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quarta-feira, 4 de março de 2026

Exercícios espirituais, o Papa: experiência profunda, senti-me convidado a refletir

O Papa intervém no encerramento dos Exercícios Espirituais.  (@Vatican Media)

Leão XIV interveio espontaneamente no final da semana de reflexão para a Quaresma na Capela Paulina com a Cúria Romana: “encontrarmo-nos todos juntos, um momento muito importante da nossa vida”. O Pontífice agradeceu ao pregador Erik Varden pelas meditações centradas no testemunho da vida monástica e destacou os temas da esperança, da liberdade e da verdade. Por fim, citando São Paulo, exortou a comportar-se “de maneira digna do Evangelho de Cristo”.

Salvatore Cernuzio – Vatican News

“Devo reconhecer que, pessoalmente, em alguns momentos, senti-me particularmente convidado a refletir. Por exemplo, esta manhã, quando falava da eleição do Papa Eugênio III e São Bernardo, ele disse: ‘O que vocês fizeram? Que Deus tenha piedade de vocês’”. Com uma breve intervenção improvisada – e uma piada que provocou o sorriso dos membros da Cúria Romana presentes na Capela Paulina –, Leão XIV concluiu esta noite, 27 de fevereiro, a semana de Exercícios Espirituais da Quaresma, iniciada na tarde do último domingo. O Pontífice interveio à noite, após a décima primeira e última meditação do pregador dom Erik Varden, bispo de Trondheim, na Noruega, a quem Leão expressou profunda gratidão por ter acompanhado ele e a Cúria nestes dias de oração e reflexão.

Experiência profunda

“Uma experiência profunda, espiritual, muito importante em nosso caminho quaresmal”, assim definiu Leão XIV os Exercícios, realizados em um local simbólico: a Capela Paulina. Ou seja, a capela onde todos os cardeais se reuniram em 8 de maio de 2025 – dia da eleição de Robert Francis Prevost – para a celebração eucarística. O que impressionou o Papa, hoje como então, foi a inscrição do versículo da Carta de São Paulo aos Filipenses: “para mim, viver é Cristo e morrer é lucro”. Uma leitura bíblica que Leão disse ter retomado durante os Exercícios Espirituais como “reflexão sobre a esperança e sobre a verdadeira fonte da esperança que é Cristo”. Do escrito paulino, o Papa citou também outra passagem, aquela em que o apóstolo exorta: “Comportem-se, portanto, de maneira digna do Evangelho de Cristo”. É precisamente este o convite que Leão XIV dirigiu a todos no final destes dias de oração: “Comportem-se, portanto, de maneira digna do Evangelho de Cristo”.

O Papa Leão XIV agradece ao pregador Varden   (@Vatican Media)

Liberdade, verdade, esperança

“Com esse espírito de comunhão, todos nós reunidos trabalhamos juntos”, disse ainda o Papa. Às vezes estamos “separados”, portanto, “encontrar-nos em oração” é “um momento muito importante da nossa vida, refletindo sobre tantas questões que são importantes para a nossa vida e para a Igreja”. Recordando rapidamente os dias que acabaram de passar, o Papa Leão retomou alguns dos temas que surgiram durante as onze meditações, começando pela referência a John Henry Newman, o cardeal inglês que ele proclamou Doutor da Igreja, e o poema “O sonho de Geronzio”, onde o teólogo leva o leitor a “contemplar seu próprio medo da morte e seu próprio sentimento de indignidade diante de Deus”. Depois, outros elementos como “a liberdade” e “a verdade” que, sublinhou, são “tão importantes na nossa vida”.

Encerramento dos Exercícios   (@Vatican Media)

O agradecimento à música que eleva o espírito a Deus

Ao concluir seu discurso improvisado, o Pontífice agradeceu novamente a dom Varden por ter compartilhado a “sabedoria” e o “testemunho” dele e da vida monástica de São Bernardo, pela “riqueza de suas reflexões” que continuarão por muito tempo a ser “fonte de bênção” e “de graça”. Agradecimento também aos colaboradores do Escritório de Celebrações Litúrgicas pela preparação do material e ao coro por ter acompanhado a oração com música, que, como destacou o Papa, “nos ajuda de uma maneira que as palavras não podem fazer, elevando nosso espírito ao Senhor”.

Vídeo

https://youtu.be/Y_ezIjQKDQQ

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

TEMPO DE PÁSCOA: A Angústia da Ausência. Meditações sobre o Sábado Santo (Parte 3/3)

O enterro | 30Giorni

TEMPO DE PÁSCOA

retirado do nº 03 – 2006, Revista 30Dias

Três Meditações sobre o Sábado Santo por Joseph Ratzinger

A Angústia da Ausência. Meditações sobre o Sábado Santo

Por Cardeal Joseph Ratzinger

TERCEIRA MEDITAÇÃO 

No Breviário Romano, a liturgia do Tríduo Pascal é estruturada com especial cuidado; em sua oração, a Igreja deseja, por assim dizer, transportar-nos para a realidade da Paixão do Senhor e, além das palavras, para o centro espiritual do que aconteceu. Se alguém tentasse caracterizar a liturgia orante do Sábado Santo em poucas palavras, teria que falar, sobretudo, do efeito de profunda paz que dela emana. Cristo penetrou o oculto ( Verborgenheit ), mas, ao mesmo tempo, bem no coração da escuridão impenetrável, penetrou a segurança ( Geborgenheit ); na verdade, tornou-se a segurança suprema. 

As palavras ousadas do salmista tornaram-se verdadeiras: "E ainda que eu queira esconder-me no inferno, lá estás também". E quanto mais se lê esta liturgia, mais se percebe nela os primeiros raios da Páscoa brilhando, como a aurora da manhã. Se a Sexta-feira Santa nos apresenta a figura desfigurada do Transpassado, a liturgia do Sábado Santo evoca a imagem da cruz, cara à Igreja antiga: a cruz rodeada por raios de luz, sinal tanto da morte quanto da ressurreição. 

O Sábado Santo, portanto, nos reconduz a um aspecto da piedade cristã que talvez tenha se perdido ao longo do tempo. Quando olhamos para a cruz em oração, muitas vezes vemos nela apenas um sinal da paixão histórica do Senhor no Gólgota. A origem da devoção à cruz, porém, é outra: os cristãos oravam voltados para o leste para expressar sua esperança de que Cristo, o verdadeiro sol, se ergueria sobre a história, e assim expressar sua fé no retorno do Senhor. A cruz estava inicialmente intimamente ligada a essa orientação .

Na oração, ela é representada, por assim dizer, como um estandarte que o rei erguerá em sua vinda; na imagem da cruz, a vanguarda da procissão já chegou entre os que oram. Para o cristianismo primitivo, a cruz é, portanto, acima de tudo, um sinal de esperança. Implica não tanto uma referência ao Senhor do passado, mas ao Senhor que está para vir. Certamente, era impossível escapar da necessidade intrínseca de que, com o passar do tempo, nosso olhar se voltasse também para o evento ocorrido: contra qualquer fuga para o espiritual, contra qualquer incompreensão da encarnação de Deus, era necessário defender a generosidade inimaginável do amor de Deus, que, por amor à miserável criatura humana, se fez homem — e que homem! Era necessário defender a santa loucura do amor de Deus, que escolheu não proferir uma palavra de poder, mas trilhar o caminho da impotência para humilhar nosso sonho de poder e conquistá-lo por dentro.

Mas não nos esquecemos, por demais, da ligação entre a cruz e a esperança, da unidade entre o Oriente e a direção da cruz, entre o passado e o futuro que existe no cristianismo? O espírito de esperança que respira nas orações do Sábado Santo deve permear, mais uma vez, todo o nosso ser cristão. O cristianismo não é apenas uma religião do passado, mas, não menos importante, do futuro; sua fé é, ao mesmo tempo, esperança, pois Cristo não é apenas aquele que morreu e ressuscitou, mas também aquele que há de vir.

Ó Senhor, iluminai nossas almas com este mistério da esperança para que possamos reconhecer a luz que brilha da vossa cruz. Concedei-nos, como cristãos, que prossigamos rumo ao futuro, rumo ao dia da vossa vinda.
Amém.

A Ressurreição | 30Giorni

ORAÇÃO 

Senhor Jesus Cristo, na escuridão da morte, Vós lançastes luz; no abismo da mais profunda solidão, a poderosa proteção do Vosso amor agora habita para sempre; em meio ao Vosso ocultamento, podemos agora cantar o Aleluia dos salvos. Concedei-nos a humilde simplicidade da fé, que não se deixa enganar quando nos chamais nas horas de escuridão, de abandono, quando tudo parece problemático; concedei-nos, neste tempo em que uma batalha mortal se trava ao Vós, luz suficiente para não Vos perdermos; luz suficiente para que possamos dá-la àqueles que dela necessitam ainda mais. 

Que o mistério da Vossa alegria pascal brilhe como a aurora em nossos dias; concedei-nos ser verdadeiramente homens da Páscoa em meio ao Santo Sábado da história. Concedei-nos que, através dos dias claros e escuros deste tempo, possamos sempre nos encontrar caminhando com alegria rumo à Vossa futura glória. Amém.

Fonte: https://www.30giorni.it/

Papa: a Igreja é humana e divina, sinal visível da ação de Cristo na história

Audiência Geral, 04/03/2026 - Papa Leão XIV (Vatican News)

Na catequese da Audiência Geral desta quarta-feira, 4 de março, Leão XIV refletiu sobre a natureza da Igreja à luz da Constituição dogmática Lumen Gentium. “Não existe uma Igreja ideal e pura, separada da terra, mas apenas a única Igreja de Cristo, encarnada na história”, destacou o Pontífice.

https://youtu.be/Kwhiegtqqvg

Thulio Fonseca – Vatican News

Na Audiência Geral desta quarta-feira (4/03), na Praça São Pedro, o Papa Leão XIV deu continuidade ao ciclo de catequeses sobre a Constituição dogmática Lumen Gentium, refletindo sobre a natureza da Igreja. O Pontífice destacou que ela é uma realidade “complexa”, não por ser confusa, mas porque reúne, de modo harmonioso, a dimensão humana e a divina, sem que uma se oponha à outra. Não existe, segundo o Santo Padre, uma Igreja ideal separada da história, mas a única Igreja de Cristo, encarnada no tempo e formada por pessoas reais.

Ao explicar o sentido dessa “complexidade”, o Papa recordou que o primeiro capítulo da Lumen Gentium procura responder à pergunta fundamental: o que é a Igreja? Para isso, o Concílio a define como “um organismo bem estruturado, no qual coexistem as dimensões humana e divina, sem separação nem confusão”.

A dimensão humana e a origem divina da Igreja

Leão XIV explicou que a dimensão humana da Igreja é a mais visível: trata-se de uma comunidade de homens e mulheres que vivem a alegria e o peso de ser cristãos, com suas forças e fragilidades, anunciando o Evangelho e sendo sinal da presença de Cristo no mundo. Contudo, essa descrição não é suficiente para compreender plenamente a Igreja, que possui também uma origem e uma dimensão divina.

“A Igreja não é fruto de uma perfeição ideal dos seus membros, mas nasce do plano de amor de Deus pela humanidade, realizado em Cristo.”

 (@VATICAN MEDIA)

A Igreja à luz da humanidade de Cristo

O Papa recordou que, por isso, a Igreja é, ao mesmo tempo, comunidade terrena e Corpo Místico de Cristo, assembleia visível e mistério espiritual, realidade inserida na história e povo em peregrinação rumo ao céu. Para ilustrar essa realidade, recorreu à experiência dos discípulos com Jesus. Eles encontravam um homem concreto, com rosto, voz e gestos, mas, ao segui-lo, abriam-se ao encontro com o próprio Deus: “A carne de Cristo, o seu rosto, os seus gestos e as suas palavras manifestam visivelmente o Deus invisível.”

Da mesma forma, ao olhar para a Igreja, vê-se uma dimensão humana feita de pessoas que, por vezes, refletem a beleza do Evangelho e, em outras, mostram limites e erros. No entanto, é precisamente através dessa fragilidade que Cristo continua a agir e a salvar.

Não há oposição entre Evangelho e instituição

O Santo Padre recordou as palavras de Bento XVI para reafirmar que não existe oposição entre o Evangelho e as estruturas da Igreja, pois elas servem justamente para tornar o Evangelho concreto na vida do nosso tempo:

“Não existe uma Igreja ideal e pura, separada da terra, mas apenas a única Igreja de Cristo, encarnada na história. A santidade da Igreja consiste nisto: no fato de Cristo habitar nela e continuar a doar-se através da pequenez e fragilidade dos seus membros.”

 (@Vatican Media)

A caridade edifica a Igreja

Já na parte final da catequese, Leão XIV recordou que Deus se manifesta por meio da fraqueza humana e convidou os fiéis a edificarem a Igreja não apenas por meio das suas estruturas visíveis, mas sobretudo através da comunhão e da caridade, que geram constantemente a presença do Ressuscitado.

E, citando Santo Agostinho, o Pontífice concluiu: “Queira o céu que todos pensem somente na caridade: ela só, de fato, conquista todas as coisas, e sem ela todas as coisas são inúteis; onde quer que se encontre, atrai todas as coisas a si”.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

terça-feira, 3 de março de 2026

São José, o homem de Março, é o nosso modelo para a Quaresma

Joan Sutter | Joan Sutter

Tom Hoopes - publicado em 03/03/26

Assim como Maria nos ensina a viver o Advento, José é um símbolo e um companheiro para a Quaresma.

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Na tradição da Igreja, março é dedicado a São José — e no calendário litúrgico, a Quaresma ocorre principalmente em março. Isso faz de José o nosso guia quaresmal a cada ano. Faz todo o sentido. Ele é um guia quaresmal da mesma forma que a Virgem Maria é a “Mulher do Advento”.

Maria nos mostra como receber Cristo no Advento

O Advento é sobre receptividade, e isso faz de Maria “a Virgem do Advento”, como disse São João Paulo II.

Enquanto aguardamos a vinda de Cristo, a Igreja nos direciona repetidamente às virtudes marianas: a Imaculada Conceição, que celebra sua impecabilidade em 8 de dezembro; a (nova) festa de Nossa Senhora de Loreto, em 10 de dezembro, que celebra o lar que ela preparou para Jesus; e a Festa de Nossa Senhora de Guadalupe, em 12 de dezembro, que celebra como ela preparou o Novo Mundo para Cristo em 1531.

Maria nos mostra como preparar um lugar para Jesus em nossas vidas, assim como ela fez no mundo.

Mas se o Advento é sobre a “ausência de Cristo”, quando lemos sobre o anseio dos profetas por Cristo, a Quaresma é sobre a “plenitude de Cristo”, quando esperamos com Jesus Cristo no deserto, caminhamos com Ele pelo Caminho da Cruz e nos preparamos para a Sua vitória final na Páscoa.

Da mesma forma, São José nos mostra como manter Cristo na Quaresma.

Enquanto o Advento é o tempo da receptividade, a Quaresma é o tempo da custódia — onde cuidamos, guardamos e protegemos o grande dom de Cristo em nossas vidas. Esperamos por Cristo no Advento, mas esperamos com Cristo na Quaresma. Cristo veio e nos pediu que permanecêssemos com Ele até o fim.

Não há modelo melhor para isso do que São José. A festa de São José, em 19 de março, é a de Esposo de Maria, quando celebramos o construtor de Nazaré que primeiro teve que mudar sua vida porque Jesus havia vindo ao mundo.

Quando o Evangelho diz “O Verbo se fez carne e habitou entre nós”, o grego na verdade diz que ele “tabernaculou entre nós”. Em outras palavras, o Verbo entrou na família de José, viveu na casa de José e se confiou aos seus cuidados. No Antigo Testamento, Davi se ofereceu para construir uma casa para Deus, mas Deus recusou. Mas José, da casa de Davi, construiu uma casa para Jesus, e sua própria casa se tornou um Santo dos Santos, abrigando o próprio Deus.

Essa é a nossa tarefa na Quaresma: sermos melhores guardiões do dom de Cristo, moldando nossa casa de acordo com as suas necessidades.

José também foi o modelo do sacrifício de Cristo

O outro foco principal da Quaresma é a Paixão de Cristo. Ao tomarmos a nossa cruz e seguirmos Jesus, São José é, mais uma vez, o nosso modelo. Toda a sua vida foi dedicada ao sacrifício, à oração e à doação de si, enquanto vivia um casamento celibatário literalmente centrado em Cristo e respondia obedientemente ao Senhor que o chamava repetidamente.

Mas ele também foi um modelo da Paixão de outra forma, segundo Madre Teresa. “São José é o exemplo mais maravilhoso!”, disse ela. “Quando ele percebeu que Maria estava grávida, ele só precisava fazer uma coisa: ir até o sacerdote e dizer: ‘Minha esposa teve um filho, não é meu.’… Eles a teriam apedrejado; essa era a regra.” Em vez disso, segundo Madre Teresa, “ele decidiu: ‘Vou fugir.’ E a regra era que… se ele fugisse e deixasse sua esposa grávida, eles o apedrejariam.”

Se era isso que José tinha em mente — e faz sentido —, então, a cada março, comemoramos o homem na vida de Jesus que foi um modelo de assumir os pecados de seus entes queridos.

Por fim, São José é o modelo do homem virtuoso que a Quaresma existe para nos ajudar a nos tornarmos.

O Evangelho de Mateus identifica José como um homem “justo” ou “íntegro”. O Papa Bento XVI destacou que o público judeu de Mateus saberia como um “homem justo” é definido — pelo Salmo 1.

Diz: “Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios… cujo prazer é a lei do Senhor, e que medita na sua lei dia e noite”. Pense nisso como uma descrição de São José, um homem forte, silencioso e firme, que não diminuiu Maria e Jesus, mas os complementou, “como uma árvore plantada junto a ribeiros de águas, que dá o seu fruto no tempo certo”.

A carta do Papa Francisco sobre São José celebra todos aqueles que, como José, são: “pessoas comuns, pessoas muitas vezes esquecidas. Pessoas que não aparecem nas manchetes dos jornais e revistas, ou no último programa de televisão, mas que, nestes mesmos dias, certamente estão moldando os eventos decisivos da nossa história”.

A Quaresma é o tempo de moldar os nossos corações nas virtudes de José, moldando o futuro sem alarde, para Cristo.

Fonte: https://pt.aleteia.org/

Exercícios espirituais: dar glória a Deus é a missão principal na Igreja, o resto vem depois

O Papa durante a meditação do pregador Varden nos Exercícios Espirituais na Capela Paulina  (@Vatican Media)

O bispo Erik Varden faz sua décima reflexão nos Exercícios Espirituais no Vaticano para o Papa Leão XIV, os cardeais residentes em Roma e os chefes dos Dicastérios, concentrando-se no tema: "A consideração". Publicamos um resumo de sua reflexão.

Vatican News

São Bernardo escreveu um tratado dedicado especificamente à "Consideração". Foi um best-seller, com uma difusão maior do que qualquer outra de suas obras. Isso pode parecer estranho, já que o texto é essencialmente uma carta dirigida a um homem específico numa posição singular. Bernardo a escreveu para um confrade, um monge italiano chamado Bernardo dei Paganelli que foi ordenado sacerdote em Pisa e depois, ingressou em Clairvaux em 1138. Em 1145, Paganelli tornou-se o Papa Eugênio III.

A contemplação ocupa-se de verdades já conhecidas. A consideração procura a verdade nos assuntos humanos contingentes, onde pode ser difícil percebê-la. Pode ser definida como “o pensamento inteiramente voltado, ou a tensão da alma, em busca da verdade”.

Considerando os problemas da Igreja, Bernardo não oferece soluções institucionais, mas aconselha Eugênio a cercar-se de pessoas boas: quanto melhor forem administrados os escritórios centrais da Igreja, maior será o benefício para a Igreja em todo o mundo.

As qualidades que Bernardo lhe pede para buscar e cultivar são válidas em todos os tempos: são necessários colaboradores que sejam "de comprovada integridade, dispostos a obedecer, pacientes e mansos; [...] de firme fé católica, fiéis em seu ministério; amantes da harmonia, da paz e da unidade; [...] prudentes no conselho, [...] astutos na administração, [...] modestos na fala".

Tais pessoas "amam e apreciam a oração e depositam nela sua esperança mais do que em sua própria sabedoria ou trabalho; sua entrada é discreta, sua despedida sem pompa".

Na medida em que a Igreja age nesses termos, ela refletirá a organização das hierarquias angélicas. Qualquer pessoa que a considere verá imediatamente sua missão principal: dar glória a Deus.

Para considerar corretamente as necessidades terrenas, devemos buscar, por meio delas, o que está acima. Isso não é, diz Bernardo a Eugênio, de modo algum "ir para o exílio: considerar dessa maneira é retornar à pátria".

Bernardo se pergunta: o que é Deus? Vontade onipotente, virtude benevolente, razão imutável. Deus é "suprema bem-aventurança" que, por amor, deseja compartilhar sua divindade conosco. Ele nos criou para desejá-lo, nos expande para recebê-lo, nos justifica para merecê-lo. Ele nos guia na justiça, nos molda na benevolência, nos ilumina com o conhecimento e nos preserva para a imortalidade.

Independentemente de todas as outras obrigações que os prelados possam ter, e são muitas, essas realidades devem ser consideradas em primeiro lugar. Assim, sua consideração sobre assuntos práticos será também iluminada, ordenada, abençoada e fecunda.

Um prelado, segundo Bernardo, deve haver princípios, deve ser santo e austero, mas também deve ser amigo do Esposo e se alegrar em compartilhar essa amizade com os outros.

Agostinho frequentemente descreve o ofício episcopal como uma sarcina, o pacote de um legionário. É uma imagem um tanto brutal, concebida por alguém familiarizado com a desolação e o medo das campanhas no deserto do Norte da África. Agostinho, contudo, continua a improvisar sobre o tema que ele mesmo estabeleceu. Embora o fardo pastoral pareça assustador, ele só o é se não conseguimos ver quem coloca esse fardo sobre os ombros. Pois nada mais é do que uma participação no doce jugo do próprio Cristo, que nos faz descobrir que a cruz que nos foi confiada é luminosa e leve, e que poder compartilhá-la é uma fonte de alegria.

"Carrega o seu fardo até o fim", diz Agostinho num sermão. "Se você o amar, será leve; se o odiar, será pesado." Perduc sarcinam tuam quia levis est si diligis gravis si odisti”.

"Teu, ó bom Jesus", escreveu Bernardo em sua Vida de São Malaquias, o Irlandês, "é o encargo que nos foi confiado; teu é o tesouro escondido em nossa posse, para ser devolvido quando o quiseres de volta."

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

TEMPO DE PÁSCOA: A Angústia da Ausência. Meditações sobre o Sábado Santo (Parte 2/3)

A Crucificação | 30giorni

TEMPO DE PÁSCOA

retirado do nº 03 – 2006, Revista 30Dias

Três Meditações sobre o Sábado Santo por Joseph Ratzinger

A Angústia da Ausência. Meditações sobre o Sábado Santo

Por Cardeal Joseph Ratzinger

SEGUNDA MEDITAÇÃO

O ocultamento de Deus neste mundo constitui o verdadeiro mistério do Sábado Santo, um mistério já insinuado nas enigmáticas palavras de que Jesus "desceu ao inferno". Ao mesmo tempo, a experiência do nosso tempo nos ofereceu uma abordagem completamente nova ao Sábado Santo, pois o ocultamento de Deus no mundo que lhe pertence e que deveria proclamar o seu nome com mil línguas, a experiência da impotência de Deus que, no entanto, é onipotente — esta é a experiência e a miséria do nosso tempo. Mas mesmo que o Sábado Santo tenha se aproximado tão profundamente de nós, mesmo que compreendamos o Deus do Sábado Santo mais do que a poderosa manifestação de Deus em meio a trovões e relâmpagos mencionada no Antigo Testamento, permanece a questão do que realmente significa quando se diz misteriosamente que Jesus "desceu ao inferno". 

Sejamos claros: ninguém é capaz de explicá-lo verdadeiramente. Tampouco fica mais claro dizer que aqui inferno é uma tradução inadequada da palavra hebraica sheol. que se refere simplesmente a todo o reino dos mortos, e, portanto, a fórmula originalmente significava apenas que Jesus desceu às profundezas da morte, morreu de verdade e compartilhou do abismo do nosso destino mortal. De fato, surge então a questão: o que é realmente a morte e o que de fato acontece quando alguém desce às profundezas da morte? Devemos aqui considerar o fato de que a morte não é mais a mesma depois que Cristo a suportou, depois que a aceitou e a penetrou, assim como a vida, o ser humano, não é mais a mesma depois que, em Cristo, a natureza humana pôde entrar em contato, e de fato entrou, com o próprio ser de Deus.

Anteriormente, a morte era meramente morte, separação da terra dos vivos e, embora em uma profundidade diferente, algo como o "inferno", o lado noturno da existência, escuridão impenetrável. Mas agora a morte também é vida, e quando cruzamos a gélida solidão do limiar da morte, encontramos continuamente aquele que é a vida, que quis tornar-se companheiro de nossa solidão derradeira e que, na solidão mortal de sua angústia no Jardim das Oliveiras e em seu grito na cruz, "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?", tornou-se participante de nossa solidão. Se uma criança se aventurasse sozinha pela noite escura em uma floresta, teria medo mesmo que lhe provássemos cem vezes que não havia perigo. Ela não tem medo de algo específico, algo que possa ser nomeado, mas na escuridão experimenta insegurança, orfandade, a natureza sinistra da própria existência. Somente uma voz humana poderia consolá-la; somente a mão de um ente querido poderia dissipar a angústia como um pesadelo. 

Há uma angústia — a verdadeira, aninhada nas profundezas de nossa solidão — que não pode ser vencida pela razão, mas apenas pela presença de alguém que nos ama. Essa angústia, na verdade, não tem objeto ao qual possamos dar um nome, mas é apenas a expressão terrível de nossa solidão suprema. Quem não sentiu a sensação aterradora desse estado de abandono? Quem não sentiria o milagre sagrado e consolador que uma palavra de afeto proporciona nesses momentos? Mas onde há tamanha solidão que não pode mais ser alcançada pela palavra transformadora do amor, então falamos do inferno. E sabemos que não são poucos os que, em nossa época aparentemente otimista, acreditam que todo encontro permanece superficial, que ninguém tem acesso às profundezas últimas e verdadeiras do outro e que, portanto, no âmago de toda existência reside o desespero, o próprio inferno. Jean-Paul Sartre expressou isso poeticamente em uma de suas peças, expondo simultaneamente o cerne de sua doutrina da humanidade. 

Uma coisa é certa: existe uma noite em cujo abandono escuro nenhuma palavra de consolo penetra, uma porta que devemos atravessar em absoluta solidão: a porta da morte. Toda a angústia deste mundo é, em última análise, a angústia causada por essa solidão. Por essa razão, no Antigo Testamento, o termo para o reino dos mortos era idêntico ao do inferno. Sheol A morte, na verdade, é a solidão absoluta. Mas aquela solidão que não pode mais ser iluminada pelo amor, que é tão profunda que o amor não consegue mais alcançá-la, é o inferno.

"Desceu ao inferno": esta confissão do Sábado Santo significa que Cristo ultrapassou os portões da solidão, que desceu às profundezas inalcançáveis ​​e intransponíveis da nossa condição de solidão. Significa, porém, que mesmo na noite final, na qual nenhuma palavra penetra, na qual somos todos como crianças expulsas, chorando, há uma voz que nos chama, uma mão que nos toma e nos guia. A solidão intransponível do homem foi vencida no momento em que ele se viu nela. O inferno foi conquistado no momento em que o amor também entrou na região da morte e a terra de ninguém da solidão foi habitada por ele. Em suas profundezas, o homem não vive de pão, mas na autenticidade do seu ser, vive pelo fato de ser amado e de ter permissão para amar. A partir do momento em que a presença do amor se faz presente no espaço da morte, a vida penetra a morte: para os vossos fiéis, ó Senhor, a vida não é tirada, mas transformada — reza a Igreja na liturgia fúnebre.

Ninguém pode, em última análise, medir o significado destas palavras: "desceu ao inferno". Mas se nos for concedido aproximar-nos da hora da nossa solidão final, poderemos vislumbrar algo da grande clareza deste mistério obscuro. Na certeza de que, nessa hora de extrema solidão, não estaremos sós, já podemos vislumbrar algo do que está por vir. E em meio ao nosso protesto contra as trevas da morte de Deus, começamos a ser gratos pela luz que nos chega dessas mesmas trevas.

Fonte: https://www.30giorni.it/

segunda-feira, 2 de março de 2026

Exercícios espirituais, a realidade é um grito que implora a misericórdia de Deus

O Papa ouvindo a meditação do pregador Varden durante os Exercícios Espirituais na Capela Paulina  (@Vatican Media)

O bispo Erik Varden faz sua nona reflexão nos Exercícios Espirituais no Vaticano para o Papa Leão XIV, os cardeais residentes em Roma e os chefes dos Dicastérios, concentrando-se no tema: "São Bernardo realista". Publicamos um resumo de sua reflexão.

Vatican News

A identidade do movimento cisterciense é forjada na interface entre o ideal e o concreto, o poético e o pragmático. Seus protagonistas são postos à prova e purificados pelas tensões que daí decorrem.

Falei dos elevados ideais de Bernardo, da sua inclinação para elaborar mentalmente uma linha de conduta, seguida depois de forma um pouco drástica. Era natural para ele mirar alto. Uma característica intransigente nunca o abandonou, mas suavizou-se com o tempo. É deste processo que devemos agora falar: transformou o idealista num realista.

O psicanalista Jacques Lacan disse que "o real" é aquilo com que nos colidimos. A amplitude dos esforços de Bernardo na Realpolitik fez com que ele se colidisse com frequência. Mas ele se tornou um realista, não apenas no sentido de aceitar as coisas como são, mas também porque aprendeu que a realidade mais profunda de todas as vicissitudes humanas é um grito que implora misericórdia.

Quanto mais aprendia a reconhecer esse grito nos corações humanos angustiados, nas lágrimas amargas, nos conflitos mundanos, nas campanhas insanas contra a decência e a verdade — e até mesmo no sussurro das árvores da floresta — mais Bernardo se tornava consciente da resposta gloriosa e misericordiosa de Deus. Ele a ouvia no santo nome de Jesus, que se tornou indizivelmente querido a ele. Em Jesus, Deus revela seu plano de salvação, derramando-o sobre a humanidade como um óleo perfumado, curativo e purificador.

“Todo alimento para a alma”, disse Bernardo aos seus monges, “é árido, se não estiver impregnado deste óleo; é insípido, se não for temperado com este sal. Se você escreve, para mim não tem sabor, se eu não ler Jesus. Se você discute ou discursa, para mim não tem sabor, se não ressoar Jesus. Jesus, mel na boca, melodia no ouvido, júbilo no coração.”

Bernardo aprendeu as maravilhas que a misericórdia de Deus pode realizar em Jesus. Isso deu à sua devoção uma profundidade afetiva. O termo affectus é fundamental para ele. Tem um amplo espectro de significados, mostrando que a graça nos move como seres encarnados, permitindo que nossos sentidos percebam Deus. Mas Bernardo considerava Jesus, a encarnação da verdade, nada menos que um princípio hermenêutico. Ele interpretava situações, pessoas e relações rigorosamente à luz de Jesus. Essa perspectiva lhe renderá admiradores convictos muito além do rebanho católico, de Martinho Lutero ao fundador do movimento metodista, John Wesley.

Somente quando iluminada de forma sobrenatural, nossa natureza revelará sua forma perfeita, sua forma bem torneada; somente então ficará evidente o deleite de que a vida terrena é capaz; somente então a glória escondida dentro de nós e ao nosso redor brilhará com intensos lampejos, ensinando-nos o que nós, e os outros, podemos nos tornar, fornecendo um paradigma para um mundo renovado. 

Tal é o realismo ao qual Bernardo chegou em sua maturidade! Isso lhe permitiu tornar-se não apenas um grande reformador, um orador sem igual e um líder da Igreja: o conhecimento da realidade absoluta do amor de Cristo e de seu poder de transformar tudo fez de Bernardo um doutor e um santo. É por isso que o amamos e o honramos.

"Ele era", nos diz a Primeira Vida, "livre em si mesmo". Isso é o que a vida lhe ensinou. Um homem ou uma mulher verdadeiramente livre é uma realidade verdadeiramente gloriosa.

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Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

Das Catequeses de São João Crisóstomo, bispo

Moisés e Cristo: Antiga e Nova Aliança (YouTube)

Das Catequeses de São João Crisóstomo, bispo

(Cat. 3,24-27: SCh 50,165-167)            (Séc.IV)

Moisés e Cristo

Os judeus viram milagres. Tu também verás, maiores e mais estupendos do que os do tempo em que os judeus saíram do Egito. Não viste o Faraó afogado no mar com seu exército, mas viste o demônio tragado pelas ondas com as suas armas. Os judeus passaram o Mar Vermelho, tu passaste para além da morte. Eles foram libertados dos egípcios e tu, do poder dos demônios. Eles escaparam da escravidão do estrangeiro e tu, escapaste da escravidão muito mais triste do pecado.

Queres ainda mais provas de que foste honrado com favores maiores? Os judeus não puderam contemplar o rosto resplandecente de Moisés, que era homem como eles e servo do mesmo Senhor; tu, porém, viste a glória do rosto de Cristo. E Paulo exclama: Todos nós, com o rosto descoberto, contemplamos a glória do Senhor (2Cor 3,18).

Os judeus tinham Cristo que os seguia; mas agora ele nos segue de modo muito mais real. Então o Senhor os acompanhava por causa de Moisés; agora nos acompanha não só por causa de Moisés, mas também por nossa obediência. Os judeus, depois do Egito, encontraram o deserto; tu, depois da morte, encontrarás o céu. Em Moisés eles tinham um guia e chefe excelente; nós temos como chefe e guia o novo Moisés, que é o próprio Deus.

Qual era a característica de Moisés? Moisés,diz a Escritura, era um homem muito humilde, mais do que qualquer outro sobre a terra (Nm12,3). Esta qualidade podemos sem erro atribuí-la ao nosso Moisés, porque é assistido pelo suavíssimo Espírito que lhe é intimamente consubstancial. Moisés, erguendo as mãos ao céu, fazia cair o maná, o pão dos anjos; o nosso Moisés ergue as mãos ao céu e nos dá o alimento eterno. Aquele feriu a rocha e fez brotar torrentes de água; este toca na mesa, a mesa espiritual, e faz jorrar as fontes do Espírito. Por isso, a mesa está colocada no meio, como uma fonte, para que de todos os lados acorram os rebanhos à fonte e bebam das águas da salvação.

Uma vez que nos é dada uma tal fonte, um manancial de vida tão abundante, uma vez que a nossa mesa está repleta de bens inumeráveis e nos inunda com seus dons espirituais, aproximemo-nos de coração sincero e consciência pura, para alcançarmos graça e misericórdia no tempo oportuno. Pela graça e misericórdia do Filho único, nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, por quem e com quem seja dada ao Pai e ao Espírito, fonte de vida, a glória, a honra e o poder, agora e para sempre, pelos séculos dos séculos. Amém.

Fonte: https://liturgiadashoras.online/

domingo, 1 de março de 2026

Exercícios Espirituais da Quaresma, 8ª meditação: os anjos de Deus

Exercícios Espirituais no Vaticano   (@Vatican Media)

O bispo Erik Varden faz sua oitava reflexão nos Exercícios Espirituais no Vaticano para o Papa Leão XIV, os cardeais residentes em Roma e os chefes dos Dicastérios, concentrando-se no tema: "Os anjos de Deus". Publicamos um resumo de sua reflexão.

Dom Erik Varden, OCSO* 

Durante os quarenta dias em que Cristo permaneceu no deserto, Satanás aproximou-se dele e citou-lhe o Salmo 90, em particular dois versículos sobre os anjos. “O diabo — lemos em São Mateus — levou Jesus à Cidade Santa, colocou-o sobre a parte mais alta do Templo” e o desafiou a provar que era o Filho de Deus, lançando-se para baixo, “Porque está escrito: 'Deus dará ordens aos seus anjos a teu respeito,e eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra'”.

Somente Deus pode nos convidar a saltar de um pináculo. Sua chamada, porém, será: “Salta para os meus braços”, e não: “Lança-te para baixo”.

As intervenções angélicas nem sempre são tranquilizadoras. Os anjos não estão ali para satisfazer nossos caprichos. Numa oração popular atribuída a Reginaldo de Canterbury, contemporâneo de Bernardo, pedimos ao nosso anjo da guarda que nos “rege, nos guarde, nos governe e nos ilumine”. São verbos fortes: um anjo é antes de tudo um guardião da santidade.

A vida monástica foi logo compreendida e apresentada como angélica por sua finalidade de louvor, mas também porque o monge é chamado a ser inflamado pelo amor de Deus e a tornar-se seu emissário para os outros.

O único “canto de louvor” de Cristo, de que fala a Sacrosanctum Concilium em uma belíssima passagem, ressoa das extremidades da terra até os cumes do céu por meio de uma cadeia pulsante de mediação. Os anjos são parte essencial dessa cadeia, como afirmamos em cada Prefácio dentro do cânon da Missa.

Nos sermões sobre o Qui habitat, Bernardo sublinha o papel dos anjos como mediadores da providência de Deus. A mediação nem sempre é necessária: Deus pode tocar-nos sem mediadores. Contudo, ele se compraz em deixar que suas criaturas sejam canais de graça umas para as outras.

Bernardo nos exorta a olhar o que faz um anjo e a fazer o mesmo: “Desce e mostra misericórdia ao teu próximo; e de novo, elevando com o mesmo anjo os teus desejos, esforça-te por subir com toda a cupiditas da tua alma à suma e eterna verdade”. Raramente, hoje em dia, se faz referência a Cupido no mesmo contexto da “suma e eterna verdade”. A escolha lexical de Bernardo é provocadora: ela nos diz que todos os desejos humanos naturais, inclusive os carnais, são atraídos para seu cumprimento em Deus e, portanto, devem ser orientados para Ele.

O último e mais decisivo ato de caridade dos anjos acontecerá na hora da nossa morte, quando nos conduzirão através do véu deste mundo para a eternidade. Então manifestarão suas características: “Não podem ser vencidos nem seduzidos, e muito menos podem nos seduzir”. Toda ficção cairá nessa hora: a retórica desaparecerá, apenas a verdade permanecerá, em plena consonância com a misericórdia.

Bernardo pregou com precisão sobre esses temas em 1139. Setecentos e vinte e seis anos depois, um homem de temperamento diverso, mas de inteligência semelhante, tornaria explícitas suas intuições numa poesia primorosa sobre a morte.

John Henry Newman refletia muito sobre os anjos. Concebia o ministério sacerdotal como angélico. O sacerdote está em casa neste mundo, não tem medo de entrar nos bosques escuros à procura dos perdidos. Ao mesmo tempo, mantém os olhos da mente erguidos para o rosto do Pai, deixando que seu esplendor ilumine toda a realidade presente. A iluminação é sempre dupla: intelectual e essencial, sacramental e pedagógica.

Newman, hoje Doutor da Igreja, também nos pede que redescubramos o professor como iluminador angélico. É um desafio profético e belo, se pensarmos em quanto a chamada “instrução” está hoje confiada aos meios digitais, inclusive artificiais, enquanto jovens adultos, adolescentes e crianças desejam encontrar mestres dignos de confiança, capazes de transmitir não apenas habilidades, mas sabedoria.

Um encontro angélico é pessoal. Não pode ser substituído por um download ou por um chatbot.

* Tradução não oficial da síntese publicada neste endereço: coramfratribus.com/life-illumined/gods-angels/

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

TEMPO DE PÁSCOA: A Angústia da Ausência. Meditações sobre o Sábado Santo (Parte 1/3)

Nestas páginas, miniaturas retiradas do livro dos evangelhos do início do século XIII, preservado na abadia beneditina de Groß Sankt Martin, em Colônia: o depósito | 30Giorni.

TEMPO DE PÁSCOA

retirado do nº 03 – 2006, Revista 30Dias

Três Meditações sobre o Sábado Santo por Joseph Ratzinger

A Angústia da Ausência. Meditações sobre o Sábado Santo

Por Cardeal Joseph Ratzinger

PRIMEIRA MEDITAÇÃO

Em nosso tempo, ouvimos falar cada vez mais insistentemente da morte de Deus. Pela primeira vez, em Jean Paul, ela surge apenas como um pesadelo: Jesus morto anuncia aos mortos, do alto do mundo, que em sua jornada para o além não encontrou nada, nem o céu, nem um Deus misericordioso, mas apenas o nada infinito, o silêncio do vazio profundo.

Ainda é um sonho horrível que é deixado de lado, gemendo ao despertar, como um sonho, mesmo que jamais se possa apagar a angústia sofrida, que sempre esteve à espreita, escura, nas profundezas da alma. Um século depois, em Nietzsche, ela se manifesta como uma seriedade mortal num grito estridente de terror: "Deus está morto! Deus permanece morto! E nós o matamos!" Cinquenta anos depois, falamos disso com distanciamento acadêmico e nos preparamos para uma "teologia depois da morte de Deus", olhamos ao redor para ver como podemos prosseguir e encorajamos os homens a se prepararem para tomar o lugar de Deus.

O terrível mistério do Sábado Santo, seu abismo de silêncio, adquiriu, assim, uma realidade esmagadora em nosso tempo. Pois este é o Sábado Santo: o dia do ocultamento de Deus, o dia daquele paradoxo inaudito que expressamos no Credo com as palavras "desceu ao inferno", desceu ao mistério da morte. Na Sexta-feira Santa, ainda podíamos contemplar o transpassado. O Sábado Santo está vazio, a pesada pedra do novo túmulo cobre o falecido, tudo acabou, a fé parece ser definitivamente desmascarada como fanatismo. Nenhum Deus salvou este Jesus que se fez passar por seu Filho. Podemos ficar tranquilos: os prudentes que antes hesitavam um pouco em seus corações sobre se talvez pudesse ser diferente, provaram estar certos. Sábado Santo: o dia do sepultamento de Deus; não é este o nosso dia, de uma forma impressionante? Não estará o nosso século a começar a ser um grande Sábado Santo, um dia da ausência de Deus, em que até os discípulos sentem um vazio gélido no coração que se alarga cada vez mais, e por isso se preparam, cheios de vergonha e angústia, para regressar a casa e partir, sombrios e destruídos no seu desespero, rumo a Emaús, completamente alheios ao facto de aquele que pensavam estar morto estar entre eles? Deus está morto, e nós matámo-lo: compreendemos verdadeiramente que esta frase é retirada quase literalmente da tradição cristã, e que muitas vezes, na nossa Via Sacra,

Repetimos algo semelhante sem perceber a tremenda gravidade do que estávamos dizendo? Matamos-o, aprisionando-o na casca obsoleta de pensamentos habituais, exilando-o numa forma de piedade desprovida de realidade e perdida no mero turbilhão de clichês ou tesouros arqueológicos; matamo-lo através da ambiguidade de nossas vidas, que também lançou um véu de trevas sobre ele: pois o que poderia tornar Deus mais problemático neste mundo do que a natureza problemática da fé e do amor de seus fiéis?

A escuridão divina deste dia, deste século que se torna cada vez mais um Sábado Santo, fala à nossa consciência. Nós também estamos lidando com ela. Mas, apesar de tudo, ela contém algo consolador. A morte de Deus em Jesus Cristo é, ao mesmo tempo, uma expressão de sua radical solidariedade conosco. O mistério mais obscuro da fé é, ao mesmo tempo, o sinal mais claro de uma esperança ilimitada. E mais uma coisa: somente através do fracasso da Sexta-feira Santa, somente através do silêncio mortal do Sábado Santo, os discípulos puderam ser levados a compreender quem Jesus realmente era e o que sua mensagem realmente significava. Deus teve que morrer por eles para que pudesse verdadeiramente viver neles. A imagem que haviam formado de Deus, na qual tentaram forçá-lo a existir, teve que ser destruída para que, através dos escombros da casa arruinada, pudessem ver o céu, o próprio Deus, que permanece sempre infinitamente maior. Precisamos do silêncio de Deus para experimentar novamente o abismo de sua grandeza e o abismo de nosso nada que se abriria se ele não estivesse presente.

Há uma cena no Evangelho que antecipa de forma impressionante o silêncio do Sábado Santo e, assim, surge mais uma vez como um retrato do nosso momento histórico. Cristo dorme num barco que, fustigado por uma tempestade, está prestes a afundar. O profeta Elias já havia zombado dos sacerdotes de Baal, que em vão clamavam ao seu deus para que lançasse fogo sobre o sacrifício, incitando-os a gritar ainda mais alto, caso o seu deus estivesse dormindo. Mas Deus não dorme de verdade? A zombaria do profeta não afeta, em última análise, também os crentes no Deus de Israel que viajam com ele num barco que afunda? Deus dorme enquanto as suas coisas estão prestes a afundar — não é esta a experiência das nossas vidas? 

A Igreja, a fé, não se assemelha a um pequeno barco prestes a afundar, lutando em vão contra as ondas e o vento, enquanto Deus está ausente? Os discípulos clamam em extremo desespero e sacodem o Senhor para que o acorde, mas ele parece admirado e repreende a sua falta de fé. Mas será diferente para nós? Quando a tempestade passar, perceberemos quão tola era a nossa pequena fé. E, no entanto, ó Senhor, não podemos deixar de te abalar, Deus que estás silencioso e adormecido, e clamar a ti: Desperta, não vês que estamos afundando?

Desperta, não permitas que a escuridão do Sábado Santo dure para sempre, permite que um raio da Páscoa ilumine também os nossos dias, acompanha-nos enquanto caminhamos desesperadamente para Emaús, para que os nossos corações sejam inflamados pela tua presença. Tu que guiaste secretamente os caminhos de Israel para finalmente ser um homem entre os homens, não nos abandones na escuridão, não permitas que a tua palavra se perca no grande desperdício de palavras destes tempos. Senhor, dá-nos o teu auxílio, pois sem ti afundaremos.
Amém.

Fonte: https://www.30giorni.it/

Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF