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domingo, 29 de março de 2026

O que fazer com meu ramo após o Domingo de Ramos?

Antoine Mekary | ALETEIA

Reportagem local - publicado em 10/04/22 - atualizado em 27/03/26

Com os ramos em mãos, assumimos a missão de seguidores e participantes do projeto de Deus.

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Assim rezamos na oração de bênção dos Ramos: “Deus eterno e Todo Poderoso, “abençoai” estes ramos, para que, “seguindo” com alegria o Cristo, nosso Rei, cheguemos por ele à eterna Jerusalém”.

Nesse sentido, guiados por essa oração temos duas palavras que nos ajudam refletir a importância e o significado dos ramos.

A invocação feita é um pedido de bênção para os ramos que temos em mãos ou que estão adornando o local da celebração. No “abençoai” se manifesta o pedido da igreja terrestre e peregrina, que quer e deseja entrar na Jerusalém Celeste.

Dessa forma, com os ramos em mãos, assumimos a missão de “seguidores” e participantes do projeto de Deus. A oração segue nos dizendo que o seguir é alegre e festivo. É celebrar junto o Mistério de morte e ressurreição.

Ramos: o significado e a tradição

Os ramos de oliveira eram comuns daquela região de Jesus, mas nos relata o evangelista Lucas que: “(...) enquanto Jesus passava, o povo ia estendendo suas roupas no caminho”. Hoje, os ramos de palmeiras são abençoados e, dessa forma, podem nos servir de remédio, proteção, mas, sobretudo, como memória do compromisso de seguidor de Cristo que assumo.

Está no costume da Igreja usar dos ramos abençoados neste dia para que, depois de secos, sejam queimados e usados na Quarta-Feira de Cinzas.

Muitos de nossos avós tinham também a tradição de queimá-los quando chegava o tempo de colheita, quando se aproximava uma tempestade ou ainda queimavam em torno de casa ou do local de trabalho para livrar de pestes e bichos peçonhentos.

Nesses gestos todos está a fé de que a bênção de Deus está presente nos ramos e é Ele o Senhor do tempo e da história.

Assim, como os filhos dos Hebreus com ramos de palmeira correram ao encontro de Jesus, somos também nós seus discípulos convidados a direcionar nossos passos e ações para Ele. E desse modo, sermos participantes do Mistério Pascal.

A Jerusalém Celeste é o céu prometido a todos aqueles que, com seus ramos, glorificam a Deus.

E, nos passos e ensinamentos de Jesus, aprenderemos que no mandamento maior está o Caminho e o maior desejo de Deus: "Amai-vos", pois é desse sentimento que emana tudo aquilo que nos faz participantes da Filiação Divina – Filhos de Deus.

Fonte: https://pt.aleteia.org/

SÃO BENTO Indícios de amizade espiritual (Parte 1/2)

Incredulidade de Tomé, Mestre da Gruta Sagrada, século XIV, Igreja Superior, Subiaco |30Giorni.

SÃO BENTO

retirado do nº 05 – 2005, Revista 30Dias.

Indícios de amizade espiritual

Comunidade de espírito entre São Bento, o Padre Luigi Giussani e o Papa Bento XVI.

por Dom Giacomo Tantardini

Fui incumbido de escrever um artigo sobre São Bento, o Padre Giussani e o Cardeal Ratzinger, que, tendo sido eleito sucessor de Pedro, escolheu chamar-se Bento também por devoção àquele que – tendo escrito para si e para os seus amigos, considerando-se "pouco comprometidos / nobis negligentibus , uma pequena regra para iniciantes / minimam inchoationis regulam " (Regra, capítulo 73) – tornou-se, como Abraão, o pai de inúmeros descendentes.

Correspondência entre o cristianismo e a humanidade.

A centésima.

Gostaria de começar estas referências à "comunhão de espírito" ( Filipenses 2:1) entre São Bento, o Padre Giussani e o Papa Bento XVI, partindo da conferência do Cardeal Ratzinger em Subiaco, em 1º de abril de 2005, sobre "A Europa na Crise das Culturas". Isso também porque foi em Subiaco, num pequeno eremitério nas montanhas perto do Sacro Speco, que o Padre Giussani, durante os meses de verão do final da década de 1960, passou dias de exercícios espirituais com jovens que expressaram o desejo de se dedicarem a Deus no sacerdócio ou na vida consagrada.

Obviamente, não pretendo comentar essa última conferência que Ratzinger proferiu como cardeal, cuja clareza e simplicidade de exposição tornam fácil para qualquer pessoa ser impactada por sua verdade e beleza. Pretendo apenas abordar a condição humana que essas palavras testemunham. Uma alma, um coração que o apóstolo Paulo descreve numa das frases mais citadas pelo Padre Giussani. Giussani: "Examinem tudo; retenham o que é bom" ( 1 Tessalonicenses 5:21).

De fato, por um lado, com total franqueza, "o desenvolvimento da cultura iluminista" é julgado como "a contradição mais radical não só do cristianismo, mas de todas as tradições religiosas e morais da humanidade", a ponto de afirmar que "uma ideologia confusa de liberdade leva a um dogmatismo que se mostra cada vez mais hostil à liberdade" e que "uma filosofia que não expressa a razão completa do homem, mas apenas uma parte dela, por causa dessa mutilação da razão, não pode ser considerada racional de forma alguma". Por outro lado, à pergunta "se isso é uma simples rejeição do Iluminismo e da modernidade", Ratzinger responde:

"Absolutamente não". Não apenas porque "o cristianismo, desde o princípio, se compreendeu como a religião segundo a razão", identificando "seus precursores no Iluminismo filosófico" daquela época, mas também porque "foi e é mérito do Iluminismo ter reproposto esses valores originais do cristianismo e ter dado à razão voz própria. O Concílio Vaticano II, na Constituição sobre a Igreja no Mundo Moderno, ressaltou mais uma vez essa profunda correspondência entre o cristianismo e o Iluminismo, buscando alcançar uma verdadeira reconciliação entre a Igreja e a modernidade, que é o grande patrimônio a ser preservado por ambos os lados."

A expressão "profunda correspondência entre o Cristianismo e o Iluminismo" é impressionante. Parece-me que precisamente esse reconhecimento surpreendente nos permite vislumbrar a "comunidade de espírito" entre Ratzinger e Giussani na concepção e vivência da experiência cristã. O que é, de fato, a experiência cristã senão a consciência da correspondência entre o evento de Jesus Cristo e as necessidades e evidências do coração humano?

O evento cristão, embora com sua autoapresentação gratuita evidencie as presunções, parcialidades e contradições dos empreendimentos humanos, satisfaz abundantemente todas as expectativas humanas. Há uma frase do Evangelho, talvez a mais repetida por Giussani, que indica essa dinâmica: "o centenário " . Foi comovente ouvir o Papa Bento XVI, ao concluir sua homilia na Missa de inauguração de seu ministério, repetir, dirigindo-se aos jovens, essa mesma frase, "o centenário", para descrever a própria natureza da experiência cristã e sua própria experiência pessoal. E mais uma vez o Papa [João Paulo II] quis dizer: não! Quem acolhe Cristo em sua vida não perde nada, absolutamente nada daquilo que torna a vida livre, bela e grandiosa.

Não! Somente nessa amizade as portas da vida se abrem de par em par. Somente nessa amizade o grande potencial da condição humana se revela verdadeiramente. Somente nessa amizade experimentamos o que é belo e o que liberta. Por isso, hoje, com grande força e convicção, baseado na experiência de uma longa vida pessoal, gostaria de dizer a vocês, queridos jovens: não tenham medo de Cristo! Ele nada tira e tudo dá. Quem se entrega a Ele recebe cem vezes mais. Sim, abram, abram de par em par as portas para Cristo — e vocês encontrarão a verdadeira vida. Amém.

Fonte: https://www.30giorni.it/

Reflexão para o Domingo de Ramos (A)

Domingo de Ramos (Vatican News)

Jesus entra em Jerusalém, montado em um jumentinho. Isso significa que entra na cidade que é sua para fazer com toda a Humanidade, uma missão de paz, ainda que essa paz tenha como preço sua própria vida.

Vatican News

O Senhor é aclamado como se faz a um general romano ou a um herói egípcio quando de sua chegada a sua cidade, à sua terra, após uma gloriosa vitória.

Apenas algumas diferenças: o Senhor ainda vai consumar sua luta e, enquanto os vencedores trazem consigo o espólio dos vencidos e os próprios vencidos como troféus,  será o Senhor o próprio espólio, o grande serviçal, o escravo de todos nós.

Esse gesto nos recorda um trecho da segunda leitura de hoje, da Carta de São Paulo aos Filipenses, que diz: “Não deveis fazer nada por egoísmo, ou para sentir-vos superiores aos outros, mas cada um de vós, com toda a humildade, considere os outros superiores a si mesmo, ninguém procure o próprio interesse, mas antes o dos outros.” O Senhor buscou apenas o nosso interesse, ou melhor, o interesse do Senhor é a nossa salvação.

Jesus entra em Jerusalém, montado em um jumentinho. Isso significa que entra na cidade que é sua para fazer com toda a Humanidade, uma missão de paz, ainda que essa paz tenha como preço sua própria vida.

Cristo entra em Jerusalém para entregar-se como oferta ao Pai, em nome de cada um de nós. Ele se coloca em nosso lugar e sofre as consequências que nosso egoísmo, nossa falta de amor e de perdão ocasionaram. Ele é o verdadeiro cordeiro pascal, a verdadeira vítima. Seu corpo é o pão e seu sangue é o vinho. Somos redimidos, para sempre, por seu sangue derramado de fato, Jesus Cristo é o cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo.

Outro ensinamento, agora colhido da leitura da Paixão, este ano, a de São Mateus, é sobre a retaliação e a paz . Jesus impede que Pedro continue sua ação de punir o soldado que o ofendera e diz a ele: “Guarde a espada na bainha!” e cura Malcolm. Somos filhos da paz! Nosso Rei é o Principe da Paz, o Pacificador.

Que este início da Semana Santa nos comprometa com o projeto de Jesus para nós. Sejamos irmãos, sejamos filhos do mesmo Pai de nosso Senhor.

Que a humildade e a paz sejam nossos tesouros, recebidos através do sacrifício redentor do Filho de Deus!

Nossa libertação do egoísmo e da ira, da raiva, custou o sangue inocente de Jesus.

Valorizemos, com gratidão e amor, o sacrifíco do Senhor por nós.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

sábado, 28 de março de 2026

“Lectio divina ontem e hoje”

Shutterstock

Vanderlei de Lima - publicado em 08/03/20 - atualizado em 27/03/26

É uma leitura da Sagrada Escritura à luz de Deus.

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Eis o título de um importante livro publicado pelas Edições Subiaco, de Juiz de Fora, MG (4ª edição ampliada, 2017, 216 págs.), e que será apresentado neste artigo.

Reúne as maiores autoridades no assunto: Guigo II, o cartuxo, Enzo Bianchi, Giorgio Giurissato, Albert Vinnel e Irineu Resende Guimarães. Embora cada autor tenha o seu modo próprio de expor a Lectio, é Guigo II, o nono prior da Grande Cartuxa, do século XII, quem dá o tom ao livro. Afinal, sua Carta sobre a vida contemplativa ou Escada dos monges “é um clássico da espiritualidade monástica, enquanto retoma e sistematiza os ensinamentos da tradição monástica anterior sobre a lectio divina, e enquanto guiou gerações de monges nos caminhos da oração interior, como o testemunha o grande número de manuscritos que chegaram até nós” (p. 9).

Daí a importante questão: que é lectio divina e como se faz? – Respondemos que é a leitura orante da Palavra de Deus. Isso devido ao valor da Sagrada Escritura em si (cf. Dei Verbum, 21, p. 138-139). É uma leitura da Sagrada Escritura à luz de Deus (cf. p. 119, 191, 201 e 206). Faz-se por meio de quatro passos que, de acordo com Guigo II, formam “a escada dos monges, que os eleva da terra ao céu” (p. 16). 

Vejamos cada degrau, segundo a exposição do cartuxo: “a leitura é o estudo assíduo da Escritura, feito com aplicação do espírito. A meditação é uma ação deliberada da mente, a investigar com a ajuda da própria razão o conhecimento de uma verdade oculta. A oração é uma religiosa aplicação do coração a Deus, para afastar os males ou obter o bem. A contemplação é uma certa elevação da alma em Deus, suspensa acima dela mesma, e degustando as alegrias da eterna doçura” (p. 16-17). E completa: “a leitura é feita segundo um exercício mais exterior; a meditação, segundo uma inteligência mais interior; a oração, segundo o desejo; a contemplação passa por cima de todo sentido. O primeiro degrau é dos principiantes; o segundo, dos que progridem; o terceiro, dos fervorosos; o quarto, dos bem-aventurados” (p. 28).

As bases bíblicas para a prática da leitura orante da Escritura estão, segundo Enzo Bianchi, no capítulo 8 do livro de Neemias e em 2 Timóteo 3,14-16 (cf. p. 116). Note-se ainda que a Lectio se faz útil para posteriores preparações de homilias, à luz da chamada exegese canônica, ou seja, a da interpretação da Escritura pela própria Escritura, sem interpolações ideológicas estranhas (cf. p. 38, 40). É Bianchi mesmo quem afirma: “que a passagem [bíblica] se auto interpreta. A Escritura é a intérprete da Escritura. Este é o grande critério rabínico e patrístico para a lectio divina” (p. 123). Ainda: se os clérigos não praticam a Lectio divina, “serão na sua pregação, em seu magistério e em sua pastoral, homens superficiais, inseguros, às voltas com problemas, incapazes de dizer uma palavra que tenha ‘autoridade’, porém semelhante aos escribas (cf. Mt 7,28), enrubescendo muitas vezes com o Evangelho que eles anunciam (cf. 2Cor 3,12; 4,2; Rm 1,16)” (p. 45).

Certo é que para se fazer uma Lectio proveitosa deve-se ter: 1) as luzes do Espírito Santo. Sem Ele, assevera Irineu Resende Guimarães, “será apenas uma leitura de um texto qualquer. Só com a ajuda e a presença do Espírito Santo é que a nossa leitura será propriamente ‘divina’” (p. 209) e 2) o estudo capaz de levar o fiel a penetrar o sentido profundo do texto bíblico que é, sem dúvida, espiritual, mas foi escrito na linguagem humana de um contexto histórico determinado. Faz-se, pois, oportuno – de acordo com Albert Vinnel – entender, ainda que sucintamente, de História, Filologia, Patrologia etc. (cf. p. 181), sem, contudo, cair no intelectualismo (cf. p. 43). Prefira-se sempre a Bíblia de Jerusalém, por seus textos paralelos e notas explicativas (cf. p. 123).

Finalizando, importa dizer que, às vezes, Deus parece mostrar-Se ausente na meditação. Deve-se perseverar firme, pois tudo isso é para o bem espiritual do fiel (cf. Rm 8,28). Ele consola, mas também “afasta-se por cautela, a fim de que a grandeza da consolação não te ensoberbeça, evitando que a presença contínua do Esposo, te leve a desprezar as companheiras e atribuas a consolação não à graça, mas à natureza” (p. 25).

Fonte: https://pt.aleteia.org/

Medite a espiritualidade da Semana Santa a partir das reflexões dos bispos do Brasil

As celebrações da Semana Santa (CNBB)

MEDITE A ESPIRITUALIDADE DA SEMANA SANTA A PARTIR DAS REFLEXÕES DOS BISPOS DO BRASIL

27/03/2026

Às portas do início da Semana Santa, alguns dos bispos que oferecem artigos ao Portal da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) escreveram sobre a espiritualidade deste momento central para a fé cristã, ajudando o povo de Deus a mergulhar nos mistérios celebrados.

As celebrações da Semana Santa

O arcebispo da arquidiocese do Rio de Janeiro (RJ), cardeal Orani João Tempesta, introduz ao mistério celebrado no Domingo de Ramos da Paixão do Senhor, abrindo a Semana Maior e mais importante do calendário cristão.

“As celebrações desta semana são muito ricas e cheias de significado. Caso não seja possível participar de todas as celebrações devido ao trabalho ou aos estudos, meditemos os textos sagrados em casa e procuremos acompanhar as celebrações pela televisão, rádio ou internet. Hoje concluímos também a Campanha a Fraternidade com o nosso gesto concreto que é a Coleta da Solidariedade”.

O arcebispo motiva a intensificar a oração, participar das celebrações e viver profundamente o Tríduo Pascal. “Caminhemos com Cristo na cruz, para com Ele ressuscitarmos para uma vida nova”.

Leia o artigo de dom Orani na íntegra.

Força redentora

Em outro artigo, também inspirado pelo contexto da Semana Santa, dom Orani reflete sobre a força redentora que emana da entrega total de Jesus na cruz. Nesse ato de solidariedade extrema, segundo dom Orani, Ele assume nossas dores e transfigura o sofrimento em caminho de salvação. “Aqui, a força não é um exercício de poder dominador, mas de entrega sacrificial que gera vida nova”, escreveu.

“Do silêncio orante do Getsêmani à entrega total na cruz, passando pela dor, pela aparente derrota e pela esperança silenciosa do Sábado Santo, aprendemos que a verdadeira força nasce da confiança radical em Deus. O que celebramos nesses dias não pode permanecer apenas na memória, mas deve transformar a vida”.

Paradoxo fascinante e desconcertante

O bispo de Frederico Westphalen (RS), dom Antonio Carlos Rossi Keller, escreveu sobre o “paradoxo fascinante e desconcertante” apresentado na liturgia do Domingo de Ramos: “aclamamos um Rei montado num jumentinho. Gritamos ‘Hosana!’ e, poucos dias depois, gritaremos ‘Crucifica-o!’. Agitamos ramos festivos e, em seguida, mergulhamos no silêncio sombrio do Calvário”.

Para dom Antonio Carlos, o Domingo de Ramos não é apenas a abertura da Semana Santa, mas “oespelho da nossa própria alma”, uma vez que “revela a fragilidade das nossas aclamações, a instabilidade da nossa fé, mas, sobretudo, a fidelidade absoluta de Jesus, Servo obediente que abraça o amor até o fim”.

Além de explicar sobre os elementos e cada texto bíblico oferecido pela liturgia, dom Antônio indica como viver bem a Semana Santa.

“É umtempo de graça único, oferecido pela Igreja como oportunidade de transformação interior. Mas só nos transforma se nos dispormos a vivê-la com presença, com coração aberto”.

Leia o artigo de dom Antonio Rossi Keller na íntegra. 

Celebrar todo o mistério pascal

Dom Rodolfo Weber, arcebispo de Passo Fundo (RS) também destaca a liturgia da Semana Santa, na qual serão lidos e refletidos “ricos e vastos textos bíblicos sobre os fundamentos teológicos e litúrgicos da vida cristã”. Ele orienta que “não podemos nos deter em um aspecto, mas celebrar o todo do mistério pascal”.

Ele reflete sobre o contexto da guerra no Oriente Médio e sobre a missão da Igreja de estar ao lado de Cristo crucificado e de todos os crucificados.

“O triunfo de Cristo não é aquele imperial, mas o humilde e sofrido da cruz. É o que liberta e salva. Jesus entra em Jerusalém não para ocupar a chefia de um exército e de um Estado, mas para oferecer-se como ‘rei manso e humilde'”.

Leia o artigo de dom Rodolfo na íntegra.

Participar com Cristo

O bispo de Campos (RJ), dom Roberto Francisco Ferreria Paz, escreveu sobre o início da Semana Santa com o Domingo de Ramos, quando participamos de todo o trajeto de Jesus desde a sua entrada em Jerusalém até a sua vitória sobre a morte. Ele motiva à participação ativa nas celebrações.

“No coração do Ano Litúrgico não fiquemos no palco ou assistindo o mistério e o drama da nossa salvação como meros espectadores ou turistas espirituais mas mergulhemos de cheio não só nos ritos mas no itinerário espiritual das trevas para a luz, do ódio para o amor, do desespero e indiferença para a esperança, do medo para a confiança e entrega, configurando-nos com o Crucificado e identificando-nos com seus sentimentos, dores e angústias para vencer com Ele a morte”.

Leia o artigo de dom Roberto Paz na íntegra

Lugar para todos

Dom Itacir Brassiani, bispo de Santa Cruz do Sul, reflete a partir dos sonhos e utopias que a humanidade carrega e a missão de Jesus. Ele motiva reafirmar, no início da Semana Santa, o sonho de um mundo que tenha lugar para todos.

“Acompanhando Jesus de Nazaré em sua chegada à capital do seu país, reafirmamos nosso sonho de um mundo onde haja lugar e vida plena para todos, que não criminalize os profetas e os sonhadores, que dê primazia aos mais vulneráveis. Em Jesus, o sonho é vivido e testemunhado no dom de si mesmo, sem reservas. Por isso, vive e é imortal”.

Leia na íntegra o artigo de dom Itacir

Meditar a seriedade do amor

Dom Lindomar Rocha, bispo de São Luís de Montes Belos (GO), fez uma narração poética do mistério da encarnação de Jesus e da redenção trazida por Ele a partir do mote “A seriedade do amor”. Seu artigo pode auxiliar em meditações e reflexões durante a Semana maior.

“O Altíssimo entrou na história como caminhante. Seus pés tocaram a poeira. Sua voz chamou os perdidos. Sua fidelidade desceu até a morte. Sua vida abriu a manhã do terceiro dia. E, todo aquele que o ouve, cedo ou tarde, encontra dentro de si o vestígio dessa verdade”.

Leia e medite com o artigo de dom Lindomar

Por Luiz Lopes Jr

Fonte: https://www.cnbb.org.br/

Uma luz no fim do feed

Mundo digital  (Julien Eichinger - Fotolia)

Uma luz no fim do feed talvez não seja ainda a solução de todos os problemas, mas o resultado e a aceitação deste argumento por parte de um tribunal poderão influenciar milhares de casos semelhantes que estão tramitando contra as empresas de tecnologia, movidos por pais e outros atores.

Marcus Tullius[1] -  Comunicação da Cáritas América Latina e Caribe 

A decisão inédita de um júri de Los Angeles, no dia 25 de março, colocou Google e Meta no centro de um debate que extrapola o campo do Direito. Ao considerá-las responsáveis por contribuir para uma crise de saúde mental entre adolescentes e jovens, a partir do funcionamento de plataformas como YouTube e Instagram, o caso deve entrar, definitivamente, no debate público. O problema deixa de ser lido como fragilidade do usuário e passa a ser reconhecido como efeito de um sistema desenhado para capturar. Portanto, não é uma condenação do conteúdo que está circulando, mas da arquitetura da plataforma e a responsabilização de seus donos.

O caso em questão envolve uma jovem de 20 anos que afirmou ter se viciado nos aplicativos devido ao seu design atraente. Isso é resultado de uma lógica simples e profundamente eficaz. As plataformas existem para reter a atenção. E, uma vez retida, essa atenção precisa ser convertida em valor econômico. O tempo que se passa na tela não é apenas um indicador de uso — é a própria matéria-prima de um modelo de negócios.

Isso ajuda a compreender por que não se trata apenas de conteúdo produzido — que não é menos relevante —, mas de arquitetura. Rolagem infinita, notificações constantes, vídeos encadeados, recompensas intermitentes: tudo converge para prolongar a permanência nos aplicativos e dispositivos. Não porque o usuário decidiu livremente ficar, mas porque o ambiente foi desenhado para tornar a saída cada vez menos provável. Byung-Chul Han descreve em Não-coisas: reviravoltas do mundo da vida (2022) que “o constante digitar e deslizar no smartphone é um gesto quase litúrgico que influencia massivamente a relação com o mundo” (p. 43) e que “o dedo que digita torna tudo consumível” (p. 45). A captura permanente da atenção não se dá contra a vontade, mas é previamente orientada para gerar esse comportamento automatizado em vista do lucro.

Esta talvez seja apenas a ponta mais emergente de um iceberg daquilo que Shoshana Zuboff define em A era do capitalismo de vigilância (2021), como “uma nova ordem econômica que reivindica a experiência humana como matéria-prima gratuita para práticas comerciais dissimuladas de extração, previsão e vendas”. Este capitalismo de vigilância, extremamente predatório, nos deixa inertes diante desta arquitetura global de modificação de comportamento. A autora, professora emérita de Harvard, nem menciona à época a inteligência artificial, o que hoje acentua ainda mais a dimensão do problema de mudanças comportamentais e vícios. A atenção é capturada, convertida em dado e processada como valor. E o vício não é apenas um acidente do percurso, mas peça chave para o seu funcionamento.

Você já parou para perceber a enxurrada de notificações que recebe ao longo do dia? Até aqui, na leitura deste texto, você foi roubado quantas vezes por alguma notificação ou para checar alguma rede social? Não por acaso estamos muito mais dispersos e com a capacidade de atenção reduzida. O tempo de exposição às telas e os seus mecanismos de retenção da atenção afetam a todos, mas têm um efeito ainda mais danoso quando seus usuários são crianças e adolescentes. Especialistas de diversas áreas têm alertado sobre este impacto das centenas, ou até milhares de notificações, sobre um cérebro ainda em formação e que é constantemente interrompido. 

A decisão do tribunal nos Estados Unidos acontece poucos dias depois da entrada em vigor do chamado ECA Digital, no Brasil. Ao colocar crianças e adolescentes no centro desse debate, reconhece-se que ambientes digitais exploram vulnerabilidades cognitivas e emocionais. E isso não pode mais ser tratado como efeito colateral ou como responsabilidade do usuário.

Uma luz no fim do feed talvez não seja ainda a solução de todos os problemas, mas o resultado e a aceitação deste argumento por parte de um tribunal poderão influenciar milhares de casos semelhantes que estão tramitando contra as empresas de tecnologia, movidos por pais e outros atores.

A condenação de Google e Meta quebra uma lógica que parecia intocável e acelera um debate poliédrico que já não pode ser adiado. Poliédrico, porque não se trata apenas de regular as plataformas considerando o que circula nelas, mas sobretudo o modo como são desenhadas, seus mecanismos de retenção, seus algoritmos e a própria economia da atenção que as sustenta; de investir seriamente em educação midiática, capaz de formar sujeitos críticos que compreendam como funcionam esses ambientes e não apenas aprendam a usá-los; e de fortalecer o acompanhamento de crianças e adolescentes, como presença atenta, diálogo constante e construção de critérios no interior das famílias e comunidades.

Tais apelos encontram ressonância na mensagem do Papa Leão XIV para o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2026. Ainda que situados no campo da inteligência artificial, os três pilares propostos — responsabilidade, cooperação e educação — oferecem uma proposta muito clara para e que precisam ser assumidas de forma mais ampla no conjunto do ambiente digital em que estamos inseridos.

Esta decisão importa tanto não porque resolva o problema, mas porque introduz um ponto de inflexão: aquilo que antes operava sem responsabilização começa, enfim, a ser nomeado — e cobrado. E, quando isso acontece, o debate já não pode mais ser evitado.

[1] Mestre em Comunicação, coordenador de comunicação da Cáritas América Latina e Caribe e pesquisador de comunicação e religião. Atuou como coordenador da Pascom Brasil entre 2018 e 2024. Apresenta o programa Igreja Sinodal em emissoras de inspiração católica. Vencedor do Prêmio Papa Francisco dos Prêmios de Comunicação da CNBB (2025). 

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/

sexta-feira, 27 de março de 2026

Na Semana Santa não se celebra nenhum santo

Santos da Igreja Católica | Crédito: Atlético Zvonimir - Shutterstock

Por Abel Camasca*

25 de mar de 2026

Durante a Semana Santa não se celebram festas dos santos e beatos da Igreja.

As celebrações litúrgicas na Igreja têm categorias. As Normas Universais sobre o ano litúrgico dividem-nas, segundo a sua importância, em solenidades, festas e memórias livres ou obrigatórias.

As solenidades celebram Jesus, Maria e José. Assim, Domingo de Ramos, Quinta-feira Santa, quando se comemora a Ceia do Senhor, Sexta-feira Santa da Paixão e Sábado Santo são solenidades e têm precedência sobre qualquer outra festa.

No caso dos demais dias, as Normas Universais dizem que “as férias (dias litúrgicos) da Semana Santa, de segunda a quinta inclusive, têm preferência sobre qualquer outra celebração”.

*Abel Camasca é comunicador social. Foi produtor do telejornal EWTN Noticias por muitos anos e do programa “Más que Noticias” na Radio Católica Mundial.

Fonte: https://www.acidigital.com/

Pasolini: uma vida livre significa amar sempre e experimentar a dor sem ser vencido por ela

Última meditação desta Quaresma do Padre Roberto Pasolini, pregador da Casa Pontifícia  (ANSA)

O Evangelho nos permite "embarcar num caminho de purificação e conversão que nos conduz à liberdade dos filhos de Deus". Assim, o pregador da Casa Pontifícia concluiu a quarta e última meditação da Quaresma, na presença do Papa. O frade capuchinho revê os momentos finais da vida e da morte de São Francisco, que "aprendeu a aceitar sua própria fragilidade", descobrindo que a maior liberdade é colocar-se a serviço da Igreja e do mundo com generosidade.

Vatican News

A redescoberta das últimas etapas do caminho terreno de São Francisco de Assis, que aprendeu "a aceitar sua própria fragilidade" e pequenez, e que nada, nem mesmo a rejeição, a doença ou a morte, pode nos separar do amor de Deus. Esta é a reflexão oferecida pelo pregador da Casa Pontifícia, padre Roberto Pasolini, em sua quarta e última meditação quaresmal sobre o tema: "A liberdade dos filhos de Deus. A alegria perfeita e a morte como irmã", realizada na manhã desta sexta-feira, 27 de março, na Sala Paulo VI, na presença de Leão XIV.

O padre capuchinho recorda que, nesses quatro encontros, sobre o tema "Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura", a escolha foi deixar-se guiar pela figura do Pobrezinho de Assis "no caminho da conversão ao Evangelho". O fruto mais maduro de sua experiência será, em última análise, "a liberdade dos filhos de Deus".

Francisco guiado por Deus na pobreza de sua vida

Ele enfatiza que Francisco se tornou santo porque aprendeu "a deixar-se guiar por Deus na concretude e pobreza de sua existência" e, portanto, como um alter Christus, a acolher o Espírito Santo com abertura. Já no fim de seus dias, recorda Tomás de Celano, ele tinha "se transformado em oração viva", isto é, "todo o seu modo de vida se tornou como uma oração contínua".

O caminho da alegria perfeita

Naqueles últimos anos, porém, continua o pregador, Francisco experimentou a "grande tentação" de uma profunda crise: a Ordem dos Frades Menores "tinha crescido e se transformado", e ele "sentia-se rejeitado, quase inútil, até mesmo considerado um 'idiota'". Ao frei Leão, que estava com ele em Santa Maria dos Anjos, o pobre homem contou a parábola da "verdadeira e perfeita alegria", pedindo-lhe que listasse coisas belas "que pudessem ser motivo de orgulho para ele e para a Igreja". Por fim, pediu-lhe que escrevesse que "em todas aquelas coisas não há alegria perfeita" e explicou que "a alegria autêntica se manifesta quando a rejeição, a humilhação e a incompreensão não conseguem nos roubar a paz". A verdadeira alegria, comenta o padre Pasolini, reside em como "reagimos em circunstâncias adversas, quando somos rejeitados e excluídos".

A felicidade não consiste em se proteger da realidade, mas em aprender a abraçá-la mesmo quando dói, sem se deixar dominar por ela. É aí que a vida cristã se torna concreta e aprendemos a valorizar uma alegria que não depende de como as coisas acontecem, mas de como escolhemos vivê-las.

A alegria perfeita, portanto, não é "a ausência de feridas", mas "a liberdade de não ser definido por elas. É uma liberdade que não apaga a dor, mas impede que ela tenha a última palavra."

Padre Roberto Pasolini durante sua quarta meditação da Quaresma   (@Vatican Media)

As Bem-aventuranças, uma promessa de vida plena

É Jesus, no Evangelho, quem mostra que “este modo de vida — livre mesmo diante do ódio e da perseguição — é a plenitude da vida nova em seu nome”. Ele o faz no início de seu ministério público, com as Bem-aventuranças, que não são uma lei, mas uma promessa, “não um programa de perfeição moral, mas a revelação de uma felicidade já atuante no âmago da realidade”.

As Bem-aventuranças não nos convidam a fugir da realidade nem a adiar a felicidade para um futuro distante. Elas nos convidam a mergulhar mais profundamente naquilo que vivemos, mesmo quando nos parece frágil e incompleto. Elas proclamam que o caminho para uma vida plena reside em nossa experiência concreta, dentro do que somos e no que vivenciamos.

O Papa Leão XIV ouve a meditação quaresmal do Padre Pasolini   (@Vatican Media)

Desejar a vida com a maior intensidade possível

Na conclusão, o padre Roberto sublinhou que “não podemos adaptar o Evangelho aos nossos medos, reduzi-lo a uma proposta reconfortante ou a um conjunto de práticas religiosas que conservam apenas a aparência de vida no espírito, mas esvaziam sua verdadeira força”, e completou:

“Oferecer um cristianismo fácil e barato, menos exigente, significa privar os homens e as mulheres do nosso tempo daquilo de que realmente precisam: um caminho capaz de conduzir nossos passos humanos ao horizonte da vida eterna. O Evangelho não nos convida a viver menos, nem a fugir do peso e do cansaço da realidade. Ele nos autoriza a desejar a vida com a maior intensidade possível, acolhendo com humildade a cruz e o pão de cada dia. O Evangelho não propõe atalhos, mas nos capacita para um caminho de purificação e conversão que conduz à liberdade dos filhos de Deus. E é nossa responsabilidade guardar esta verdade sem atenuá-la, indicando caminhos que abram as portas para a plena maturidade em Cristo.”

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/

quinta-feira, 26 de março de 2026

A Páscoa do Senhor em São João por Santo Agostinho

A Páscoa do Senhor (CNBB Norte 2)

A PÁSCOA DO SENHOR EM SÃO JOÃO POR SANTO AGOSTINHO

26/03/20261

por Dom Vital Corbellini
Bispo da Diocese de Marabá

A Igreja celebra a Páscoa do Senhor como o ponto central da vida de Jesus em vista da salvação humana. É o mistério do amor, da doação do Senhor por nós e pela humanidade. Para voltar ao Pai era necessário que o Filho do Homem, Filho de Deus passasse pela paixão, morte e ressurreição. Jesus tinha consciência desta passagem fundamental sem a qual não teria a redenção humana. Nos próximos dias celebraremos os mistérios que proporcionaram vida em abundância, pois teremos presentes o amor de Deus a nós e a toda a humanidade; “Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único” (Jo 3,16). A seguir nós teremos a visão de Páscoa em Santo Agostinho, a partir do evangelista São João, o discípulo amado do Senhor.

A Páscoa tem significado de passagem

Santo Agostinho teve presente o capitulo 13 de São João onde se diz que “Jesus antes da festa da Páscoa, sabendo que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (cfr. Jo 13, 1). Para ele entra aqui os significados de Páscoa, que se de um lado vem do grego páschein, padecer[1], de outro lado a Páscoa tem o significado na sua verdadeira língua, a hebraica, a qual diz respeito à passagem, uma vez que o povo de Deus celebrou a Páscoa no momento em que as pessoas fugiam do Egito ao passar pelo Mar Vermelho (cf. Ex 14,29). O tempo completou-se onde Jesus seria conduzido como ovelha ao matadouro, para o único sacrifício e perfeito (cf. Is 53,7). Qual seria a passagem que Jesus iria realizar? A passagem dele foi deste mundo ao Pai[2], de modo que Ele passou pelo sofrimento, pela cruz para chegar à glória da ressurreição. A Páscoa possui o significado da passagem do Senhor deste mundo para a vida divina.

Ele teve um amor grande, até o fim

O amor do Senhor não teve limites para com os seus e para o gênero humano, indo até o fim. O Bispo de Hipona afirmou que o fim do qual o evangelista afirmou, trata-se daquele que leva à plenitude, não de um fim que aniquila, perece, mas do fim de um amor sem limites[3]. É um amor segundo as palavras evangélicas que podem ser tomadas também num sentido humano, segundo o qual se diz que Jesus amou os seus até o fim pois os amou até a morte[4]. É evidente que o amor de Jesus não se esgota pela morte; Ele sempre nos amou e nos ama até o fim para significar um amor que não mediu palavras e ações[5].

O Pai pusera tudo nas mãos  de Jesus

O Evangelista São João afirmou que o Pai pusera tudo nas mãos de seu Filho, Jesus, que o diabo pusera no coração de Judas o propósito de entregá-lo, que Ele viera de Deus e a Deus voltava, levantou-se da mesa, depôs o manto, tomou uma toalha, cingiu-se com ela e começou a lavar os pés de seus discípulos e a enxugá-los com a toalha com que estava cingido (cf. Jo 13,2-5)[6]. Jesus não fez este gesto maravilhoso no fim, mas durante a ceia, pois Ele tornou a sentar-se à mesa, significando a necessidade do serviço como doação de si mesmo, para o próximo e para Deus.

O projeto de entregar Jesus

São João afirmou que Judas queria entregar Jesus às autoridades tendo presente o diabo que pusera isso no coração dele para entregar Jesus[7]. Segundo Santo Agostinho esta ação de pôr era uma sugestão espiritual, não do ouvido, era pelo pensamento, não era do corpo, mas era do espírito. Santo Agostinho levantou a pergunta como é possível que as diabólicas sugestões se introduzam e se misturem com os pensamentos humanos? A resposta vem quando o consentimento que presta a mente humana a cada uma das sugestões por mérito humano o fará se tiver sido abandonada pelo auxílio divino, ou por obra da graça. Já tinha sido posto no coração de Judas, por ação diabólica, que o discípulo entregasse o Mestre que ele não aprendera tratar-se de Deus. Na verdade Judas foi ao banquete como espião do Pastor, segundo o bispo de Hipona, como quem espreita o Salvador, e vende o Redentor. Viera nesta condição, e pensava que fosse ignorado, pois não pode enganar Aquele a quem pretendia enganar. No entanto Jesus percebeu o pensamento e a ação de Judas que iam se realizar contra o Senhor[8].

O gesto humilde do Senhor

Como foi dito, Jesus levantou-se da mesa, depôs o manto, tomou uma toalha, cingiu-se com ela. Colocou em seguida água numa bacia e começou a lavar-lhes os pés dos discípulos e a enxugá-los com a toalha com quem estava cingido (cf. Jo 13, 5). O evangelista quis enaltecer seja a humildade de Jesus servidor das pessoas e da humanidade, como também enaltecer a sua excelsitude[9]. Tendo presente que o Pai pôs tudo em suas mãos, Ele não lavou as mãos dos discípulos, mas sim os seus pés. Ele exerceu o serviço de quem era escravo[10], demonstrando o amor pelo serviço essencial que aconteça na vida da comunidade.

A atitude de Jesus foi aquela de uma grande humildade, no sentido de que Deus era, é o Encarnado, assumindo todas as coisas referentes à humanidade na maior simplicidade da vida. Ele lavou também os pés de Judas, aquele que deveria trair a Jesus, demonstrando um grande grau de humildade, cujas mãos Ele antevia já comprometidas com o crime[11].

Jesus estava próximo de sua paixão, morte e ressurreição. Com o gesto do lava-pés ensinou aos seus discípulos e a todos nós, a importância do serviço, da vivência da humildade, fazendo perecer para sempre a vaidade, o orgulho das pessoas, de suas autoridades, para enaltecer a caridade e o amor entre as pessoas, com Deus[12]. A Páscoa é passagem do mistério da encarnação, paixão, morte, ao mistério da glória da ressurreição e a sua entrada à direita do Pai.

Notas:

[1] Cfr. Homilia 55,1. O amor até o fim.  In: Santo Agostinho. Comentários a São João II. Evangelho – Homilias 50-124. São Paulo: Paulus, 2022, pg. 73.

[2] Cfr. Idem, pg. 74.

[3] Cfr. Ibidem, n. 2, pg. 75.

[4] Cfr. Ibidem.

[5] Cfr. Ibidem, pgs. 75-76.

[6] Cfr. Ibidem, n. 03, pg. 76.

[7] Cfr. Ibidem, n. 04, pg. 76.

[8] Cfr Ibidem, pg. 77.

[9] Cfr. Ibidem, n. 6. Pg. 78.

[10] Cfr. Ibidem.

[11] Cfr. Ibidem.

[12] Cfr. Ibidem, n. 7, pg. 79.

Fonte: https://cnbbn2.com.br/

quarta-feira, 25 de março de 2026

ANUNCIAÇÃO: O “sim” que mudou a história da humanidade

mage of our Lady of Fátima at the Fátima Sanctuary, final destination of the Tagus Route (© Centro Nacional de Cultura)

Prof. Felipe Aquino - publicado em 23/12/15 - atualizado em 25/03/26

O "sim" de Maria dito ao arcanjo Gabriel foi determinante para dar início à história da nossa salvação.

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Santo Agostinho disse que: “Adão, sendo homem, quis tornar-se Deus e perdeu-se. Cristo, sendo Deus, quis fazer-se homem para a salvação do homem. Por seu orgulho, o homem caiu tão baixo que só podia ser levantado pelo abaixar-se de Deus”.

O pecado original nos fez perder a filiação divina; a humanidade foi expulsa do paraíso; e só poderia se reconciliar com Deus se houvesse a salvação por meio de Deus mesmo.

Mas, para que o Filho de Deus pudesse se tornar também homem, e nosso Salvador, sem deixar de ser Deus, era preciso que fosse concebido por uma mulher. Desde a queda de Adão e Eva Deus já tinha prometido que a salvação da humanidade viria por meio de uma Mulher, já que o demônio seduziu a primeira mulher para injetar seu veneno na sua descendência. Deus disse à Serpente maligna: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3,15). Esta Mulher prometida no Protoevangelho era Maria.

Este projeto de Deus para a nossa salvação se realizou como São Paulo explicou: “Mas quando veio a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, que nasceu de uma mulher e nasceu submetido a uma lei, a fim de remir os que estavam sob a lei, para que recebêssemos a sua adoção. A prova de que sois filhos é que Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai!” (Gal 4,4). Por meio da Virgem Maria veio o Salvador, que nos reconciliou com Deus por Sua morte e ressurreição. Nele nos tornamos novamente filhos de Deus por adoção, pelo Batismo, e Deus enviou o Espirito Santo aos nossos corações.

O que a Anunciação nos ensina?

Deus anunciou muitas vezes pela boca dos seus profetas como isso aconteceria. O Salvador viria da tribo de Davi, filho de Jessé: “Um renovo sairá do tronco de Jessé, e um rebento brotará de suas raízes ”(Is 11,1). “O próprio Senhor vos dará um sinal: uma Virgem conceberá e dará à luz um Filho, e o chamará Deus Conosco” (Is 7, 14). “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; sobre aqueles que habitavam uma região tenebrosa resplandeceu uma Luz… um Menino nos nasceu, um filho nos foi dado, a soberania repousa sobre os seus ombros, e ele se chama: Conselheiro Admirável, Deus Forte, Príncipe da Paz” (Is 9,1-7). Quando Ele vier e estabelecer Seu Reino entre nós, haverá paz e bem estar:

“Então o lobo será hospede do cordeiro, a pantera se deitará ao pé do cabrito, o touro e o leão comerão juntos, e um menino pequeno os conduzirá; a vaca e o urso se fraternizarão, suas crias repousarão juntas, e o leão comerá palha com o boi. A criança de peito brincará junto à toca da víbora, e o menino desmamado meterá a mão na caverna da serpente. Não se fará mal nem dano em todo o meu Santo Monte.” (Is 11, 1-9). Virá Aquele que “ilumina todo homem que vem a este mundo” (João 1, 9).

Ele será o Messias, o esperado pelas nações, “o mais belo dos filhos dos homens”. Sem a sua luz o homem vive nas trevas; “permanece para si mesmo um desconhecido, um enigma indecifrável, um mistério insondável”, como disse São João Paulo II; sem Ele ninguém sabe quem é, e não sabe para onde vai.

Para que tudo acontecesse, Deus tinha que escolher uma mulher...

E Deus escolheu a melhor Mulher. A tradição judaica diz que todas as mulheres judias acalentavam o sonho de ser a Mãe do Messias, menos a pequena Maria, escondida na pequenina e desprezada Nazaré. Mas Deus precisava da mulher mais humilde para esta missão, porque a primeira mulher foi soberba, pecou porque “quis ser como Deus”.

Santo Irineu de Lião (†200) disse que pela obediência de Maria foi desatado o nó da desobediência de Eva. E Jesus pela radical humilhação anulou a soberba de Adão.

A Igreja nos ensina que: “Deus enviou Seu Filho” (Gl 4,4), mas, para “formar-lhe um corpo” quis a livre cooperação de uma criatura. Por isso, desde toda a eternidade, Deus escolheu, para ser a Mãe de Seu Filho, uma filha de Israel, uma jovem judia de Nazaré na Galileia, “uma virgem desposada com um varão chamado José, da casa de Davi, e o nome da virgem era Maria” (Lc 1,26-27): “Quis o Pai das misericórdias que a Encarnação fosse precedida pela aceitação daquela que era predestinada a ser Mãe de seu Filho, para que, assim como uma mulher contribuiu para a morte, uma mulher também contribuísse para a vida”. (Cat. n. 488; LG, 56).

O SIM de Maria dito ao Arcanjo Gabriel foi determinante para dar início à História da Salvação. “Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a Tua palavra” (Lc 1,38). Não colocou qualquer obstáculo e nem a menor exigência ao plano e à vontade de Deus. Então Nela o Verbo se fez carne e habitou entre nós. Foi inaugurada a História da nossa salvação. Deus se fez homem no sei da Virgem preparada por Deus, concebida sem pecado original, virgem como Eva, mas Imaculada. Deus a escolheu por ser a mais humilde de todas as mulheres. Ela canta em seu Magnificat: “Ele olhou para a humildade de Sua serva”.

O Espírito Santo foi enviado para santificar o seio da Virgem Maria e fecundá-la divinamente, ele que é “o Senhor que da a Vida”, fazendo com que ela concebesse o Filho Eterno do Pai em uma humanidade proveniente da sua. Quando ela foi servir a Sua prima Santa Isabel, logo foi saudada por Isabel, cheia do Espírito Santo, como “a Mãe do meu Senhor”.

Todos os santos nos falam da SIM de Maria

Santo Agostinho exclama: “És Maria, a beleza e o esplendor da terra, és para sempre o protótipo da santa Igreja. Por uma mulher, a morte, por outra mulher a vida: por ti, Mãe de Deus. Eva foi a causadora do pecado; Maria, causadora do merecimento. Aquela feriu, esta curou.

Maria é mais bem-aventurada recebendo a fé de Cristo do que concebendo a carne de Cristo. Maria permaneceu Virgem concebendo seu Filho, Virgem ao dá-lo a luz, Virgem ao carregá-lo, Virgem ao alimentá-lo do seu seio, Virgem sempre. Jesus tomou carne da carne de Maria. Na Eucaristia Maria perpetua e estende a sua Divina Maternidade”.

O SIM de Maria fez dela a Mãe do Senhor, a Mãe da Igreja e a Mãe de cada irmão de Jesus resgatado pelo Seu Sangue. Diz ainda Santo Agostinho: “Maria é chamada nossa Mãe porque cooperou com sua caridade para que, nós, fiéis, nascêssemos para a vida da graça, como membros da nossa cabeça, Jesus Cristo”. São Tomás de Aquino disse que: “Maria pronunciou o seu “fiat” (faça-se) em representação de toda a natureza humana”. “Por ser Mãe de Deus, Maria, tem uma dignidade quase infinita”. Em nome de cada um de nós Nossa Senhora disse Sim a Deus, e a salvação chegou até nós. Por isso Deus fez dela a medianeira de todas as graças.

São Francisco de Sales, o grande doutor inspirador de Dom Bosco disse que: “As crianças, vendo o lobo, correm logo para os braços do pai ou da mãe, pois ali se sentem seguras. Assim devemos fazer: recorrer imediatamente a Jesus e a Maria”.

“Recorre a Maria! Sem a menor dúvida eu digo, certamente o Filho atenderá sua Mãe. Tal é a vontade de Deus, que quis que tenhamos tudo por Maria”, disse o doutor São Bernardo. Ele garante que “Maria recebeu de Deus uma dupla plenitude de graça. A primeira foi o Verbo eterno feito homem em suas puríssimas entranhas. A segunda é a plenitude das graças que, por intermédio desta divina Mãe, recebemos de Deus. Deus depositou em Maria a plenitude de todo o bem”. Por isso, o grande doutor dizia:

“O servo de Maria não pode perecer. Se se levantam os ventos das tentações, se cais nos escolhos dos grandes sofrimentos, olha para a Estrela, chama por Maria! Se as iras, ou a avareza, ou os prazeres carnais se abaterem sobre a tua barca, olha para Maria. Se, perturbado pelas barbaridades dos teus crimes, se amedrontado pelo horror do julgamento, começas a ser sorvido em abismos de tristeza e desespero, olha para a Estrela, chama por Maria. Nos perigos, nas angústias, nas dúvidas, pensa em Maria, invoca Maria. Que ela não se afaste dos teus lábios, não se afaste de teu coração. Maria é a onipotência suplicante”.

(Felipe Aquino)

Fonte: https://pt.aleteia.org/

Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF