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quinta-feira, 5 de março de 2026

História do pecado

O pecado de Adão e Eva (YouTube)

HISTÓRIA DO PECADO

04/03/2026

Dom Julio Akamine

Arcebispo de Belém do Pará (PA) 

O relato bíblico do pecado original e suas consequências (Gn 3,9-24) tem a forma de um relato passado, mas o seu conteúdo descreve os acontecimentos de todos os tempos. A história horizontal é a forma, mas o conteúdo constitui a história vertical. Meditando o relato das origens constatamos uma descrição profunda da atualidade. 

Depois de terem comido do fruto proibido, Adão e Eva se esconderam de Deus (3,8). Questionados, o homem e a mulher apresentam desculpas esfarrapadas e jogam a culpa em outro. O homem acusa a mulher e Deus: “A mulher que puseste a meu lado, ela me deu do fruto da árvore, e eu comi” (3,12). A mulher, por sua vez, responde: “A serpente me enganou, e eu comi” (3,12). Ela fala a verdade: a serpente a enganou. Ao mesmo tempo, porém, reconhece que o ato foi consciente, livre e por isso responsável: “eu comi”. O homem culpa a mulher e Deus. A mulher põe a culpa na serpente. Sempre é o outro o culpado, mesmo que a responsabilidade pessoal seja evidente. Esse comportamento reflete bem o que nós também fazemos quando somos surpreendidos no pecado: arranjamos desculpas e jogamos a culpa nos outros e em Deus! 

Uma vez que se trata de ato responsável, a punição se realiza não como uma sanção extrínseca, mas como consequência do próprio ato. Sempre imaginamos o castigo de Deus como uma sanção externa e nos revoltamos com uma punição que nos parece injusta. Se, porém, formos menos cegos, teremos que reconhecer que o castigo, na realidade, é a consequência das nossas escolhas: se eu abuso da saúde na juventude, certamente me condenarei a uma velhice precoce e infeliz; se não administro com responsabilidade meu dinheiro, terei como resultado minha falência financeira; se não estudo para a prova, não poderei superá-la. 

Quais são as consequências do pecado, segundo o relato do Gênesis? A consequência mais grave é a ruptura: ruptura entre o homem e a terra, entre a mulher e o homem, entre o ser humano e Deus. 

A terra que foi criada para ser produtiva e fecunda, porém, produzirá para o homem espinhos e cardos. O trabalho do homem será marcado pelo esforço com pouco resultado: “No suor do teu rosto comerás o pão” (3,19). O homem, que foi tirado do pó da terra e se reconhece ligado à terra, experimentará essa ligação não como uma pertença harmoniosa e feliz, mas como antecipação da morte: “porque tu és pó, e ao pó hás de voltar” (3,19). Deus toma o cuidado de não amaldiçoar o homem: a terra é amaldiçoada por causa do homem (3,17). Na verdade, não é Deus que amaldiçoa diretamente, mas a terra se torna amaldiçoada por causa do homem. 

A ruptura se estende à mulher em duas formas. Primeiramente em relação ao que lhe é próprio: “Multiplicarei os sofrimentos de tua gravidez. Entre dores darás à luz os filhos” (3,16). Ela perdeu a harmonia com aquilo que é próprio de sua natureza feminina: a capacidade de gerar filhos. 

Além disso ocorre a ruptura entre mulher e homem: “a teu marido irá o teu desejo, e ele te dominará” (3,16). É próprio da dinâmica erótica que sejamos atraídos pelo sexo oposto. Essa atração deveria nos abrir ao encontro pessoal e à comunhão de vida; o pecado, porém, perverte a atração erótica em dominação, violência e medo do sexo oposto. 

Mesmo que o homem e a mulher tenham pecado e, por isso, punidos, Deus não os abandona. Sinal da providência e do amor de Deus consiste no fato de Deus ter feito para Adão e Eva túnicas de pele e os ter vestido (3,21). É um gesto pequeno de grande delicadeza. 

O maior gesto de amor por parte de Deus, porém, está na promessa: “Porei inimizade entre ti (a serpente) e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar” (3,15). Já desde o início, Deus decretou a reparação da ruína provocada pelo pecado. Assim no próprio relato do pecado está presente o sinal da misericórdia divina. É o que a tradição chamou de protoevangelho. 

Fonte: https://www.cnbb.org.br/

Papa: na Quaresma, abster-se de palavras que ferem o próximo

Papa Leão XIV (Vatican Media)

"Escutar e jejuar. Quaresma como tempo de conversão" é o título da mensagem do Papa Leão XIV para a Quaresma de 2026. O Pontífice convida os fiéis a um "jejum que também passe pela língua, para que diminuam as palavras ofensivas e aumente o espaço dado à voz do outro".

Bianca Fraccalvieri - Vatican News

Um jejum de palavras ofensivas: este é o convite do Papa Leão XIV aos fiéis que se preparam para viver a Quaresma, “tempo em que a Igreja nos convida a recolocar o mistério de Deus no centro da nossa vida”.

Para que a nossa fé ganhe novo impulso e o coração não se perca entre as inquietações e as distrações do quotidiano, o Pontífice recorda que é preciso empreender o caminho de conversão, que começa quando nos deixamos alcançar pela Palavra e a acolhemos com docilidade de espírito.

Escutar

Este ano, o Papa destaca, em primeiro lugar, a importância de dar lugar à Palavra através da escuta, “pois a disponibilidade para escutar é o primeiro sinal com que se manifesta o desejo de entrar em relação com o outro”.

Escutar a Palavra na liturgia, escreve o Pontífice, nos educa para uma escuta mais verdadeira da realidade. “Entre as muitas vozes que passam pela nossa vida pessoal e social, as Sagradas Escrituras tornam-nos capazes de reconhecer aquela que surge do sofrimento e da injustiça, para que não fique sem resposta.”

Jejuar

Se a Quaresma é um tempo de escuta, prossegue o Papa, o jejum constitui uma prática concreta que nos predispõe a acolher a Palavra de Deus. Por implicar o corpo, é útil para discernir e ordenar os “apetites”, para manter vigilante a fome e a sede de justiça, subtraindo-a à resignação e instruindo-a a fim de se tornar oração e responsabilidade para com o próximo.

No entanto, adverte o Santo Padre, para que o jejum conserve a sua autenticidade evangélica e evite a tentação de envaidecer o coração, deve ser sempre vivido com fé e humildade e deve incluir também outras formas de privação.

Leão XIV então convida os fiéis a uma forma de abstinência “muito concreta e frequentemente pouco apreciada”, ou seja, a abstinência de palavras que atingem e ferem o nosso próximo.

“Comecemos por desarmar a linguagem, renunciando às palavras mordazes, ao juízo temerário, ao falar mal de quem está ausente e não se pode defender, às calúnias.”

Em vez disso, o Papa propõe aprender a medir as palavras e a cultivar a gentileza na família, entre amigos, nos locais de trabalho, nas redes sociais, nos debates políticos, nos meios de comunicação social e nas comunidades cristãs. “Assim, muitas palavras de ódio darão lugar a palavras de esperança e paz.”

Juntos

O Pontífice conclui recordando que a Quaresma realça a dimensão comunitária da escuta da Palavra e da prática do jejum.

“As nossas paróquias, famílias, grupos eclesiais e comunidades religiosas são chamadas a percorrer, durante a Quaresma, um caminho partilhado, no qual a escuta da Palavra de Deus, assim como do clamor dos pobres e da terra, se torne forma de vida comum e o jejum suporte um verdadeiro arrependimento.”

O Papa encerra sua mensagem exortando os fiéis a pedirem a graça de uma Quaresma que torne os nossos ouvidos mais atentos a Deus e aos últimos.

“Peçamos a força de um jejum que também passe pela língua, para que diminuam as palavras ofensivas e aumente o espaço dado à voz do outro. E comprometamo-nos a fazer das nossas comunidades lugares onde o clamor de quem sofre seja acolhido e a escuta abra caminhos de libertação, tornando-nos mais disponíveis e diligentes no contributo para construir a civilização do amor. De coração, abençoo todos vocês e o seu caminho quaresmal.”

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

São João da Cruz: a trajetória e 21 frases iluminadoras de um grande místico

Lawrence OP | Flickr CC BY-NC-ND 2.0

Reportagem local - publicado em 14/12/17 - atualizado em 05/03/26

Santa Teresa de Ávila o definiu como "uma das almas mais puras da Igreja". Maravilhe-se com a sua vida e a sua sabedoria!

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A trajetória do grande místico

São João da Cruz nasceu provavelmente em 1540 e foi batizado como Juan de Yepes y Álvarez.

Natural de Fontiveros, na província espanhola de Ávila, ele ficou órfão de pai e precisou se transferir com a mãe de um lugar para o outro. Com grandes dificuldades, a mãe conseguiu fazer com que ele pudesse estudar.

Em 1563, João vestiu o hábito carmelita. Após a filosofia e a teologia, foi ordenado sacerdote em 1567, ano em que se encontrou com Santa Teresa de Ávila. A grande mística estava prestes a receber a permissão de fundar outros dois conventos de carmelitas contemplativos, que mais tarde seriam chamados de “carmelitas descalços”.

Embora pensasse em entrar na cartuxa, São João da Cruz tornou-se parte do primeiro núcleo de carmelitas reformados, em 1568, a pedido de Santa Teresa.

Qualquer processo de reforma acarreta tensões e, às vezes, desentendimentos. Com São João da Cruz não foi diferente. Na noite de 2 de dezembro de 1577, um mal-entendido fez com que João fosse levado a um mosteiro em Toledo, onde ficaria prisioneiro em condições duríssimas, isolado numa cela minúscula e obrigado a receber penitências públicas uma vez por semana. Sem sequer uma lamparina, rezava o breviário utilizando a pouquíssima luz que vinha da cela contígua por um pequeno buraco na parede e durante um tempo muito limitado. São João da Cruz ficou nesta situação deplorável até escapar da prisão.

O mais extraordinário é que foi nesse período de solidão e sofrimentos na cela escura que João completou uma das suas composições mais conhecidas: o "Cântico Espiritual", obra de grande lirismo e misticismo.

Sua vida foi devotada a Cristo e ao serviço dos irmãos: ele ama a Deus e isso lhe basta. Foi nesse amor imenso que a morte o acolheu nos braços, sereno, em 14 de dezembro de 1591, na Andaluzia.

21 frases iluminadoras de São João da Cruz, místico e doutor da Igreja

Santa Teresa de Ávila o definiu como "uma das almas mais puras da Igreja". Maravilhe-se com a sua sabedoria mediante estas 21 pequenas mostras:

  1. Ao entardecer desta vida, serás examinado no amor.
  2. Onde não existe amor, coloca amor e amor encontrarás.
  3. Quanto mais uma alma ama, tanto mais perfeita é naquilo que ama.
  4. A alma que caminha no amor não se cansa.
  5. Com mais abundância e suavidade se comunica Deus nas adversidades.
  6. Sem caridade, nenhuma virtude é graciosa diante de Deus.
  7. Um só pensamento do homem vale mais que o mundo todo; portanto, só Deus é digno dele.
  8. Procurai lendo e encontrareis meditando; chamai orando e abrir-se-vos-á contemplando.
  9. Para se enamorar de uma alma, Deus não põe os olhos na sua grandeza, mas na grandeza da sua humildade.
  10. Deus não obra as virtudes na alma sem a sua cooperação.
  11. Um ato de virtude gera na alma suavidade, paz, consolação, luz, pureza e fortaleza.
  12. Deus humilha muito para elevar muito.
  13. Quem age com tibieza está próximo da queda.
  14. Grande mal é olhar mais aos bens de Deus que ao próprio Deus.
  15. Se queres chegar à posse de Cristo, jamais O procures sem a cruz.
  16. Mais do que quantas obras possas fazer, Deus prefere de ti a pureza de consciência, ainda que no menor grau.
  17. Quem cai estando só, caído a sós fica; e em pouca conta tem a alma, pois unicamente em si mesmo confiou.
  18. A sabedoria entra pelo amor, pelo silêncio e pela mortificação; grande sabedoria é saber calar e não olhar aos ditos, aos feitos e às vidas alheias.
  19. Quem não procura a cruz de Cristo não procura a glória de Cristo.
  20. Agrada mais a Deus uma obra, por pequena que seja, feita às escondidas e sem desejo de que saibam, do que mil feitas com desejo de que os homens as conheçam.
  21. A maior necessidade que temos para progredir é calar o apetite e a língua diante do grande Deus, pois a linguagem que Ele mais ouve é o amor calado.
Fonte: https://pt.aleteia.org/

quarta-feira, 4 de março de 2026

Exercícios espirituais, o Papa: experiência profunda, senti-me convidado a refletir

O Papa intervém no encerramento dos Exercícios Espirituais.  (@Vatican Media)

Leão XIV interveio espontaneamente no final da semana de reflexão para a Quaresma na Capela Paulina com a Cúria Romana: “encontrarmo-nos todos juntos, um momento muito importante da nossa vida”. O Pontífice agradeceu ao pregador Erik Varden pelas meditações centradas no testemunho da vida monástica e destacou os temas da esperança, da liberdade e da verdade. Por fim, citando São Paulo, exortou a comportar-se “de maneira digna do Evangelho de Cristo”.

Salvatore Cernuzio – Vatican News

“Devo reconhecer que, pessoalmente, em alguns momentos, senti-me particularmente convidado a refletir. Por exemplo, esta manhã, quando falava da eleição do Papa Eugênio III e São Bernardo, ele disse: ‘O que vocês fizeram? Que Deus tenha piedade de vocês’”. Com uma breve intervenção improvisada – e uma piada que provocou o sorriso dos membros da Cúria Romana presentes na Capela Paulina –, Leão XIV concluiu esta noite, 27 de fevereiro, a semana de Exercícios Espirituais da Quaresma, iniciada na tarde do último domingo. O Pontífice interveio à noite, após a décima primeira e última meditação do pregador dom Erik Varden, bispo de Trondheim, na Noruega, a quem Leão expressou profunda gratidão por ter acompanhado ele e a Cúria nestes dias de oração e reflexão.

Experiência profunda

“Uma experiência profunda, espiritual, muito importante em nosso caminho quaresmal”, assim definiu Leão XIV os Exercícios, realizados em um local simbólico: a Capela Paulina. Ou seja, a capela onde todos os cardeais se reuniram em 8 de maio de 2025 – dia da eleição de Robert Francis Prevost – para a celebração eucarística. O que impressionou o Papa, hoje como então, foi a inscrição do versículo da Carta de São Paulo aos Filipenses: “para mim, viver é Cristo e morrer é lucro”. Uma leitura bíblica que Leão disse ter retomado durante os Exercícios Espirituais como “reflexão sobre a esperança e sobre a verdadeira fonte da esperança que é Cristo”. Do escrito paulino, o Papa citou também outra passagem, aquela em que o apóstolo exorta: “Comportem-se, portanto, de maneira digna do Evangelho de Cristo”. É precisamente este o convite que Leão XIV dirigiu a todos no final destes dias de oração: “Comportem-se, portanto, de maneira digna do Evangelho de Cristo”.

O Papa Leão XIV agradece ao pregador Varden   (@Vatican Media)

Liberdade, verdade, esperança

“Com esse espírito de comunhão, todos nós reunidos trabalhamos juntos”, disse ainda o Papa. Às vezes estamos “separados”, portanto, “encontrar-nos em oração” é “um momento muito importante da nossa vida, refletindo sobre tantas questões que são importantes para a nossa vida e para a Igreja”. Recordando rapidamente os dias que acabaram de passar, o Papa Leão retomou alguns dos temas que surgiram durante as onze meditações, começando pela referência a John Henry Newman, o cardeal inglês que ele proclamou Doutor da Igreja, e o poema “O sonho de Geronzio”, onde o teólogo leva o leitor a “contemplar seu próprio medo da morte e seu próprio sentimento de indignidade diante de Deus”. Depois, outros elementos como “a liberdade” e “a verdade” que, sublinhou, são “tão importantes na nossa vida”.

Encerramento dos Exercícios   (@Vatican Media)

O agradecimento à música que eleva o espírito a Deus

Ao concluir seu discurso improvisado, o Pontífice agradeceu novamente a dom Varden por ter compartilhado a “sabedoria” e o “testemunho” dele e da vida monástica de São Bernardo, pela “riqueza de suas reflexões” que continuarão por muito tempo a ser “fonte de bênção” e “de graça”. Agradecimento também aos colaboradores do Escritório de Celebrações Litúrgicas pela preparação do material e ao coro por ter acompanhado a oração com música, que, como destacou o Papa, “nos ajuda de uma maneira que as palavras não podem fazer, elevando nosso espírito ao Senhor”.

Vídeo

https://youtu.be/Y_ezIjQKDQQ

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

TEMPO DE PÁSCOA: A Angústia da Ausência. Meditações sobre o Sábado Santo (Parte 3/3)

O enterro | 30Giorni

TEMPO DE PÁSCOA

retirado do nº 03 – 2006, Revista 30Dias

Três Meditações sobre o Sábado Santo por Joseph Ratzinger

A Angústia da Ausência. Meditações sobre o Sábado Santo

Por Cardeal Joseph Ratzinger

TERCEIRA MEDITAÇÃO 

No Breviário Romano, a liturgia do Tríduo Pascal é estruturada com especial cuidado; em sua oração, a Igreja deseja, por assim dizer, transportar-nos para a realidade da Paixão do Senhor e, além das palavras, para o centro espiritual do que aconteceu. Se alguém tentasse caracterizar a liturgia orante do Sábado Santo em poucas palavras, teria que falar, sobretudo, do efeito de profunda paz que dela emana. Cristo penetrou o oculto ( Verborgenheit ), mas, ao mesmo tempo, bem no coração da escuridão impenetrável, penetrou a segurança ( Geborgenheit ); na verdade, tornou-se a segurança suprema. 

As palavras ousadas do salmista tornaram-se verdadeiras: "E ainda que eu queira esconder-me no inferno, lá estás também". E quanto mais se lê esta liturgia, mais se percebe nela os primeiros raios da Páscoa brilhando, como a aurora da manhã. Se a Sexta-feira Santa nos apresenta a figura desfigurada do Transpassado, a liturgia do Sábado Santo evoca a imagem da cruz, cara à Igreja antiga: a cruz rodeada por raios de luz, sinal tanto da morte quanto da ressurreição. 

O Sábado Santo, portanto, nos reconduz a um aspecto da piedade cristã que talvez tenha se perdido ao longo do tempo. Quando olhamos para a cruz em oração, muitas vezes vemos nela apenas um sinal da paixão histórica do Senhor no Gólgota. A origem da devoção à cruz, porém, é outra: os cristãos oravam voltados para o leste para expressar sua esperança de que Cristo, o verdadeiro sol, se ergueria sobre a história, e assim expressar sua fé no retorno do Senhor. A cruz estava inicialmente intimamente ligada a essa orientação .

Na oração, ela é representada, por assim dizer, como um estandarte que o rei erguerá em sua vinda; na imagem da cruz, a vanguarda da procissão já chegou entre os que oram. Para o cristianismo primitivo, a cruz é, portanto, acima de tudo, um sinal de esperança. Implica não tanto uma referência ao Senhor do passado, mas ao Senhor que está para vir. Certamente, era impossível escapar da necessidade intrínseca de que, com o passar do tempo, nosso olhar se voltasse também para o evento ocorrido: contra qualquer fuga para o espiritual, contra qualquer incompreensão da encarnação de Deus, era necessário defender a generosidade inimaginável do amor de Deus, que, por amor à miserável criatura humana, se fez homem — e que homem! Era necessário defender a santa loucura do amor de Deus, que escolheu não proferir uma palavra de poder, mas trilhar o caminho da impotência para humilhar nosso sonho de poder e conquistá-lo por dentro.

Mas não nos esquecemos, por demais, da ligação entre a cruz e a esperança, da unidade entre o Oriente e a direção da cruz, entre o passado e o futuro que existe no cristianismo? O espírito de esperança que respira nas orações do Sábado Santo deve permear, mais uma vez, todo o nosso ser cristão. O cristianismo não é apenas uma religião do passado, mas, não menos importante, do futuro; sua fé é, ao mesmo tempo, esperança, pois Cristo não é apenas aquele que morreu e ressuscitou, mas também aquele que há de vir.

Ó Senhor, iluminai nossas almas com este mistério da esperança para que possamos reconhecer a luz que brilha da vossa cruz. Concedei-nos, como cristãos, que prossigamos rumo ao futuro, rumo ao dia da vossa vinda.
Amém.

A Ressurreição | 30Giorni

ORAÇÃO 

Senhor Jesus Cristo, na escuridão da morte, Vós lançastes luz; no abismo da mais profunda solidão, a poderosa proteção do Vosso amor agora habita para sempre; em meio ao Vosso ocultamento, podemos agora cantar o Aleluia dos salvos. Concedei-nos a humilde simplicidade da fé, que não se deixa enganar quando nos chamais nas horas de escuridão, de abandono, quando tudo parece problemático; concedei-nos, neste tempo em que uma batalha mortal se trava ao Vós, luz suficiente para não Vos perdermos; luz suficiente para que possamos dá-la àqueles que dela necessitam ainda mais. 

Que o mistério da Vossa alegria pascal brilhe como a aurora em nossos dias; concedei-nos ser verdadeiramente homens da Páscoa em meio ao Santo Sábado da história. Concedei-nos que, através dos dias claros e escuros deste tempo, possamos sempre nos encontrar caminhando com alegria rumo à Vossa futura glória. Amém.

Fonte: https://www.30giorni.it/

Papa: a Igreja é humana e divina, sinal visível da ação de Cristo na história

Audiência Geral, 04/03/2026 - Papa Leão XIV (Vatican News)

Na catequese da Audiência Geral desta quarta-feira, 4 de março, Leão XIV refletiu sobre a natureza da Igreja à luz da Constituição dogmática Lumen Gentium. “Não existe uma Igreja ideal e pura, separada da terra, mas apenas a única Igreja de Cristo, encarnada na história”, destacou o Pontífice.

https://youtu.be/Kwhiegtqqvg

Thulio Fonseca – Vatican News

Na Audiência Geral desta quarta-feira (4/03), na Praça São Pedro, o Papa Leão XIV deu continuidade ao ciclo de catequeses sobre a Constituição dogmática Lumen Gentium, refletindo sobre a natureza da Igreja. O Pontífice destacou que ela é uma realidade “complexa”, não por ser confusa, mas porque reúne, de modo harmonioso, a dimensão humana e a divina, sem que uma se oponha à outra. Não existe, segundo o Santo Padre, uma Igreja ideal separada da história, mas a única Igreja de Cristo, encarnada no tempo e formada por pessoas reais.

Ao explicar o sentido dessa “complexidade”, o Papa recordou que o primeiro capítulo da Lumen Gentium procura responder à pergunta fundamental: o que é a Igreja? Para isso, o Concílio a define como “um organismo bem estruturado, no qual coexistem as dimensões humana e divina, sem separação nem confusão”.

A dimensão humana e a origem divina da Igreja

Leão XIV explicou que a dimensão humana da Igreja é a mais visível: trata-se de uma comunidade de homens e mulheres que vivem a alegria e o peso de ser cristãos, com suas forças e fragilidades, anunciando o Evangelho e sendo sinal da presença de Cristo no mundo. Contudo, essa descrição não é suficiente para compreender plenamente a Igreja, que possui também uma origem e uma dimensão divina.

“A Igreja não é fruto de uma perfeição ideal dos seus membros, mas nasce do plano de amor de Deus pela humanidade, realizado em Cristo.”

 (@VATICAN MEDIA)

A Igreja à luz da humanidade de Cristo

O Papa recordou que, por isso, a Igreja é, ao mesmo tempo, comunidade terrena e Corpo Místico de Cristo, assembleia visível e mistério espiritual, realidade inserida na história e povo em peregrinação rumo ao céu. Para ilustrar essa realidade, recorreu à experiência dos discípulos com Jesus. Eles encontravam um homem concreto, com rosto, voz e gestos, mas, ao segui-lo, abriam-se ao encontro com o próprio Deus: “A carne de Cristo, o seu rosto, os seus gestos e as suas palavras manifestam visivelmente o Deus invisível.”

Da mesma forma, ao olhar para a Igreja, vê-se uma dimensão humana feita de pessoas que, por vezes, refletem a beleza do Evangelho e, em outras, mostram limites e erros. No entanto, é precisamente através dessa fragilidade que Cristo continua a agir e a salvar.

Não há oposição entre Evangelho e instituição

O Santo Padre recordou as palavras de Bento XVI para reafirmar que não existe oposição entre o Evangelho e as estruturas da Igreja, pois elas servem justamente para tornar o Evangelho concreto na vida do nosso tempo:

“Não existe uma Igreja ideal e pura, separada da terra, mas apenas a única Igreja de Cristo, encarnada na história. A santidade da Igreja consiste nisto: no fato de Cristo habitar nela e continuar a doar-se através da pequenez e fragilidade dos seus membros.”

 (@Vatican Media)

A caridade edifica a Igreja

Já na parte final da catequese, Leão XIV recordou que Deus se manifesta por meio da fraqueza humana e convidou os fiéis a edificarem a Igreja não apenas por meio das suas estruturas visíveis, mas sobretudo através da comunhão e da caridade, que geram constantemente a presença do Ressuscitado.

E, citando Santo Agostinho, o Pontífice concluiu: “Queira o céu que todos pensem somente na caridade: ela só, de fato, conquista todas as coisas, e sem ela todas as coisas são inúteis; onde quer que se encontre, atrai todas as coisas a si”.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

terça-feira, 3 de março de 2026

São José, o homem de Março, é o nosso modelo para a Quaresma

Joan Sutter | Joan Sutter

Tom Hoopes - publicado em 03/03/26

Assim como Maria nos ensina a viver o Advento, José é um símbolo e um companheiro para a Quaresma.

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Na tradição da Igreja, março é dedicado a São José — e no calendário litúrgico, a Quaresma ocorre principalmente em março. Isso faz de José o nosso guia quaresmal a cada ano. Faz todo o sentido. Ele é um guia quaresmal da mesma forma que a Virgem Maria é a “Mulher do Advento”.

Maria nos mostra como receber Cristo no Advento

O Advento é sobre receptividade, e isso faz de Maria “a Virgem do Advento”, como disse São João Paulo II.

Enquanto aguardamos a vinda de Cristo, a Igreja nos direciona repetidamente às virtudes marianas: a Imaculada Conceição, que celebra sua impecabilidade em 8 de dezembro; a (nova) festa de Nossa Senhora de Loreto, em 10 de dezembro, que celebra o lar que ela preparou para Jesus; e a Festa de Nossa Senhora de Guadalupe, em 12 de dezembro, que celebra como ela preparou o Novo Mundo para Cristo em 1531.

Maria nos mostra como preparar um lugar para Jesus em nossas vidas, assim como ela fez no mundo.

Mas se o Advento é sobre a “ausência de Cristo”, quando lemos sobre o anseio dos profetas por Cristo, a Quaresma é sobre a “plenitude de Cristo”, quando esperamos com Jesus Cristo no deserto, caminhamos com Ele pelo Caminho da Cruz e nos preparamos para a Sua vitória final na Páscoa.

Da mesma forma, São José nos mostra como manter Cristo na Quaresma.

Enquanto o Advento é o tempo da receptividade, a Quaresma é o tempo da custódia — onde cuidamos, guardamos e protegemos o grande dom de Cristo em nossas vidas. Esperamos por Cristo no Advento, mas esperamos com Cristo na Quaresma. Cristo veio e nos pediu que permanecêssemos com Ele até o fim.

Não há modelo melhor para isso do que São José. A festa de São José, em 19 de março, é a de Esposo de Maria, quando celebramos o construtor de Nazaré que primeiro teve que mudar sua vida porque Jesus havia vindo ao mundo.

Quando o Evangelho diz “O Verbo se fez carne e habitou entre nós”, o grego na verdade diz que ele “tabernaculou entre nós”. Em outras palavras, o Verbo entrou na família de José, viveu na casa de José e se confiou aos seus cuidados. No Antigo Testamento, Davi se ofereceu para construir uma casa para Deus, mas Deus recusou. Mas José, da casa de Davi, construiu uma casa para Jesus, e sua própria casa se tornou um Santo dos Santos, abrigando o próprio Deus.

Essa é a nossa tarefa na Quaresma: sermos melhores guardiões do dom de Cristo, moldando nossa casa de acordo com as suas necessidades.

José também foi o modelo do sacrifício de Cristo

O outro foco principal da Quaresma é a Paixão de Cristo. Ao tomarmos a nossa cruz e seguirmos Jesus, São José é, mais uma vez, o nosso modelo. Toda a sua vida foi dedicada ao sacrifício, à oração e à doação de si, enquanto vivia um casamento celibatário literalmente centrado em Cristo e respondia obedientemente ao Senhor que o chamava repetidamente.

Mas ele também foi um modelo da Paixão de outra forma, segundo Madre Teresa. “São José é o exemplo mais maravilhoso!”, disse ela. “Quando ele percebeu que Maria estava grávida, ele só precisava fazer uma coisa: ir até o sacerdote e dizer: ‘Minha esposa teve um filho, não é meu.’… Eles a teriam apedrejado; essa era a regra.” Em vez disso, segundo Madre Teresa, “ele decidiu: ‘Vou fugir.’ E a regra era que… se ele fugisse e deixasse sua esposa grávida, eles o apedrejariam.”

Se era isso que José tinha em mente — e faz sentido —, então, a cada março, comemoramos o homem na vida de Jesus que foi um modelo de assumir os pecados de seus entes queridos.

Por fim, São José é o modelo do homem virtuoso que a Quaresma existe para nos ajudar a nos tornarmos.

O Evangelho de Mateus identifica José como um homem “justo” ou “íntegro”. O Papa Bento XVI destacou que o público judeu de Mateus saberia como um “homem justo” é definido — pelo Salmo 1.

Diz: “Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios… cujo prazer é a lei do Senhor, e que medita na sua lei dia e noite”. Pense nisso como uma descrição de São José, um homem forte, silencioso e firme, que não diminuiu Maria e Jesus, mas os complementou, “como uma árvore plantada junto a ribeiros de águas, que dá o seu fruto no tempo certo”.

A carta do Papa Francisco sobre São José celebra todos aqueles que, como José, são: “pessoas comuns, pessoas muitas vezes esquecidas. Pessoas que não aparecem nas manchetes dos jornais e revistas, ou no último programa de televisão, mas que, nestes mesmos dias, certamente estão moldando os eventos decisivos da nossa história”.

A Quaresma é o tempo de moldar os nossos corações nas virtudes de José, moldando o futuro sem alarde, para Cristo.

Fonte: https://pt.aleteia.org/

Exercícios espirituais: dar glória a Deus é a missão principal na Igreja, o resto vem depois

O Papa durante a meditação do pregador Varden nos Exercícios Espirituais na Capela Paulina  (@Vatican Media)

O bispo Erik Varden faz sua décima reflexão nos Exercícios Espirituais no Vaticano para o Papa Leão XIV, os cardeais residentes em Roma e os chefes dos Dicastérios, concentrando-se no tema: "A consideração". Publicamos um resumo de sua reflexão.

Vatican News

São Bernardo escreveu um tratado dedicado especificamente à "Consideração". Foi um best-seller, com uma difusão maior do que qualquer outra de suas obras. Isso pode parecer estranho, já que o texto é essencialmente uma carta dirigida a um homem específico numa posição singular. Bernardo a escreveu para um confrade, um monge italiano chamado Bernardo dei Paganelli que foi ordenado sacerdote em Pisa e depois, ingressou em Clairvaux em 1138. Em 1145, Paganelli tornou-se o Papa Eugênio III.

A contemplação ocupa-se de verdades já conhecidas. A consideração procura a verdade nos assuntos humanos contingentes, onde pode ser difícil percebê-la. Pode ser definida como “o pensamento inteiramente voltado, ou a tensão da alma, em busca da verdade”.

Considerando os problemas da Igreja, Bernardo não oferece soluções institucionais, mas aconselha Eugênio a cercar-se de pessoas boas: quanto melhor forem administrados os escritórios centrais da Igreja, maior será o benefício para a Igreja em todo o mundo.

As qualidades que Bernardo lhe pede para buscar e cultivar são válidas em todos os tempos: são necessários colaboradores que sejam "de comprovada integridade, dispostos a obedecer, pacientes e mansos; [...] de firme fé católica, fiéis em seu ministério; amantes da harmonia, da paz e da unidade; [...] prudentes no conselho, [...] astutos na administração, [...] modestos na fala".

Tais pessoas "amam e apreciam a oração e depositam nela sua esperança mais do que em sua própria sabedoria ou trabalho; sua entrada é discreta, sua despedida sem pompa".

Na medida em que a Igreja age nesses termos, ela refletirá a organização das hierarquias angélicas. Qualquer pessoa que a considere verá imediatamente sua missão principal: dar glória a Deus.

Para considerar corretamente as necessidades terrenas, devemos buscar, por meio delas, o que está acima. Isso não é, diz Bernardo a Eugênio, de modo algum "ir para o exílio: considerar dessa maneira é retornar à pátria".

Bernardo se pergunta: o que é Deus? Vontade onipotente, virtude benevolente, razão imutável. Deus é "suprema bem-aventurança" que, por amor, deseja compartilhar sua divindade conosco. Ele nos criou para desejá-lo, nos expande para recebê-lo, nos justifica para merecê-lo. Ele nos guia na justiça, nos molda na benevolência, nos ilumina com o conhecimento e nos preserva para a imortalidade.

Independentemente de todas as outras obrigações que os prelados possam ter, e são muitas, essas realidades devem ser consideradas em primeiro lugar. Assim, sua consideração sobre assuntos práticos será também iluminada, ordenada, abençoada e fecunda.

Um prelado, segundo Bernardo, deve haver princípios, deve ser santo e austero, mas também deve ser amigo do Esposo e se alegrar em compartilhar essa amizade com os outros.

Agostinho frequentemente descreve o ofício episcopal como uma sarcina, o pacote de um legionário. É uma imagem um tanto brutal, concebida por alguém familiarizado com a desolação e o medo das campanhas no deserto do Norte da África. Agostinho, contudo, continua a improvisar sobre o tema que ele mesmo estabeleceu. Embora o fardo pastoral pareça assustador, ele só o é se não conseguimos ver quem coloca esse fardo sobre os ombros. Pois nada mais é do que uma participação no doce jugo do próprio Cristo, que nos faz descobrir que a cruz que nos foi confiada é luminosa e leve, e que poder compartilhá-la é uma fonte de alegria.

"Carrega o seu fardo até o fim", diz Agostinho num sermão. "Se você o amar, será leve; se o odiar, será pesado." Perduc sarcinam tuam quia levis est si diligis gravis si odisti”.

"Teu, ó bom Jesus", escreveu Bernardo em sua Vida de São Malaquias, o Irlandês, "é o encargo que nos foi confiado; teu é o tesouro escondido em nossa posse, para ser devolvido quando o quiseres de volta."

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

TEMPO DE PÁSCOA: A Angústia da Ausência. Meditações sobre o Sábado Santo (Parte 2/3)

A Crucificação | 30giorni

TEMPO DE PÁSCOA

retirado do nº 03 – 2006, Revista 30Dias

Três Meditações sobre o Sábado Santo por Joseph Ratzinger

A Angústia da Ausência. Meditações sobre o Sábado Santo

Por Cardeal Joseph Ratzinger

SEGUNDA MEDITAÇÃO

O ocultamento de Deus neste mundo constitui o verdadeiro mistério do Sábado Santo, um mistério já insinuado nas enigmáticas palavras de que Jesus "desceu ao inferno". Ao mesmo tempo, a experiência do nosso tempo nos ofereceu uma abordagem completamente nova ao Sábado Santo, pois o ocultamento de Deus no mundo que lhe pertence e que deveria proclamar o seu nome com mil línguas, a experiência da impotência de Deus que, no entanto, é onipotente — esta é a experiência e a miséria do nosso tempo. Mas mesmo que o Sábado Santo tenha se aproximado tão profundamente de nós, mesmo que compreendamos o Deus do Sábado Santo mais do que a poderosa manifestação de Deus em meio a trovões e relâmpagos mencionada no Antigo Testamento, permanece a questão do que realmente significa quando se diz misteriosamente que Jesus "desceu ao inferno". 

Sejamos claros: ninguém é capaz de explicá-lo verdadeiramente. Tampouco fica mais claro dizer que aqui inferno é uma tradução inadequada da palavra hebraica sheol. que se refere simplesmente a todo o reino dos mortos, e, portanto, a fórmula originalmente significava apenas que Jesus desceu às profundezas da morte, morreu de verdade e compartilhou do abismo do nosso destino mortal. De fato, surge então a questão: o que é realmente a morte e o que de fato acontece quando alguém desce às profundezas da morte? Devemos aqui considerar o fato de que a morte não é mais a mesma depois que Cristo a suportou, depois que a aceitou e a penetrou, assim como a vida, o ser humano, não é mais a mesma depois que, em Cristo, a natureza humana pôde entrar em contato, e de fato entrou, com o próprio ser de Deus.

Anteriormente, a morte era meramente morte, separação da terra dos vivos e, embora em uma profundidade diferente, algo como o "inferno", o lado noturno da existência, escuridão impenetrável. Mas agora a morte também é vida, e quando cruzamos a gélida solidão do limiar da morte, encontramos continuamente aquele que é a vida, que quis tornar-se companheiro de nossa solidão derradeira e que, na solidão mortal de sua angústia no Jardim das Oliveiras e em seu grito na cruz, "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?", tornou-se participante de nossa solidão. Se uma criança se aventurasse sozinha pela noite escura em uma floresta, teria medo mesmo que lhe provássemos cem vezes que não havia perigo. Ela não tem medo de algo específico, algo que possa ser nomeado, mas na escuridão experimenta insegurança, orfandade, a natureza sinistra da própria existência. Somente uma voz humana poderia consolá-la; somente a mão de um ente querido poderia dissipar a angústia como um pesadelo. 

Há uma angústia — a verdadeira, aninhada nas profundezas de nossa solidão — que não pode ser vencida pela razão, mas apenas pela presença de alguém que nos ama. Essa angústia, na verdade, não tem objeto ao qual possamos dar um nome, mas é apenas a expressão terrível de nossa solidão suprema. Quem não sentiu a sensação aterradora desse estado de abandono? Quem não sentiria o milagre sagrado e consolador que uma palavra de afeto proporciona nesses momentos? Mas onde há tamanha solidão que não pode mais ser alcançada pela palavra transformadora do amor, então falamos do inferno. E sabemos que não são poucos os que, em nossa época aparentemente otimista, acreditam que todo encontro permanece superficial, que ninguém tem acesso às profundezas últimas e verdadeiras do outro e que, portanto, no âmago de toda existência reside o desespero, o próprio inferno. Jean-Paul Sartre expressou isso poeticamente em uma de suas peças, expondo simultaneamente o cerne de sua doutrina da humanidade. 

Uma coisa é certa: existe uma noite em cujo abandono escuro nenhuma palavra de consolo penetra, uma porta que devemos atravessar em absoluta solidão: a porta da morte. Toda a angústia deste mundo é, em última análise, a angústia causada por essa solidão. Por essa razão, no Antigo Testamento, o termo para o reino dos mortos era idêntico ao do inferno. Sheol A morte, na verdade, é a solidão absoluta. Mas aquela solidão que não pode mais ser iluminada pelo amor, que é tão profunda que o amor não consegue mais alcançá-la, é o inferno.

"Desceu ao inferno": esta confissão do Sábado Santo significa que Cristo ultrapassou os portões da solidão, que desceu às profundezas inalcançáveis ​​e intransponíveis da nossa condição de solidão. Significa, porém, que mesmo na noite final, na qual nenhuma palavra penetra, na qual somos todos como crianças expulsas, chorando, há uma voz que nos chama, uma mão que nos toma e nos guia. A solidão intransponível do homem foi vencida no momento em que ele se viu nela. O inferno foi conquistado no momento em que o amor também entrou na região da morte e a terra de ninguém da solidão foi habitada por ele. Em suas profundezas, o homem não vive de pão, mas na autenticidade do seu ser, vive pelo fato de ser amado e de ter permissão para amar. A partir do momento em que a presença do amor se faz presente no espaço da morte, a vida penetra a morte: para os vossos fiéis, ó Senhor, a vida não é tirada, mas transformada — reza a Igreja na liturgia fúnebre.

Ninguém pode, em última análise, medir o significado destas palavras: "desceu ao inferno". Mas se nos for concedido aproximar-nos da hora da nossa solidão final, poderemos vislumbrar algo da grande clareza deste mistério obscuro. Na certeza de que, nessa hora de extrema solidão, não estaremos sós, já podemos vislumbrar algo do que está por vir. E em meio ao nosso protesto contra as trevas da morte de Deus, começamos a ser gratos pela luz que nos chega dessas mesmas trevas.

Fonte: https://www.30giorni.it/

segunda-feira, 2 de março de 2026

Exercícios espirituais, a realidade é um grito que implora a misericórdia de Deus

O Papa ouvindo a meditação do pregador Varden durante os Exercícios Espirituais na Capela Paulina  (@Vatican Media)

O bispo Erik Varden faz sua nona reflexão nos Exercícios Espirituais no Vaticano para o Papa Leão XIV, os cardeais residentes em Roma e os chefes dos Dicastérios, concentrando-se no tema: "São Bernardo realista". Publicamos um resumo de sua reflexão.

Vatican News

A identidade do movimento cisterciense é forjada na interface entre o ideal e o concreto, o poético e o pragmático. Seus protagonistas são postos à prova e purificados pelas tensões que daí decorrem.

Falei dos elevados ideais de Bernardo, da sua inclinação para elaborar mentalmente uma linha de conduta, seguida depois de forma um pouco drástica. Era natural para ele mirar alto. Uma característica intransigente nunca o abandonou, mas suavizou-se com o tempo. É deste processo que devemos agora falar: transformou o idealista num realista.

O psicanalista Jacques Lacan disse que "o real" é aquilo com que nos colidimos. A amplitude dos esforços de Bernardo na Realpolitik fez com que ele se colidisse com frequência. Mas ele se tornou um realista, não apenas no sentido de aceitar as coisas como são, mas também porque aprendeu que a realidade mais profunda de todas as vicissitudes humanas é um grito que implora misericórdia.

Quanto mais aprendia a reconhecer esse grito nos corações humanos angustiados, nas lágrimas amargas, nos conflitos mundanos, nas campanhas insanas contra a decência e a verdade — e até mesmo no sussurro das árvores da floresta — mais Bernardo se tornava consciente da resposta gloriosa e misericordiosa de Deus. Ele a ouvia no santo nome de Jesus, que se tornou indizivelmente querido a ele. Em Jesus, Deus revela seu plano de salvação, derramando-o sobre a humanidade como um óleo perfumado, curativo e purificador.

“Todo alimento para a alma”, disse Bernardo aos seus monges, “é árido, se não estiver impregnado deste óleo; é insípido, se não for temperado com este sal. Se você escreve, para mim não tem sabor, se eu não ler Jesus. Se você discute ou discursa, para mim não tem sabor, se não ressoar Jesus. Jesus, mel na boca, melodia no ouvido, júbilo no coração.”

Bernardo aprendeu as maravilhas que a misericórdia de Deus pode realizar em Jesus. Isso deu à sua devoção uma profundidade afetiva. O termo affectus é fundamental para ele. Tem um amplo espectro de significados, mostrando que a graça nos move como seres encarnados, permitindo que nossos sentidos percebam Deus. Mas Bernardo considerava Jesus, a encarnação da verdade, nada menos que um princípio hermenêutico. Ele interpretava situações, pessoas e relações rigorosamente à luz de Jesus. Essa perspectiva lhe renderá admiradores convictos muito além do rebanho católico, de Martinho Lutero ao fundador do movimento metodista, John Wesley.

Somente quando iluminada de forma sobrenatural, nossa natureza revelará sua forma perfeita, sua forma bem torneada; somente então ficará evidente o deleite de que a vida terrena é capaz; somente então a glória escondida dentro de nós e ao nosso redor brilhará com intensos lampejos, ensinando-nos o que nós, e os outros, podemos nos tornar, fornecendo um paradigma para um mundo renovado. 

Tal é o realismo ao qual Bernardo chegou em sua maturidade! Isso lhe permitiu tornar-se não apenas um grande reformador, um orador sem igual e um líder da Igreja: o conhecimento da realidade absoluta do amor de Cristo e de seu poder de transformar tudo fez de Bernardo um doutor e um santo. É por isso que o amamos e o honramos.

"Ele era", nos diz a Primeira Vida, "livre em si mesmo". Isso é o que a vida lhe ensinou. Um homem ou uma mulher verdadeiramente livre é uma realidade verdadeiramente gloriosa.

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Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF