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sábado, 7 de fevereiro de 2026

Chiclayo, no Peru: o programa do Dia Mundial do Doente de 2026

XXXIV Dia Mundial do Doente (Vatican Media)

A diocese peruana acolherá, de 9 a 11 de fevereiro, os eventos eclesiais do XXXIV Dia Mundial do Doente, liderados pelo enviado especial do Papa, o cardeal Michael Czerny, prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral. Estão previstas visitas a três hospitais, um encontro na Universidade Católica, um seminário sobre cuidados paliativos na América Latina e a missa de 11 de fevereiro no Santuário de Nuestra Señora de la Paz.

Vatican News

O programa do XXXIV Dia Mundial do Doente, intitulado “A compaixão do samaritano: amar carregando a dor do outro”, que será celebrada solenemente na diocese de Chiclayo, no Peru, de 9 a 11 de fevereiro, está repleto de eventos. Para a ocasião, o Papa Leão XIV nomeou como enviado especial o cardeal Michael Czerny, prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral. Participarão do evento o núncio apostólico no Peru, o arcebispo Paolo Rocco Gualtieri, além de bispos e delegados da Pastoral da Saúde das 22 Conferências Episcopais da América Latina e do Caribe, uma delegação do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral e representantes das 46 jurisdições eclesiásticas do Peru.

Visita a três hospitais e encontro na Universidade Católica

No dia 9 de fevereiro, a delegação do Vaticano liderada pelo cardeal Czerny visitará três hospitais: o Serviço de Medicina Interna do Hospital Las Mercedes, a Unidade de Cuidados Paliativos e Emergência do Hospital Almanzor Asenjo e os pacientes de Medicina Interna e Emergência do Hospital Belén. Posteriormente, o prefeito participará de um encontro na Universidade Católica Santo Toribio (USAT) com os bispos e delegados da Pastoral da Saúde das Conferências Episcopais da América Latina e do Caribe presentes.

Seminário sobre cuidados paliativos e espiritualidade

No dia 10 de fevereiro será realizado um seminário acadêmico-teológico-pastoral intitulado: “A compaixão do samaritano, avanços nos cuidados paliativos na América Latina e espiritualidade do atendimento integral ao paciente”. O simpósio de estudo e reflexão, que será realizado no teatro do Colégio Santo Toribio de Mogrovejo, contará com a participação do Dr. Luis Solari de la Fuente, da Dra. Luz María Loo Palomino de Li, do padre Alejandro Álvarez Gallegos, teólogo-pastoral da América Latina, entre outros.

A missa de 11 de fevereiro

No dia 11 de fevereiro será celebrada uma missa no Santuário de Nuestra Señora de la Paz às 9h (hora local), presidida pelo cardeal Michael Czerny e concelebrada pelo núncio apostólico no Peru, dom Paolo Rocco Gualtieri; pelo bispo de Chiclayo, dom Edinson Farfán; pelo secretário-geral do Celam, Monsenhor Lizardo Estrada, e pelos bispos e delegados da Conferência Episcopal do Peru e dos países convidados. Participarão da missa também representantes de instituições de saúde e congregações religiosas, juntamente com pessoas que enfrentam situações delicadas de saúde, que poderão receber o Sacramento da Unção dos Enfermos. 

O bispo de Chiclayo: gestos concretos de proximidade

O bispo de Chiclayo, dom Edinson Farfán Córdova, afirmou que “o amor precisa de gestos concretos de proximidade, com os quais se assume o sofrimento alheio, sobretudo o das pessoas que vivem em condições de doença e, muitas vezes, em um contexto de fragilidade devido à pobreza, ao isolamento e à solidão” e convidou todos a se unirem ao evento eclesial com orações.  

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

Moinhos de vento

Dom Quixote (Canção Nona)

MOINHOS DE VENTO 

26/01/2026

Dom Geraldo dos Reis Maia
Bispo de Araçuaí (MG)

“Dom Quixote de la Mancha”, obra de Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616), foi o clássico que consagrou a língua do Reino de Castela, chamada de castelhano, e, tendo sido oficializada, mais tarde, na Espanha, passou a ser denominada espanhol. O título e ortografia originais da obra eram “El ingenioso hidalgo Don Qvixote de La Mancha”, com sua primeira edição publicada em Madrid no ano de 1605. É composto por 126 capítulos, divididos em duas partes: a primeira surgida em 1605 e a outra em 1615. 

Tal clássico da literatura mundial narra as aventuras e desventuras de um homem de meia-idade que resolveu se tornar cavaleiro andante depois de ler muitos romances de cavalaria. Providenciando cavalo e armadura, Dom Quixote passa a lutar para provar seu amor por Dulcineia, sua musa imaginária. O destemido cavaleiro é sempre acompanhado por seu fiel escudeiro, Sancho Pança. 

“Mudar o mundo, meu amigo Sancho, não é loucura, não é utopia, é justiça!”. Essa é uma das frases mais citadas, colocadas na boca de Dom Quixote. Conhecedores da obra afirmam que a frase nela não consta. Foram verificadas as edições brasileiras da Nova Fronteira (2017) e da Penguin-Companhia (2012), bem como a edição espanhola da Real Academia, publicada digitalmente em junho de 2015, e nada foi encontrado sobre tal frase atribuída ao nobre cavaleiro. 

Seja como for, a frase acima explicita o espírito de Dom Quixote. Montado em seu cavalo, Rocinante, vai à procura de um mundo novo. É uma metáfora do ser humano na aurora da Modernidade. Cervantes se serve da loucura ou alucinação, como lugar literário, para trazer à luz aspectos de uma nova fase histórico-cultural, como tão bem fez seu contemporâneo Shakespeare, especialmente em Hamlet. 

Uma das cenas mais conhecidas e emblemáticas dessa importante obra é narrada no Capítulo VIII (Parte I), intitulado “Do bom sucesso que teve o valoroso D. Quixote na espantosa e jamais imaginada aventura dos moinhos de vento, com outros sucessos dignos de feliz recordação”. Seguiremos aqui a edição da Nova Cultural (2002), com tradução de Viscondes de Castilho e Azevedo. 

Os dois desbravadores do mundo cruel se deparam com trinta ou quarenta moinhos de vento. Neles, Dom Quixote enxerga “desaforados gigantes”, contra quem decide travar batalha. Para o “Cavaleiro da triste figura”, trata-se de “boa guerra”, pois “bom serviço faz a Deus quem tira tão má raça da face da terra”. Em vão, Sancho tenta dissuadir seu amo e trazê-lo à realidade. “Bem se vê — respondeu D. Quixote — que não andas corrente nisto das aventuras; são gigantes, são; e, se tens medo, tira-te daí, e põe-te em oração enquanto eu vou entrar com eles em feroz e desigual batalha”. 

À distância, Sancho assiste incrédulo à investida corajosa de Dom Quixote, montado em seu Rocinante, indo em direção aos moinhos de vento, armado com sua lança. Cego por sua obstinação, não ouvia as vãs tentativas de seu fiel escudeiro e bradava aos imaginários inimigos: “Não fujais, covardes e vis criaturas; é um só cavaleiro o que vos investe”. Com um pouco de vento que surge, as velas dos moinhos começam a mover-se e Dom Quixote está certo que seus oponentes não o haveriam de intimidar. Chamou novamente à memória sua musa inspiradora, a doce Dulcineia, e arremeteu-se a todo galope em direção ao primeiro moinho que se encontrava à sua frente, convencido de que se tratava de um inimigo gigante. 

Cervantes narra a cena fatídica: “dando-lhe uma lançada na vela, o vento a volveu com tanta fúria, que fez a lança em pedaços, levando desastradamente cavalo e cavaleiro, que foi rodando miseravelmente pelo campo afora”. Podendo prever o desastre, Sancho correu a acudir o seu amo. Mesmo com o infortúnio acometido, Dom Quixote ainda não se convenceu de que tinha sido iludido por um transe e estava certo de que “as coisas da guerra são de todas as mais sujeitas a contínuas mudanças”. Sua justificativa foi que seu sábio inimigo havia transformado os gigantes em moinhos, para lhe “falsear a glória de os vencer”. 

A loucura não era privilégio da aurora da Modernidade. Novos moinhos de vento hoje são transformados em inimigos imaginários. Pior ainda: o solitário cavaleiro torna-se a triste figura de uma parte da humanidade, iludida por falsos inimigos. Os “Sanchos Panças” atuais continuam a advertir que se trata apenas de moinhos de vento, “e que só o podia desconhecer quem dentro na cabeça tivesse outros”. São muitos os que se investem contra esses moinhos de vento, com suas armas em riste, julgando estar prestando um bem à sociedade. Devaneio, alucinação, loucura… O desastre está anunciado, e suas consequências são imprevisíveis. 

Dom Quixote passa a ser, agora, metáfora do ser humano em tempos de Pós-modernidade, de forma mais intensa e nociva, à procura de inimigos imaginários, condição para manter-se em batalha, numa visão maniqueísta da realidade. Montam-se cenários de luta entre o bem e o mal… Para firmar ideologias de poder, criam-se inimigos a serem combatidos. Aumenta o número de alucinados, diminui o contingente de lúcidos. Que futuro vai se desenhando aos nossos olhos? 

Fonte: https://www.cnbb.org.br/

Por que seu celular não costuma aparecer nos seus sonhos?

Você já sonhou com o seu celular? Se a resposta for negativa, saiba que você não está sozinho. Mas por que isso acontece? — Foto: unsplash- kelli_mcclintock

Seria o impacto emocional dos celulares talvez pequeno demais para garantir presença no nosso inconsciente? Entenda a questão.

Por Victor Bianchin

04/02/2026 10h01  Atualizado há 2 dias

Para muita gente, o celular se tornou como uma extensão do corpo. Uma pesquisa do ano passado feita entre cidadãos dos EUA observou que eles checam o celular 186 vezes por dia — ou cerca de uma vez a cada cinco minutos enquanto estão acordados. 46% se consideram viciados. A realidade no Brasil, onde literalmente existe mais celular do que gente, não é muito diferente. Um levantamento de 2023 estimou que brasileiros passam 56% do seu dia em frente às telas do celular e computador. Considerando isso, fica uma pergunta: por que os celulares não costumam aparecer nos nossos sonhos?

O site Sleep and Dream Database é um banco de dados que reúne relatos de sonhos vindos de fontes diversas: submetidos por voluntários, colhidos de pesquisas científicas, retirados de registros históricos e outros. Hoje, apenas 0,99% dos quase 4,5 milhões de sonhos registrados no site registram a aparição da palavra “phone” (telefone, em inglês) ou de suas variações.

Kelly Bulkeley, psicólogo, pesquisador de sonhos e criador do site, escreveu um artigo em 2016 sobre a presença de tecnologia nos sonhos. À época, ele apontou que, entre as mulheres, os celulares apareciam em 3,55% dos sonhos pesquisados, o que é pouco, mas é mais do que itens como filmes (3,18%), vídeos (1,26%) e televisão (0,26%). Para os homens, os números são 2,69% para celulares, 2,47% para filmes, 1,27% para vídeos e 0,36% para televisão.

Ele não tinha uma explicação definitiva para o porquê desse baixo índice de aparições, mas estabeleceu um paralelo com a aparição de meios de transporte nos sonhos, que são bem mais frequentes.

“Parece que as tecnologias de transporte tiveram um impacto maior nos sonhos das pessoas do que as tecnologias de comunicação e entretenimento”, diz ele. “Me pergunto se as tecnologias de transporte têm um impacto mais visceral na vida das pessoas. Telefones, filmes, vídeos e computadores podem ser fascinantes e envolventes, mas não afetam diretamente o corpo de uma pessoa com a mesma intensidade sensorial que sentimos durante uma viagem de carro”, argumenta o pesquisador.

Brigitte Holzinger, psicoterapeuta e diretora do Instituto de Pesquisa da Consciência e dos Sonhos em Viena (Áustria) afirma que os celulares não têm esse impacto porque são apenas uma plataforma, e não o vetor emocional em si. “Tudo o que o nosso smartphone desperta em nós é indireto”, diz Holzinger, neste artigo. O que desperta emoções verdadeiras é interagir diretamente com as pessoas.

Por exemplo, se você estiver rolando o Instagram e ver seu ex-parceiro m uma foto com o parceiro atual, pode ser tomado por uma sensação de tristeza, mas o impacto será muito menor do que se você os visse pessoalmente em algum restaurante ou no supermercado. As experiências da vida real, portanto, tendem a dominar nossos sonhos.

Outras explicações

A Dra. Sham Singh, psiquiatra da rede Winit e especialista em saúde mental, tem uma explicação parecida e mais recente. Questionada sobre o assunto em 2025, ela afirmou que a nossa relação com a tecnologia é muito diferente da que temos com outros aspectos da vida cotidiana.

“O telefone é um dispositivo operado em nível consciente, mas não possui nenhuma carga emocional ou simbólica mais profunda, portanto, não aparece em nossos sonhos. Além disso, a tecnologia se desenvolve tão rapidamente que nosso subconsciente não tem tempo de incorporar esses dispositivos à linguagem simbólica característica dos sonhos”, explicou.

Ou seja: nossos celulares simplesmente não possuem um peso emocional ou psicológico suficiente para que estejam presentes em nossos sonhos. "Os sonhos muitas vezes refletem nossas emoções, medos e desejos, portanto objetos que não evocam sentimentos fortes podem ter menos probabilidade de aparecer neles", afirmou Singh.

Por fim, há uma terceira explicação vinda da jornalista científica Alice Robb, autora do livro Why We Dream: The Transformative Power of Our Nightly Journey (Por que sonhamos: o poder transformador de nossa jornada noturna). Em entrevista ao site The Cut, ela teorizou que essa pouca prevalência dos celulares nos sonhos pode ter a ver com a “hipótese de simulação de ameaça”.

“[Essa teoria] basicamente sugere que o motivo pelo qual sonhamos é que os sonhos nos permitem lidar com nossas ansiedades e nossos medos em um ambiente de menor risco, para que possamos praticar para eventos estressantes”, diz Robb.

Dentro dessa explicação, os sonhos são um mecanismo de defesa desenvolvido ao longo da evolução humana. Por isso, tendemos a sonhar mais com coisas que seriam motivo de preocupação para nossos ancestrais, mas não para nós.

“As pessoas tendem a não sonhar tanto com a leitura e a escrita, que são desenvolvimentos mais recentes na história da humanidade, e sim com coisas relacionadas à sobrevivência, como lutar, mesmo que isso não tenha nada a ver com quem você é na vida real”, diz Robb.

De qualquer forma, sonhos são um assunto muito complexo para que seja possível cravar uma explicação que sirva para todo mundo. De fato, basta procurar nas redes sociais para achar um monte de gente que diz que sonha, sim, com seus celulares.

O neurofisiologista William Dement, padrinho da medicina do sono, tem uma frase famosa que diz: “O sonho permite que cada um de nós seja insano, em silêncio e com segurança, todas as noites da vida”. Talvez o celular não seja um elemento importante nessa nossa versão insana.

Fonte: https://revistagalileu.globo.com/

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

A vida em abundância: Carta do Papa Leão XIV sobre o valor do esporte

Jogos olímpicos de inverno Milão-Cortina 2026 (Vatican Media)

No texto, publicado nesta sexta-feira (6/02) por ocasião dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Inverno, o Pontífice destaca o esporte como caminho de formação humana, fraternidade e paz, e alerta para os riscos da lógica do lucro e do desempenho a qualquer custo.

Thulio Fonseca - Vatican News

"Por ocasião da celebração da XXV edição dos Jogos Olímpicos de Inverno, que terão lugar em Milão e Cortina d’Ampezzo de 6 a 22 de fevereiro próximo, e da XIV edição dos Jogos Paralímpicos de Inverno, que se realizarão, nas mesmas localidades, de 6 a 15 de março, desejo dirigir uma saudação e os meus melhores votos a quantos estão diretamente envolvidos e, ao mesmo tempo, aproveitar a oportunidade para propor uma reflexão destinada a todos. A prática esportiva, como sabemos, pode ter uma natureza profissional, de altíssima especialização: deste modo, corresponde a uma vocação de poucos, embora suscite admiração e entusiasmo no coração de muitos, que vibram ao ritmo das vitórias ou das derrotas dos atletas. Mas a prática esportiva é uma atividade comum, aberta a todos e saudável para o corpo e para o espírito, a ponto de constituir uma expressão universal do ser humano."

Assim o Papa Leão XIV introduz a sua Carta com o título A vida em abundância, sobre o valor do esporte, publicada nesta sexta-feira, 6 de fevereiro. Dividida por temas ligados ao mundo esportivo, desde sua história até os desafios atuais, o Santo Padre propõe uma reflexão que une dimensão humana, educativa e espiritual da prática esportiva.

LEIA AQUI A CARTA DO PAPA NA ÍNTEGRA

Esporte, formação humana e cultura do encontro

Na Carta, o Papa percorre a história do esporte e recorda seu valor formativo ao longo do tempo, destacando a tradição cristã que sempre reconheceu a unidade entre corpo, mente e espírito. Inspirado nas imagens bíblicas utilizadas por São Paulo e na reflexão de pensadores como Santo Tomás de Aquino, Leão XIV sublinha que a atividade esportiva favorece a disciplina, a moderação e o desenvolvimento integral da pessoa, tornando-se um caminho privilegiado de educação humana.

O Pontífice destaca ainda que o esporte é um espaço de encontro e de relação, capaz de promover a fraternidade, o respeito às regras e a superação do individualismo. Quando vivido de forma autêntica, ensina a lidar com a vitória sem arrogância e com a derrota sem desespero, contribuindo para a construção de comunidades baseadas na cooperação, na solidariedade e na cultura da paz.

Desafios atuais e riscos da prática esportiva

Leão XIV chama atenção também para os perigos que ameaçam os valores do esporte, sobretudo quando ele é submetido à lógica do lucro, do sucesso a qualquer custo e da exploração econômica. Nessas situações, o atleta corre o risco de ser reduzido a mercadoria e a competição perde seu caráter educativo, abrindo espaço para práticas como o doping, a corrupção e outras formas de manipulação.

Além disso, o Papa alerta para outras distorções contemporâneas, como a instrumentalização política das competições, o culto excessivo da imagem e do desempenho e o impacto de tecnologias que podem desumanizar a experiência esportiva. Diante desses desafios, o Pontífice reafirma a necessidade de preservar o esporte como instrumento de inclusão, diálogo entre culturas e promoção da paz, especialmente entre os jovens e os mais vulneráveis.

Papa Leão XIV e o tenista italiano Jannik Sinner   (@Vatican Media)

As palavras finais de Leão XIV

"Pensar e implementar a prática esportiva como um instrumento comunitário aberto e inclusivo é outra tarefa decisiva. O esporte pode e deve ser um espaço de acolhimento, capaz de envolver pessoas de diferentes origens sociais, culturais e físicas. A alegria de estar juntos, que nasce do jogo partilhado, do treino comum e do apoio mútuo, é uma das expressões mais simples e profundas da humanidade reconciliada.

Neste horizonte, os esportistas constituem um modelo que deve ser reconhecido e acompanhado. A sua experiência cotidiana fala de ascese e sobriedade, de trabalho paciente sobre si mesmos, de equilíbrio entre disciplina e liberdade, de respeito pelos tempos do corpo e da mente. Estas qualidades podem iluminar toda a vida social. A vida espiritual, por sua vez, oferece aos esportistas uma visão que vai além do desempenho e do resultado. Ela introduz o sentido do exercício como prática que forma a interioridade. Ajuda a dar significado ao esforço, a viver a derrota sem desespero e o sucesso sem presunção, transformando o treino em disciplina do humano.

Tudo isso encontra o seu horizonte último na promessa bíblica que dá o título a esta Carta: a vida em abundância. Não se trata de uma acumulação de sucessos ou desempenhos, mas de uma plenitude de vida que integra corpo, relações e interioridade. Em termos culturais, a vida em abundância convida a libertar o esporte de lógicas redutoras que o transformam em mero espetáculo ou consumo. Em termos pastorais, ela exorta a Igreja a tornar-se uma presença capaz de acompanhar, discernir e gerar esperança. Assim, o esporte pode tornar-se verdadeiramente uma escola de vida, onde se aprende que a abundância não nasce da vitória a qualquer custo, mas da partilha, do respeito e da alegria de caminhar juntos."

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

Cegueira e medo

Cego é quem tem medo de ousar (Correio Braziliense)

CEGUEIRA E MEDO

02/02/2026

Dom Geraldo dos Reis Maia
Bispo de Araçuaí (MG)

No seu “Ensaio sobre a cegueira” (livro 1995; filme 2008), Saramago usa a cegueira física de seus personagens fictícios para falar sobre a cegueira mental de pessoas reais. Em estilo de realismo psicológico, o autor apresenta um diagnóstico da sociedade ocidental contemporânea, por meio de personagens, conflitos, desejos e pensamentos, com a clara intenção de retratar a condição humana. 

Saramago se serve da categoria de “cegueira branca” como representação de todos nós, mergulhados na banheira das vaidades. “Cegueira é uma questão privada entre a pessoa e os olhos com que nasceu”, esclarece Saramago (pág. 39). Com um refinado deboche literário, o autor escreve: “Seria horrível, um mundo todo de cegos, não quero nem imaginar” (pág. 60). E esclarece a concepção de vida daqueles que sofrem de “cegueira branca”: “Para estes, a cegueira não era viver banalmente rodeado de trevas, mas no interior de uma glória luminosa” (pág. 94). 

Já no fim de sua obra, o escritor português, vencedor do Nobel de literatura, constata: “Costuma-se até dizer que não há cegueiras, mas cegos, quando a experiência dos tempos não tem feito outra coisa que dizer-nos que não há cegos, mas cegueiras” (pág. 306). E assim ele vai concluindo seu ensaio: “Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem” (pág. 310). 

Depois de tantas luzes da Modernidade e com todo o desenvolvimento tecnológico nesta Pós-modernidade, aprofundamos a nossa cegueira. Vivemos a cultura da cegueira, que banaliza a realidade. A morte dos fracos se torna banal. O descarte dos marginalizados se torna banal. O menosprezo por pessoas pretas se torna banal. A discriminação de pessoas de orientação sexual diferente se torna banal. Banaliza-se o ódio ao outro que pensa diferente de mim. Contra esses grupos banalizados, declara-se a perseguição, conspira-se a sua eliminação e deflagra-se o medo. “O inferno são os outros”, já preconizava Sartre. 

“A Vila” (Night Shymalan, 2004) é um filme metafórico da condição humana, tendo o medo como motivação. A Comunidade vive em uma vila, no meio de uma floresta, com o intuito de preservar a inocência das pessoas. Há limites rigidamente estabelecidos entre a vila e a floresta para manter o acordo entre o Conselho de Anciãos e os supostos monstros denominados “Criaturas que nós não mencionamos”.  Ivy é uma linda jovem educadora. A sua condição de cegueira lhe proporciona um diferencial: a sua altíssima sensibilidade. Com suas próprias palavras, ela esclarece ao seu amado Lucius o seu modo de visão: “Eu vejo o mundo, mas não como você o vê”. 

Ivy se prontifica a vencer o medo, atravessar a floresta e buscar socorro para salvar Lucius, quando em risco de morte. O Conselho de Anciãos a libera para enfrentar o seu desafio, com um profundo diálogo. “Só podemos ter esperança, o que há de belo nesse lugar. Não podemos fugir do sofrimento. Ivy está indo em direção da esperança”. Ao que o colega assegura: “Ela é a mais capaz do qualquer um de nós. Ela é guiada pelo amor. É o amor que move o mundo. O amor é capaz de tudo”. 

É o amor que nos salva das densas trevas de nossa cegueira e nos ilumina para uma vida nova. É esse amor capaz de salvar o mundo da “cegueira branca”, nesta cultura de pós-verdade. O Apóstolo Paulo nos assegura: “Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz. E o fruto da luz chama-se: bondade, justiça, verdade” (Ef 5,8-9). Entre os filhos da luz não há lugar para cegueiras, nem inverdades ou pós-verdades… A experiência da Luz nos leva à Verdade, que é uma pessoa! 

Sim, fomos iluminados pela Luz que vem do alto. Vençamos a cegueira, vençamos as trevas do medo, vençamos a cultura do ódio, para vislumbrarmos a Luz da esperança, que nos coloca diante da Verdade, que é o Amor encarnado. Assim iluminados, sejamos agentes de luz e esperança para tantas pessoas que agora, mais do que nunca, anseiam por luz e esperança. Como Yvy, deixemo-nos guiar pelo amor que supera o ódio e o medo… e salva o mundo. O amor gera perdão e superação de nossas polarizações, para caminharmos em direção à Verdade que nos liberta e nos descortina o horizonte de libertação. 

Fonte: https://www.cnbb.org.br/

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Os desafios de viver os mistérios de Jesus Cristo no mundo digital

Cultura digital | Vatican Media.

Vivemos uma realidade complexa, envolvida numa teia de tecnologias que nos absorve em ritmo acelerado e, muitas vezes, sufoca, modificando nossa cultura, as relações humanas e mesmo os hábitos banais do dia a dia. Evidentemente, a tecnologia oferece oportunidades, avanços e perspectivas.

Dom Oriolo - Bispo da Igreja Particular de Leopoldina, MG

Tive a oportunidade de exercer o ministério sacerdotal em três paróquias cujas igrejas matrizes, ainda que não barrocas, eram antigas e se destacavam por seus traços arquitetônicos e belezas artísticas. Primeiramente, o Santuário de São Francisco de Paula, em Ouro Fino (MG), como vigário paroquial; depois, a Basílica do Carmo, em Borda da Mata (MG), como pároco e reitor e, finalmente, a Catedral Metropolitana de Pouso Alegre (MG), como pároco e cura. Nessas igrejas, com suas belezas artísticas peculiares, reunidas nos altares, sacrários, pinturas, revestimentos, adornos e mobiliário, tornou-se comum, sobretudo a partir da década de 1990, encontrar fiéis com suas máquinas fotográficas, preocupados em registrar os momentos e os ambientes, produzindo fotos e mais fotos.

A popularização dos equipamentos para o registro de imagens contribuiu para o crescimento dessa prática nos templos, frutos da dedicação e da piedade das comunidades, que unem as gerações na busca do transcendente e da própria santidade. Assim, muitos fiéis se tornaram verdadeiros paparazzi, armados de máquinas digitais, flashes e outros acessórios, à espreita de momentos únicos de beleza divina, presentes nas formas e liturgias ambientadas nas igrejas.

O papa Bento XVI, em diversos contextos, analisou a relação intrínseca entre teologia e beleza e ensina: “Uma beleza não aberta a Deus reclui o homem nele próprio e é capaz de levá-lo ao desespero ou a um espiritualismo sem estreita relação com Deus […] Os que creem devem mostrar a beleza de sua fé em autênticas cerimônias, sobretudo, em sua liturgia”. Ora, a experiência de Deus passará sempre pelo exercício da contemplação. Por isso mesmo, são edificados belos templos para o culto a Deus e a Igreja busca nortear a sua liturgia pelo critério de “nobre simplicidade”.

Vivemos uma realidade complexa, envolvida numa teia de tecnologias que nos absorve em ritmo acelerado e, muitas vezes, sufoca, modificando nossa cultura, as relações humanas e mesmo os hábitos banais do dia a dia. Evidentemente, a tecnologia oferece oportunidades, avanços e perspectivas. No entanto, somos todos desafiados cotidianamente, em maior ou menor grau, por um mundo congestionado por imagens; flagrados e monitorados a todo o momento, com o auxílio da tecnologia digital. Os cidadãos do Reino Unido são os que mais passam por essa experiência, pois se tornaram os mais vigiados do mundo pelas câmeras de circuito fechado de televisão, segundo reportagem publicada pela revista britânica The New Statesman.

Se por um lado, ao menos em tese, verifica-se a descoberta do valor de armazenar imagens, vídeos e colecionar registros em grande escala, graças à proliferação dos instrumentais tecnológicos, nem sempre essa realidade coincide com um o maior interesse humanístico, cultural e histórico. A sociedade digital é, sobretudo, uma sociedade do descartável, do instantâneo. Fotografar é moda, mas apreciar o “belo”, como que numa vivência transcendental, não se interliga, necessariamente, a essa prática.

Percebo, sem preconceitos, que a dinâmica da câmera instantânea e do telegrama, raízes que batizam o Instagram invadiu os eventos de evangelização e as celebrações do Mistério Pascal, os sacramentos. Em nossas celebrações, de festas de padroeiros a ordenações, o fiel deixou de ser assembleia para se tornar plateia de um espetáculo digital. Na corrida pelo Reels perfeito ou pelo Story mais engajador, os mistérios são fragmentados em 15 segundos.

modus vivendi da sociedade digital, pressionado pela concorrência estética com o Instagram, impõe uma ditadura da imagem onde o sacramento vira cenário e o rito vira conteúdo. Esse processo de instagranização da fé faz com que, ao buscar o ângulo ideal para o Feed ou a transmissão ao vivo nas Lives, o fiel se ocupa com o periférico e ignora o essencial. O limite de 7.500 perfis que a rede permite seguir parece pequeno perto da multidão de distrações que afastam o olhar do altar. Perde-se a vivência do invisível na tentativa vã de capturar o digital: o espírito da liturgia não aceita filtros e a graça de um sacramento não cabe no Direct.

A fixação pelas imagens preocupa, ainda, por alimentar o sentimento de autoglorificação, de uma permanente necessidade que se pode resumir expressão popular: “Olha eu!”. Desse modo, as mãos, destinadas a louvar a Deus, estão sempre sobrecarregadas com a parafernália de última geração. Os olhos já não contemplam, ocupados em encontrar enfoques e ângulos. A atenção, essencial para uma participação efetiva, vai para o espaço! Não interagimos com o belo nem nos envolvemos com a ação ritual. Em última instância, não nos comprometemos com a vivência do sagrado nem dedicamos atenção às relações com o outro, que é irmão.

Gradativamente, torna-se banal a incidência desse modismo em nossas comunidades. A instagranização das celebrações eucarísticas corre o risco de nos tornar paparazzi das celebrações eucarísticas, suplantando a nossa identidade eclesial que é a de sermos membros de uma comunidade de fé. Quando participamos nos momentos celebrativos em nossas igrejas, é uma tentação sacarmos logo o celular, máquina fotográfica ou smartphone para capturar momentos que julgamos importantes, esquecendo que o esplendor e a beleza que refulgem no rito litúrgico são sinais da beleza da entrega de Cristo por nós, realizada sacramentalmente, e do imenso e incessante amor de Deus por nós manifestado em  Nosso Senhor Jesus Cristo, que se atualiza em dimensão kairótica, e não cronológica.

Sob esse aspecto, a realidade digital nos afasta mais do que nos une. Ao fotografarmos em nossas celebrações eucarísticas, nos distraímos, além de prejudicar a concentração de outras pessoas. Na maioria das vezes, querendo valorizar e registrar imagens, acabamos deixando em segundo plano o mistério de Jesus Cristo. O tempo despendido em registrar um momento faz com que deixemos de lado a expressão genuína da beleza divina, a presentificação sacramental de Cristo e a atualização do Mistério Pascal.

Vale esclarecer que nesse caso, quando nos referimos a mistério, não estamos falando de algo secreto, escondido, de significado ou causa oculta, algo que não se pode explicar. Mistério, aqui, significa o desígnio (projeto, plano) eterno e misericordioso de Deus, agora revelado, realizado em Jesus Cristo, comunicado a todos os povos (cf. Rm 16, 25; Ef 3, 9; Col 1, 26-27; 1Tm 3, 16) e simbolizado por meio dos ritos litúrgicos. É algo que vai se revelando aos poucos. Transcende a materialidade e a nossa capacidade racional, pois é entendido e acolhido na fé.

Os sacramentos são momentos privilegiados do encontro entre Deus e o ser humano. Pelos sacramentos, participamos do mistério de Cristo, como corpo do Senhor ressuscitado. São sinais eficazes da graça, pois o próprio Cristo os instituiu, os confiou à Igreja e age em cada um deles (cf. CIC, 1131).

A celebração dos sacramentos abrange todas as etapas da existência humana, do nascimento à morte, sendo indispensável para alimentar a vida cristã. Nos sacramentos, o próprio Cristo Jesus nos comunica a sua plena comunhão com o Pai. Toda vida cristã desenvolve em torno dos sacramentos, especialmente o da Eucaristia.

Penso que uma alternativa pastoral para o desafio de se lidar com as tecnologias, considerando que é imprescindível para a Igreja manter-se também conectada com a realidade digital, seria o investimento específico na constituição das nossas Pastorais da Comunicação (Pascom). A partir de um processo educativo, os fiéis poderão compreender que os agentes da Pascom cumprirão, de forma consciente e oportuna, a missão de registrar e compartilhar nossas celebrações, os momentos fortes de vivência da fé, pautados nas orientações litúrgicas e na hierarquia de prioridades, no contexto de cada celebração.

Finalmente, para que nossas celebrações eucarísticas possam ser exclusivamente o lugar do “mistério de Deus”, manifestado pelos sacramentos, temos que investir para configurar, cada vez mais, as nossas igrejas em autênticos espaços de acolhimento, onde cada fiel tenha condições, em todos os momentos importantes da vida, de se encontrar com Jesus e ser discípulo missionário. Assim, vamos vivenciar, registrar e eternizar o Mistério Pascal do Senhor, e deixar as imagens, áudios e vídeos para os outros momentos das nossas vidas.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

O amor e a loucura andam juntas

Fábula do Amor e da Loucura (YouTube)

O AMOR E A LOUCURA ANDAM JUNTAS

15/10/2021

Dom Jacinto Bergmann
Arcebispo de Pelotas (RS)

 Início a minha reflexão com uma estória: “A Loucura resolveu convidar os amigos para tomar um café em sua casa. Todos os convidados foram. Após o café, a Loucura propôs: – Vamos brincar de esconde-esconde? -Esconde-esconde? O que é isso? – perguntou a Curiosidade. – Esconde-esconde é uma brincadeira. Eu conto até cem e vocês se escondem. Ao terminar de contar, eu vou procurar, e o primeiro a ser encontrado será o próximo a contar. Todos aceitaram, menos o Medo e a Preguiça. – 1,2,3…- a Loucura começou a contar. A Pressa escondeu-se primeiro, num lugar qualquer. A Timidez, tímida como sempre, escondeu-se na copa de uma árvore. A Alegria correu para o meio do jardim. Já a Tristeza começou a chorar, pois não encontrava um local apropriado para se esconder. A Inveja acompanhou o Triunfo e se escondeu perto dele debaixo de uma pedra. A Loucura continuava a contar e os seus amigos iam se escondendo. O Desespero ficou desesperado ao ver que a Loucura já estava no noventa e nove. – CEM! – gritou a Loucura. – Vou começar a procurar… A primeira a aparecer foi a Curiosidade, já que não aguentava mais querendo saber quem seria o próximo a contar. Ao olhar para o lado, a Loucura viu a Dúvida em cima de uma cerca sem saber em qual dos lados ficar para melhor se esconder. E assim foram aparecendo a Alegria, a Tristeza, a Timidez… Quando estavam todos reunidos, a Curiosidade perguntou: – Onde está o Amor? Ninguém o tinha visto. A Loucura começou a procurá-lo. Procurou em cima damontanha, nos rios, debaixo das pedras e nada do Amoraparecer. Procurando por todos os lados, a Loucura viu uma roseira, pegou um pauzinho e começou a procurar entre os galhos, quando de repente ouviu um grito. Era o Amor, gritando por ter furado o olho com um espinho. A Loucura não sabia o que fazer. Pediu desculpas, implorou pelo perdão do Amore até prometeu segui-lo para sempre. O Amor aceitouas desculpas. Hoje, o Amor é cego e a Loucura o acompanha sempre”. 

A última frase dessa estória é uma conclusão e contém uma afirmação:  Conclui que o amor é “cego” e afirma que a “loucura” acompanha o amor. Mas deixa tudo em aberto, para que nós nos perguntemos: Por que o amor é “cego”? por que a “loucura” acompanha o amor? Ensaio aqui uma resposta às duas questões sob o prisma da boa nova cristã. 

Por que o amor é “cego”? Jesus de Nazaré ensinou que o amor cristão “não enxerga” (quem não enxerga é “cego) as limitações do amado. Enxerga tão somente o amado a ser amado. Ama gratuitamente. Chega a amar o amado por causa de suas limitações e não por seus acertos. Pois, Jesus de Nazaré viveu o amor “cego” como ele ensinou. Amou não levando em conta as “limitações” do ser humano. Como Deus “nascido numa gruta de animais” assumiu a natureza humana limitada, viveu 30 anos escondido numa família, pregou a boa nova aos “pequenos e simples”, pediu que fosse “dado a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, sujeitou-se a não ter “onde reclinar a cabeça”, abraçou a cruz e a morte de cruz… tudo isso, amando gratuitamente – como “cego”, por causa dos pecados da humanidade e em vista da sua redenção. Que cenário de gratuidade – “cegueira” – do amor! Eis um amor “cego” e por isso salvador. 

Por que a “loucura” acompanha o amor? Jesus de Nazaré ensinou que o amor cristão não caminha apenas segundo as razões, segundo os desejos, segundo as regras, segundo os interesses, segundo os direitos, segundo as compensações (não caminhar segundo as razões… é “loucura”). O amor cristão caminha colocando tudo em função do amado; coloca o “sábado para o homem e não o homem para o sábado”. Ama desinteressadamente. Chega amar o amado por causa de suas feridas e não por causa de suas belas e razoáveis aparências. Pois, Jesus de Nazaré viveu o amor “desinteressado” como ele ensinou. Amou não levando em conta apenas as “razões” do ser humano. Como Mestre da “vida plena para a qual veio” escolheu “pescadores e publicanos” para discípulos e apóstolos, conviveu com pecadores discriminados, curou leprosos marginalizados, acolheu prostitutas desprezadas, identificou o Reino de Deus com as crianças “pequenas e simples” (e não com não-crianças “grandes e complicadas”), corrigiu a religião “hipócrita e vazia”, deixou-se condenar pelo poder mundano e falso, caminhou para o calvário sob o peso da cruz dos malvados, morreu como “grão de trigo” inocente, deixou o sepulcro como ressuscitado… tudo isso, amando desinteressadamente – como “louco”, por causa dos pecados da humanidade e em vista da sua redenção. Que espetáculo de desinteresse – “loucura” – do amor! Eis um amor “louco” e por isso salvador. 

Em Jesus de Nazaré “o Amor cegado pelo espinho e a Loucura seguidora do Amor” tornou-se real! Que em nós cristãos também o Amor e a Loucura andem juntas! 

Fonte: https://www.cnbb.org.br/

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Pe. Ramón Sevillano: Início do discernimento sobre sua vida e testemunho cristão

Pe. Ramón Sevellano | cn.org.br/portal

CELEBRAÇÕES EM SUFRÁGIO PELO PE. RAMÓN SEVILLANO MARCAM O INÍCIO DO DISCERNIMENTO SOBRE SUA VIDA E TESTEMUNHO CRISTÃO

Post 6 de janeiro de 2026 C. N. Brasil

Devoção popular e testemunos de graças atribuídas à sua intercessão impulsionaram o início do discernimento eclesial sobre a causa de beatificação.

Na tarde de 5 de janeiro, fiéis  se reuniram no Cemitério da Saudade, em Franca (SP), para um momento de oração em sufrágio da alma do Pe. Ramón Sevillano Valencia, presbítero catequista itinerante do Caminho Neocatecumenal, falecido em 1996. A celebração insere-se no contexto das iniciativas que acompanham o início de um caminho de discernimento, por parte da Igreja, acerca de sua vida e testemunho cristão, em vista de um possível processo de beatificação.
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Cerca de 160 pessoas participaram do encontro junto ao túmulo do presbítero, onde se destacam numerosas placas de agradecimento por graças alcançadas, sinal de uma devoção espontânea que se mantém viva ao longo dos anos. O momento de oração seguiu com os salmos do Ofício dos Defuntos e a proclamação do Evangelho.
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Eucaristia em sufrágio
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Ainda no dia 5 de janeiro, às 19:30h, foi celebrada a Eucaristia em sufrágio da alma do Pe. Ramón Senillano na Sé Catedral Nossa Senhora da Imaculada Conceição, em Franca (SP). A celebração foi presidida por Dom Ângelo Pignoli, bispo emérito de Quixadá (CE), e contou com a participação de presbíteros e fiéis das comunidades neocatecumenais da Diocese de Franca.
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Antes do início da celebração, houve um momento protocolar de acolhida e agradecimentos, com menção especial ao bispo diocesano, Dom Paulo Roberto Beloto, pelo apoio ao início do processo, e ao pároco da Catedral, Pe. Rogério Rúfio. Foi apresentado um breve histórico da vida e missão do Pe. Ramón, situando a assembleia no contexto da celebração. A liturgia seguiu expressando o caráter de ação de graças e de comunhão eclesial.

Na celebração foi lida uma carta enviada pela equipe de catequistas responsáveis pelo Caminho Neocatecumenal no Brasil: Pe. José Folqué, Raul Viana e Toña Santiago, que, impossibilitados de estarem presentes, manifestaram comunhão com a assembleia. Na mensagem, os catequistas expressaram gratidão pela vida e pelo ministério do Pe. Ramón Sevillano, recordando sua pregação constante da esperança na Ressurreição e sua fidelifdade até o fim:

"Que este acontecimento seja para todos nós uma renovação da missão evangelizadora que o Senhor nos encomenda, e garantia para todos estarmos, um dia, com Cristo na plenitude da Vida Eterna. Finalmente confiamos à Virgem Maria o processo de beatificação que a Igreja de Franca inicia, e à qual Pe. Ramón amou muito, desde a sua juventude na Congregação Salesiana e, como guia dele na missão de catequista itinerante."
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Como parte deste momento, as comunidades neocatecumenais no Brasil e em algumas cidades da Espanha, que se reuniram no fim de semana (dias 10 e 11 de janeiro) para as celebrações da Eucaristia, aplicaram também a intenção pela alma do Pe. Ramón, por ocasião dos 30 anos de seu falecimento, unindo-se, assim, espiritualmente às celebrações realizadas ma Diocese de Franca, no último dia 5.

Uma vida entregue à missão

O Pe. Ramón Sevillano Valencia nasceu em 31 de agosto de 1943, em Cirauqui, na região de Navarra. Filho de Alfonso e Rosario, desde jovem manifestou o desejo de ser sacerdote e missionário, ingressando ainda adolescente no aspirantado salesiano. Sua formação religiosa e presbiteral foi marcada por avaliações que ressaltavam seu equilíbrio, espírito de entrega, piedade e docilidade.
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Ordenado presbítero em 19 de agosto de 1972, exerceu inicialmente o ministério como educador e catequista e no acompanhamento pastoral dos jobens. Em 1979, pediu autorização aos superiores salesianos para dedicar-se integralmente à missão itinerante no Caminho Neocatecumenal. Pe. Ramón pertencia à primeira comunidade neocatecumenal da Paróquia Santa Joaquina Vedruna, em Barcelona, Espanha.

Após evangelizar em diversas regiões da Espanha e em Portugal, os iniciadores do Caminho Neocatecumenal, Kiko Argüello e Carmen Hernández, enviaram-no como responsável pelo Caminho Neocatecumenal no Brasil. Aqui chegou em 1990, onde exerceu o ministério como catequista itinerante nas dioceses de Brasília, São Paulo, Franca e Jundiaí. Entre outros serviços, colaborou na fundação do Seminário Missionário Arquidiocese Redemptoris Mater de Brasília. Viveu os últimos anos sem residência fixa, acolhido pelas famílias das comunidades, sempre disponíveis para partir e anunciar o Evangelho onde fossem necessário.
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Quantos o conheceram recordam sua afabilidade, proximidade e atenção especial aos mais frágeis. Consciente de suas limitações físicas, superava-as com serenidade, humor e profunda confiança em Deus.

Morte, sepultamento e memória viva

No dia 1º de janeiro de 1996, Pe. Ramón, junto com sua equipe de catequistas itinerantes, sofreu um grave acidente automobilístico na estrada entre Igarapava (SP) e Uberaba (MG). Após quatro dias internado em cuidados intensivos, o presbítero faleceu na Vigília da Epifania (5 de janeiro), em Uberaba (MG). Em 7 de janeiro, ocorreu seu sepultamento em Franca (SP), local onde havia exercido sua missão no Brasil, presidido pelo então bispo diocesano Dom Diógenes Silva Mathes, com a participação de mais de quatro mil pessoas vindas de diversas regiões do país.

Constumava dizer que sua pátria era o Céu e que poderia ser enterrado onde viesse a falecer. A proximidade do local do acidente com Franca fez que ali repousassem  seus restos mortais, numa diocese que tem papel histórico no início do Caminho Neocatecumenal no Brasil, presente na região desde 1974.
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Intercessões e graças

Desde os primeiros dias após sua morte, a memória do Pe. Ramón Sevillano tem sido acompanhada por manifestações  constantes de estima e devoção por parte dos fiéis. O velório, realizado em 6 de janeiro de 1996, na Paróquia Santa Rita de Cássia, em Franca (SP), e o cortejo fúnebre até o cemitério reuniu um grande número de pessoas, evidenciando o impacto de sua vida e ministério.

Nos dias que se seguiram ao sepultamento, o túmulo passou a ser visitado regularmente, surgindo as primeiras placas com inscrições de agradecimento por graças alcançadas. Ao longo dos anos, o local comtinuou a recebar visitas frequentes de fiéis, familiares e grupos de peregrinos, inclusive provenientes de outras cidades e dioceses.
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A presença constante de bilhetes, placas e testemunhos, assim como os relatos de graças atribuídas à sua intercessão, motivaram, nos últimos anos, a organização e o recolhimento sistemático desses depoimentos, atualmente em fase inicial de catalogação.

Um processo em discernimento

A permanência dessa devoção ao longo do do tempo levou a Diocese de Franca a dar início, neste mês de janeiro, aos primeiros passos do processo de beatificação do Pe. Ramón Sevillano. Trata-se de um caminho confiado inteiramente ao discernimento da Igreja, que busca verificar, com prudência e verdade a autenticidade do testemunho cristão deixado por sua vida.

As celebrações realizadas nesse dia, entre elas a oração no cemitério e a Eucaristia em sufrágio, expressam a comunhão da Igreja com a memória de um presbítero que viveu sem reservas para o anúncio do Evangelho, permanecendo, ainda hoje, como sinal de estímulo à perseverança na fé e à disponibilidade missionária.

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Para mais informações acesse o site oficial: www.padreramon.org.br
Contato da Secretaria da Equipe de Postulação.
WhatsApp: +56 16 99196.1997

Fonte: https://cn.org.br/portal/

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A atualidade da Evangelii Gaudium e o horizonte missionário do pontificado de Leão XIV

Evangelii Guadium: Luzes para a Catequese (Catequese Online)
22/01/2026
Dom João Gomes Cardoso
Arcebispo de Natal (RN)

A Evangelii Guadium permanece , mais de uma década após sua publicação, um texto decisivamente atual e profético. Longe de ser um documento circunstancial de um pontificado anterior, ela se afirma como chave hermenêutica para compreender o caminho missionário e sinodal que o Papa Leão XIV pretende assumir e aprofundar em seu ministério petrino. O primeiro consistório extraordinário do seu pontificado, realizado em 7 de janeiro de 2026, confirmou essa continuidade: o Santo Padre pediu aos cardeais que revisitassem a Evangelii Guadium como referência fundamental para discernir prioridades e orientações para a Igreja no tempo presente.

No discurso de abertura do consistório, o Papa Leão XIV retornou e enfatizou a grande intuição conciliar que compreende a Igreja inteiramente contida no mistério de Cristo, entendendo a missão evangelizadora como irradiação da inesgotável energia emanada do evento central da história da salvação. Evangelizar, recordou o Santo Padre, não é fazer proselitismo, mas permitir que seja o próprio Cristo quem atraia todos a si, por meio da caridade vivida e testemunhada. Nesse sentido, afirmou: "A mim mesmo e a vós, lanço o convite a prestar muita atenção ao que o Papa Bento XVI indicou como a 'força' que preside a este movimento de atração:essa força é a Charis, o Ágape, o Amor de Deus que se fez carne em Jesus Cristo e que, no Espírito Santo, é dado à Igreja, santificando todas as suas ações.Na verdade, não é a Igreja que atrai, mas Cristo; e, se um cristão ou uma comunidade eclesial atrai, é porque, através desse 'canal',chega a seiva vital da caridade que brota do Coração do Salvador. É significativo que o Papa Francisco, tendo iniciado com a Evangelii  Guadium, 'sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual', tenha concluído com a Dilexit nos'sobre o amor humano e divino do Coração de Cristo'." Essa perspectiva, amadurecida no ministério recente e assumida por Bento XVI e Francisco, increve-se numa compreensão profundamente cristológica da missão da Igreja: é o amor de Cristo que a impele, e sustente e lhe confere credibilidade diante do mundo.

É nesse horizonte que se insere a intervenção do Cardeal Victor Manuel Fernández, Prefeito do Sicastério para a Doutrina da Fé, cuja reflexão ajuda a compreender por que a Evangelii Guadium continua sendo umtexto irrenunciável. Para ele, não se trata de uma opção pastoral superada ou substituível, mas de um modo de conceber toda a vida da Igreja a partir do anúncio. O subtítulo do documento _ "sobre o anúncio do Evengelho no mundo atual" - revela o seu núcleo: o querigma, isto é, a proclamação da beleza do amor salvador de Deus manifestado em Jesus Cristo morto e ressuscitado.

Esse retorno ao essencial possui grande relevância no contexto cultural contemporânneo, marcado por fragmentação , cansaço espiritual e perda de sentido. O Cardeal Fernández insiste que não basta repetir normas, doutrinas ou posições morais, ainda que necessárias; é preciso, antes de tudo, favorecer o encontro com Cristo ivo. Em sintonia com Bento XVI, ele recorda que não se começa a ser cristão por uma ideia ou um código ético, mas por uma experiência de encontro com uma pessoa que transforma a vida. Por isso, a Evangelii Guadium fala de "beleza": o Evangelho deve ser anunciado de modo capaz de Atrair, encantar e tocar o coração.

Da centralidade do querigma decorre uma exigência de reforma missionária e sinodal da Igreja. Ecclesia semper reformanda: a Igreja é chamada a rever práticas, estilos e estruturas, não por gosto de mudança, mas para que nada obscureça ou dificulte o anúncio fundamental. Tudo o que não serve diretamente a essa proclamação inicial deve ser posto em segundo plano; tudo o que favorece deve ser colocado em primeiro plano. Trata-se de uma reforma espiritual, pastoral e institucional, vivida em chave sidodal, isto é, no discernimento comunitário e na escuta do Espírito.

Por fim, a atualidade da Evangelii Guadium manifesta-se também na inseparável união entre anúncio, compromisso social e vida espiritual. O querigma não aliena da realidade, mas gera  paixão pelo povo, cuidado com os pobres e esperança ativa na transformação do mundo. Assim, ao assumir e aprofundar a proposta evangelizadora de Francisco, o Papa Bento XVI aponta para uma Igreja mais simples no essencial, mais bela no anúncio e mais audaz na missão. Uma Igreja que, atraída por Cristo, se torna sinal vivo do Evangelho para o homem e a mulher do nosso tempo.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Os mártires de Palomeras

Desenho de Kiko Argüello, retirado de seu livro Anotações (p. 245), que mostra a proximidade do local do martírio - via do trem - com a barraca onde viveu e viu nascer, junto com a Serva de Deus Carmém Hernández, o Caminho Neocatecumenal em 1964. (neocatechumenaleiter)

14/12/2025
CndMadrid

No dia 13 de dezembro do Ano Jubilar de 2025, dia de Santa Luzia, virgem e mártir, teve lugar na Catedral de Jaén a Cerimônia de Beatificação de 124  mártires, durante o transcurso da Eucaristia Solene que, para tal ocasião, foi presidida, em nome de Leão XIV, pelo Cardeal Dom Marcello Semeraro, prefeito do Dicastério para as Causas dos Santos, acompanhado pelo atual Bispo de Jaén, Dom Sebastián Chico Martinez, por outros bispos e pelo Cardeal Rouco. A Catedral estava repleta de fiéis, a maioria de familiares dos beatificados. Informaçóes pormenorizadas sobre o ato podem ser encontradas neste link:

Mons. Cassimiro Morcillo, Kiko Argüello e Carmen Hernández (neocatechumenaleiter)
Barracas em Palomeres Altas, Madri 1964 (neocatechumenaleiter)

O postulador recebeu do Cardeal Semeraro uma cópia da Carta Apostólica de Leão XIV, na qual o Papa sublinhou que os beatos foram:

"...testemunhas heroicas e constantes do Senhor Jesus, por cujo amor não temeram derramar o próprio sangue, sejam, de agora em diante, chamados Beatos e possam ser celebrados no dia seis de novembro de cada ano, nos lugares e nas formas estabelecidos pela lei. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo".

Entre o grupo reconhecido há 109 sacerdotes, uma clarissa e 14 leigos. Todos eles foram assassinados entre 1936 e 1938 por se recusarem a renegar a sua fé. "Os sacerdotes foram assassinados única e exclusivamente por serem sacerdotes, e os leigos foram assassinados porque viam neles o refelxo da comunidade eclesial", explicou na Eucaristia de beatificação Andrés Nájera, vice-postulador da causa de beatificação.
Plano de Palomeras Altas, Desenho de Kiko Argüelli, matço de 2020 (neocatechumenaleiter)

Entre os leigos beatificados encontram-se Teresa Basulto Jiménez e Mariano Martin Portella, um casal - caso pouco frequente na Perseguição Religiosa Espanhola - que foi assassinado juntamente com o irmão de Teresa, Manuel Basulto, Bispo de Jeán, com o Vigário-Geral e Deão da Catedral, Dom Félix Pérez Portela, em Palomeras (Madri), ambos  beatificados pelo Papa Francisco em 2013. Todos eles foram assassinados em 12 de agosto de 1936, perto da barraca onde, em 1964, passou a viver Kiko Argüello, que, abandonando uma promissora carreira de pintor, deixou tudo e foi viver com os pobres nas barracas de Palomeras Altas. Ali surgiu, graças também a Carmen Hernández, o embrião de uma Iniciação Cristã que viria a ser o Caminho Neocatecumenal: reconhecido oficialmente pela Santa Sé em 2008 e atualmente presente em 138 nações.

Precisamente em Palomeras Altas teve lugar o maior fuzilamento público realizado durante a Guerra Civil Espanhola, no qual morreram pela fé um númeto ainda indeterminado de irmãos e o único bispo bispo assassinado em Madri, Dom Basulto, 254 detidos por motivos religiosos e amontoados na Catedral de Leán que viajavam no chamado Tren da Morte rumo à prisão de Alcalá de Henares, para, teoricamente, aliviar a superlotação daquela, quando foram obrigados a descer do trem à altura do então Apeadeiro Santa Catarina em frente às barracas de Palomeras, para serem assassinados diante de mais de duas mil pessoas que haviam reunido no local para presenciar os fatos, incitando os assassinos. Dom Basulto, que havia sido insultado e humilhado durante todo o transporte, pouco antes de morrer caiu de joelhos no chão, exclamando: - Perdoa, Senhor, os meus pecados  e perdoa também os meus assassinos. Pouco depois, sua irmã Teresa comentou: - Isto é uma infâmia, eu sou sou uma pobre mãe. Um dos assassinos lhe indicou: - Não te preocupes, a ti te matará uma mulher. Em seguida, aproximou-se uma mulher chamada Josefa Coso, "La Pecosa", que disparou à queima roupa contra Teresa, que morreu no ato. Continuam abertas causas de beatificação dos mártires naquela dia, no mesmo local.
Barraca de Kiko Argüello em Palomeras Altas, Madri 1964 (neocatechumenaleiter)

Foi o próprio Kiko quem relacionou os mártires com o nascimento do Caminho Meocatecumenal, expressando-o do seguinte modo:

"A Espanha deu os Cursilhos de Cristandade, o Opus Dei, o Caminho Neocatecumenal e tudo o que quiserdes. Sabeis por quê? Porque houve uma Guerra Civil Espanhola na qual mataram mais de 6.000 sacerdotes, testemunhas, mártires: não houve uma única apostasia. As raízes do Caminho Neocatecumenal estão banhadas no sangue de muitos mártires da Espanha".

Existe informação pormemorizada sobre estes novos 124 mártires declarados beatos no site dedicado da Diocese de Jaén:


Assim como sobre a sua relação com as origens do Caminho Neocatecumenal, em um artigo publicado em Religión Libertad:


Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF