfo destaca o papel crucial da família e da Igreja na criação de uma nova consciência que rejeite a violência masculina. Educar filhos e filhas para a não-violência é um imperativo cristão que começa no lar e se estende às catequeses e comunidades.

Ação pastoral

Por fim, a Igreja é convocada a um desafio prático: o acolhimento e a proteção. A Pastoral Familiar e outras instâncias eclesiais precisam de estar equipadas para identificar vulnerabilidades e oferecer suporte real às vítimas. Não se pode falar de "Reino de Deus" ignorando a "covardia" e a "degradação" — termos usados pelo Papa Francisco e reforçados pelo Padre Rodolfo — que o feminicídio representa.

O Padre Rodolfo conclui que o compromisso da fé exige que todos se tornem parte de uma "grande onda contra a violência masculina". "Somente assim poderemos, progressivamente, deixar de contar feminicídios e começar a contar histórias de libertação e de reconciliação, sinais do Reino que já está em meio a nós", afirma. O escândalo da morte de mulheres deve, portanto, despertar uma fé que não se cala e que trabalha incansavelmente pela justiça e pela dignidade humana.

Fonte: https://pt.aleteia.org/

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Prática social

Ação Social da Igreja (CNBB)

PRÁTICA SOCIAL 

09/02/2026

Dom Geraldo dos Reis Maia
Bispo de Araçuaí (MG)

A Igreja nasce com uma missão especial: o serviço do Reino de Deus, anunciado e inaugurado por Jesus Cristo. Por isso, ela persiste na prática dos valores evangélicos, na busca de ser “luz do mundo” e “sal da terra” (Mt 5,12.14). Já nos seus primórdios, a Igreja se preocupava com os necessitados, organizando-se como comunidade de partilha e solidariedade (cf. At 2,42-47; 4,32-35). Para o melhor atendimento dos empobrecidos, especialmente as viúvas, foi instituído o ministério do diaconato (cf. At 6,1-7). Sabendo das dificuldades dos cristãos de Jerusalém, Paulo promoveu uma grande campanha nas diversas Igrejas para socorrer os cristãos em penúria (cf. Rm 15,26-28; Gl 2,10; 2 Cor 8-9). 

O cuidado com os empobrecidos e com os doentes é atestado por vários Padres da Igreja. Sabemos que São Basílio construiu um grande abrigo para acolher os pobres. Tão grande que era, foi considerado uma nova cidade junto a Cesareia da Capadócia, recebendo o nome de “Basilíada”. Muitos outros bispos mantinham, em suas Igrejas, abrigos para acolher os andarilhos e empobrecidos em geral. Tantos outros Padres denunciavam o poder opressor que explorava a classe baixa. É importante notar que esses valorosos Padres da Igreja não somente denunciavam a opulência dos ricos, que não tinham abertura para a partilha, mas realizavam ações concretas e emergenciais para não deixar os pobres desamparados. Assim é que surgem os hospitais e abrigos para crianças e idosos desamparados. 

No período medieval, houve grandes esforços da Igreja na acolhida dos empobrecidos, mas o sinal marcante de radicalidade no serviço aos empobrecidos nos foi dado por São Francisco de Assis, que acolhia empobrecidos, mendigos e leprosos para cuidar deles com imenso amor. O santo de Assis foi um verdadeiro sinal dos tempos para apontar que o cuidado com a pobreza é missão da Igreja. Tanto os franciscanos quanto outras variadas ordens e congregações religiosas que foram surgindo se dedicaram ao serviço dos empobrecidos, dos desamparados, de crianças, idosos, viúvos e enfermos. A mão misericordiosa do Senhor era estendida aos marginalizados por meio de pessoas consagradas. Quanto bem esses consagrados fizeram e fazem para os excluídos da sociedade. 

As transformações do mundo moderno, especialmente após a Revolução Burguesa na França e a Revolução Industrial na Inglaterra, levaram a Igreja a assumir outros tipos de ação concreta de caridade. A pura assistência aos desvalidos já não era suficiente. Havia que apoiar os sindicatos, as associações de classe e os trabalhadores em geral para fazer cumprir seus direitos, numa sociedade materialista e capitalista, que tinha como meta o lucro fácil. Foi nesse contexto que Leão XIII ergueu sua voz profética por meio da encíclica Rerum Novarum (1891), anunciando um quadro de coisas novas que exigiam posturas novas da Igreja, a serviço dos direitos dos trabalhadores. Essa encíclica foi um divisor de águas na prática evangélica. 

O trabalho de assistência social da Igreja é abrangente. Há um número sem fim de creches, abrigos para idosos, para adolescentes e jovens, escolas profissionalizantes, oferecimento de sopas e refeições, acolhida aos empobrecidos e abandonados, entrega de cestas básicas, enxovais para crianças, farmácias e hospitais populares, remédios caseiros, alimentação alternativa, cuidado com gestantes e crianças, assistência e apoio a pessoas privadas de liberdade e a suas famílias, campanhas de agasalho, de roupas em geral e de alimentação, as celebrações da partilha ou o Domingo da Caridade. Como Igreja, fazemos muito pelos pobres, mas é necessário que nossa ação cresça, pois cresce o número dos empobrecidos. Deve-se sempre ter cuidado para não alimentar a situação estrutural de miséria que aí está, mas propor saídas para a superação da miséria e da fome. 

A Igreja se preocupa com a transformação social. O trabalho das pastorais sociais vem trazendo bons resultados: apoio aos movimentos sociais, aos sindicatos, à luta pela moradia, pela reforma agrária etc. As Campanhas da Fraternidade, com conteúdo social, vêm despertando os cristãos para a necessidade de concentrar esforços na busca de uma nova sociedade. As semanas sociais, os projetos de lei de iniciativa popular, os fóruns sobre reforma agrária, reforma urbana etc., refletindo temas que envolvem os desafios que enfrentamos, são grandes meios de conscientização. É preciso assumir mais atividades políticas, como a participação em Conselhos Municipais e outros tipos de engajamento que promovam políticas públicas, para garantir maior respeito à dignidade do ser humano. Os projetos de pastoral contemplam temas que comprometem a ação social dos cristãos. Percebemos que nosso compromisso de engajamento nessa área ainda é insuficiente.  

Precisamos assumir mais as grandes opções pastorais de nossa Igreja, especialmente a opção pelos pobres. Cada vez mais nos conscientizamos de que não podemos ser uma Igreja voltada somente para a instituição. O Papa Francisco nos falou de uma Igreja em saída para as periferias. É preciso abrir nosso campo de atuação para sermos testemunhas de Jesus Cristo no meio do mundo. Ser Igreja supõe muito mais do que realizar liturgias bonitas. Essas liturgias serão mais belas se expressarem nossa vivência do Evangelho, no seguimento de Jesus Cristo, que viveu pobre, evangelizou os pobres e morreu completamente despojado, até mesmo de suas vestes. 

O Papa Leão XIV dedicou sua primeira Exortação Apostólica “Sobre o Amor para com os Pobres”. Ele faz um resgate da Tradição da Igreja, desde o Evangelho até os dias atuais, sobre a opção pelos pobres: “O cuidado com os pobres faz parte da grande Tradição da Igreja, como um farol que, a partir do Evangelho, iluminou os corações e os passos dos cristãos de todos os tempos. Portanto, devemos sentir a urgência de convidar todos a entrar neste rio de luz e vida que provém do reconhecimento de Cristo no rosto dos necessitados e sofredores. O amor pelos pobres é um elemento essencial da história de Deus conosco e irrompe do próprio coração da Igreja como um apelo contínuo ao coração dos cristãos, tanto das suas comunidades como de cada um individualmente. Enquanto Corpo de Cristo, a Igreja sente como sua própria ‘carne’ a vida dos pobres, que são parte privilegiada do povo a caminho. Por isso, o amor aos pobres – seja qual for a forma dessa pobreza – é garantia evangélica de uma Igreja fiel ao coração de Deus” (Dilexi Te, 103). 

Fonte: https://www.cnbb.org.br/

10 Leituras para conhecer melhor a Sagrada Escritura

Foto/Crédito: Opus Dei.

Ao instituir o Domingo da Palavra de Deus, o Papa Francisco nos lembrou da centralidade da Bíblia na fé, na liturgia e na missão, convidando-nos a uma escuta mais atenta e amorosa da Palavra.

20/01/2026

Todos precisamos crescer no conhecimento e a compreensão da palavra de Deus, para que os ensinamentos bíblicos alimentem nossa vida espiritual. Para avançar nesse caminho, são de grande ajuda as leituras de livros que nos orientem, apresentem o contexto histórico em que os diversos livros foram escritos, introduzam noções de teologia bíblica e nos ajudem a meditar podem ser de grande ajuda.

A seguir, oferecemos uma breve seleção de leituras disponíveis em português.


Textos do site sobre a Sagrada Escritura


Bíblia de Navarra (Novo Testamento)
São Josemaria Escrivá, fundador do Opus Dei pediu à Faculdade de Teologia da Universidade de Navarra uma nova tradução da Bíblia para o espanhol a partir das línguas originais, com abundantes introduções e notas. Em 2004 o trabalho foi publicado em cinco volumes pela EUNSA, com o título Sagrada Bíblia. Contém introduções a cada livro, comentários a todas as passagens, índice de assuntos, apêndices, anexos, mapas, índices, etc. Em resumo, um estudo exaustivo e completo. Nos comentários, cita numerosos autores de renome, santos, padres, doutores, papas, concílios e documentos do Magistério da Igreja.

Verbum Domini (Exortação Apostólica “A Palavra do Senhor”)
Bento XVI

Os temas principais são: a centralidade da Palavra de Deus, a Sagrada Escritura como alimento espiritual, a relação entre Escritura e Tradição, o papel da Igreja na interpretação da Escritura, a importância da liturgia, o impulso missionário da Palavra e o estudo e a meditação da Escritura.

Dei Verbum
Concílio Vaticano II
“A Constituição dogmática Dei Verbum (...) abre-se com uma frase profundamente significativa: ‘O sagrado Concilio, ouvindo religiosamente a Palavra de Deus...’. São palavras com as quais o Concílio indica um aspecto qualificante da Igreja: ela é uma comunidade que escuta e anuncia a Palavra de Deus. A Igreja não vive de si mesma mas do Evangelho e dele tira sempre de novo a orientação para o seu caminho”, Papa Bento XVI.

Jesus de Nazaré
Joseph Ratzinger
Os três volumes desta obra de Bento XVI dispensam apresentações. Conforme o autor explica, ela pode ser descrita como uma “vida de Jesus”...

A Bíblia explicada
John Bergsma
Pequeno, original, atraente e instrutivo, este volume propõe um passeio pela Bíblia usando um vocabulário simples e acessível.

O Banquete do Cordeiro
Scott Hahn
João Paulo II chamou a Missa de “o céu na terra”, explicando que “a liturgia que celebramos na terra é uma misteriosa participação na liturgia

Consumindo a palavra
Scott Han
O autor parte de uma observação histórica surpreendente: muito antes de designar os últimos livros da Bíblia, a expressão “Novo Testamento” referia-se originalmente ao sacramento eucarístico. Essa constatação ilumina a maneira como os primeiros cristãos entendiam a relação entre a Palavra de Deus e a celebração litúrgica.

A Arte de Recomeçar
Fabio Rosini
Com o relato bíblico do início do mundo criado, e apoiando-se em todos os momentos na vida de Cristo tal como é contada nos Evangelhos, Fabio Rosini percorre diferentes etapas

História sagrada do povo de Deus
Daniel-Rops
De forma acessível a qualquer leitor com conhecimentos básicos de História Sagrada, descreve a história, os costumes, as leis, os dados arqueológicos e inúmeros pequenos detalhes que ajudam a contextualizar os relatos do Antigo Testamento.

Jesus Cristo Segundo os Evangelhos
Louis-Claude Fillion
Esta obra de L. C. Fillion é considerada uma das melhores biografias de Jesus Cristo. Oferece uma visão apaixonada, atraente e serena da figura do Senhor, descrita com rigor científico e exposta a partir da fé de um grande exegeta.

Fonte: https://opusdei.org/pt-br

Papa aos sacerdotes: “Não é tempo de retraimento, mas de presença fiel e disponibilidade generosa”

Assembleia sacerdotal em Madrid (Vatican Media)

A mensagem de Leão XIV enviada à Assembleia Presbiteral da arquidiocese de Madri convida o clero ao discernimento, à comunhão fraterna e a um ministério centrado em Cristo diante dos desafios culturais do tempo presente.

Thulio Fonseca - Vatican News 

“Queridos filhos, alegra-me poder dirigir-lhes esta carta por ocasião de sua Assembleia Presbiteral e fazê-lo a partir de um sincero desejo de fraternidade e unidade”. Com estas palavras de tom paterno, o Papa Leão XIV se dirigiu, nesta segunda-feira, 9 de fevereiro, por meio de uma mensagem, aos sacerdotes da arquidiocese de Madri, reunidos no CONVIVIUM, a assembleia presbiteral convocada pelo arcebispo da capital espanhola, o cardeal José Cobo.

A peculiaridade deste momento reside no fato de estarmos falando de uma arquidiocese com mais ou menos 2.600 presbíteros vivendo no seu território. Dentre eles, foram convocados os ...

O encontro reúne representantes da diversidade do clero madrilenho — cerca de 1.585 presbíteros com encargos pastorais, entre os aproximadamente 2.600 sacerdotes que vivem no território arquidiocesano — e se apresenta como uma oportunidade de comunhão e discernimento sobre “que tipo de sacerdote Madri precisa hoje”.

No texto, o Papa expressa gratidão pela dedicação cotidiana dos presbíteros e reconhece as dificuldades do ministério. “Sei que muitas vezes este ministério se desenvolve em meio ao cansaço, a situações complexas e a uma entrega silenciosa da qual só Deus é testemunha”, escreve, desejando que suas palavras cheguem como “um gesto de proximidade e de ânimo”.

Discernir o tempo presente

O Pontífice convida os sacerdotes a uma leitura profunda da realidade atual, marcada por processos de secularização e polarização cultural. “A fé corre o risco de ser instrumentalizada, banalizada ou relegada ao âmbito do irrelevante”, adverte, recordando também a perda de referências comuns que durante séculos favoreceram a transmissão da mensagem cristã. Apesar disso, Leão XIV identifica sinais de esperança, sobretudo entre os jovens. “No coração de muitas pessoas abre-se hoje uma nova inquietação”, observa, afirmando que a absolutização do bem-estar, uma liberdade desvinculada da verdade e o progresso material não conseguiram responder ao desejo profundo do ser humano.

Nesse contexto, o Papa sublinha que o tempo atual não é de fechamento nem de desalento. “Para o sacerdote, não é tempo de retraimento nem de resignação, mas de presença fiel e de disponibilidade generosa”, escreve, lembrando que “a iniciativa é sempre do Senhor, que já está agindo e nos precede com a sua graça”.

Sacerdotes configurados com Cristo

Indicando o perfil de sacerdote de que a Igreja necessita hoje, o Papa afirma que não se trata de multiplicar tarefas ou buscar resultados imediatos. “Não homens definidos pela pressão dos resultados, mas homens configurados com Cristo”, capazes de sustentar o ministério a partir de uma relação viva com Ele, nutrida pela Eucaristia e expressa numa caridade pastoral marcada pelo dom de si:

"Não se trata de inventar novos modelos nem de redefinir a identidade que recebemos, mas de voltar a propor, com renovada intensidade, o sacerdócio em seu núcleo mais autêntico — ser alter Christus —, deixando que seja Ele quem configure a nossa vida, unifique o nosso coração e dê forma a um ministério vivido a partir da intimidade com Deus, da entrega fiel à Igreja e do serviço concreto às pessoas que nos foram confiadas."

Uma Igreja que é casa

Servindo-se da imagem da catedral, o Papa recorda que a Igreja é chamada a ser casa para seus sacerdotes e espaço de comunhão. Leão XIV também sublinha que "o sacerdote não vive para se exibir, mas tampouco para se esconder. Sua vida é chamada a ser visível, coerente e reconhecível, ainda que nem sempre seja compreendida". Toda a vida do padre é chamada a remeter a Deus e a acompanhar o passo em direção ao Mistério, sem usurpar o seu lugar:

“Filhos meus, ninguém deveria sentir-se exposto ou sozinho no exercício do ministério: resisti juntos ao individualismo que empobrece o coração e enfraquece a missão!”

Ao final da mensagem, Leão XIV retoma as palavras de São João de Ávila como síntese do caminho sacerdotal: “Sejam totalmente d’Ele”. E conclui com um apelo direto: “Sejam santos!”, confiando os sacerdotes à intercessão de Santa Maria da Almudena e concedendo a Bênção Apostólica a todos os que lhes foram confiados pastoralmente.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Controle parental: quanto tempo de tela na adolescência?

fast-stock I Shutterstock

Mathilde de Robien - publicado em 06/02/26

Em um momento em que médicos e autoridades públicas se preocupam com a invasão dos smartphones no cotidiano dos jovens, a Dra. Anne-Lise Ducanda recomenda limitar a uma hora por dia o tempo de tela para um adolescente de 15 anos e insiste: "adicionar tempo deve ser algo excepcional".

"Mãe, você pode me dar mais tempo?" Uma pergunta que pareceria totalmente incongruente há alguns anos, mas que se impõe hoje no dia a dia de muitos pais preocupados em controlar o uso do telefone dos filhos na adolescência. Para os não iniciados, ela significa: "Pode me liberar mais tempo para eu usar meu celular?". De fato, os softwares de controle parental permitem monitorar o uso do smartphone da criança, limitando a duração diária do tempo de tela e o acesso a certos sites e aplicativos. Em teoria, um consenso ideal. Na prática, uma atividade que exige ajustes regulares... ou não!

Em muitas famílias, os pedidos de tempo extra dependem do contexto (período escolar ou férias, saídas à noite, responsabilidade em um acampamento escoteiro...) e das intenções da criança. As filhas de Jessica têm direito a uma hora por dia durante a semana e três horas por dia nos fins de semana e feriados. "Usamos o Family Link, nossas filhas ouvem muita música pelo celular, elas não têm redes sociais, eu monitoro o tempo gasto em cada aplicativo e o telefone delas fica bloqueado das 21h30 às 7h", explica a mãe. "Às vezes pedem tempo extra para ouvir música ou ligar para uma amiga. Eu aceito ou recuso, dependendo do comportamento no dia, se estamos em família, se os deveres foram feitos..."

Os tempos de tela na adolescência

De acordo com o relatório da Anses (Agência Nacional de Segurança Sanitária da França) publicado em 13 de janeiro, fruto de cinco anos de trabalho de um comitê de especialistas, na França, um em cada dois adolescentes passa entre duas e cinco horas por dia em um smartphone, a maior parte do tempo conectado a redes sociais. O uso é considerado excessivo pela agência, que aponta diversos efeitos nocivos à saúde: alteração do sono, desvalorização de si mesmo, comportamentos de risco e ciberviolência.

Para a Dra. Anne-Lise Ducanda, médica do desenvolvimento infantil e cofundadora do CoSE (Coletivo sobre a Superexposição às Telas), as limitações de tempo e conteúdo são indispensáveis. O coletivo recomenda durações máximas para cada faixa etária:

  • Até 3 anos: nada de telas.
  • Até 6 anos: o mínimo possível.
  • 6 a 10 anos: 1 hora por dia nos fins de semana.
  • 10 a 14 anos: 2 horas por dia nos fins de semana.

"Se a criança puder se conectar todos os dias, ela pedirá sua 'dose' todos os dias", explica a médica. "Limitar as telas aos fins de semana permite que a criança se reconecte com a vida real, com os outros e com sua família."

"O controle parental é indispensável porque a criança não consegue se autorregular."

Quanto aos mais velhos, o coletivo recomenda não dar um smartphone antes dos 15 anos e, após essa idade, instalar controle parental e limitações rígidas. "O cérebro só amadurece aos 25 anos, assim como a capacidade de autorregulação. Portanto, a criança precisa dos pais!", destaca a Dra. Ducanda à Aleteia. "Não se pode deixar o tempo ilimitado dizendo 'você só tem direito a duas horas', é impossível! A criança não consegue se proteger sozinha."

Aguentar firme

Essa vigilância necessária por parte dos pais não é tarefa fácil. "Um adolescente vai, inevitavelmente, pedir para adicionar tempo", previne a Dra. Ducanda. "Ele vai tentar burlar o controle parental, mas os pais precisam resistir, no interesse do próprio filho."

Muitos pais relatam dificuldades. "Aos 16 anos, nossa filha tinha 2 horas por dia e recolhíamos o celular às 21h30", conta Louise, mãe de cinco filhos. "Mas tínhamos muita dificuldade em resistir aos pedidos de tempo extra que ela justificava com argumentos convincentes, até que ela acabou hackeando os sistemas de controle."

Élise viveu uma experiência semelhante: "Nosso filho de 14 anos tem uma hora de tela por dia e não tem redes sociais. Fiquei surpresa que ele nunca pedia mais tempo, até descobrir que, apesar do limite, ele conseguia acessar mais tempo". Nesses casos, o diálogo é necessário para explicar o motivo das limitações e restaurar a confiança.

A regra de ouro

Então, quanto tempo para quem tem mais de 15 anos? Para Anne-Lise Ducanda, "o ideal é não ultrapassar uma hora por dia", já que estudos mostram efeitos prejudiciais a partir de uma hora de consumo diário (fora o uso para fins escolares). "É importante explicar que é para o bem dele e manter a palavra! Quando o filho pedir mais tempo, a resposta é não. Adicionar tempo deve ser algo excepcional."

Além do tempo, a médica reforça a "regra dos quatro nãos", elaborada pela psicóloga Sabine Duflo:

  1. Não de manhã (para preservar a atenção).
  2. Não durante as refeições (para preservar a interação).
  3. Não antes de dormir (para preservar a qualidade do sono).
  4. Não dentro do quarto.
Fonte: https://pt.aleteia.org/

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Chiclayo, no Peru: o programa do Dia Mundial do Doente de 2026

XXXIV Dia Mundial do Doente (Vatican Media)

A diocese peruana acolherá, de 9 a 11 de fevereiro, os eventos eclesiais do XXXIV Dia Mundial do Doente, liderados pelo enviado especial do Papa, o cardeal Michael Czerny, prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral. Estão previstas visitas a três hospitais, um encontro na Universidade Católica, um seminário sobre cuidados paliativos na América Latina e a missa de 11 de fevereiro no Santuário de Nuestra Señora de la Paz.

Vatican News

O programa do XXXIV Dia Mundial do Doente, intitulado “A compaixão do samaritano: amar carregando a dor do outro”, que será celebrada solenemente na diocese de Chiclayo, no Peru, de 9 a 11 de fevereiro, está repleto de eventos. Para a ocasião, o Papa Leão XIV nomeou como enviado especial o cardeal Michael Czerny, prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral. Participarão do evento o núncio apostólico no Peru, o arcebispo Paolo Rocco Gualtieri, além de bispos e delegados da Pastoral da Saúde das 22 Conferências Episcopais da América Latina e do Caribe, uma delegação do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral e representantes das 46 jurisdições eclesiásticas do Peru.

Visita a três hospitais e encontro na Universidade Católica

No dia 9 de fevereiro, a delegação do Vaticano liderada pelo cardeal Czerny visitará três hospitais: o Serviço de Medicina Interna do Hospital Las Mercedes, a Unidade de Cuidados Paliativos e Emergência do Hospital Almanzor Asenjo e os pacientes de Medicina Interna e Emergência do Hospital Belén. Posteriormente, o prefeito participará de um encontro na Universidade Católica Santo Toribio (USAT) com os bispos e delegados da Pastoral da Saúde das Conferências Episcopais da América Latina e do Caribe presentes.

Seminário sobre cuidados paliativos e espiritualidade

No dia 10 de fevereiro será realizado um seminário acadêmico-teológico-pastoral intitulado: “A compaixão do samaritano, avanços nos cuidados paliativos na América Latina e espiritualidade do atendimento integral ao paciente”. O simpósio de estudo e reflexão, que será realizado no teatro do Colégio Santo Toribio de Mogrovejo, contará com a participação do Dr. Luis Solari de la Fuente, da Dra. Luz María Loo Palomino de Li, do padre Alejandro Álvarez Gallegos, teólogo-pastoral da América Latina, entre outros.

A missa de 11 de fevereiro

No dia 11 de fevereiro será celebrada uma missa no Santuário de Nuestra Señora de la Paz às 9h (hora local), presidida pelo cardeal Michael Czerny e concelebrada pelo núncio apostólico no Peru, dom Paolo Rocco Gualtieri; pelo bispo de Chiclayo, dom Edinson Farfán; pelo secretário-geral do Celam, Monsenhor Lizardo Estrada, e pelos bispos e delegados da Conferência Episcopal do Peru e dos países convidados. Participarão da missa também representantes de instituições de saúde e congregações religiosas, juntamente com pessoas que enfrentam situações delicadas de saúde, que poderão receber o Sacramento da Unção dos Enfermos. 

O bispo de Chiclayo: gestos concretos de proximidade

O bispo de Chiclayo, dom Edinson Farfán Córdova, afirmou que “o amor precisa de gestos concretos de proximidade, com os quais se assume o sofrimento alheio, sobretudo o das pessoas que vivem em condições de doença e, muitas vezes, em um contexto de fragilidade devido à pobreza, ao isolamento e à solidão” e convidou todos a se unirem ao evento eclesial com orações.  

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

Moinhos de vento

Dom Quixote (Canção Nona)

MOINHOS DE VENTO 

26/01/2026

Dom Geraldo dos Reis Maia
Bispo de Araçuaí (MG)

“Dom Quixote de la Mancha”, obra de Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616), foi o clássico que consagrou a língua do Reino de Castela, chamada de castelhano, e, tendo sido oficializada, mais tarde, na Espanha, passou a ser denominada espanhol. O título e ortografia originais da obra eram “El ingenioso hidalgo Don Qvixote de La Mancha”, com sua primeira edição publicada em Madrid no ano de 1605. É composto por 126 capítulos, divididos em duas partes: a primeira surgida em 1605 e a outra em 1615. 

Tal clássico da literatura mundial narra as aventuras e desventuras de um homem de meia-idade que resolveu se tornar cavaleiro andante depois de ler muitos romances de cavalaria. Providenciando cavalo e armadura, Dom Quixote passa a lutar para provar seu amor por Dulcineia, sua musa imaginária. O destemido cavaleiro é sempre acompanhado por seu fiel escudeiro, Sancho Pança. 

“Mudar o mundo, meu amigo Sancho, não é loucura, não é utopia, é justiça!”. Essa é uma das frases mais citadas, colocadas na boca de Dom Quixote. Conhecedores da obra afirmam que a frase nela não consta. Foram verificadas as edições brasileiras da Nova Fronteira (2017) e da Penguin-Companhia (2012), bem como a edição espanhola da Real Academia, publicada digitalmente em junho de 2015, e nada foi encontrado sobre tal frase atribuída ao nobre cavaleiro. 

Seja como for, a frase acima explicita o espírito de Dom Quixote. Montado em seu cavalo, Rocinante, vai à procura de um mundo novo. É uma metáfora do ser humano na aurora da Modernidade. Cervantes se serve da loucura ou alucinação, como lugar literário, para trazer à luz aspectos de uma nova fase histórico-cultural, como tão bem fez seu contemporâneo Shakespeare, especialmente em Hamlet. 

Uma das cenas mais conhecidas e emblemáticas dessa importante obra é narrada no Capítulo VIII (Parte I), intitulado “Do bom sucesso que teve o valoroso D. Quixote na espantosa e jamais imaginada aventura dos moinhos de vento, com outros sucessos dignos de feliz recordação”. Seguiremos aqui a edição da Nova Cultural (2002), com tradução de Viscondes de Castilho e Azevedo. 

Os dois desbravadores do mundo cruel se deparam com trinta ou quarenta moinhos de vento. Neles, Dom Quixote enxerga “desaforados gigantes”, contra quem decide travar batalha. Para o “Cavaleiro da triste figura”, trata-se de “boa guerra”, pois “bom serviço faz a Deus quem tira tão má raça da face da terra”. Em vão, Sancho tenta dissuadir seu amo e trazê-lo à realidade. “Bem se vê — respondeu D. Quixote — que não andas corrente nisto das aventuras; são gigantes, são; e, se tens medo, tira-te daí, e põe-te em oração enquanto eu vou entrar com eles em feroz e desigual batalha”. 

À distância, Sancho assiste incrédulo à investida corajosa de Dom Quixote, montado em seu Rocinante, indo em direção aos moinhos de vento, armado com sua lança. Cego por sua obstinação, não ouvia as vãs tentativas de seu fiel escudeiro e bradava aos imaginários inimigos: “Não fujais, covardes e vis criaturas; é um só cavaleiro o que vos investe”. Com um pouco de vento que surge, as velas dos moinhos começam a mover-se e Dom Quixote está certo que seus oponentes não o haveriam de intimidar. Chamou novamente à memória sua musa inspiradora, a doce Dulcineia, e arremeteu-se a todo galope em direção ao primeiro moinho que se encontrava à sua frente, convencido de que se tratava de um inimigo gigante. 

Cervantes narra a cena fatídica: “dando-lhe uma lançada na vela, o vento a volveu com tanta fúria, que fez a lança em pedaços, levando desastradamente cavalo e cavaleiro, que foi rodando miseravelmente pelo campo afora”. Podendo prever o desastre, Sancho correu a acudir o seu amo. Mesmo com o infortúnio acometido, Dom Quixote ainda não se convenceu de que tinha sido iludido por um transe e estava certo de que “as coisas da guerra são de todas as mais sujeitas a contínuas mudanças”. Sua justificativa foi que seu sábio inimigo havia transformado os gigantes em moinhos, para lhe “falsear a glória de os vencer”. 

A loucura não era privilégio da aurora da Modernidade. Novos moinhos de vento hoje são transformados em inimigos imaginários. Pior ainda: o solitário cavaleiro torna-se a triste figura de uma parte da humanidade, iludida por falsos inimigos. Os “Sanchos Panças” atuais continuam a advertir que se trata apenas de moinhos de vento, “e que só o podia desconhecer quem dentro na cabeça tivesse outros”. São muitos os que se investem contra esses moinhos de vento, com suas armas em riste, julgando estar prestando um bem à sociedade. Devaneio, alucinação, loucura… O desastre está anunciado, e suas consequências são imprevisíveis. 

Dom Quixote passa a ser, agora, metáfora do ser humano em tempos de Pós-modernidade, de forma mais intensa e nociva, à procura de inimigos imaginários, condição para manter-se em batalha, numa visão maniqueísta da realidade. Montam-se cenários de luta entre o bem e o mal… Para firmar ideologias de poder, criam-se inimigos a serem combatidos. Aumenta o número de alucinados, diminui o contingente de lúcidos. Que futuro vai se desenhando aos nossos olhos? 

Fonte: https://www.cnbb.org.br/

Por que seu celular não costuma aparecer nos seus sonhos?

Você já sonhou com o seu celular? Se a resposta for negativa, saiba que você não está sozinho. Mas por que isso acontece? — Foto: unsplash- kelli_mcclintock

Seria o impacto emocional dos celulares talvez pequeno demais para garantir presença no nosso inconsciente? Entenda a questão.

Por Victor Bianchin

04/02/2026 10h01  Atualizado há 2 dias

Para muita gente, o celular se tornou como uma extensão do corpo. Uma pesquisa do ano passado feita entre cidadãos dos EUA observou que eles checam o celular 186 vezes por dia — ou cerca de uma vez a cada cinco minutos enquanto estão acordados. 46% se consideram viciados. A realidade no Brasil, onde literalmente existe mais celular do que gente, não é muito diferente. Um levantamento de 2023 estimou que brasileiros passam 56% do seu dia em frente às telas do celular e computador. Considerando isso, fica uma pergunta: por que os celulares não costumam aparecer nos nossos sonhos?

O site Sleep and Dream Database é um banco de dados que reúne relatos de sonhos vindos de fontes diversas: submetidos por voluntários, colhidos de pesquisas científicas, retirados de registros históricos e outros. Hoje, apenas 0,99% dos quase 4,5 milhões de sonhos registrados no site registram a aparição da palavra “phone” (telefone, em inglês) ou de suas variações.

Kelly Bulkeley, psicólogo, pesquisador de sonhos e criador do site, escreveu um artigo em 2016 sobre a presença de tecnologia nos sonhos. À época, ele apontou que, entre as mulheres, os celulares apareciam em 3,55% dos sonhos pesquisados, o que é pouco, mas é mais do que itens como filmes (3,18%), vídeos (1,26%) e televisão (0,26%). Para os homens, os números são 2,69% para celulares, 2,47% para filmes, 1,27% para vídeos e 0,36% para televisão.

Ele não tinha uma explicação definitiva para o porquê desse baixo índice de aparições, mas estabeleceu um paralelo com a aparição de meios de transporte nos sonhos, que são bem mais frequentes.

“Parece que as tecnologias de transporte tiveram um impacto maior nos sonhos das pessoas do que as tecnologias de comunicação e entretenimento”, diz ele. “Me pergunto se as tecnologias de transporte têm um impacto mais visceral na vida das pessoas. Telefones, filmes, vídeos e computadores podem ser fascinantes e envolventes, mas não afetam diretamente o corpo de uma pessoa com a mesma intensidade sensorial que sentimos durante uma viagem de carro”, argumenta o pesquisador.

Brigitte Holzinger, psicoterapeuta e diretora do Instituto de Pesquisa da Consciência e dos Sonhos em Viena (Áustria) afirma que os celulares não têm esse impacto porque são apenas uma plataforma, e não o vetor emocional em si. “Tudo o que o nosso smartphone desperta em nós é indireto”, diz Holzinger, neste artigo. O que desperta emoções verdadeiras é interagir diretamente com as pessoas.

Por exemplo, se você estiver rolando o Instagram e ver seu ex-parceiro m uma foto com o parceiro atual, pode ser tomado por uma sensação de tristeza, mas o impacto será muito menor do que se você os visse pessoalmente em algum restaurante ou no supermercado. As experiências da vida real, portanto, tendem a dominar nossos sonhos.

Outras explicações

A Dra. Sham Singh, psiquiatra da rede Winit e especialista em saúde mental, tem uma explicação parecida e mais recente. Questionada sobre o assunto em 2025, ela afirmou que a nossa relação com a tecnologia é muito diferente da que temos com outros aspectos da vida cotidiana.

“O telefone é um dispositivo operado em nível consciente, mas não possui nenhuma carga emocional ou simbólica mais profunda, portanto, não aparece em nossos sonhos. Além disso, a tecnologia se desenvolve tão rapidamente que nosso subconsciente não tem tempo de incorporar esses dispositivos à linguagem simbólica característica dos sonhos”, explicou.

Ou seja: nossos celulares simplesmente não possuem um peso emocional ou psicológico suficiente para que estejam presentes em nossos sonhos. "Os sonhos muitas vezes refletem nossas emoções, medos e desejos, portanto objetos que não evocam sentimentos fortes podem ter menos probabilidade de aparecer neles", afirmou Singh.

Por fim, há uma terceira explicação vinda da jornalista científica Alice Robb, autora do livro Why We Dream: The Transformative Power of Our Nightly Journey (Por que sonhamos: o poder transformador de nossa jornada noturna). Em entrevista ao site The Cut, ela teorizou que essa pouca prevalência dos celulares nos sonhos pode ter a ver com a “hipótese de simulação de ameaça”.

“[Essa teoria] basicamente sugere que o motivo pelo qual sonhamos é que os sonhos nos permitem lidar com nossas ansiedades e nossos medos em um ambiente de menor risco, para que possamos praticar para eventos estressantes”, diz Robb.

Dentro dessa explicação, os sonhos são um mecanismo de defesa desenvolvido ao longo da evolução humana. Por isso, tendemos a sonhar mais com coisas que seriam motivo de preocupação para nossos ancestrais, mas não para nós.

“As pessoas tendem a não sonhar tanto com a leitura e a escrita, que são desenvolvimentos mais recentes na história da humanidade, e sim com coisas relacionadas à sobrevivência, como lutar, mesmo que isso não tenha nada a ver com quem você é na vida real”, diz Robb.

De qualquer forma, sonhos são um assunto muito complexo para que seja possível cravar uma explicação que sirva para todo mundo. De fato, basta procurar nas redes sociais para achar um monte de gente que diz que sonha, sim, com seus celulares.

O neurofisiologista William Dement, padrinho da medicina do sono, tem uma frase famosa que diz: “O sonho permite que cada um de nós seja insano, em silêncio e com segurança, todas as noites da vida”. Talvez o celular não seja um elemento importante nessa nossa versão insana.

Fonte: https://revistagalileu.globo.com/

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

A vida em abundância: Carta do Papa Leão XIV sobre o valor do esporte

Jogos olímpicos de inverno Milão-Cortina 2026 (Vatican Media)

No texto, publicado nesta sexta-feira (6/02) por ocasião dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Inverno, o Pontífice destaca o esporte como caminho de formação humana, fraternidade e paz, e alerta para os riscos da lógica do lucro e do desempenho a qualquer custo.

Thulio Fonseca - Vatican News

"Por ocasião da celebração da XXV edição dos Jogos Olímpicos de Inverno, que terão lugar em Milão e Cortina d’Ampezzo de 6 a 22 de fevereiro próximo, e da XIV edição dos Jogos Paralímpicos de Inverno, que se realizarão, nas mesmas localidades, de 6 a 15 de março, desejo dirigir uma saudação e os meus melhores votos a quantos estão diretamente envolvidos e, ao mesmo tempo, aproveitar a oportunidade para propor uma reflexão destinada a todos. A prática esportiva, como sabemos, pode ter uma natureza profissional, de altíssima especialização: deste modo, corresponde a uma vocação de poucos, embora suscite admiração e entusiasmo no coração de muitos, que vibram ao ritmo das vitórias ou das derrotas dos atletas. Mas a prática esportiva é uma atividade comum, aberta a todos e saudável para o corpo e para o espírito, a ponto de constituir uma expressão universal do ser humano."

Assim o Papa Leão XIV introduz a sua Carta com o título A vida em abundância, sobre o valor do esporte, publicada nesta sexta-feira, 6 de fevereiro. Dividida por temas ligados ao mundo esportivo, desde sua história até os desafios atuais, o Santo Padre propõe uma reflexão que une dimensão humana, educativa e espiritual da prática esportiva.

LEIA AQUI A CARTA DO PAPA NA ÍNTEGRA

Esporte, formação humana e cultura do encontro

Na Carta, o Papa percorre a história do esporte e recorda seu valor formativo ao longo do tempo, destacando a tradição cristã que sempre reconheceu a unidade entre corpo, mente e espírito. Inspirado nas imagens bíblicas utilizadas por São Paulo e na reflexão de pensadores como Santo Tomás de Aquino, Leão XIV sublinha que a atividade esportiva favorece a disciplina, a moderação e o desenvolvimento integral da pessoa, tornando-se um caminho privilegiado de educação humana.

O Pontífice destaca ainda que o esporte é um espaço de encontro e de relação, capaz de promover a fraternidade, o respeito às regras e a superação do individualismo. Quando vivido de forma autêntica, ensina a lidar com a vitória sem arrogância e com a derrota sem desespero, contribuindo para a construção de comunidades baseadas na cooperação, na solidariedade e na cultura da paz.

Desafios atuais e riscos da prática esportiva

Leão XIV chama atenção também para os perigos que ameaçam os valores do esporte, sobretudo quando ele é submetido à lógica do lucro, do sucesso a qualquer custo e da exploração econômica. Nessas situações, o atleta corre o risco de ser reduzido a mercadoria e a competição perde seu caráter educativo, abrindo espaço para práticas como o doping, a corrupção e outras formas de manipulação.

Além disso, o Papa alerta para outras distorções contemporâneas, como a instrumentalização política das competições, o culto excessivo da imagem e do desempenho e o impacto de tecnologias que podem desumanizar a experiência esportiva. Diante desses desafios, o Pontífice reafirma a necessidade de preservar o esporte como instrumento de inclusão, diálogo entre culturas e promoção da paz, especialmente entre os jovens e os mais vulneráveis.

Papa Leão XIV e o tenista italiano Jannik Sinner   (@Vatican Media)

As palavras finais de Leão XIV

"Pensar e implementar a prática esportiva como um instrumento comunitário aberto e inclusivo é outra tarefa decisiva. O esporte pode e deve ser um espaço de acolhimento, capaz de envolver pessoas de diferentes origens sociais, culturais e físicas. A alegria de estar juntos, que nasce do jogo partilhado, do treino comum e do apoio mútuo, é uma das expressões mais simples e profundas da humanidade reconciliada.

Neste horizonte, os esportistas constituem um modelo que deve ser reconhecido e acompanhado. A sua experiência cotidiana fala de ascese e sobriedade, de trabalho paciente sobre si mesmos, de equilíbrio entre disciplina e liberdade, de respeito pelos tempos do corpo e da mente. Estas qualidades podem iluminar toda a vida social. A vida espiritual, por sua vez, oferece aos esportistas uma visão que vai além do desempenho e do resultado. Ela introduz o sentido do exercício como prática que forma a interioridade. Ajuda a dar significado ao esforço, a viver a derrota sem desespero e o sucesso sem presunção, transformando o treino em disciplina do humano.

Tudo isso encontra o seu horizonte último na promessa bíblica que dá o título a esta Carta: a vida em abundância. Não se trata de uma acumulação de sucessos ou desempenhos, mas de uma plenitude de vida que integra corpo, relações e interioridade. Em termos culturais, a vida em abundância convida a libertar o esporte de lógicas redutoras que o transformam em mero espetáculo ou consumo. Em termos pastorais, ela exorta a Igreja a tornar-se uma presença capaz de acompanhar, discernir e gerar esperança. Assim, o esporte pode tornar-se verdadeiramente uma escola de vida, onde se aprende que a abundância não nasce da vitória a qualquer custo, mas da partilha, do respeito e da alegria de caminhar juntos."

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

Cegueira e medo

Cego é quem tem medo de ousar (Correio Braziliense)

CEGUEIRA E MEDO

02/02/2026

Dom Geraldo dos Reis Maia
Bispo de Araçuaí (MG)

No seu “Ensaio sobre a cegueira” (livro 1995; filme 2008), Saramago usa a cegueira física de seus personagens fictícios para falar sobre a cegueira mental de pessoas reais. Em estilo de realismo psicológico, o autor apresenta um diagnóstico da sociedade ocidental contemporânea, por meio de personagens, conflitos, desejos e pensamentos, com a clara intenção de retratar a condição humana. 

Saramago se serve da categoria de “cegueira branca” como representação de todos nós, mergulhados na banheira das vaidades. “Cegueira é uma questão privada entre a pessoa e os olhos com que nasceu”, esclarece Saramago (pág. 39). Com um refinado deboche literário, o autor escreve: “Seria horrível, um mundo todo de cegos, não quero nem imaginar” (pág. 60). E esclarece a concepção de vida daqueles que sofrem de “cegueira branca”: “Para estes, a cegueira não era viver banalmente rodeado de trevas, mas no interior de uma glória luminosa” (pág. 94). 

Já no fim de sua obra, o escritor português, vencedor do Nobel de literatura, constata: “Costuma-se até dizer que não há cegueiras, mas cegos, quando a experiência dos tempos não tem feito outra coisa que dizer-nos que não há cegos, mas cegueiras” (pág. 306). E assim ele vai concluindo seu ensaio: “Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem” (pág. 310). 

Depois de tantas luzes da Modernidade e com todo o desenvolvimento tecnológico nesta Pós-modernidade, aprofundamos a nossa cegueira. Vivemos a cultura da cegueira, que banaliza a realidade. A morte dos fracos se torna banal. O descarte dos marginalizados se torna banal. O menosprezo por pessoas pretas se torna banal. A discriminação de pessoas de orientação sexual diferente se torna banal. Banaliza-se o ódio ao outro que pensa diferente de mim. Contra esses grupos banalizados, declara-se a perseguição, conspira-se a sua eliminação e deflagra-se o medo. “O inferno são os outros”, já preconizava Sartre. 

“A Vila” (Night Shymalan, 2004) é um filme metafórico da condição humana, tendo o medo como motivação. A Comunidade vive em uma vila, no meio de uma floresta, com o intuito de preservar a inocência das pessoas. Há limites rigidamente estabelecidos entre a vila e a floresta para manter o acordo entre o Conselho de Anciãos e os supostos monstros denominados “Criaturas que nós não mencionamos”.  Ivy é uma linda jovem educadora. A sua condição de cegueira lhe proporciona um diferencial: a sua altíssima sensibilidade. Com suas próprias palavras, ela esclarece ao seu amado Lucius o seu modo de visão: “Eu vejo o mundo, mas não como você o vê”. 

Ivy se prontifica a vencer o medo, atravessar a floresta e buscar socorro para salvar Lucius, quando em risco de morte. O Conselho de Anciãos a libera para enfrentar o seu desafio, com um profundo diálogo. “Só podemos ter esperança, o que há de belo nesse lugar. Não podemos fugir do sofrimento. Ivy está indo em direção da esperança”. Ao que o colega assegura: “Ela é a mais capaz do qualquer um de nós. Ela é guiada pelo amor. É o amor que move o mundo. O amor é capaz de tudo”. 

É o amor que nos salva das densas trevas de nossa cegueira e nos ilumina para uma vida nova. É esse amor capaz de salvar o mundo da “cegueira branca”, nesta cultura de pós-verdade. O Apóstolo Paulo nos assegura: “Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz. E o fruto da luz chama-se: bondade, justiça, verdade” (Ef 5,8-9). Entre os filhos da luz não há lugar para cegueiras, nem inverdades ou pós-verdades… A experiência da Luz nos leva à Verdade, que é uma pessoa! 

Sim, fomos iluminados pela Luz que vem do alto. Vençamos a cegueira, vençamos as trevas do medo, vençamos a cultura do ódio, para vislumbrarmos a Luz da esperança, que nos coloca diante da Verdade, que é o Amor encarnado. Assim iluminados, sejamos agentes de luz e esperança para tantas pessoas que agora, mais do que nunca, anseiam por luz e esperança. Como Yvy, deixemo-nos guiar pelo amor que supera o ódio e o medo… e salva o mundo. O amor gera perdão e superação de nossas polarizações, para caminharmos em direção à Verdade que nos liberta e nos descortina o horizonte de libertação. 

Fonte: https://www.cnbb.org.br/

Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF