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sexta-feira, 20 de março de 2026

Você acredita em vida após o nascimento?

Dois bebês conversando - Victor (Facebook)

VOCÊ ACREDITA EM VIDA APÓS O NASCIMENTO?

20/03/2026

Dom Itacir Brassiani
Bispo de Santa Cruz do Sul (RS)

No próximo domingo, as comunidades cristãs meditarão sobre o capítulo 11 do evangelho segundo João. Ele nos apresenta o drama da morte de Lázaro, amigo querido de Jesus e irmão das amigas Marta e Maria. Este texto não fala propriamente sobre a nossa ressurreição, mas sobre o dinamismo da fé em Jesus e a amizade dele conosco.  

Entretanto, a cena nos é proposta enquanto caminhamos para a Páscoa, e a Páscoa tem a ver com a ressurreição de Jesus. A fé na ressurreição não significa “passar panos quentes” na tragédia da morte, mas afirmar com vigor e proclamar com eloquência a força da Vida. À medida em que se faz dom, a Vida é como a semente que cai na terra e germina.  

Sei que a ressurreição é vista como algo insólito por uma cultura que canoniza o presente, o sensível e o rentável e nega ou considera desprezível tudo o que não cabe nestes estreitos limites. Talvez se possa dizer que, na pós-modernidade liberal, a religião e o monoteísmo não desapareceram, mas foram substituídos pelo “moneyteísmo”. 

A propósito da ressurreição dos que morrem, recordo uma conhecida parábola. No ventre de uma mulher grávida estavam dois bebês gêmeos: Fidélis e Nilo. Nilo perguntou se Fidélis acreditava em “vida após o nascimento”, ao que ele respondeu: “Certamente! Algo tem que haver após o nascimento. Talvez a vida aqui nesse lugar apertado e escuro seja apenas uma preparação para o que seremos mais tarde…”  

Em tom irônico, Nilo perguntou se o irmão saberia dizer como seria a outra vida, e Fidélis respondeu: “Eu não sei exatamente como será essa outra vida, mas acho que nela haverá mais luz e espaço do que aqui. Nessa nova fase da vida talvez caminhemos com nossos próprios pés, nos alimentemos pela boca e possamos conhecer muitas outras pessoas…”  

Nilo gritou que isso tudo é absurdo, que caminhar é coisa impossível, que o cordão umbilical é o único modo de se alimentar e que ninguém voltou depois do parto para dizer como é essa suposta vida. E completou: “O parto encerra a vida, e ponto final. A vida é apenas uma angústia prolongada numa escuridão sem sentido e sem fim”. 

Mas Fidélis prosseguiu: “Não sei bem como será a vida depois do nascimento. Mas eu acho que veremos o rosto da nossa Mamãe, e ela cuidará de nós. Sei que você não acredita em Mamãe, mas ela nos envolve e nos sustenta. É nela e através dela que vivemos. No silêncio já podemos ouvi-la cantando e senti-la afagando nosso pequeno mundo…” 

Fonte: https://www.cnbb.org.br/

Pasolini: o Evangelho não se anuncia para vencer, mas para encontrar

Pasolini pregou a terceira meditação da quaresma.  (@Vatican Media)

Na Sala Paulo VI, o pregador da Casa Pontifícia reflete sobre São Francisco e lembra que anunciar Cristo com humildade, e não com superioridade, é a verdadeira autoridade na evangelização.

Benedetta Capelli- Vatican News

Agir com humildade, aceitando depender da sensibilidade dos outros, preparar o terreno para o encontro com Jesus, não oferecer respostas prontas, mas suscitar perguntas, deixar espaço para o diálogo, prontos para acolher o bem do outro num “dinamismo de amor”. Trata-se de um caminho articulado e rico de inspirações, centrado na evangelização a partir da experiência espiritual de São Francisco. É o que o pregador da Casa Pontifícia, padre Roberto Pasolini, propõe em sua terceira meditação sobre o tema: “A missão. Anunciar o Evangelho a toda criatura”, nesta manhã (20/03), na Sala Paulo VI, na presença do Papa Leão XIV.

O anúncio do Evangelho, enfatiza o capuchinho, não deve ser feito “a partir de uma posição de superioridade ou de controle”, pois isso correria o risco de traí-lo.

A nossa autoridade não nasce do nosso cargo, mas de uma vida que aceita entrar nesse dinamismo de amor. Foi o que Francisco intuiu ao chamar seus frades de “menores”: atribuindo-lhes não um título, mas um modo concreto de estar no mundo. É justamente essa pequenez, essa humildade vivida, que torna fecundo o anúncio do Evangelho. 

O Evangelho toma forma na vida

A missão, cumprimento da conversão e da fraternidade, nasce “do desejo de compartilhar com os outros a experiência e o anúncio do Evangelho”, mas tudo provém da Palavra. “Não se pode falar verdadeiramente, afirma padre Pasolini, daquilo que ainda não criou raízes na própria vida”.

Não se pode permanecer “abrigado”, mas “é preciso paciência: guardar aquilo que vimos e ouvimos, deixá-lo amadurecer na oração, até que, sublinha, se torne vida antes mesmo de se tornar palavra”. Atenção à tentação de “usar as coisas de Deus para buscar aprovação ou reconhecimento”: é preciso proteger o que é precioso, deixá-lo amadurecer e depois transformá-lo em testemunho.

“Cristo não é uma informação a ser transmitida, mas um mistério que habita a humanidade e pede para ser reconhecido, para que possa emergir na vida. O Evangelho não se comunica como uma simples notícia; oferece-se como uma vida que lentamente toma forma.”

Como um renascimento

Padre Pasolini recorre a um exemplo eficaz para explicar como a presença de Deus no coração humano transforma a vida e a relação com os outros: “É a experiência de uma mãe: primeiro ela traz o filho dentro de si, dá-lhe tempo para crescer, e só depois o dá à luz. Assim também é a fé. Primeiro Cristo ocupa espaço dentro de nós, em silêncio, na oração, nas escolhas cotidianas. E só depois pode aparecer exteriormente, nos gestos e na forma como nos relacionamos com os outros”.

A humanidade do outro

Partir sem seguranças, preparando um encontro que o próprio Jesus deseja realizar. “Não somos nós o centro do anúncio, explica o capuchinho, mas o rosto de Deus que podemos, com simplicidade, tornar transparente e acessível”. É um movimento claro: deixar-se acolher e depois anunciar, reconhecendo o valor do outro. “Significa levar a sério a sua humanidade, a sua capacidade para o bem, a sua disponibilidade”. 

A pobreza real

Para isso é necessária “uma pobreza real”, ressalta o pregador: “apresentar-se sem ter tudo e sem controlar tudo, aceitar depender também da bondade e da sensibilidade dos outros, e perceber que o Reino de Deus já está presente, de maneira oculta, também na vida de quem ainda não o conhece”.

Evangelizar, nessa perspectiva, significa dizer aos outros, mesmo sem dizer nada, que é bom que existam, que a sua vida tem valor. Não para confirmá-los simplesmente no que já são, mas para acompanhá-los a reconhecer, pouco a pouco, a verdade e a beleza que carregam dentro de si, sem pressa de conduzi-los às nossas ideias.

Pasolini recorda as palavras do Papa Francisco sobre a evangelização: “a Igreja não cresce por proselitismo, mas por atração”, isto é, quando “a nossa presença não sufoca a liberdade do outro, mas a desperta”. 

Palavras abstratas não convencem ninguém

Reconhecer no outro a presença de Deus e aproximar-se com respeito: estas são as condições essenciais para o diálogo. “Não se trata apenas de saber falar, mas antes de tudo de saber escutar. E, quando chegar o momento, saber comunicar as palavras de esperança que vêm de Deus”. Não dar respostas imediatas, mas saber esperar pelas perguntas, porque é Deus quem “completa o nosso pobre testemunho”.

Padre Pasolini recorda o episódio dos bandidos que viviam perto dos frades acima do Borgo de San Sepulcro; uma convivência difícil que levou Francisco a uma verdadeira iluminação: oferecer-lhes pão e vinho e, depois, anunciar Deus. Só assim os bandidos podem mudar de vida, porque experimentam “acolhimento, respeito e confiança”. O que realmente prepara o encontro é o caminho a ser trilhado juntos, que leva as pessoas a se questionarem: “essas perguntas, acrescenta o pregador, já são um lugar onde Deus está presente e em ação”.

“Quando as palavras nascem de uma experiência real, elas chegam aos outros. Quando permanecem abstratas e impessoais, não convencem ninguém, nem mesmo nós que as pronunciamos. Anunciar o Evangelho significa aproximar-se com respeito da vida dos outros e reconhecer que, na complexidade de suas histórias, já existe uma busca de sentido, de bem e de verdade.”

Preservar a diferença

Um episódio central na vida de São Francisco é o encontro com o sultão do Egito, Al-Malik al-Kamil, durante a Quinta Cruzada. “À primeira vista, explica o capuchinho, pouco parece acontecer: o sultão não se converte e Francisco não encontra o martírio que procurava”. Mas aquele encontro torna-se terreno de diálogo e crescimento. O frade de Assis apresenta-se “simples, pobre, sem defesas”. “Não procura impor a própria ideia, mas coloca-se diante do outro tal como é”. O sultão reconhece nele “a pobreza e a humildade de Cristo”, não se sente atacado nem questionado, e por isso se abre. O milagre é que dois homens, em meio à guerra, descobrem a humanidade um do outro e se deixam em paz.

O Evangelho não se anuncia para vencer, mas para encontrar. O outro não é um alvo a ser atingido, mas um limiar diante do qual se para, esperando ser acolhido. Evangelizar não significa reduzir a distância a qualquer custo, mas atravessá-la sem anulá-la, preservando a diferença como o espaço onde Deus continua a agir no coração de cada um. 

Uma vida a ser encontrada

Encontrar o outro significa não apenas dar, mas também receber. Nessa atitude de “radical abertura ao outro”, Francisco recomenda aos seus frades que sejam “submissos” diante de pessoas de diferentes crenças. Submissão, esclarece padre Pasolini, não significa perder a própria identidade, nem resignar-se por fraqueza diante do outro.

Trata-se de uma escolha livre de respeito e diálogo. Significa reconhecer que o outro não é um terreno a ser conquistado, mas uma vida a ser encontrada, respeitada e acolhida. Quem aceita posicionar-se assim permite que o outro se abra, emerja, mostre-se como é. Esse modo de se colocar já é, por si só, um ato profundamente evangélico. 

O Mistério de Deus

“Deus não se impôs ao homem, afirma o capuchinho, mas lhe deu espaço. Não guardou zelosamente a própria grandeza: entregou-a, para que o outro pudesse acolhê-la e viver. Quando há acolhimento, o bem emerge, aquele bem, conclui o pregador da Casa Pontifícia, no qual, de modo escondido, já está presente o mistério de Cristo”.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

quinta-feira, 19 de março de 2026

"Nosso Pai e Senhor": uma meditação de São Josemaría na festa de São José

São José (Opus Dei)

"Nosso Pai e Senhor": uma meditação de São Josemaría na festa de São José

Em 19 de março de 1968, o fundador do Opus Dei pregou esta meditação no Oratório de Pentecostes, em Villa Tevere. José carregou Jesus nos braços, beijou-o e vestiu-o. Uma vida completamente despercebida, mas repleta de grandeza. Quem era, afinal, o esposo de Maria? Texto original extraído de "Em Diálogo com o Senhor".

18/03/2026

Introdução

Celebramos a festa de São José, nosso Pai e Senhor, protetor e padroeiro da Igreja universal e desta família de filhas e filhos de Deus que é o Opus Dei. Às vezes, penso que vos tereis perguntado: como é possível que a devoção a São José tenha na Obra esta raiz, esta profundidade, se é uma devoção relativamente recente, visto que começou a florescer no Ocidente por volta do século XVI? Responder-vos-ei que o carinho, a piedade e a devoção a São José são uma consequência da nossa vida contemplativa. Porque, na Obra, todos estamos obrigados a cultivar muito o trato com Jesus e a Santíssima Virgem; e não podemos manter um trato íntimo com o

Senhor e sua Mãe, nossa Mãe bendita, se não estivermos muito familiarizados com o Santo Patriarca, que era o chefe da família de Nazaré.

Por outro lado, meus filhos, a Igreja propôs-no-lo, e com razão, como padroeiro da vida interior. Pois haverá alguém com mais vida interior do que José? Haverá alguma criatura que tenha tido um trato mais íntimo com Jesus e com Maria? Haverá alguém mais humilde do que José, que passa totalmente despercebido?

Um homem justo e simples

Há uns dias, lendo na missa uma passagem do Livro dos Reis, veio-me à mente e ao coração o pensamento da simplicidade que o Senhor nos pede nesta vida, que é a mesma que José viveu. Quando Naaman, o general da Síria, vai finalmente ter com Eliseu para ser curado da lepra, o profeta pede-lhe uma coisa simples: “Vai lavar-te sete vezes no Jordão, e a tua carne recuperará a saúde e ficarás limpo”[1]. Aquele homem arrogante pensou: por acaso os rios da minha terra não têm uma água tão boa como os desta terra de Eliseu? Foi para isso que vim de Damasco? Esperava uma coisa chamativa, extraordinária. E não! Estás manchado, vai lavar-te, diz-lhe o profeta; e não te laves só uma vez, mas bastantes: sete. A mim parece-me que isto é uma figura dos sacramentos.

Tudo isto me recordou a vida simples, oculta, de José, que só faz coisas correntes. São José passa totalmente despercebido. A Sagrada Escritura mal nos fala dele. Mas apresenta-no-lo a realizar o trabalho de um chefe de família.

Por isso, se São José é padroeiro da nossa vida interior, se é acicate para o nosso caminhar contemplativo, se o trato com ele é um bem para todos os filhos e filhas de Deus no seu Opus Dei, para os que têm na Obra uma função de governo, São José parece-me um exemplo excelente: só intervém quando é necessário e, nessa altura, fá-lo com fortaleza e sem violência. Assim é José.

Não estranheis, portanto, que a missa da sua festa comece com estas palavras: “Iustus ut palma florebit[2]. Assim floresceu a santidade de José: “Sicut cedrus Lybani multiplicabitur[3]. Penso em vós. No Opus Dei, cada um é como um grande pai ou mãe de família, com a preocupação por tantas e tantas almas de todo o mundo. Quando explico às minhas filhas ou aos meus filhos mais jovens que, no trabalho de São Rafael, devem ter um trato especial com três ou quatro ou cinco amigos; que, desses amigos, talvez haja apenas dois que encaixem, mas que depois cada um deles trará três ou quatro amigos presos a cada um dos dedos, o que é isso senão florescer como o justo e multiplicar-se como os cedros do Líbano?

Plantatus in domo Domini, in atriis domus Dei nostri[4]. Como José, todos os meus filhos estão seguros, com a alma dentro da casa do Senhor. E estão assim vivendo no meio da rua, no meio dos afãs do mundo, sentindo as preocupações dos seus colegas, dos demais cidadãos, nossos iguais.

Não é de estranhar que a liturgia da Igreja aplique ao Santo Patriarca estas palavras do livro da Sabedoria: “Dilectus Deo et hominibus, cuius memoria in benedictione est[5], dizendo-nos que é amado pelo Senhor e propondo-no-lo como modelo. E convida-nos a que também nós, bons filhos de Deus – ainda que sejamos uns pobres homens, como eu sou –, louvemos este homem santo, maravilhoso, jovem, que é o Esposo de Maria. Esculpiram-mo velho, num relevo do oratório do Padre. E não! Noutros sítios, pedi que o pintassem jovem, como o imagino; talvez tivesse mais uns anos que a Virgem, mas era jovem, forte, na plenitude da idade. Por trás dessa forma clássica de representar São José, como um ancião, esconde-se o pensamento – demasiado humano – de que é difícil a uma pessoa jovem viver a virtude da pureza. Não é verdade. O povo cristão chama-lhe patriarca, mas eu vejo-o assim: jovem de coração e de corpo, e ancião nas virtudes; e, por isso, jovem também na alma.

Glorificavit illum in conspectu regum, et iussit illi coram populo suo, et ostendit illi gloriam suam[6]. Não esqueçamos que o Senhor quer glorificá-lo. E nós colocámo- -lo no cerne do nosso lar, fazendo dele patriarca da nossa casa. Por isso, a festa mais solene e mais íntima da nossa família, aquela em que todos os membros da Obra se reúnem pedindo a Jesus, nosso Salvador, que envie operários para a sua messe, é especialmente dedicada ao Esposo de Maria. Ele é também mediador; ele é o senhor da casa; e nós descansamos na sua prudência, na sua pureza, no seu carinho, no seu poder. Como não haverá de ser poderoso, o nosso Pai e Senhor São José?

Modelo de alma sacerdotal

Quantas vezes me comovi lendo a oração que a Igreja propõe que os sacerdotes recitem antes da missa! “O felicem virum, beatum Ioseph, cui datum est Deum, quem multi reges voluerunt videre et non viderunt, audire et non audierunt...[7]. Nunca tivestes uma certa inveja dos apóstolos e dos discípulos, que conviveram com Jesus Cristo tão de perto? E depois, não tivestes uma certa vergonha, porque talvez – e sem talvez: eu estou certo disso, dada a minha fraqueza – tivésseis sido dos que se escaparam, dos que fugiram velhacamente e não permaneceram junto de Jesus na cruz?

Quem multi reges voluerunt videre et non viderunt, audire et non audierunt; non solum videre et audire, sed portare, deosculare, vestire et custodire[8]. Não vo-lo posso ocultar: algumas vezes, quando estou sozinho e sinto as minhas misérias, pego uma imagem do Menino Jesus, e beijo-O e embalo-O... Não tenho vergonha de vo-lo dizer. Se tivéssemos Jesus nos braços, que faríamos? Algum de vós teve irmãos pequenos, bastante mais novos? Eu tive. E pegava- -lhe ao colo, e embalava-o. O que teria feito com Jesus! “Ora pro nobis, beate Ioseph”. Claro que temos de dizer assim!: “ut digni efficiamur promissionibus Christi[9]. São José, ensina-nos a amar o teu Filho, nosso Redentor, o Deus-Homem! Roga por nós, São José!

E continuamos a considerar, meus filhos, esta oração que a Igreja propõe aos sacerdotes antes de celebrarem o Santo Sacrifício.

Deus, qui dedisti nobis regale sacerdotium...”[10]. O sacerdócio é real para todos os cristãos, especialmente para aqueles que Deus chamou à sua Obra: todos temos alma sacerdotal. “Præsta, quæsumus, ut, sicut beatus Ioseph unigenitum Filium tuum, natum ex Maria Virgine...”[11]. Vedes que homem de fé? Vedes como admirava a Esposa, como a julgava incapaz de qualquer mancha, e como recebeu as inspirações de Deus, a luz divina, naquela escuridão tremenda para um homem tão íntegro? Como obedece! “Toma o Menino e sua Mãe e foge para o Egito”[12], ordena-lhe o mensageiro divino. E ele assim faz. Crê na obra do Espírito Santo! Crê naquele Jesus, que é o Redentor prometido pelos profetas, por quem todos os que pertenciam ao Povo de Deus tinham esperado durante gerações e gerações: os patriarcas, os reis...

Ut, sicut beatus Ioseph unigenitum Filium tuum, natum ex Maria Virgine, suis manibus reverenter tractare meruit et portare...”. Nós, meus filhos – todos, leigos e sacerdotes –, trazemos Deus – Jesus – dentro da alma, no centro de toda a nossa vida, com o Pai e com o Espírito Santo, conferindo valor sobrenatural a todas as nossas ações. Tocamo-lo com as mãos, tantas vezes!

Suis manibus reverenter tractare meruit et portare...”. Não o merecemos. Só pela sua misericórdia, só pela sua bondade, só pelo seu amor infinito é que O trazemos connosco e somos portadores de Cristo.

Ita nos facias cum cordis munditia…”. É assim, assim, quer Ele que sejamos: limpos de coração. “Et operis innocentia” – a inocência das obras é a retidão de intenção – “tuis sanctis altaribus deservire[13]. Que O sirvamos não só no altar, mas no mundo inteiro, que é um altar para nós. Todas as obras dos homens se fazem como que num altar, e cada um de vós, nessa união de almas contemplativas que é o vosso dia, diz de algum modo a sua missa, que dura vinte e quatro horas, à espera da missa seguinte, que durará outras vinte e quatro horas, e assim até ao fim da nossa vida.

Ut sacrosantum Filii tui corpus et sanguinem hodie digne sumamus, et in futuro sæculo præmium habere mereamur æternum[14]. Meus filhos: ensinamentos de pai, os de José; ensinamentos maravilhosos. Talvez exclameis, como eu digo, com a minha triste experiência: não posso nada, não tenho nada, não sou nada. Mas sou filho de Deus e o Senhor anuncia-nos, pelo salmista, que nos cumulará de bênçãos amorosas: “Prævenisti eum in benedictionibus dulcedinis[15], que de antemão nos prepara o caminho – o caminho geral da Obra e, dentro dele, o caminho próprio de cada um –, firmando-nos na via de Jesus, e de Maria, e de José.

Se fordes fiéis, meus filhos, poderão dizer de vós o que a liturgia afirma de São José, o Santo Patriarca: “Posuisti in capite eius coronam de lapide pretioso[16]. Que tristeza sinto quando vejo as imagens dos santos sem auréola! Ofereceram-me – e fiquei comovido –duas pequenas imagens da minha amiga Santa Catarina, a da língua solta, a da ciência de Deus, a da sinceridade. E pedi imediatamente que lhes colocassem a auréola; uma coroa que não será de lapide pretioso, mas que terá boa aparência de ouro. Só aparência, como os homens.

Toda a vida ao serviço de Deus

Olhai: que faz José, com Maria e com Jesus, para seguir as indicações do Pai, as moções do Espírito Santo? Entrega-Lhe todo o seu ser, põe ao seu serviço a sua vida de trabalhador. José, que é uma criatura, alimenta o Criador; ele, que é um pobre artesão, santifica o seu trabalho profissional, coisa de que os cristãos se esqueceram durante séculos, e que o Opus Dei veio recordar. Dá a sua vida a Jesus, entrega-Lhe o amor do seu coração e a ternura dos seus cuidados, dá-Lhe a fortaleza dos seus braços, dá-Lhe tudo o que é e pode: o trabalho profissional quotidiano, próprio da sua condição.

Beatus vir qui timet Dominum[17]: bem-aventurado o homem que teme o Senhor, bem-aventurada a criatura que ama o Senhor e evita dar-Lhe desgostos. Isto é o timor Domini, o único temor que compreendo e sinto. “Beatus vir qui timet Dominum; in mandatis eius cupit nimis[18]: bem-aventurada a alma que tem ambição, desejos de cumprir os preceitos divinos. Esta inquietação persiste sempre. Se alguma vez surge uma hesitação, porque o entendimento não vê com clareza, ou porque as nossas paixões se levantam como víboras, é altura de dizer: meu Deus, desejo servir-Te, quero servir-Te, tenho fome de Te amar com toda a pureza do meu coração!

O que nos falta então? Nada! “Gloria et divitiæ erunt in domo eius[19]. Não procuramos a glória terrena, só a glória do Céu. Todos os meios – que é isso que são as riquezas da Terra – devem servir-nos para nos tornarmos santos, e para santificarmos o trabalho, e para santificarmos os outros com o trabalho. E no nosso coração haverá sempre uma grande serenidade. “Et iustitia eius”: a justiça de Deus, a lógica de Deus, “manet in sæculum sæculi[20]: permanecerá pelos séculos dos séculos, se não a expulsarmos da nossa vida pelo pecado. Essa justiça de Deus, essa santidade que Ele pôs na nossa alma, exige – sempre com alegria e com paz – uma luta interior pessoal que não é de ruído, de alvoroço; é algo mais intenso, como que muito nosso, que não se perde a não ser que nos quebremos, a não ser que o quebremos como se fosse um cântaro de barro. Para o consertar, contamos com as normas, a confissão e a conversa fraterna com o diretor. E de novo a paz, a alegria! E voltamos a sentir mais desejos de cumprir os mandamentos do Senhor, mais ambição boa de servir a Deus e, por Ele, a todas as criaturas!

Exemplo de castidade

Cum esset desponsata Mater Iesu Maria Ioseph...: estando Maria, Mãe de Jesus, desposada com José, aconteceu que, antes de terem vivido juntos, concebeu no seu seio por obra do Espírito Santo”[21]. Esta é a pedra de toque da santidade admirável deste homem perfeito que é José. “Ioseph autem, vir eius, cum esset iustus et nollet eam traducere...[22]: mas José, seu esposo, sendo justo e não querendo desonrá-la... Não, em consciência, não podia fazê-lo. E sofre. Sabe que a sua esposa é imaculada, que é uma alma sem mancha, e não compreende o prodígio que se operou nela. Por isso, “voluit occulte dimittere eam[23]: deliberou deixá-la secretamente. Hesita, não sabe o que fazer, mas resolve a situação da maneira mais limpa.

Hæc autem eo cogitante...”: enquanto pensava estas coisas, chega-lhe a luz de Deus. O Senhor nunca nos faltará, meus filhos, tende confiança! “Ecce angelus Domini apparuit in somnis...: andando ele com este pensamento, eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse: José, filho de David, não tenhas receio de receber Maria, tua esposa, porque o que foi gerado no seu ventre é obra do Espírito Santo”[24]. É o primeiro homem a receber a declaração divina da realidade da Redenção, que estava a realizar-se. “Pariet autem filium, et vocabis nomen eius Iesum...: dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, pois Ele há de salvar o seu povo dos seus pecados[25]. E José fica tranquilo, sereno, cheio de paz.

Meus filhos, este homem não merece todo o nosso amor, todo o nosso agradecimento? Não é um exemplo de fé e de fortaleza? Não é um modelo de limpeza de alma e de corpo? Não é nosso Pai e Senhor? Pai e Senhor chamei-lhe eu há já tantos anos, e assim lhe chamais vós no mundo inteiro.

Olhai, consola-me muito, e penso que a vós também, outra oração que a Igreja Santa nos propõe para a recitarmos depois da missa: “Virginum custos et pater[26]. Porque não entenderão isto esses infelizes que não querem olhar com olhos limpos a castidade e o amor santo dos nossos pais, essas pessoas que não concebem que uma criatura fraca possa guardar o seu ser inteiro – corpo e alma – para Deus? Se somos fracos, Deus porá a sua força. Eu sou muito fraco, mas o Senhor dar-me-á toda a sua fortaleza.

Virginum custos et pater, sancte Ioseph, cuius fideli custodiæ ipsa Innocentia Christus Iesus et Virgo virginum Maria commissa fuit”: Bem-aventurado José, custódio e pai das virgens, a cujo cuidado fidelíssimo foram entregues a própria Inocência, Jesus Cristo, e a Virgem das virgens, Maria. Haverá algum sacerdote, alguma alma verdadeiramente cristã, que leia isto e não se comova? Todos os meus filhos, que têm alma sacerdotal, hão de inflamar-se em devoção, em confiança, em aclamação, em carinho a José, Nosso Pai e Senhor.

Te per hoc utrumque carissimum pignus Iesum et Mariam obsecro et obtestor ut me, ab omni immunditia præservatum, mente incontaminata, puro corde et casto corpore Iesu et Mariæ semper facias castissime famulari”: Suplicamos-te, por Jesus e por Maria, a quem recebeste como prenda, que nos preserves de toda a imundície e que, com espírito limpo, coração puro e corpo casto, nos faças servir sempre a Jesus e a Maria.

Meus filhos, considerámos juntos o grande milagre que é ter-se vivido na Obra, desde o princípio, esta união com o Santo Patriarca. Ele é o nosso padroeiro principal, e é também o chefe da nossa família; porque lhe pedimos que envie mais filhos à Obra, porque neste dia nos prendemos com laços de amor e costumamos renovar a nossa entrega, pondo nas mãos de José e de Maria a nossa vinculação ao Opus Dei.

Pontos 50

Notas

[1] 2Rs 5, 10.

[2] Missal Romano, Solenidade de São José, antífona de entrada (Sl 91, 13): “O justo florescerá como a palmeira”.

[3] Ibid.: “Multiplicar-se-á como os cedros do Líbano”.

[4] Ibid.: “Plantados na casa do Senhor, nos átrios do nosso Deus”.

[5] Lecionário Romano, Solenidade de São José, leitura (Ecli 45, 1): “Amado por Deus e pelos homens, cuja memória é uma bênção”.

[6] Ibid.: “Glorificou-o na presença dos reis, proscreveu-lhe preceitos diante do seu povo e mostrou-lhe a sua glória”. Referências da Sagrada Escritura: 1 Reis 5, 10Salmos 91, 13Salmos 91, 14Eclesiástico 45, 1Eclesiástico 45, 3. Pontos 51, Notas

[7] Missal Romano, Preparação para a missa, Oração a São José: “ó feliz varão, bem-aventurado José, a quem foi dado ver a Deus, que muitos reis quiseram ver e não viram, e ouvir e não ouviram…”.

[8] Ibid.: “Que muitos reis quiseram ver e não viram, e ouvir e não ouviram; e não só vê-lo e ouvi-lo, mas abraçá-lo, beijá-lo, vesti-lo e guardá-lo”.

[9] Ibid.: “Rogai por nós, bem-aventurado São José, para que sejamos dignos de alcançar as promessas de Cristo”.

[10] Ibid.: “ó Deus, que nos concedestes o sacerdócio real”.

[11] Ibid.: “Fazei, nós Vos pedimos, que, assim como o bem-aventurado José mereceu tratar reverentemente e cuidar com as suas mãos do teu Filho unigénito, nascido de Maria Virgem…” (traduz-se já a continuação da oração).

[12] Mt 2, 13.

[13] Missal Romano, Preparação para a missa, Oração a São José: “Também nós sirvamos nos vossos santos altares de coração limpo e com boas obras”.

[14] Ibid.: “De modo que hoje recebamos dignamente o sacrossanto corpo e sangue do vosso Filho e, na vida futura, mereçamos alcançar o prémio eterno”.

[15] Sal 20, 4: “Preparaste-o, Senhor, com bênçãos de doçura”.

[16] Ibid.: “Colocaste sobre a sua cabeça uma coroa de pedras preciosas”. Referências da Sagrada Escritura. Mateus 2, 13Salmos 20, 4. Pontos 52. Notas

[17] Sal 111, 1.

[18] Ibid.

[19] Ibid.: “Glória e riquezas enchem a sua casa”.

[20] Ibid. Referências da Sagrada Escritura. Salmos 111, 1Salmos 111, 3. Pontos 53. Notas

[21] Lecionário Romano, Solenidade de São José, leitura (Mt 1, 18).

[22] Ibid., 19.

[23] Ibid.

[24] Ibid., 20.

[25] Ibid., 21.

[26] Missal Romano, Ação de graças depois da missa, Oração a São José: “Custódio e pai das virgens”. Referências da Sagrada Escritura. Mateus 1, 19Mateus 1, 18Mateus 1, 20Mateus 1, 21

Fonte: https://opusdei.org/pt-br

quarta-feira, 18 de março de 2026

Como a oração pode nos ajudar a tomar decisões cruciais?

Shutterstock

Mónica Muñoz - publicado em 20/02/26

Quando não sabemos qual caminho escolher, é importante recorrer a Deus em oração e pedir que Ele nos ilumine.

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É fácil cometer um erro quando estamos chateados ou perturbados. Consequentemente, não devemos tomar decisões cruciais quando estamos em um mau estado de espírito. Nesses casos, uma breve oração e uma pausa podem nos salvar.

Ouça a voz de Deus na oração

A oração é essencial para o crescimento espiritual de todo cristão. Encontramos uma explicação sobre a fonte da oração no Catecismo da Igreja Católica:

De onde vem a oração do homem? Seja qual for a linguagem da oração (gestos e palavras), é o homem todo que reza. Mas, para designar o lugar de onde brota a oração, a Escritura fala, às vezes, da alma ou do espírito, mas, na maioria das vezes, do coração (mais de mil vezes). É o coração que reza. Se ele estiver longe de Deus, a expressão da oração é vã. (CIC 2562).

Nosso relacionamento próximo com a Santíssima Trindade através da oração brota do coração. Portanto, sempre que rezamos ao Pai, pelo Filho e inspirados pelo Espírito Santo, certamente receberemos uma resposta.

Mas para que a oração dê frutos, também é essencial que aprendamos a ouvir a voz de Deus. Dessa forma, a oração nos ajudará a conhecer a Sua vontade.

Tome decisões à luz da oração

Rezar, então, é a maneira como falamos com Deus. Ele cuidará de nos responder. Às vezes o fará através de um evento desagradável, outras vezes através de outra pessoa, ou talvez Ele escolha nos enviar um sinal que só nós possamos entender, ou quem sabe — por que não? — atendendo aos nossos pedidos.

Portanto, quando vamos decidir algo que mudará radicalmente nossas vidas, a oração deve ser a chave para nossa decisão. Devemos pedir ao nosso Senhor que nos guie a um porto seguro, pois quem poderia saber verdadeiramente o que é melhor para nós senão apenas Deus?

Então, reservemos um momento para falar com Ele e compartilhar nossas dúvidas. Vamos confiar que a inspiração virá; só precisamos nos permitir ser iluminados pelo Espírito Santo e rezar sem cessar:

“Reza sem cessar aquele que une a oração às obras e as obras à oração. Só assim podemos considerar realizável o princípio da oração contínua” (CIC 2745).

A melhor decisão na vida

Diante das adversidades da vida, nada é mais reconfortante do que poder falar com Deus, pois a oração fortalece o nosso espírito. Nossa vida logo será um reflexo desse excelente hábito:

“Reza-se como se vive, porque se vive como se reza” (CIC 2725).

E quando conseguimos viver em constante oração, veremos sua eficácia no dia a dia. Aprenderemos a reconhecer que não há oração que Deus não responda, e Ele nos dará a graça de que precisamos para fazer o que quer que Ele nos peça:

“Nada se iguala à oração; ela torna possível o que é impossível, fácil o que é difícil…” (CIC 2744).

Portanto, exercitemos nossa alma e nossa vontade para a oração:

“Para que serve rezar? Para vencer estes obstáculos, é preciso combater para ganhar a humildade, a confiança e a perseverança.” (CIC 2728).

Fonte: https://pt.aleteia.org/

Papa: a Igreja, enquanto comunhão dos fiéis, não pode errar na fé

Audiência Geral, 18/03/2026 - Papa Leão XIV (Vatican News)

Na catequese da Audiência Geral desta quarta-feira, 18 de março, Leão XIV refletiu sobre o Povo de Deus à luz da Lumen Gentium e destacou o papel de todos os batizados na missão da Igreja.

https://youtu.be/6L-bONPAqKA

Thulio Fonseca - Vatican News

Ao dar continuidade ao ciclo de catequeses sobre os documentos do Concílio Vaticano II, o Papa Leão XIV, na Audiência Geral desta quarta-feira (18/03), retomou o segundo capítulo da Constituição conciliar Lumen Gentium, dedicado à Igreja como Povo de Deus. O Pontífice explicou que, pela nova e eterna Aliança, Cristo constitui os seus discípulos como um “sacerdócio real”, tornando-os participantes da sua missão profética. Essa dignidade comum nasce do Batismo, que permite aos fiéis adorar a Deus “em espírito e em verdade” e testemunhar a fé recebida por meio da Igreja:

“O exercício do sacerdócio real manifesta-se de muitas formas, todas elas voltadas para a nossa santificação, principalmente pela participação na oferta da Eucaristia. Através da oração, do ascetismo e da caridade ativa, assistimos, assim, a uma vida renovada pela graça de Deus.”

Papa Leão XIV durante a Audiência Geral   (@VATICAN MEDIA)

Testemunho coerente de Cristo

O Papa também abordou o chamado ‘sensus fidei’, o sentido sobrenatural da fé presente em todo o povo cristão, graças ao qual a Igreja reconhece a revelação transmitida e permanece fiel ao Evangelho ao longo da história. Trata-se, explicou, de um dom do Espírito Santo que pertence aos fiéis não isoladamente, mas enquanto membros de um único corpo. Nesse contexto, Leão XIV recordou o ensinamento conciliar sobre a infalibilidade da Igreja, que se manifesta quando todo o povo de Deus, unido aos seus pastores, exprime consenso em matéria de fé e costumes:

“A Igreja, portanto, enquanto comunhão dos fiéis, que inclui obviamente os pastores, não pode errar na fé: o órgão dessa propriedade, fundada na unção do Espírito Santo, é o senso sobrenatural da fé de todo o povo de Deus, que se manifesta no consenso dos fiéis. Dessa unidade, que o Magistério eclesial salvaguarda, resulta que cada batizado é um sujeito ativo da evangelização, chamado a dar um testemunho coerente de Cristo, segundo o dom profético que o Senhor infunde em toda a sua Igreja.”

25 mil fiéis estavam presentes na Praça São Pedro   (@Vatican Media)

Cada batizado é protagonista da missão

A partir dessa unidade sustentada pelo Espírito, o Pontífice destacou que todos os cristãos são chamados a ser protagonistas da evangelização, segundo os dons recebidos. O Espírito Santo continua a distribuir carismas a pessoas de todas as condições, tornando-as aptas a contribuir para a renovação e a edificação da Igreja. Também a vida consagrada e as associações eclesiais, acrescentou o Papa, são sinais visíveis dessa vitalidade espiritual que brota da graça e manifesta a fecundidade do Povo de Deus na história.

“Despertemos em nós a consciência e a gratidão por termos recebido o dom de fazer parte do povo de Deus; e também a responsabilidade que isso acarreta”, concluiu Leão XIV.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

terça-feira, 17 de março de 2026

São José: artesão da paz

São José, o artesão do silêncio (Canção Nova)

SÃO JOSÉ: ARTESÃO DA PAZ E FORMADOR DE UMA NOVA HUMANIDADE 

17/03/2026

Dom Roberto Francisco Ferrería Paz
Bispo de Campos (RJ)

Ir ao encontro de São José sempre será uma experiência de profunda alegria, serenidade e confiança. Especialmente nestes tempos de incerteza, conflitos dilacerantes e ódio inuscitado.  

Com ele aprendemos o verdadeiro sentido da paz, não a paz de acordos, normas e declarações tantas vezes repetidas, certamente uteis, mas insuficientes.  

Sua pessoa sábia, prudente e silenciosa nos permite descobrir a paz como dádiva divina que mostrou seu esplendor na Noite de Natal, na gruta de Belém. Ela é sempre um anuncio que nos transcende mas que nos envolve e convida sempre a uma resposta.  

O Cardeal Renato Raffaele Martino no seu livro Paz e Guerra, que acompanha a evolução teológica dos conceitos de paz, passando de uma paz delimitada pelo direito da guerra justa como era considerada no Tratado De Iustitia et Iure (Da justiça e do direito) a concepção mais ampla da ordinata concórdia da paz, uma paz social nascida da concordância dos corações. Seguindo a Santo Agostinho, Santo Tomás afirmava que a “paz dos Santos é serenidade da mente, tranquilidade de ânimo, simplicidade de coração, vínculo de amor e consórcio de caridade, (Summa Theologiae III, d 27, q 2, 1.) Paz inspirada em Deus pois Ele é o dador da paz, aquele que ama, o seu autor e quem a habita.  

São José nos apresenta no seu filho adotivo, a paz messiânica, enraizada na ação pacificadora do Reino na história humana. Paz que proposta pela Igreja, nos leva a uma opção profética e um compromisso ético com todas as pessoas, povos e nações da terra.  

No entanto nunca deveríamos esquecer que ela brota dos pequenos e humildes, dos mansos e dos pobres, que como o justo José, se tornam artesãos cotidianos da paz, com sua entrega, simplicidade de vida, solidariedade fraterna e sua justiça equitativa e generosa que cura e restaura relacionamentos, formas de convivência e congraçamento humano. 

Pois nunca teremos estruturas de paz, sem homens e mulheres de paz, sem pessoas pacíficas. José nos ensina o caminho de uma paz desarmada e desarmante, centrada na vontade de Deus, construída a partir do paciente empenho de servir sempre na escuta, diálogo e entendimento, superando a armadilha da tese do choque das civilizações, para como falava entusiasmado Dom Helder Câmara promover a sinfonia de todos os povos e culturas.  

Na humilde oficina de Nazaré onde o menino Jesus acostumou suas mãos ao trabalho, sua mente e coração humano a compreender o sentido e valor da nossa vida, iniciou-se a forja de uma nova humanidade, começou a transformação mais profunda da nossa história, abriram-se definitivamente nossos horizontes a uma shalom integra e integral, de reconciliação plena com Deus, e fraternidade para com todas as pessoas e criaturas, com todo o universo. São José homem, justo, pacífico e pai de ternura, rogai por nós! 

Fonte: https://www.cnbb.org.br/

O Papa: Amazônia, ameaçada por situações de abuso e exploração

Defesa da região amazônica (Vatican Media)

Leão XIV enviou uma mensagem de vídeo aos participantes da VI Assembleia Geral da Conferência Eclesial da Amazônia (Ceama) que se realiza em Bogotá. O Papa encoraja pastores e fiéis "a continuarem juntos no fortalecimento da identidade de discípulos missionários na Amazônia".

Mariangela Jaguraba – Vatican News

Foi divulgada, nesta terça-feira (17/03), a mensagem de vídeo do Papa Leão XIV aos participantes da VI Assembleia Geral da Conferência Eclesial da Amazônia (Ceama), que se realiza, em Bogotá, na Colômbia, de 16 a 20 de março.

De acordo com o Pontífice, os participantes estão "vivendo um momento privilegiado de escuta do Espírito Santo para discernir o caminho das comunidades arraigadas nessa região".

Os membros da Ceama partilharam com o Pontífice alguns passos dados, "bem como os desafios que estão enfrentando". "Vocês me fizeram partícipe dos sofrimentos e das esperanças dos habitantes da região, bem como da crescente deterioração de seu ambiente natural", disse Leão XIV, expressando sua "proximidade a todas as pessoas que vivem essa situação".

O Santo Padre expressa satisfação pelo fato de a assembleia ter "entre seus objetivos a elaboração dos Horizontes Pastorais Sinodais", que, segundo ele, "podem ser um instrumento útil para orientar o anúncio de um Deus que ama infinitamente cada ser humano, que manifestou plenamente esse amor em Cristo".

A seguir, Leão XIV recordou a eleição da presidência 2026-2030 que será feita durante a assembleia, "cuja tarefa será continuar incentivando a implementação do Sínodo para a Amazônia e, ao mesmo tempo, preparar as contribuições de sua experiência para a Assembleia Eclesial em Roma, prevista para o ano de 2028".

"Com o desejo de abrir novos caminhos na missão da Igreja nesta terra amada", a Ceama escolheu um texto bíblico que inspira suas reflexões: "Estou fazendo uma coisa nova: ela está brotando agora, e vocês não percebem?"

Ser um sinal de unidade na diversidade e um refúgio seguro

De acordo com o Papa, "algo novo está nascendo, ainda é frágil, mas já está em andamento, talvez imperceptível, mas como a semente da árvore shihuahuaco, o 'gigante da selva', que cresce muito lentamente, mas é capaz de viver mais de mil anos, um colosso de dezenas de metros de altura, com uma copa densa, que se torna um refúgio seguro para águias, tucanos, gaviões, micos, sakis e esquilos, transformando-se num ecossistema à parte".

“Isso pode ajudar a compreender, queridos irmãos, o que a Igreja deseja: ser um sinal de unidade na diversidade e um refúgio seguro, que gera e protege a vida.”

O Papa os convida "a trabalhar com a confiança de uma fé enraizada em Cristo, que nos repete: 'Eu te amei', pois é precisamente este amor divino-humano de Jesus que nos transforma em homens e mulheres novos. Este amor, contemplado na oração, nos envia a responder com generosidade e coragem na missão".

O contexto atual exige uma resposta adequada

"Nesse sentido", diz ainda Leão XIV "se quisermos pertencer a Cristo – o autêntico 'gigante da floresta' e 'o primogênito de toda a criação', somos chamados a ser a Igreja das Bem-aventuranças, uma Igreja que acolhe os pequenos e caminha na pobreza com os pobres".

“Certamente, o contexto atual exige uma resposta adequada diante dos numerosos desafios sociais, ambientais, culturais e eclesiais que persistem na Amazônia, ameaçada por situações de abuso e exploração.”

De acordo com o Papa, "o papel profético da Igreja e de todos os seus membros, cada um segundo a sua missão", é o de "proclamar o kerygma e a vida nova em Cristo, acompanhar os que sofrem, cuidar da criação e respeitar a vida em todas as suas formas, especialmente a vida humana".

Vídeo em espanhol

https://youtu.be/wNwr_N_7ajM

Moldar uma Igreja com 'rosto amazônico'

Segundo Leão XIV, outro objetivo da Conferência Eclesial da Amazônia "é moldar uma Igreja com 'rosto amazônico', desejo do Sínodo dos Bispos na Assembleia Especial para a Região Pan-Amazônica".

De acordo com ele, "esta tarefa deve ser feita com a convicção de que, pela inculturação da fé, a Igreja se enriquece com novas expressões e valores, manifestando e celebrando o mistério de Cristo de maneira cada vez mais eficaz, unindo a fé mais intimamente à vida e contribuindo assim para uma catolicidade mais plena, não só geograficamente, mas também culturalmente".

Identidade de discípulos missionários na Amazônia

"A inculturação é um caminho difícil, mas necessário", diz ainda o Papa, recordando que "é preciso acolher com coragem a novidade do Espírito, capaz de sempre criar algo novo com o tesouro inexaurível de Jesus Cristo".

Leão XIV encoraja pastores e fiéis, "a continuarem juntos no fortalecimento da identidade de discípulos missionários na Amazônia".

“Continuem semeando no sulco que também foi regado pelo sangue de tantos homens e mulheres que os precederam e que, unidos à paixão de Cristo, se tornaram a raiz de uma 'árvore gigante' que cresce na Amazônia.”

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/

segunda-feira, 16 de março de 2026

Aprendendo a renascer

Quaresma Tempo de: Silêncio (Amigo Católico/YouTube)

APRENDENDO A RENASCER 

16/03/2026

Dom Lindomar Rocha Mota
Bispo de São Luís de Montes Belos (GO) 

A Quaresma pertence a uma ordem mais profunda das experiências humanas, como lugar interior, uma região silenciosa onde o espírito entra para reencontrar a verdade de si mesmo. O tempo, nesse caso, funciona apenas como medida externa. O essencial acontece na dimensão em que a alma aprende a caminhar. 

Desde cedo, a literatura universal percebeu essa espiritualidade. Os grandes escritores, atentos às oscilações do caminho humano, reconheceram nela a imagem da conversão. O impulso necessário para mudar de direção. 

A Quaresma é um desvio necessário para sair da dispersão para o centro, da ilusão para a lucidez, do barulho para o silêncio. 

Por essa experiência a humanidade reaprende a desejar o que a eleva e, através da penitência, nessa lenta recuperação da luz, alcançar a fidelidade com a sua natureza. 

Embora penosa, a quaresma não é triste. É mais como a ordenação do coração humano, que encontra nesse espaço espiritual a possibilidade de recuperar o seu ritmo.  

No mundo moderno, onde as certezas se fragmentam e as vozes se multiplicam, T. S. Eliot descreveu a quaresma como um deserto da consciência. O lugar onde se percebe o esforço de uma alma que desaprende as falsas esperanças para reaprender a esperar. Permanecer em silêncio, resistir à pressa, aceitar a aridez como trajeto é uma lição espiritual permanente. 

No lugar quaresmal a humanidade moderna reencontra o sentido perdido entre tantas promessas vazias. 

Dostoiévski, por sua vez, escreveu a noite dessa travessia. Seus personagens carregam culpas profundas, sofrem quedas e experimentam o peso da própria condição humana. Contudo, é justamente nesse sofrimento que nasce a possibilidade de redenção. A Quaresma surge como purificação existencial. O reconhecimento da própria fragilidade abre espaço para o amor que salva e a dor se torna caminho. 

Manzoni amplia esse horizonte para a história coletiva. Em suas páginas, a humanidade inteira parece atravessar um tempo de provação. Crises sociais, medo e incerteza revelam tanto a vulnerabilidade quanto a capacidade de solidariedade. A Quaresma é, então, uma dimensão comunitária. Não apenas indivíduos, mas povos inteiros precisam atravessar desertos para amadurecer. 

Se olharmos com atenção, perceberemos que todos esses autores intuíram, como verdade submersa, que a Quaresma é o espaço onde a pessoa permite-se ser transformada. Ela não se reduz ao jejum exterior, nem às práticas visíveis. É, antes, um movimento interior de desapego e reencontro. Algo precisa morrer para que algo maior possa surgir. 

Talvez por isso esse tempo seja, paradoxalmente, luminoso. Há nele uma tristeza fecunda, uma sobriedade cheia de promessa. Como a terra que se prepara em silêncio para a primavera, a alma quaresmal trabalha no invisível. O mundo continua a girar, os dias continuam a passar, mas dentro do coração algo está germinando. 

É uma atitude diante da vida. É o caminho através do qual aprendemos, repetidas vezes, a renascer. 

Fonte: https://www.cnbb.org.br/

ARQUEOLOGIA CRISTÃ: "O verdadeiro sangue está no altar e parece vinho."

A epígrafe eucarística em São Lourenço Fora dos Muros | 30Giorni.

1 - (Adsp)ICE QUI TRANSIS QUAM SIT BREVIS AC(cipe vita)
2 - (Atqu)E TUAE NAVIS ITER AD LITUS PARAD(isi)
3 - (Der)EGE QUO VULTUM DOMINI FACIAS TIBI PO(rtum)
4 - (Dica)T IAM QUISQUIS HAEC SACRA PERH(auriat horas)
5 - (Glor)IA SUMMA DOMINUS LUMEN SAPIENTIA VIR(tus)
6 - (Cui)US [ou: (Ver)US] IN ALTARI CRUOR EST VINUMQUE (videtur)
7 - (Qui)QUE TUI LATERIS PER OPUS MIRAE (pietatis)
8 - (Omni)POTENTER AQUAM TRIBUIS BAPTI(smate lotis)

ARQUEOLOGIA CRISTÃ

retirado do nº 03 – 2006, Revista 30Dias

"O verdadeiro sangue está no altar e parece vinho."

Na Basílica de San Lorenzo fuori le Mura, em Roma, conserva-se a mais antiga epígrafe cristã em latim que se refere explicitamente à transubstanciação.

Por Lorenzo Bianchi

O padre Egidio Picucci merece crédito por ter chamado a atenção recentemente, com um artigo publicado no Osservatore Romano em 11 de dezembro de 2005, para uma epígrafe singular de oito versos localizada na Basílica de São Lourenço Fora dos Muros, em Roma. Trata-se da única epígrafe cristã antiga conhecida que se refere explicitamente à transubstanciação, ou seja, ao fato de que, na Santa Missa, o pão e o vinho se transformam no verdadeiro corpo e sangue de Cristo. De fato, o texto, no versículo 6, afirma que o sangue (" cruor ") do Senhor é oferecido no altar, que aparenta (" vided ") ser vinho, mas é, na verdade, o sangue que jorrou com água do lado de Jesus Cristo crucificado. 

Os versos são hexâmetros, mutilados no início e no fim, em parte porque desapareceram quando a placa de mármore na qual estavam gravados foi cortada, em parte porque foram cobertos pelas estruturas que atualmente envolvem a placa, e também aparecem parcialmente ocultos por uma grande cruz em mosaico cosmatesco esculpida acima deles. Essa situação gera alguma incerteza quanto à integração de algumas palavras, mas não impede a compreensão do texto.

A laje, que foi removida de sua posição original na Antiguidade e reutilizada na Idade Média, está agora embutida no teto do vestíbulo que leva à cripta que guarda as relíquias dos mártires Lourenço, Estêvão e Justino, e uma porção de 113 x 102 cm permanece visível até hoje. Ela foi colocada nessa posição por ocasião da reforma da Basílica pelo Papa Honório III (1216-1227), que ampliou a Basílica anterior do Papa Pelágio II (579-590), orientando-a no sentido oposto, criou a cripta, elevou parte da construção do século VI para transformá-la em presbitério e colocou ali o altar central, em correspondência com o túmulo de Lourenço, transferindo para lá o cibório, que atualmente se encontra acima dele, construído em 1148 (ver quadro nas páginas 93-94).

Olhai, vós que por aqui passais, compreendei quão breve é ​​a vida, e dirigi o curso do vosso navio para o porto do Paraíso, onde vos encontrarás com o Senhor. Que todos os que beberem destas especiarias consagradas digam agora: "Tu és a glória suprema, o Senhor, a luz, a sabedoria, a virtude, cujo sangue [ou: verdadeiro] está sobre o altar e se apresenta como vinho; tu, que na vossa onipotência, com uma obra de maravilhosa misericórdia, concedeis a água que flui do vosso lado àqueles que foram purificados no batismo."

A epígrafe (transcrita aqui juntamente com os acréscimos propostos por Antonio Ferrua, mais uma variante de Felice Grossi Gondi na linha 6) é também a mais antiga em latim que geralmente evoca o sacramento da Eucaristia: considerando o estilo, a paleografia e o conteúdo, pode ser atribuída, no máximo, ao século V. Quase certamente provém das imediações do local onde se encontra atualmente, e menciona também o sacramento do batismo, que certamente deve ter sido administrado no túmulo de Lorenzo. Devido à sua datação, provavelmente está relacionada com a primeira Basílica erguida sob o pontificado do Papa Silvestre (314-335) pelo Imperador Constantino, segundo o testemunho do Liber Pontificalis , «via Tiburtina in agrum Veranum» (ed. Duchesne, I, p. 181). 

Não foram encontrados vestígios arqueológicos de um batistério atribuível a esta Basílica, mas sabemos da sua existência pelo que se pode ler no mesmo Liber Pontificalis, em relação às biografias do Papa Sisto III (432-440; I, p. 234) e do Papa Hilário (461-468; I, p. 244), ambos os quais fizeram doações à Basílica para a administração do batismo. Embora não saibamos se a pia batismal se encontrava no interior do edifício ou se o batistério era uma estrutura separada e independente, é, no entanto, concebível que a epígrafe estivesse localizada e visível ao longo do percurso por onde os catecúmenos passavam a caminho de receber o sacramento.

Epígrafes cristãs dos primeiros séculos que mencionam a Eucaristia são extremamente raras; conhecem-se duas mais antigas do que a de San Lorenzo fuori le Mura, ambas em grego, uma de origem oriental e a outra ocidental. O primeiro é o poema muito conhecido de Abercius, bispo de Hierápolis, capital da Frígia salutaris, datado dos últimos anos do século II, no qual Jesus é mencionado com a palavra ' Icthùs (“peixe”), isto é , “Iesùs Xristòs Thèou Uiòs Sotèr”(“Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador”): «... a fé me conduziu a toda parte e em toda parte me foi apresentado como alimento o peixe da nascente, muito grande, puro, que a santa virgem toma e oferece aos seus amigos para que sejam sempre alimentados, tendo um vinho agradável que ela nos ofereceu misturado (com água) junto com o pão...». Contemporânea ou alguns anos depois é a segunda epígrafe, na qual está gravado o poema sepulcral de Pettório de Augustoduno (Autun, França). 

Os primeiros versos dizem: «Divina linhagem do peixe celestial, conserva um coração puro; vós que recebestes a vida imortal, entre os mortais, nas águas sagradas, acendei vosso coração, amigo, nas águas perenes da munificente sabedoria; recebei o alimento doce como mel do Salvador dos santos, comei avidamente, segurando o peixe em vossas mãos.» [Alimenta-me] então com peixe, eu te imploro, Senhor Salvador [...]» (as traduções são de P. Testini, Archeologia cristiana , Edipuglia, Bari 1980, pp. 422-423 e 425).

Afresco da igreja do Papa Pelágio II, detalhe da figura de São Lourenço (datado entre os séculos VIII e XI), nave direita da Basílica de San Lorenzo fuori le Mura | 30Giorni.

A epígrafe eucarística de São Lourenço, embora já presente em algumas coleções dos séculos XVIII e XIX, foi estudada analiticamente e publicada pelo padre jesuíta Felice Grossi Gondi ( L'iscrizione eucaristica del secolo 5 nella basilica di S. Lorenzo al Verano , em Nuovo Bullettino di Archeologia Cristiana , 1921, pp. 106-111). Ele é responsável pela primeira integração dos versos mutilados e pela datação do século IV-V com base em várias peculiaridades do texto e do conteúdo: as imprecisões métricas, o uso do termo “ paradisus ” e o costume de receber o sacramento do batismo como adulto, prática que cessou em meados do século V. Uma nova publicação do texto (com algumas correções) foi feita, em tempos mais recentes, pelo Padre Antonio Ferrua ( Inscriptiones Christianae Urbis Romae , vol. VII, 1980, n. 18324, pp. 164-165).

Talvez apenas alguns anos antes da composição da epígrafe, São Cirilo, Bispo de Jerusalém, escreveu as mesmas palavras: "Você acredita com absoluta certeza que o que parece pão não é pão, embora seja percebido como tal pelo paladar, mas o corpo de Cristo, e o que parece vinho não é vinho, embora pareça assim ao paladar, mas o sangue de Cristo" ( Catechesis mystagogia 4, 9).

Fonte: https://www.30giorni.it/

domingo, 15 de março de 2026

Quando Papa Francisco refletiu sobre o milagre da cura do cego

The Church of Jesus Christ of Latter-day Saints | #image_title

Vatican News - publicado em 26/03/17 - atualizado em 15/03/26

A cura do cego de nascença, narrada pelo Evangelho de João, proposto pela Liturgia do dia, inspirou a alocução do Papa Francisco em um domingo da Quaresma.

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 “Com este milagre Jesus se manifesta e se manifesta a nós como luz do mundo” e que acolhendo novamente nesta Quaresma a luz da fé, “também nós, a partir da nossa pobreza”, sejamos “portadores de um raio da luz de Cristo”, disse Francisco, dirigindo-se aos milhares de fieis e peregrinos reunidos na Praça São Pedro.

“O cego de nascença – explicou o Santo Padre -  representa cada um de nós que fomos criados para conhecer Deus, mas por causa do pecado somos como cegos, temos necessidade de uma nova luz, a da fé, que Jesus nos deu”.

Aquele cego do Evangelho, ao readquirir a visão, “abre-se ao mistério de Cristo”, disse o Pontífice, que explicou:

“Este episódio nos induz a refletir sobre nossa fé em Cristo, o Filho de Deus, e ao mesmo tempo refere-se também ao Batismo, que é o primeiro Sacramento da fé: o Sacramento que nos faz “vir à luz”, mediante o renascimento da água e do Espírito Santo; assim como acontece ao cego de nascença, ao qual se abrem os olhos após ter sido lavado na água da piscina de Siloé”.

“O cego de nascença curado – completou Francisco -  nos representa quando não nos damos conta que Jesus é a luz, “a luz do mundo”, quando olhamos para outros lugares, quando preferimos confiar nas pequenas luzes, quando tateamos no escuro”:

“O fato de que aquele cego não tenha um nome, nos ajuda a nos refletir com o nosso rosto e o nosso nome na sua história. Também nós fomos “iluminados” por Cristo no Batismo, e portanto somos chamados a comporta-nos como filhos da luz. E comportar-se como filhos da luz exige uma mudança radical de mentalidade, uma capacidade de julgar homens e coisas segundo uma outra escala de valores, que vem de Deus. O Sacramento do Batismo, de fato, exige a escolha firme e decidida de viver como filhos da luz e caminhar na luz”.

Mas, o que significa “ter a verdadeira luz, caminhar na luz?”

“Significa, antes de tudo, abandonar as falsas luzes: a luz fria e fátua do preconceito contra os outros, porque o preconceito distorce a realidade e nos enche de aversão contra aqueles que julgamos sem misericórdia e condenamos sem apelo. Isto é pão de todo dia! Quando se fala mal dos outros, não se caminha na luz, se caminha na sombra”.

E Francisco completou:

“Outra luz falsa, porque sedutora e ambígua, é aquela do interesse pessoal: se valorizamos homens e coisas baseados em critérios de nossa utilidade, do nosso prazer, do nosso prestígio, não realizamos a verdade nos relacionamentos e nas situações. Se vamos por este caminho do buscar somente o interesse pessoal, caminhamos nas sombras”.

O Papa concluiu, pedindo que a Virgem Santa obtenha para nós “a graça de acolher novamente nesta Quaresma a luz da fé, redescobrindo o dom inestimável do Batismo, que todos nós recebemos. E esta nova iluminação nos transforme nas atitudes e nas ações, para sermos também nós, a partir da nossa pobreza, portadores de um raio da luz de Cristo”.

Após rezar o Angelus, o Papa saudou os presentes e agradeceu ao Cardeal Scola e aos milaneses pela calorosa acolhida que teve durante sua visita a Milão no sábado: "Uma acolhida extraordinária, para um dia inesquecível. Realmente me senti em casa. E isto com todos, crentes e não-crentes. Vos agradeço muito queridos milaneses e digo uma coisa para vocês: constatei que é verdade aquilo que se diz: 'Em Milão se recebe com o coração na mão". Obrigado!".

Fonte: https://pt.aleteia.org/

Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF