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terça-feira, 17 de março de 2026

São José: artesão da paz

São José, o artesão do silêncio (Canção Nova)

SÃO JOSÉ: ARTESÃO DA PAZ E FORMADOR DE UMA NOVA HUMANIDADE 

17/03/2026

Dom Roberto Francisco Ferrería Paz
Bispo de Campos (RJ)

Ir ao encontro de São José sempre será uma experiência de profunda alegria, serenidade e confiança. Especialmente nestes tempos de incerteza, conflitos dilacerantes e ódio inuscitado.  

Com ele aprendemos o verdadeiro sentido da paz, não a paz de acordos, normas e declarações tantas vezes repetidas, certamente uteis, mas insuficientes.  

Sua pessoa sábia, prudente e silenciosa nos permite descobrir a paz como dádiva divina que mostrou seu esplendor na Noite de Natal, na gruta de Belém. Ela é sempre um anuncio que nos transcende mas que nos envolve e convida sempre a uma resposta.  

O Cardeal Renato Raffaele Martino no seu livro Paz e Guerra, que acompanha a evolução teológica dos conceitos de paz, passando de uma paz delimitada pelo direito da guerra justa como era considerada no Tratado De Iustitia et Iure (Da justiça e do direito) a concepção mais ampla da ordinata concórdia da paz, uma paz social nascida da concordância dos corações. Seguindo a Santo Agostinho, Santo Tomás afirmava que a “paz dos Santos é serenidade da mente, tranquilidade de ânimo, simplicidade de coração, vínculo de amor e consórcio de caridade, (Summa Theologiae III, d 27, q 2, 1.) Paz inspirada em Deus pois Ele é o dador da paz, aquele que ama, o seu autor e quem a habita.  

São José nos apresenta no seu filho adotivo, a paz messiânica, enraizada na ação pacificadora do Reino na história humana. Paz que proposta pela Igreja, nos leva a uma opção profética e um compromisso ético com todas as pessoas, povos e nações da terra.  

No entanto nunca deveríamos esquecer que ela brota dos pequenos e humildes, dos mansos e dos pobres, que como o justo José, se tornam artesãos cotidianos da paz, com sua entrega, simplicidade de vida, solidariedade fraterna e sua justiça equitativa e generosa que cura e restaura relacionamentos, formas de convivência e congraçamento humano. 

Pois nunca teremos estruturas de paz, sem homens e mulheres de paz, sem pessoas pacíficas. José nos ensina o caminho de uma paz desarmada e desarmante, centrada na vontade de Deus, construída a partir do paciente empenho de servir sempre na escuta, diálogo e entendimento, superando a armadilha da tese do choque das civilizações, para como falava entusiasmado Dom Helder Câmara promover a sinfonia de todos os povos e culturas.  

Na humilde oficina de Nazaré onde o menino Jesus acostumou suas mãos ao trabalho, sua mente e coração humano a compreender o sentido e valor da nossa vida, iniciou-se a forja de uma nova humanidade, começou a transformação mais profunda da nossa história, abriram-se definitivamente nossos horizontes a uma shalom integra e integral, de reconciliação plena com Deus, e fraternidade para com todas as pessoas e criaturas, com todo o universo. São José homem, justo, pacífico e pai de ternura, rogai por nós! 

Fonte: https://www.cnbb.org.br/

O Papa: Amazônia, ameaçada por situações de abuso e exploração

Defesa da região amazônica (Vatican Media)

Leão XIV enviou uma mensagem de vídeo aos participantes da VI Assembleia Geral da Conferência Eclesial da Amazônia (Ceama) que se realiza em Bogotá. O Papa encoraja pastores e fiéis "a continuarem juntos no fortalecimento da identidade de discípulos missionários na Amazônia".

Mariangela Jaguraba – Vatican News

Foi divulgada, nesta terça-feira (17/03), a mensagem de vídeo do Papa Leão XIV aos participantes da VI Assembleia Geral da Conferência Eclesial da Amazônia (Ceama), que se realiza, em Bogotá, na Colômbia, de 16 a 20 de março.

De acordo com o Pontífice, os participantes estão "vivendo um momento privilegiado de escuta do Espírito Santo para discernir o caminho das comunidades arraigadas nessa região".

Os membros da Ceama partilharam com o Pontífice alguns passos dados, "bem como os desafios que estão enfrentando". "Vocês me fizeram partícipe dos sofrimentos e das esperanças dos habitantes da região, bem como da crescente deterioração de seu ambiente natural", disse Leão XIV, expressando sua "proximidade a todas as pessoas que vivem essa situação".

O Santo Padre expressa satisfação pelo fato de a assembleia ter "entre seus objetivos a elaboração dos Horizontes Pastorais Sinodais", que, segundo ele, "podem ser um instrumento útil para orientar o anúncio de um Deus que ama infinitamente cada ser humano, que manifestou plenamente esse amor em Cristo".

A seguir, Leão XIV recordou a eleição da presidência 2026-2030 que será feita durante a assembleia, "cuja tarefa será continuar incentivando a implementação do Sínodo para a Amazônia e, ao mesmo tempo, preparar as contribuições de sua experiência para a Assembleia Eclesial em Roma, prevista para o ano de 2028".

"Com o desejo de abrir novos caminhos na missão da Igreja nesta terra amada", a Ceama escolheu um texto bíblico que inspira suas reflexões: "Estou fazendo uma coisa nova: ela está brotando agora, e vocês não percebem?"

Ser um sinal de unidade na diversidade e um refúgio seguro

De acordo com o Papa, "algo novo está nascendo, ainda é frágil, mas já está em andamento, talvez imperceptível, mas como a semente da árvore shihuahuaco, o 'gigante da selva', que cresce muito lentamente, mas é capaz de viver mais de mil anos, um colosso de dezenas de metros de altura, com uma copa densa, que se torna um refúgio seguro para águias, tucanos, gaviões, micos, sakis e esquilos, transformando-se num ecossistema à parte".

“Isso pode ajudar a compreender, queridos irmãos, o que a Igreja deseja: ser um sinal de unidade na diversidade e um refúgio seguro, que gera e protege a vida.”

O Papa os convida "a trabalhar com a confiança de uma fé enraizada em Cristo, que nos repete: 'Eu te amei', pois é precisamente este amor divino-humano de Jesus que nos transforma em homens e mulheres novos. Este amor, contemplado na oração, nos envia a responder com generosidade e coragem na missão".

O contexto atual exige uma resposta adequada

"Nesse sentido", diz ainda Leão XIV "se quisermos pertencer a Cristo – o autêntico 'gigante da floresta' e 'o primogênito de toda a criação', somos chamados a ser a Igreja das Bem-aventuranças, uma Igreja que acolhe os pequenos e caminha na pobreza com os pobres".

“Certamente, o contexto atual exige uma resposta adequada diante dos numerosos desafios sociais, ambientais, culturais e eclesiais que persistem na Amazônia, ameaçada por situações de abuso e exploração.”

De acordo com o Papa, "o papel profético da Igreja e de todos os seus membros, cada um segundo a sua missão", é o de "proclamar o kerygma e a vida nova em Cristo, acompanhar os que sofrem, cuidar da criação e respeitar a vida em todas as suas formas, especialmente a vida humana".

Vídeo em espanhol

Moldar uma Igreja com 'rosto amazônico'

Segundo Leão XIV, outro objetivo da Conferência Eclesial da Amazônia "é moldar uma Igreja com 'rosto amazônico', desejo do Sínodo dos Bispos na Assembleia Especial para a Região Pan-Amazônica".

De acordo com ele, "esta tarefa deve ser feita com a convicção de que, pela inculturação da fé, a Igreja se enriquece com novas expressões e valores, manifestando e celebrando o mistério de Cristo de maneira cada vez mais eficaz, unindo a fé mais intimamente à vida e contribuindo assim para uma catolicidade mais plena, não só geograficamente, mas também culturalmente".

Identidade de discípulos missionários na Amazônia

"A inculturação é um caminho difícil, mas necessário", diz ainda o Papa, recordando que "é preciso acolher com coragem a novidade do Espírito, capaz de sempre criar algo novo com o tesouro inexaurível de Jesus Cristo".

Leão XIV encoraja pastores e fiéis, "a continuarem juntos no fortalecimento da identidade de discípulos missionários na Amazônia".

“Continuem semeando no sulco que também foi regado pelo sangue de tantos homens e mulheres que os precederam e que, unidos à paixão de Cristo, se tornaram a raiz de uma 'árvore gigante' que cresce na Amazônia.”

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/

segunda-feira, 16 de março de 2026

Aprendendo a renascer

Quaresma Tempo de: Silêncio (Amigo Católico/YouTube)

APRENDENDO A RENASCER 

16/03/2026

Dom Lindomar Rocha Mota
Bispo de São Luís de Montes Belos (GO) 

A Quaresma pertence a uma ordem mais profunda das experiências humanas, como lugar interior, uma região silenciosa onde o espírito entra para reencontrar a verdade de si mesmo. O tempo, nesse caso, funciona apenas como medida externa. O essencial acontece na dimensão em que a alma aprende a caminhar. 

Desde cedo, a literatura universal percebeu essa espiritualidade. Os grandes escritores, atentos às oscilações do caminho humano, reconheceram nela a imagem da conversão. O impulso necessário para mudar de direção. 

A Quaresma é um desvio necessário para sair da dispersão para o centro, da ilusão para a lucidez, do barulho para o silêncio. 

Por essa experiência a humanidade reaprende a desejar o que a eleva e, através da penitência, nessa lenta recuperação da luz, alcançar a fidelidade com a sua natureza. 

Embora penosa, a quaresma não é triste. É mais como a ordenação do coração humano, que encontra nesse espaço espiritual a possibilidade de recuperar o seu ritmo.  

No mundo moderno, onde as certezas se fragmentam e as vozes se multiplicam, T. S. Eliot descreveu a quaresma como um deserto da consciência. O lugar onde se percebe o esforço de uma alma que desaprende as falsas esperanças para reaprender a esperar. Permanecer em silêncio, resistir à pressa, aceitar a aridez como trajeto é uma lição espiritual permanente. 

No lugar quaresmal a humanidade moderna reencontra o sentido perdido entre tantas promessas vazias. 

Dostoiévski, por sua vez, escreveu a noite dessa travessia. Seus personagens carregam culpas profundas, sofrem quedas e experimentam o peso da própria condição humana. Contudo, é justamente nesse sofrimento que nasce a possibilidade de redenção. A Quaresma surge como purificação existencial. O reconhecimento da própria fragilidade abre espaço para o amor que salva e a dor se torna caminho. 

Manzoni amplia esse horizonte para a história coletiva. Em suas páginas, a humanidade inteira parece atravessar um tempo de provação. Crises sociais, medo e incerteza revelam tanto a vulnerabilidade quanto a capacidade de solidariedade. A Quaresma é, então, uma dimensão comunitária. Não apenas indivíduos, mas povos inteiros precisam atravessar desertos para amadurecer. 

Se olharmos com atenção, perceberemos que todos esses autores intuíram, como verdade submersa, que a Quaresma é o espaço onde a pessoa permite-se ser transformada. Ela não se reduz ao jejum exterior, nem às práticas visíveis. É, antes, um movimento interior de desapego e reencontro. Algo precisa morrer para que algo maior possa surgir. 

Talvez por isso esse tempo seja, paradoxalmente, luminoso. Há nele uma tristeza fecunda, uma sobriedade cheia de promessa. Como a terra que se prepara em silêncio para a primavera, a alma quaresmal trabalha no invisível. O mundo continua a girar, os dias continuam a passar, mas dentro do coração algo está germinando. 

É uma atitude diante da vida. É o caminho através do qual aprendemos, repetidas vezes, a renascer. 

Fonte: https://www.cnbb.org.br/

ARQUEOLOGIA CRISTÃ: "O verdadeiro sangue está no altar e parece vinho."

A epígrafe eucarística em São Lourenço Fora dos Muros | 30Giorni.

1 - (Adsp)ICE QUI TRANSIS QUAM SIT BREVIS AC(cipe vita)
2 - (Atqu)E TUAE NAVIS ITER AD LITUS PARAD(isi)
3 - (Der)EGE QUO VULTUM DOMINI FACIAS TIBI PO(rtum)
4 - (Dica)T IAM QUISQUIS HAEC SACRA PERH(auriat horas)
5 - (Glor)IA SUMMA DOMINUS LUMEN SAPIENTIA VIR(tus)
6 - (Cui)US [ou: (Ver)US] IN ALTARI CRUOR EST VINUMQUE (videtur)
7 - (Qui)QUE TUI LATERIS PER OPUS MIRAE (pietatis)
8 - (Omni)POTENTER AQUAM TRIBUIS BAPTI(smate lotis)

ARQUEOLOGIA CRISTÃ

retirado do nº 03 – 2006, Revista 30Dias

"O verdadeiro sangue está no altar e parece vinho."

Na Basílica de San Lorenzo fuori le Mura, em Roma, conserva-se a mais antiga epígrafe cristã em latim que se refere explicitamente à transubstanciação.

Por Lorenzo Bianchi

O padre Egidio Picucci merece crédito por ter chamado a atenção recentemente, com um artigo publicado no Osservatore Romano em 11 de dezembro de 2005, para uma epígrafe singular de oito versos localizada na Basílica de São Lourenço Fora dos Muros, em Roma. Trata-se da única epígrafe cristã antiga conhecida que se refere explicitamente à transubstanciação, ou seja, ao fato de que, na Santa Missa, o pão e o vinho se transformam no verdadeiro corpo e sangue de Cristo. De fato, o texto, no versículo 6, afirma que o sangue (" cruor ") do Senhor é oferecido no altar, que aparenta (" vided ") ser vinho, mas é, na verdade, o sangue que jorrou com água do lado de Jesus Cristo crucificado. 

Os versos são hexâmetros, mutilados no início e no fim, em parte porque desapareceram quando a placa de mármore na qual estavam gravados foi cortada, em parte porque foram cobertos pelas estruturas que atualmente envolvem a placa, e também aparecem parcialmente ocultos por uma grande cruz em mosaico cosmatesco esculpida acima deles. Essa situação gera alguma incerteza quanto à integração de algumas palavras, mas não impede a compreensão do texto.

A laje, que foi removida de sua posição original na Antiguidade e reutilizada na Idade Média, está agora embutida no teto do vestíbulo que leva à cripta que guarda as relíquias dos mártires Lourenço, Estêvão e Justino, e uma porção de 113 x 102 cm permanece visível até hoje. Ela foi colocada nessa posição por ocasião da reforma da Basílica pelo Papa Honório III (1216-1227), que ampliou a Basílica anterior do Papa Pelágio II (579-590), orientando-a no sentido oposto, criou a cripta, elevou parte da construção do século VI para transformá-la em presbitério e colocou ali o altar central, em correspondência com o túmulo de Lourenço, transferindo para lá o cibório, que atualmente se encontra acima dele, construído em 1148 (ver quadro nas páginas 93-94).

Olhai, vós que por aqui passais, compreendei quão breve é ​​a vida, e dirigi o curso do vosso navio para o porto do Paraíso, onde vos encontrarás com o Senhor. Que todos os que beberem destas especiarias consagradas digam agora: "Tu és a glória suprema, o Senhor, a luz, a sabedoria, a virtude, cujo sangue [ou: verdadeiro] está sobre o altar e se apresenta como vinho; tu, que na vossa onipotência, com uma obra de maravilhosa misericórdia, concedeis a água que flui do vosso lado àqueles que foram purificados no batismo."

A epígrafe (transcrita aqui juntamente com os acréscimos propostos por Antonio Ferrua, mais uma variante de Felice Grossi Gondi na linha 6) é também a mais antiga em latim que geralmente evoca o sacramento da Eucaristia: considerando o estilo, a paleografia e o conteúdo, pode ser atribuída, no máximo, ao século V. Quase certamente provém das imediações do local onde se encontra atualmente, e menciona também o sacramento do batismo, que certamente deve ter sido administrado no túmulo de Lorenzo. Devido à sua datação, provavelmente está relacionada com a primeira Basílica erguida sob o pontificado do Papa Silvestre (314-335) pelo Imperador Constantino, segundo o testemunho do Liber Pontificalis , «via Tiburtina in agrum Veranum» (ed. Duchesne, I, p. 181). 

Não foram encontrados vestígios arqueológicos de um batistério atribuível a esta Basílica, mas sabemos da sua existência pelo que se pode ler no mesmo Liber Pontificalis, em relação às biografias do Papa Sisto III (432-440; I, p. 234) e do Papa Hilário (461-468; I, p. 244), ambos os quais fizeram doações à Basílica para a administração do batismo. Embora não saibamos se a pia batismal se encontrava no interior do edifício ou se o batistério era uma estrutura separada e independente, é, no entanto, concebível que a epígrafe estivesse localizada e visível ao longo do percurso por onde os catecúmenos passavam a caminho de receber o sacramento.

Epígrafes cristãs dos primeiros séculos que mencionam a Eucaristia são extremamente raras; conhecem-se duas mais antigas do que a de San Lorenzo fuori le Mura, ambas em grego, uma de origem oriental e a outra ocidental. O primeiro é o poema muito conhecido de Abercius, bispo de Hierápolis, capital da Frígia salutaris, datado dos últimos anos do século II, no qual Jesus é mencionado com a palavra ' Icthùs (“peixe”), isto é , “Iesùs Xristòs Thèou Uiòs Sotèr”(“Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador”): «... a fé me conduziu a toda parte e em toda parte me foi apresentado como alimento o peixe da nascente, muito grande, puro, que a santa virgem toma e oferece aos seus amigos para que sejam sempre alimentados, tendo um vinho agradável que ela nos ofereceu misturado (com água) junto com o pão...». Contemporânea ou alguns anos depois é a segunda epígrafe, na qual está gravado o poema sepulcral de Pettório de Augustoduno (Autun, França). 

Os primeiros versos dizem: «Divina linhagem do peixe celestial, conserva um coração puro; vós que recebestes a vida imortal, entre os mortais, nas águas sagradas, acendei vosso coração, amigo, nas águas perenes da munificente sabedoria; recebei o alimento doce como mel do Salvador dos santos, comei avidamente, segurando o peixe em vossas mãos.» [Alimenta-me] então com peixe, eu te imploro, Senhor Salvador [...]» (as traduções são de P. Testini, Archeologia cristiana , Edipuglia, Bari 1980, pp. 422-423 e 425).

Afresco da igreja do Papa Pelágio II, detalhe da figura de São Lourenço (datado entre os séculos VIII e XI), nave direita da Basílica de San Lorenzo fuori le Mura | 30Giorni.

A epígrafe eucarística de São Lourenço, embora já presente em algumas coleções dos séculos XVIII e XIX, foi estudada analiticamente e publicada pelo padre jesuíta Felice Grossi Gondi ( L'iscrizione eucaristica del secolo 5 nella basilica di S. Lorenzo al Verano , em Nuovo Bullettino di Archeologia Cristiana , 1921, pp. 106-111). Ele é responsável pela primeira integração dos versos mutilados e pela datação do século IV-V com base em várias peculiaridades do texto e do conteúdo: as imprecisões métricas, o uso do termo “ paradisus ” e o costume de receber o sacramento do batismo como adulto, prática que cessou em meados do século V. Uma nova publicação do texto (com algumas correções) foi feita, em tempos mais recentes, pelo Padre Antonio Ferrua ( Inscriptiones Christianae Urbis Romae , vol. VII, 1980, n. 18324, pp. 164-165).

Talvez apenas alguns anos antes da composição da epígrafe, São Cirilo, Bispo de Jerusalém, escreveu as mesmas palavras: "Você acredita com absoluta certeza que o que parece pão não é pão, embora seja percebido como tal pelo paladar, mas o corpo de Cristo, e o que parece vinho não é vinho, embora pareça assim ao paladar, mas o sangue de Cristo" ( Catechesis mystagogia 4, 9).

Fonte: https://www.30giorni.it/

domingo, 15 de março de 2026

Quando Papa Francisco refletiu sobre o milagre da cura do cego

The Church of Jesus Christ of Latter-day Saints | #image_title

Vatican News - publicado em 26/03/17 - atualizado em 15/03/26

A cura do cego de nascença, narrada pelo Evangelho de João, proposto pela Liturgia do dia, inspirou a alocução do Papa Francisco em um domingo da Quaresma.

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 “Com este milagre Jesus se manifesta e se manifesta a nós como luz do mundo” e que acolhendo novamente nesta Quaresma a luz da fé, “também nós, a partir da nossa pobreza”, sejamos “portadores de um raio da luz de Cristo”, disse Francisco, dirigindo-se aos milhares de fieis e peregrinos reunidos na Praça São Pedro.

“O cego de nascença – explicou o Santo Padre -  representa cada um de nós que fomos criados para conhecer Deus, mas por causa do pecado somos como cegos, temos necessidade de uma nova luz, a da fé, que Jesus nos deu”.

Aquele cego do Evangelho, ao readquirir a visão, “abre-se ao mistério de Cristo”, disse o Pontífice, que explicou:

“Este episódio nos induz a refletir sobre nossa fé em Cristo, o Filho de Deus, e ao mesmo tempo refere-se também ao Batismo, que é o primeiro Sacramento da fé: o Sacramento que nos faz “vir à luz”, mediante o renascimento da água e do Espírito Santo; assim como acontece ao cego de nascença, ao qual se abrem os olhos após ter sido lavado na água da piscina de Siloé”.

“O cego de nascença curado – completou Francisco -  nos representa quando não nos damos conta que Jesus é a luz, “a luz do mundo”, quando olhamos para outros lugares, quando preferimos confiar nas pequenas luzes, quando tateamos no escuro”:

“O fato de que aquele cego não tenha um nome, nos ajuda a nos refletir com o nosso rosto e o nosso nome na sua história. Também nós fomos “iluminados” por Cristo no Batismo, e portanto somos chamados a comporta-nos como filhos da luz. E comportar-se como filhos da luz exige uma mudança radical de mentalidade, uma capacidade de julgar homens e coisas segundo uma outra escala de valores, que vem de Deus. O Sacramento do Batismo, de fato, exige a escolha firme e decidida de viver como filhos da luz e caminhar na luz”.

Mas, o que significa “ter a verdadeira luz, caminhar na luz?”

“Significa, antes de tudo, abandonar as falsas luzes: a luz fria e fátua do preconceito contra os outros, porque o preconceito distorce a realidade e nos enche de aversão contra aqueles que julgamos sem misericórdia e condenamos sem apelo. Isto é pão de todo dia! Quando se fala mal dos outros, não se caminha na luz, se caminha na sombra”.

E Francisco completou:

“Outra luz falsa, porque sedutora e ambígua, é aquela do interesse pessoal: se valorizamos homens e coisas baseados em critérios de nossa utilidade, do nosso prazer, do nosso prestígio, não realizamos a verdade nos relacionamentos e nas situações. Se vamos por este caminho do buscar somente o interesse pessoal, caminhamos nas sombras”.

O Papa concluiu, pedindo que a Virgem Santa obtenha para nós “a graça de acolher novamente nesta Quaresma a luz da fé, redescobrindo o dom inestimável do Batismo, que todos nós recebemos. E esta nova iluminação nos transforme nas atitudes e nas ações, para sermos também nós, a partir da nossa pobreza, portadores de um raio da luz de Cristo”.

Após rezar o Angelus, o Papa saudou os presentes e agradeceu ao Cardeal Scola e aos milaneses pela calorosa acolhida que teve durante sua visita a Milão no sábado: "Uma acolhida extraordinária, para um dia inesquecível. Realmente me senti em casa. E isto com todos, crentes e não-crentes. Vos agradeço muito queridos milaneses e digo uma coisa para vocês: constatei que é verdade aquilo que se diz: 'Em Milão se recebe com o coração na mão". Obrigado!".

Fonte: https://pt.aleteia.org/

Abaixo a meritocracia!

Meritocracia, desmonte de um engodo (Outras Palavras)

ABAIXO A MERITOCRACIA!

12/03/2026

Dom Julio Endi Akamine 
Arcebispo de Belém do Pará (PA)

Um empresário contratou novos empregados, que tiveram que passar por um processo seletivo longo e exigente. Foram admitidos os melhores à disposição no mercado. No contrato de trabalho, foi estabelecido o salário de mercado. Depois de algumas semanas, aquele empresário resolveu dar chance a outros desempregados, mas como os mais qualificados já estavam empregados, resolveu diminuir um pouco as exigências para contratação. Após mais alguns dias, vendo que havia ainda pessoas se candidatando a uma vaga de emprego na empresa, resolveu contratar mais, mesmo sabendo que estes não tinham todos os requisitos necessários para passar no processo seletivo. 

Aquele empresário era excêntrico e, por ser muito excêntrico, resolveu, ao fim daquele mês de contratações, admitir todos os que batiam à porta da sua empresa em busca de emprego. Até mesmo os que não tinham experiência anterior nem qualificação foram admitidos. 

No final daquele mês, aquele patrão muito original mandou pagar a todos o mesmo salário. Nem é preciso dizer que isso provocou a ira dos que foram contratados no início do mês. Houve reclamação no sindicato, houve protestos: “você nos igualou a esses últimos”. O empresário, porém, acabou com os protestos de modo autoritário: “tenho o direito de fazer com o meu dinheiro o que eu quero. Não fui injusto com os que foram contratados primeiro: cumpri o contrato e paguei o salário acertado. Se decidi pagar o mesmo para os que só trabalharam um dia neste mês, foi por pura liberalidade. Para mim esse negócio de meritocracia nem sempre funciona”. 

Acho que você já percebeu que essa estória é uma adaptação de uma parábola de Jesus (cf. Mt 20,1-16). Se essa estória chocou você, saiba que Jesus escandalizou também os seus ouvintes. Com efeito, a parábola tem esse objetivo de nos surpreender com uma mentalidade nova, com uma lógica que contradiz a nossa forma de julgar, com um mundo novo que arrebenta o nosso velho mundo. 

Os primeiros serão os últimos, e os últimos serão os primeiros. Com essa afirmação paradoxal, Jesus quer se opor à nossa mentalidade errada de meritocracia! 

Meritocracia funciona e deve funcionar no campo do trabalho e em muitos outros âmbitos da vida terrena. Meritocracia, porém, não funciona na nossa relação com Deus. Diante de Deus, ninguém pode invocar os seus próprios méritos. Deus não é nosso devedor! Deus não está à nossa disposição! Deus não pode ser domesticado! 

A parábola dos trabalhadores da vinha destrói, na figura autoritária do patrão, que não respeita a meritocracia, a nossa pretensão de fazer de Deus nosso devedor. Nossa relação com Deus não é como a de um plano de fidelidade: vamos acumulando pontos com Deus até termos o suficiente para poder trocá-los por uma recompensa desejada. 

Com um deus domesticado podemos fazer nossas contas e prever os resultados. Com o Deus de Jesus Cristo não podemos fazer cálculos: Deus é imprevisível e indisponível. Diante de Deus não devemos ter o comportamento dos trabalhadores da primeira hora: eles se consideravam superiores porque achavam que mereciam mais do que outros. Se isso funciona na vida de trabalho, não funciona na vida de fé. 

Os trabalhadores da primeira hora são como Jonas, que fica irritado com Deus porque Ele é lento para a ira e misericordioso com os inimigos (Jn 4,1-11); são como Paulo, antes da conversão, que se julgava justo e cumpridor da lei (Gl 1,13-24); são como o filho mais velho que tem raiva do pai e não se alegra com a conversão do irmão mais novo (cf. Lc 15,25-32). 

Devemos ser humildes como os trabalhadores da última hora, que sabem que não merecem o salário integral, mas que se surpreendem com a generosidade do dono da vinha. O que recebemos de Deus não é proporcional ao que merecemos. Deus não segue a regra da meritocracia! Ainda bem! 

Então não vale a pena ser trabalhador da primeira hora? Claro que vale! O que não devemos ter é a mentalidade de trabalhador da primeira hora. 

Sejamos nós dedicados e generosos trabalhadores da primeira hora com a humildade agradecida dos trabalhadores da última hora. 

Fonte: https://www.cnbb.org.br/

O Papa no Angelus: a fé pede-nos que abramos os olhos para as feridas do mundo

Angelus, 15/03/2026 - Papa Leão XIV (Vatican News)

A fé ajuda-nos a olhar “a partir da perspectiva de Jesus e com os seus olhos: é uma participação no seu modo de ver” e, por isso, pede-nos que “abramos os olhos”, como Ele fazia, sobretudo para os sofrimentos dos outros e para as feridas do mundo: disse Leão XIV no Angelus ao meio-dia deste IV Domingo da Quaresma, na alocução que precedeu a oração mariana.

Raimundo de Lima – Vatican News

Hoje, em particular, face às inúmeras questões que o coração humano se coloca e às dramáticas situações de injustiça, violência e sofrimento que marcam o nosso tempo, é necessária uma fé vigilante, atenta e profética, que nos abra os olhos para as trevas do mundo e lhe traga a luz do Evangelho através de um comprometimento com a paz, a justiça e a solidariedade. Foi o que disse o Santo Padre no Angelus, este domingo, 15 de março, na alocução que precedeu a oração mariana rezada com 20 mil fiéis e peregrinos presentes na Praça São Pedro.

Leão XVI ateve-se ao Evangelho deste IV Domingo da Quaresma (Jo, 1-41), que narra a cura de um homem cego de nascença. Por meio da simbologia deste episódio, explicou, o evangelista João fala-nos do mistério da salvação: enquanto estávamos na escuridão e a humanidade caminhava nas trevas, Deus enviou o seu Filho como luz do mundo, para abrir os olhos dos cegos e iluminar a nossa vida.

"Eu sou a luz do mundo"

Os profetas tinham anunciado que o Messias abriria os olhos dos cegos. O próprio Jesus confirma a sua missão mostrando que «os cegos veem»; e apresenta-se dizendo: «Eu sou a luz do mundo». Realmente, prosseguiu o Papa, todos podemos dizer que somos “cegos de nascença”, pois não conseguimos, por nós mesmos, ver em profundidade o mistério da vida. Por isso, Deus encarnou-se em Jesus, para que o barro da nossa humanidade, misturado com o sopro da sua graça, pudesse receber uma nova luz, capaz de nos fazer ver finalmente a nós próprios, aos outros e a Deus na verdade.

Chama a atenção, observou o Pontífice, que se tenha difundido, ao longo dos séculos, a opinião, ainda hoje presente, de que a fé seria uma espécie de “salto no escuro”, uma renúncia ao pensamento, de modo que ter fé significaria acreditar “cegamente”. Pelo contrário, ressaltou, o Evangelho nos diz que, ao entrar em contato com Cristo, os olhos se abrem, a tal ponto que as autoridades religiosas perguntam com insistência ao cego curado: «Como foi que os teus olhos se abriram?»; e ainda: «Como é que te pôs a ver?».

Abrir os olhos para os sofrimentos dos outros

“Irmãos e irmãs, também nós, curados pelo amor de Cristo, somos chamados a viver um cristianismo “de olhos abertos”. A fé não é um ato cego, uma renúncia à razão, um refúgio em alguma certeza religiosa que nos faz desviar o olhar do mundo.”

Em vez disso, a fé ajuda-nos a olhar «a partir da perspectiva de Jesus e com os seus olhos: é uma participação no seu modo de ver» e, por isso, pede-nos que “abramos os olhos”, como Ele fazia, sobretudo para os sofrimentos dos outros e para as feridas do mundo.

Dar testemunho de Cristo com simplicidade e coragem

Peçamos à Virgem Maria, concluiu Leão XIV, que interceda por nós, a fim de que a luz de Cristo abra os olhos do nosso coração e possamos dar testemunho d’Ele com simplicidade e coragem.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/

terça-feira, 10 de março de 2026

Propósitos de vida: será que eu posso mudar? Mas como?

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Carlos Padilla Esteban - publicado em 06/12/20 - atualizado em 10/03/26

Os propósitos devem ser poucos, estar ancorados no coração e surgir da vida.

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Mais um ano está para terminar a continuamos ancorados nos mesmos defeitos. Como trocar de pele, revestir-se de Cristo?

Vemos no espelho aquela pessoa que podemos chegar a ser. Deus nos criou muito bem: colocou na alma uma grande capacidade de amar. Isso é um dom, mas que podemos guardar, esconder de maneira egoísta, protegendo-nos para não ter de dar a vida.

Mas também podemos romper as nossas barreiras egoístas e sair de nós mesmos. Podemos ser muito mais do que somos hoje. O que nos alegra o coração? Que ideais nos levam a doar-nos mais, a dar-nos por inteiro?

Zona de conforto

Passamos a vida inteira fazendo as coisas de uma determinada maneira, mas podemos mudar, melhorar, inventar coisas novas. Por que não? Podemos sair da nossa zona de conforto.

Mas surgem perguntas em nosso interior: é possível? Posso mudar? É necessário inovar? Vale a pena? Fazer propósitos serve para alguma coisa?

Sim, vale a pena, mas é melhor fazer poucos propósitos e dedicar-se a eles com vida e coragem. Propósitos que estejam ancorados no coração e surjam da vida. Só assim seremos capazes de levá-los a cabo com força, vontade e alma.

Sem esta atitude interior, sem esse amor do coração, é impossível que os propósitos superem os obstáculos do começo de ano. Por isso, queremos ser realistas e sonhadores. Fazer propósitos firmes, do mais profundo da nossa alma.

Este ao que começou nos dá a oportunidade de agradecer olhando o passado, e confiar olhando o futuro.

Vida plena

Olhamos para a frente para projetar-nos e ansiar por uma vida mais plena. Sim, um ano em branco para preencher. Com todas as páginas prontas para começar a escrever.

É tempo de sonhar e orar: “Quero dedicar-te este novo ano. Quero colocar todos os dias nas tuas mãos e submetê-los à tua vontade. Que cada esforço, cada passo, cada meta e cada aspiração sejam para a tua glória. Continua guiando-me. Ajuda-me a crescer espiritualmente e, assim, poder conhecer-te melhor”.

“Eu te dedico o meu trabalho, os meus talentos, minhas habilidades. Minha saúde e a dos meus entes queridos. Senhor, dá-me da tua força e sabedoria, para viver cada dia melhor. Meu desejo é adorar-te e exaltar o teu nome. Meus dias são teus e me alegro em confiar em que Tu estarás comigo neste novo ano.”

Vontade divina

Sim, desejamos muitas coisas. Queremos crescer e ser pessoas melhores, mais santas, mais de Deus. Desejamos que nossa vida seja guiada pela vontade divina e, assim, poder ser felizes e viver em sua paz cada dia. Neste novo ano, não são as coisas ao nosso redor que precisam mudar: somos nós que precisamos de uma transformação interior.

Podemos mudar nosso olhar e pedir a Deus um olhar puro, para ver a bondade que existe em cada pessoa. Podemos mudar a atitude que nos levava a reclamar do que nos falta, ao invés de agradecer pelo que temos. Podemos mudar nosso rosto, para que, ao invés de impaciência e indignação, reflita paz e alegria.

É preciso transformar o coração.

Fonte> https://pt.aleteia.org/

A compreensão da Revelação no Concílio Vaticano II

Cena do "Giudizio Universale" pintado por Michelangelo Buonarroti na Cappella Sistina | Vatican News.

"O caráter autenticamente humano das Sagradas Escrituras, já por si só, revela o profundo segredo de Deus que é a sua "filantropia" (Tt 3,4). Deus ama os homens. Falando na sua linguagem, Deus se comunica com eles, se faz compreender e, ao mesmo tempo, restitui à linguagem humana a sua veridicidade. Mas ainda, se deixa tocar, se deixar interagir com os que o procuram".

Jackson Erpen - Cidade do Vaticano

No Concílio Vaticano II (1962–1965), especialmente na Constituição Dogmática Dei Verbum, a Revelação é compreendida não apenas como um conjunto de verdades transmitidas por Deus, mas sobretudo como a autocomunicação do próprio Deus na história para a salvação da humanidade. Deus revela-se progressivamente por meio de acontecimentos e palavras intimamente ligados, atingindo sua plenitude em Jesus Cristo, que é ao mesmo tempo mediador e plenitude de toda a Revelação. Essa Revelação é transmitida pela Tradição e pela Sagrada Escritura, inseparavelmente unidas e interpretadas autenticamente pelo Magistério da Igreja, tendo como finalidade conduzir os seres humanos à comunhão com Deus.

Dando sequência a sua série de reflexões sobre os documentos do Concílio Vaticano II, Pe. Gerson Schmidt* nos propõe hoje "A compreensão da Revelação no Concílio Vaticano II":

"A Constituição Dogmática Dei Verbum do Concílio Vaticano II fala nestes termos da Revelação:

Em virtude desta Revelação, Deus invisível (cf. Cl 1,15; 1Tm 1,17), na riqueza do seu amor, fala aos homens como a amigos (cf. Ex 33,11; Jo 15,14-15) e conversa com eles (cf. Br 3,38), para os convidar e admitir a participarem de sua própria vida” (DV, 2).

Portanto, o ditado conciliar, e aquele bíblico sobre o qual o Magistério se funda, descrevem a Revelação de Deus com a categoria da palavra, mais ainda, do diálogo amigável. Querendo revelar-se, Deus falou aos homens e usou a linguagem humana da amizade com vistas a uma finalidade precisa que é uma comunhão de vida. Há uma linguagem da amizade e do amor da parte de Deus ao revelar-se. Fala a linguagem humana e não extra-humana, de forma que seja entendível e perceptível ao ser humano, recebedor da mensagem, receptor desse anúncio maravilhoso divino e extraordinário. Como diz\ a Dei Verbum, Cristo fala de homem para os homens.

Não sabemos se a definição do homem como animal que fala é a mais exata com relação às outras. Mas também é um ser que escuta com linguagem específica, bem diferente dos outros animais. A fala talvez seja a mais decisiva, a que compreende a todas. A palavra é o limiar de ingresso no mundo humano. Heidegger diz: “Segundo a tradição antiga, nós, precisamente nós, somos seres que estão em condições de falar e que, por isso, possuímos a linguagem. Nem a faculdade de falar é no homem apenas uma capacidade que se coloque ao lado de outras, no mesmo plano das outras. Pelo contrário, é a faculdade que faz do homem um homem. Este traço é o próprio perfil de seu ser. O homem não seria homem se não lhe fosse concedido falar, dizer...”[1]

Valério Mannucci, especialista em Sagrada Escritura no Pontifício Instituto Bíblico, aprofunda essa temática e diz que o relato do diálogo amigável e compreensível de Deus com o ser humano, na Escritura, é descrito com seus interlocutores escolhidos. Os hagiógrafos das sagradas letras fazem um relato da fala de Deus, da revelação e intervenção de Deus na história dos homens. Esse relato é redigido, escrito no papel, nos pergaminhos inteiramente por homens, não por anjos, ou, como alguém poderia imaginar, pelo próprio punho de Deus. O dedo e a mão de Deus está por detrás, mas não é Deus quem escreve, mas são seres humanos em seus contextos históricos e concretos, com seus fraquezas e condicionamentos pontuais. A única coisa que Jesus escreveu foi no chão, quando queriam apedrejar a mulher pega em adultério. Mesmo assim, o que Jesus escreveu não se sabe e o vento apagou.

“O antigo Israel confessava o seu estupor, porque tinha "ouvido a voz de Deus no meio do fogo e do alto do céu" (Dt 4,32-36). O estupor se torna vertigem para o novo Israel, chamado a experimentar a inaudita aproximação entre "a Palavra de Deus que era no princípio, estava junto de Deus, era Deus" (Jo 1,1) e "a Palavra de Deus que se fez carne" (Jo 1,14); entre "o que era no princípio", "a vida eterna que estava junto ao Pai", e "a Palavra da vida que ouvimos, que vimos com os nossos olhos, que contemplamos, que as nossas mãos tocaram" (1Jo 1,1-4)”[2].

Precisamente nisto manifestou-se "a admirável 'condescendência' de Deus e a sua inefável benignidade", conforme descreve o documento conciliar: "Com efeito, as palavras de Deus, expressas em línguas humanas, tornaram-se intimamente semelhantes à linguagem humana, como outrora o Verbo do Eterno Pai, tomando a carne da fraqueza humana, se tornou semelhante aos homens" (DV, 13). O caráter autenticamente humano das Sagradas Escrituras, já por si só, revela o profundo segredo de Deus que é a sua "filantropia" (Tt 3,4). Deus ama os homens. Falando na sua linguagem, Deus se comunica com eles, se faz compreender e, ao mesmo tempo, restitui à linguagem humana a sua veridicidade. Mas ainda, se deixa tocar, se deixar interagir com os que o procuram. Deus fala de maneira amigável, compreensível. Torna o homem capaz de entender sua revelação porque sua comunicação é humana, é pedagógica, é cativante, é envolvente, na linguagem própria do ser humano, apesar de manifestações divinas e extraordinárias".

*Padre Gerson Schmidt foi ordenado em 2 de janeiro de 1993, em Estrela (RS). Além da Filosofia e Teologia, também é graduado em Jornalismo e é Mestre em Comunicação pela FAMECOS/PUCRS.
___________

[1] HEIDEGGER, M. In Cammino verso il linguaggio, Mursia, Milão,1973, p.189.
[2] MANNUCCI, Valério. Bíblia, Palavra de Deus. Curso de introdução à Sagrada Escritura, Paulinas, SP. 1986, p. 16.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

ISLÃO: O diálogo como vocação

Aziza, à direita na foto, cumprimenta Mohammed VI, o atual rei de Marrocos | 30Giorn

ISLÃO

retirado do nº 03 – 2005, Revista 30Dias

O diálogo como vocação

O diretor do Observatório do Mediterrâneo é um intelectual tunisiano de fé islâmica. Nestas páginas, ele relata sua relação com o cristianismo, que "fecha o ciclo dos sacrifícios rituais".

Por Mohammed Aziza

Nasci na calada da noite, entre 24 e 25 de dezembro, na pacata medina de Túnis, enquanto, em meio às luzes brilhantes, a parte europeia da cidade celebrava a memória de um nascimento milagroso ocorrido há muito tempo em uma humilde manjedoura visitada pelos Três Reis Magos.
Sempre imaginei que uma estrela, então, havia piscado no céu do solstício de inverno para selar meu destino e me tornar, para sempre, uma ativista firme e tenaz pelo diálogo intercultural e, mesmo sendo laica, pelo diálogo inter-religioso.
As reviravoltas da vida sempre fortaleceram essa vocação.
Por ter nascido em 24 de dezembro em uma família muçulmana na qual uma integrante — a esposa do meu tio — era francesa e cristã, eu tinha direito a dois aniversários.
O primeiro era comemorado com um bolo, e eu apagava as velas ao final da ceia festiva com toda a família reunida, todo dia 24 de dezembro.
A segunda vez foi quando acompanhei minha tia à missa da meia-noite, mais ou menos adormecida, mas fascinada pelo ouro e pelas luzes da Catedral de Túnis.
Por respeitar meu senso de pertencimento, minha tia nunca me permitiu participar do rito da comunhão, ao qual eu geralmente dava pouca atenção, sabendo que estava excluída.
Mas uma noite, ao ouvir as palavras rituais pronunciadas pelo celebrante ("Bebam, este é o meu sangue. Comam, este é o meu corpo"), tive uma reação violenta. Eu havia interpretado aquelas fórmulas consagradas com a ingenuidade literal de uma criança, assustada com aquele convite que parecia um tanto "canibalístico".
Naturalmente, esqueci imediatamente o incidente. E a vida retomou seu curso normal.
Alguns anos depois, trabalhando na Biblioteca dos Padres Brancos da Tunísia, no último andar de um prédio cujas janelas davam para a fachada posterior da Catedral, a lembrança traumática do rito da comunhão vivenciado naquela distante noite de Natal, quando acompanhei minha tia, voltou com força.
E imediatamente tive uma intuição que contradizia resolutamente a impressão que eu tinha da infância.
Num instante, compreendi que a hóstia e o vinho sacramentais significavam o oposto daquilo que me assustara na infância.
O rito da comunhão então se apresentou para mim em toda a sua grandeza redentora, como se encerrasse o ciclo do sacrifício que, durante séculos, fora a pedra angular da história humana, o método fatalmente necessário para regenerar o tempo e as forças da natureza. Os astecas acreditavam que podiam fazer nascer o Décimo Segundo Sol através dos sacrifícios rituais de inúmeras vítimas. Agamenon pensava que precisava sacrificar sua filha Ifigênia para trazer ventos favoráveis ​​que permitissem à frota grega alcançar as costas de Troia.
Pela primeira vez, a preeminência indiscutível do sacrifício como combustível para a engrenagem da história humana estava prestes a ser desafiada pelo teste de Abraão, pois implicava a substituição do ser humano sacrificado (Isaac ou Ismael, segundo a tradição) por um animal sacrificial.
Mas, neste caso, a função expiatória e regeneradora do sacrifício permanece válida, apenas a natureza do sacrificado se altera: de humano para animal.
A abolição da própria função do sacrifício como expiação dos pecados e regeneração da história humana estava prestes a ocorrer inesperadamente com o sacrifício final e voluntário do Filho de Deus, que redime, de uma vez por todas, os pecados passados ​​e futuros da humanidade e torna obsoleta a antiga função do sacrifício. A história não precisa mais beber o sangue humano ou animal do sacrificado para redescobrir seus ciclos. Assim, a hóstia e o vinho sacramentais recordam esse encerramento do sacrifício por meio do dom da Paixão e convidam os fiéis a celebrar o fim definitivo do medo, da perda e da Queda.
Essa é a evidência que se tornou clara para mim enquanto contemplava as colunatas e os vitrais da Catedral de Túnis.
Quando adolescente, ao me perguntar o que eu queria ser quando crescesse, dei uma resposta que, a princípio, o fez sorrir e, em seguida, o mergulhou em silenciosa meditação: "Vovô, eu gostaria de me tornar um 'ocidentalista', porque não vejo por que somente os outros deveriam ter o direito de se tornarem orientalistas para nos estudar!"
Esse destino de abertura, esse "gosto pelo Outro", também caracterizaria minha vida privada: sou casado com um católico francês; e minha vida profissional: com Yehudi Menuhiu, inaugurei o programa de Estudos Interculturais da UNESCO, onde passei a maior parte da minha carreira. E com Mario Luzi, fundei a Academia Mundial de Poesia em Verona.
Apoiei os esforços da Comunidade de Santo Egídio e nunca perdi um único de seus estimulantes eventos anuais. E, em uma das oficinas organizadas no âmbito desses encontros, pude colocar em prática minha inclinação comparativa, afirmando que, embora o Islã seja certamente a religião do Livro, o Cristianismo me parece sustentado por dois pilares: a Encarnação e a Ressurreição, enquanto o Judaísmo se caracteriza, a meu ver, pela tarefa de interpretação que exige continuamente de seus seguidores; daí a importância da exegese e de comentadores como o grande Rachi de Troyes.
Recentemente, tive o privilégio de participar de um encontro histórico realizado em Bruxelas, de 3 a 6 de janeiro de 2005.
Este encontro, organizado pela fundação “Hommes de parole”, permitiu que cinquenta imãs e cinquenta rabinos trabalhassem juntos pela paz através do diálogo.

A Catedral de São Vicente de Paulo em Túnis | 30Giorni

A abertura intelectual e espiritual do diálogo com diversas culturas e religiões continua graças à criação – por intermédio de Franco Frattini, ex-Ministro dos Negócios Estrangeiros e atual Vice-Presidente da Comissão Europeia – de um Observatório do Mediterrâneo no âmbito do Ministério dos Negócios Estrangeiros.
Frattini, presidente desta nova instituição, confiou-me a sua direção geral.
A justaposição de um presidente da costa norte com um diretor-geral da costa sul é um facto notável, altamente simbólico e bastante raro.
Contudo, é uma justaposição que já vimos no passado, nos tempos da Ifríquia [África Romana ] , quando figuras como Santo Agostinho, São Cipriano, Tertuliano, Terêncio e Apuleio, para não mencionar Septímio Severo, integravam-se harmoniosamente na governação da res publica . Ou como na época da Sicília árabe-normanda, quando um brilhante geógrafo, Al-Idrissi, oriundo de Marrocos, fazia parte da Corte dos Reis normanda da Sicília.
É recorrendo a lições históricas semelhantes que podemos retomar um diálogo que outrora foi fértil e frutífero.
Para além de todos os problemas complexos que devemos resolver em conjunto, a questão da escolha permanece relativamente simples: "Como imaginamos o Mediterrâneo de amanhã, aquele que deixaremos para as gerações futuras? Um muro que separa ou uma ponte que liga? "

Nota:

1 Daí a importância da imagem como representação do Verbo encarnado. Este não é o caso no Islã, como tentei demonstrar em meu texto A Imagem e o Islã .

Fonte: https://www.30giorni.it/

Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF