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quinta-feira, 16 de abril de 2026

DOCUMENTO: Uma alma para a Europa (Parte 4/4)

Angelo Roncalli, núncio apostólico em Paris, com Schuman em frente à Catedral de Notre-Dame.

DOCUMENTO

retirado do nº 05 – 2003, Revista 30Dias.

Robert Schuman, 1886-1963

Uma alma para a Europa

Palestra proferida pelo Presidente do Pontifício Conselho para a Cultura na Catedral de Notre-Dame de Paris, em 9 de março de 2003, primeiro domingo da Quaresma. Esta palestra sobre o estadista francês faz parte de uma série de palestras do Cardeal Poupard intitulada: "Santidade que Desafia a História. Retratos de Seis Testemunhas do Terceiro Milênio".

Por Cardeal Paul Poupard

Em uma batalha política onde não escapou de golpes, nem mesmo os mais baixos, Robert Schuman permaneceu fiel à sua fé cristã. Quando jovem advogado, dedicou-se a crianças abandonadas e jovens delinquentes, trabalhando como voluntário no Bureau de Bienfaisance Messine e exercendo seu apostolado entre estudantes. Eleito para o parlamento, trabalhou incansavelmente para servir sua pequena terra natal, a Lorena, reintegrando-a, sem perder sua essência, à grande França. Já como ministro, abriu a França para a Europa, unindo-a à Alemanha em uma união pacífica. "Devemos a ela", escreveria o chanceler Konrad Adenauer, "a amizade que une nossos dois países".

Agora, meio século depois, esse legado fundador nos abre um futuro criativo. Precisamos nos conhecer, nos respeitar e nos amar para começarmos um trabalho comum, para construirmos juntos um patrimônio econômico, político, social e cultural. Um corpo maduro exige uma grande alma. A alma da Europa é a convicção herdada de Péricles, de que a fonte da liberdade é a coragem. E é também o espírito das Bem-aventuranças e do Evangelho, personificado por São Bento de Núrsia e pelos irmãos eslavos Cirilo e Metódio, Brígida da Suécia, Catarina de Siena e Edith Stein, que João Paulo II nos deu como patronos da Europa. Ambos eram europeus, aliás, universais, porque, como Robert Schuman, sua fé católica era a fonte de uma cultura inspirada pelo Evangelho e enraizada no meio ambiente.

O gênio empreendedor se une à paciência da perseverança, e o gênio do criador se une à tenacidade do trabalhador, de tal forma que a influência espiritual caminha lado a lado com as raízes físicas. A alma da Europa não une partidos, mas reúne espíritos e une pessoas em uma cultura caracterizada pelo respeito ao homem, ao homem em sua totalidade e a cada um deles, meu próximo, meu irmão, cujo rosto, janela da alma aberta para o infinito, atesta uma presença e testemunha uma transcendência na qual o cristão reconhece a imagem e semelhança de Deus. “O homem transcende infinitamente o homem”, nas palavras perspicazes de Pascal, citadas por Paulo VI em sua encíclica Populorum Progressio sobre o desenvolvimento dos povos: “Devemos promover um humanismo total. O que é ele, senão o desenvolvimento integral do homem e de cada homem? ... Longe de ser a norma última dos valores, o homem só se realiza transcendendo a si mesmo.”7 “Respeitem o homem”, João Paulo II nos repete continuamente, “o homem de Cracóvia que se tornou romano, respeitem o homem, ele é a imagem e semelhança de Deus.”

O Papa João Paulo II nunca deixou de nos lembrar da nossa responsabilidade a este respeito. Ao receber as credenciais de Pierre Morel, o novo embaixador junto da Santa Sé, há um ano, o Papa recordou o papel essencial da França na aventura europeia e o seu papel primordial no património humanista, que também está enraizado na sua longa história cristã: “Como não mencionar a contribuição decisiva dos valores encarnados pelo cristianismo, que contribuíram e continuam a contribuir para moldar a cultura e o humanismo de que a Europa se orgulha legitimamente, sem os quais a sua identidade mais profunda não pode ser compreendida… Longe de ser uma ameaça à vida social, as forças religiosas são uma bênção para a vida em comum.”<sup>8</sup> O exemplo de Robert Schuman ilustra isto eloquentemente; ele foi capaz de incorporar os valores evangélicos na sua vida política e de se inspirar neles para o seu compromisso público. Foi capaz de o fazer graças a uma autêntica educação cristã, alimentada pela palavra de Deus, luz e vida, e pelos sacramentos da fé recebidos na Igreja.

Nossa esplêndida cultura está atolada na infinita possibilidade de opções, na ausência de qualquer referência objetiva. Em resposta à necessidade humana do absoluto, ela convoca testemunhas que atestem que a Verdade não é opcional nem a Moral anacrônica. Este é o caminho para a santidade, e João Paulo II nos lembra que os caminhos são múltiplos e adequados à vocação de cada pessoa, como demonstra o exemplo de Robert Schuman. Se os santos não representam a totalidade da nossa história, eles foram, contudo, a sua melhor parte. Os valores religiosos, morais, culturais e sociais que constituem o patrimônio da Europa chegaram até nós graças aos santos que criaram a Europa. "É tempo de propor novamente, com veemência, a todos este elevado padrão de vida cristã cotidiana."⁹ Os santos da nossa história são a prova da vitalidade da Igreja e do poder surpreendente do Evangelho. A cultura europeia tornou-se parte significativa da civilização mundial. O futuro da Europa e do mundo depende da espiritualidade que os cristãos oferecem aos povos de hoje, respondendo às suas aspirações e necessidades, identificando as causas dos seus erros e corrigindo-os — uma tarefa urgente no alvorecer do terceiro milênio.

Nossa tarefa hoje é afirmar essa identidade com simplicidade e coragem, e apresentar, em toda a sua frescura e novidade, o sentido cristão da verdade e da realidade contra todo o ceticismo e relativismo, ambos redutores. Diante da perda de valores comuns, do apagamento de pontos de referência coletivos, da ascensão do ceticismo na política, da crise da educação, ouçamos o clamor dos jovens europeus, o apelo do macedônio ao apóstolo Paulo: " Boğan Đa mānān " (Senhor, Senhor, Senhor).“Ajude-nos!”10. As almas mais maleáveis ​​e receptivas dos jovens estão mais expostas às ameaças da secularização e do pós-comunismo, nos quais a realização do indivíduo a qualquer custo, tomada como valor supremo, coincide com a felicidade buscada esporadicamente. O educador que transmite a verdade como parte fundamental de sua identidade é capaz de despertar nos jovens a liberdade do compromisso pessoal de uma consciência responsável. E, portanto, preparar aqueles que, como Robert Schuman, serão capazes de se posicionar sobre os problemas da humanidade para iluminá-los com valores evangélicos. Toda a Europa carece de esperança: é consequência do desaparecimento das falsas grandes causas, fonte da proliferação de seitas, especialmente aquelas que acentuaram um caráter escatológico. Não pode haver cultura cristã autêntica que a apague. Vivemos neste mundo, mas não somos deste mundo, chamados como somos a nos tornarmos cidadãos plenos de um novo mundo. O anúncio das Bem-aventuranças abre um caminho de esperança, oferecido à liberdade e à responsabilidade , em uma cultura enganosa que Promove a liberdade total, sem limites e irresponsável. Só a educação para uma liberdade responsável pode preparar os jovens para se tornarem plenamente humanos.

Este é o apelo que João Paulo II nos tem transmitido continuamente desde o início do seu pontificado. A história da formação das nações europeias está intrinsecamente ligada à sua evangelização. E a identidade europeia é incompreensível sem o cristianismo. É nele que encontramos as raízes comuns da sua cultura e, ainda hoje, da sua alma, valores que são simultaneamente cristãos e humanos: a dignidade da pessoa, um profundo sentido de justiça e liberdade, a dedicação ao trabalho, o espírito de iniciativa, o amor à família, o respeito pela vida, a tolerância e o desejo de paz.

Schuman, enquanto Ministro das Relações Exteriores da França, assina, juntamente com seus colegas da República Federal da Alemanha, Itália e Benelux, o Tratado da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, Paris, 18 de abril de 1951.

O pai da Europa, Robert Schuman, teria gostado destas palavras, que honrou ao longo da sua vida como cristão envolvido na política: "Devemos recordar aos cristãos de hoje a sua responsabilidade comum para com a Europa e incutir neles uma nova coragem para um compromisso de sacrifício pela paz e justiça, pelos direitos humanos e pela solidariedade entre os povos... Tenham a coragem e a força, que provêm da nossa responsabilidade cristã, para se envolverem também na política e na vida pública, para o bem da humanidade e da sociedade no vosso país e para além das suas fronteiras.

Na Cruz reside a esperança de uma renovação cristã da Europa, mas sob a condição de que os próprios cristãos levem a sério a mensagem da Cruz. A Cruz significa: não há naufrágios sem esperança, escuridão sem estrelas, tempestade sem porto seguro. A Cruz significa: o amor não conhece limites. Comece pelo seu próximo, mas não se esqueça de que ele está longe. A Cruz significa: Deus é maior do que nós, homens, Ele é a salvação, mesmo na maior derrota. A vida é sempre mais forte do que a 'morte'."¹¹

Conferência dos Ministros Europeus da Cultura, na qual representei a Santa Sé, em Berlim, a 23 de maio Em 1984, na sua Declaração Europeia sobre Objetivos Culturais, a Igreja atribuiu, acertadamente, aos valores espirituais e religiosos no dinamismo cultural da Europa o peso que merecem. Não nos esqueçamos disso agora que se prepara uma Carta para a Europa. Católico por convicção, mais do que por tradição, Robert Schuman, cuja vida foi iluminada pelo Evangelho e cuja ação política ao serviço de França e da Europa foi elucidada, repete-nos isto com a firme convicção que inspira o nosso apoio: "A democracia deve a sua existência ao cristianismo. Nasceu no dia em que o homem foi chamado a realizar, na sua vida terrena, a dignidade da pessoa humana na sua liberdade individual, no respeito pelos direitos de cada um e na prática do amor fraterno para com todos. Nunca antes de Cristo se formularam ideias semelhantes." A Europa precisa encontrar uma alma para si mesma."

Esta é a nossa tarefa, seguindo o exemplo de Robert Schuman, na aurora do terceiro milênio.

Notas

7 Paulo VI, Encíclica Populorum Progressio , sobre o Desenvolvimento dos Povos, 26 de Março de 1967, n. 42, com citação de Pascal, Pensieri , ed. Brunschvieg, n. 434.
8 João Paulo II, Discurso a Pierre Morel, Embaixador de França junto da Santa Sé, 27 de Junho de 2002, in Documentazione cattolica , vol. XIX, n. 2274, pp.
Novo Millennio Ineunte n. 31.
10 Atos 16, 9.
11 João Paulo II em Viena, 10 de setembro de 1983, citado por Paul Poupard em A Herança Cristã da Cultura Europeia na Consciência dos Contemporâneos , op. cit., p. 10.

Fonte: https://www.30giorni.it/

EDITORIAL: Pedro volta à África, missionário de paz

Papa Leão XIV (Vatican Media)

As primeiras palavras de Leão XIV na Argélia: o perdão mútuo como chave para construir o futuro.

Andrea Tornielli

Pedro volta à África. Três anos após a visita realizada no início de 2023 por Francisco à República Democrática do Congo e ao Sudão do Sul, o Papa inicia uma longa peregrinação pelo continente africano que o leva nesta segunda-feira (13/04) à Argélia e, nos próximos dias, a Camarões, Angola e Guiné Equatorial. É uma viagem de 11 dias, eminentemente missionária, marcada por uma agenda repleta de encontros com os povos de um continente caracterizado por problemas e contradições, mas que é fonte de alegria e esperança.

Não se pode esquecer “o momento dramático da história” em que esta visita se realiza, com a crescente preocupação pelo que está acontecendo no Oriente Médio e as ameaças de uma nova recrudescência do conflito após o fracasso das negociações paquistanesas entre os Estados Unidos e o Irã. E é significativo que justamente a paz surja como tema principal no primeiro discurso de Leão XIV na Argélia, durante a visita ao monumento dos mártires da independência, Maquam Echahid: “neste lugar, recordamos que Deus deseja a paz para todas as nações: uma paz que não é apenas ausência de conflito, mas expressão de justiça e dignidade. E esta paz, que permite enfrentar o futuro com o coração reconciliado, só é possível através do perdão. A verdadeira luta pela libertação só será definitivamente vencida quando se tiver finalmente conquistado a paz dos corações”.

O apelo ao perdão e à paz dos corações está impregnado de um profundo realismo. Não só faz parte do cerne do anúncio cristão, mas representa, ao mesmo tempo, o único caminho viável para construir um futuro. “Sei como é difícil perdoar – disse o Papa –, todavia, enquanto os conflitos continuam a multiplicar-se em todo o mundo, não se pode acrescentar ressentimento ao ressentimento, de geração em geração”. Como não se questionar sobre o ressentimento gerado nas gerações mais jovens pelos massacres de civis cometidos em Gaza e hoje no Líbano? Como não fazer a mesma pergunta em relação à guerra na Ucrânia e nas tantas outras regiões devastadas pelo ódio e pela violência?

Mesmo que muitos governantes considerem que o caminho a seguir diante desses cenários seja o do rearmamento, que engorda os mercadores da morte, Leão, de Algeri, nos lembra que “o futuro pertence aos homens e às mulheres de paz”, que “por fim, a justiça triunfará sempre sobre a injustiça, e a violência, apesar das aparências, nunca terá a última palavra”.

A voz de paz do Sucessor de Pedro, Vigário do Filho de Deus indefeso que fez a escolha não violenta de se sacrificar na cruz, tem um eco ainda mais forte desta terra, onde a Igreja é absolutamente minoritária e o testemunho dos poucos cristãos é ainda mais essencial, fundado no serviço e na partilha das alegrias e dos sofrimentos de todos.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Começa em Aparecida a 62ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil

Assembleia da CNBB em 2023- foto arquivo 

Neste ano, o principal tema em pauta é a aprovação das novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE), documento que orientará a missão evangelizadora nos próximos anos.

Silvonei José – Vatican News – Aparecida

Tem início nesta quarta-feira, 15 de abril e se encerra no próximo dia 24, no Santuário Nacional de Aparecida, a 62ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). O encontro, inicialmente previsto para 2025, foi suspenso após o falecimento do Papa Francisco, ocorrido em 21 de abril do ano passado.

Neste ano, o principal tema em pauta é a aprovação das novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE), documento que orientará a missão evangelizadora nos próximos anos. A construção das diretrizes seguiu um caminho sinodal, iniciado em 2022, com ampla escuta envolvendo dioceses, pastorais e organismos. O texto também incorpora as reflexões do Sínodo sobre a Sinodalidade, concluído em outubro de 2024.

Além do tema central, os bispos também vão tratar de três temas prioritários, 20 temas diversos, 4 mensagens e 10 comunicações. O encontro dos bispos também conta com um retiro espiritual, que tem início na tarde desta quarta-feira (15/04) e se encerra amanhã à tarde.

Entre os temas prioritários está o relatório da Presidência da CNBB, e entre os temas diversos as análises de conjuntura social e eclesial; o processo de implantação do Sínodo sobre a Sinodalidade no Brasil; aprovações de textos litúrgicos; as Campanhas da CNBB; a Tutela de Menores e adultos vulneráveis; o Congresso Americano Missionário (CAM 7), marcado para 2029; o Bicentenário das Relações Diplomáticas entre o Brasil e a Santa Sé; a atualização do Documento “Evangelização da Juventude” (Doc. 85 CNBB); e o 19º Congresso Eucarístico Nacional, marcado para 2027.

Ao falar sobre a expectativa para a assembleia, dom Amilton, bispo da diocese de Guarapuava, Pr, destacou o significado do encontro: “é sempre uma alegria participar da Assembleia Geral dos Bispos. Sentimos falta no ano passado, porque não foi possível ocorrer em vista da morte do Papa Francisco. Estamos bastante ansiosos para este momento, que, em primeiro lugar, é de encontro. É um momento importante, onde nos encontramos enquanto episcopado e reforçamos a nossa colegialidade.”

O bispo também ressaltou a importância das diretrizes que serão aprovadas: “As diretrizes já deveriam ter sido aprovadas no ano passado. Este ano, elas continuaram sendo refletidas nos regionais e nas dioceses, e agora teremos a última reflexão e aprovação. As expectativas são grandes”.

A assembleia deste ano espera reunir cerca de 400 bispos, entre aqueles que estão na ativa, ou seja, governam uma Igreja particular e os eméritos.

Quando os bispos se reúnem para discutir os rumos da Igreja, é como se os apóstolos se reunissem, pois eles são os seus sucessores, destacou o arcebispo do Rio de Janeiro, cardeal Orani João Tempesta. “O Espírito Santo suscita neles tudo aquilo que será debatido e, ao final da assembleia, é como se Jesus soprasse sobre eles o Espírito Santo e os enviasse em missão de volta às suas dioceses, como aconteceu em Pentecostes”, destacou o cardeal.

A Assembleia Geral é sempre uma ocasião de fraternidade e comunhão entre os bispos, disse ainda dom Orani. É a Igreja de Cristo, representada por seus pastores, reunida por dez dias em Aparecida. “Trata-se de uma oportunidade privilegiada de encontro, já que o Brasil é muito extenso e marcado por diversas realidades e culturas, e os bispos não têm muitas ocasiões de se reunir ao longo do ano, senão nesta assembleia. Por isso, é o momento de trocar experiências e partilhar alegrias, dores e dificuldades vividas em cada diocese”, acrescentou.

A programação desta 62ª Assembleia Geral mantém a tradição da Igreja, unindo oração e trabalho. Os dias começam com as Laudes, seguidas por sessões de estudo e encaminhamentos, totalizando quatro encontros diários. Ao final da tarde, os bispos participam da celebração da Eucaristia no Santuário Nacional, centro da vida e da missão da Igreja.

Sob o olhar de Nossa Senhora Aparecida, os bispos do Brasil se reúnem mais uma vez com espírito de unidade, pedindo luzes para conduzir o povo de Deus com esperança, prudência e renovado ardor missionário.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

DOCUMENTO: Uma alma para a Europa (Parte 3/4)

Robert Schuman, então Ministro das Relações Exteriores, assina a adesão da França ao Pacto Atlântico, Washington, 4 de abril de 1949.

DOCUMENTO3

retirado do nº 05 – 2003, Revista 30Dias.

Robert Schuman, 1886-1963

Uma alma para a Europa

Palestra proferida pelo Presidente do Pontifício Conselho para a Cultura na Catedral de Notre-Dame de Paris, em 9 de março de 2003, primeiro domingo da Quaresma. Esta palestra sobre o estadista francês faz parte de uma série de palestras do Cardeal Poupard intitulada: "Santidade que Desafia a História. Retratos de Seis Testemunhas do Terceiro Milênio".

Por Cardeal Paul Poupard

Sejamos honestos: ao longo de sua vida como advogado e parlamentar, como ministro e como chefe de governo, Robert Schuman permaneceu fiel a esse ideal de homem e cristão. Seu trabalho como legislador foi crucial durante a reintegração legislativa das províncias recuperadas após a Primeira Guerra Mundial, com uma preocupação constante em salvaguardar seu extraordinário patrimônio cultural e preservar sua alma cristã. Ao final da Segunda Guerra Mundial, que o marcou profundamente, e aproximando-se dos sessenta anos, Robert Schuman poderia legitimamente deixar que jovens o sucedessem e se aposentar, dedicando-se a seus passatempos favoritos na tranquilidade de Scy-Chazelles, contemplando o plácido rio Mosela: estudo, leitura, meditação. Mas seu supremo senso de dever rejeitou imediatamente a tentação de se refugiar egoisticamente em coisas fáceis. "A vida sem responsabilidade política é certamente mais simples, especialmente na confusão de hoje. Mas ninguém, muito menos, tem o direito de se esquivar dela", escreveu ele em julho de 1945. "Por isso, confio-me à Providência." E foi a Providência que o conduziu, através das imprevisíveis vicissitudes da vida política, a assumir responsabilidades cada vez mais graves, sem jamais vacilar em seu forte senso de dever como cristão.

Este extraordinário Ministro das Finanças — facilmente reconhecível pelos parisienses, graças à sua cabeça brilhante e completamente calva — emergia calmamente do Palácio do Louvre ao amanhecer, com o missal debaixo do braço, para assistir, como um bom cristão, à missa diária na igreja de Saint-Germain-l'Auxerrois e mergulhar em oração na capela da Virgem: "Salve, ó Santa Mãe, que ao dar à luz deste à luz o Rei que governa o céu e a terra, pelos séculos dos séculos". Na verdade, o ministro-monge, como era frequentemente chamado em tom de brincadeira, extraía dali tanto a capacidade de se desapegar das intrigas políticas quanto a serenidade necessária para cumprir seu difícil dever: administrar as finanças da nação como um bom pai, sem jamais se preocupar com a popularidade, que nossas pesquisas obsessivas ainda não mediam.

Robert Schuman, discrição no poder“ Em nossas cinco Repúblicas, nenhum ministro surpreendeu menos seus eleitores, nem seguiu menos o conformismo. Ninguém antes desprezou mais a demagogia ou desafiou mais a impopularidade. Ele soube se manter firme entre duas loucuras: a de acreditar que podia fazer tudo e a de acreditar que não podia fazer nada... Cristão militante, possuía as qualidades mais raras: discrição, autoridade, modéstia. Dedicou sua vida ao serviço do Estado, e não ao serviço de uma doutrina ou de um partido. Em suma, o oposto de um demagogo. Não foi ele quem, durante os momentos mais sombrios das greves revolucionárias de novembro de 1947, soube neutralizar o fraco derrotismo de seus ministros e controlar uma situação insurrecional? E não era pela França, somente pela França, que Schuman queria construir a Europa. Era pela Europa e pelo mundo...”5.

Um paradoxo evangélico

O jovem advogado da Lorena deve sua transformação em ministro-monge, como acabamos de mencionar, a um bispo-monge. Em 1901, durante um momento político particularmente tenso, o prior idoso da Abadia de Beuron, que mais tarde se tornaria abade de Maria-Laach, a famosa abadia beneditina às margens do Reno, fonte de renovação litúrgica, foi escolhido bispo de Metz e decidiu tornar-se um lorenano entre o povo da Lorena por amor a Cristo. Robert Schuman, pouco depois de sua chegada a Metz, o conheceu em 1912.

E o bispo-monge encontrou a alma do jovem advogado, descobriu nele a alma de um apóstolo e o guiou para o apostolado, que realizou seu desejo de cumprir o programa que sua mãe repetia incessantemente: "Deve-se passar a vida fazendo o bem aos outros". Monsenhor Willibrod Beuzler decide confiar a presidência da Federação Diocesana de Grupos Juvenis a Robert Schuman, com a missão de "difundir um autêntico espírito cristão entre os jovens": ele, um jovem estudante em Bonn, já havia ingressado em 1904 na corporação de estudantes católicos, a Unitas., que ele encontrou em Munique e que mais tarde encontraria em Berlim. Em Metz, ele conciliou sua vida profissional com seu compromisso cristão na União Popular Católica da Lorena, do Cônego Collin, o que o preparou para ingressar na União Republicana da Lorena após a guerra, tornando-se membro do parlamento contra a sua vontade. Ele confidenciou francamente a um primo: "Como eu teria preferido me dedicar ao meu trabalho, às obras religiosas e sociais, à minha família." Mas ele nunca se esquivou do que considerava seu dever: servir ao seu país e ao seu povo como cidadão e cristão. Em um discurso em Metz, em 13 de julho de 1924, quando o governo parisiense sectário queria revogar o Estatuto da Alsácia-Lorena, ele não teve medo de falar claramente aos seus compatriotas: "Eles estão tentando impor, passo a passo, pouco a pouco, o que a alma do povo da Lorena rejeita. Eles querem sufocar a vida religiosa no campo e entre o povo... Não podemos trair a alma do nosso povo."

Em 1924, o povo era o povo da Lorena. Trinta anos depois, seria o povo francês, quando Robert Schuman foi chamado às mais altas responsabilidades do governo. E então, em 1950, graças à sua iniciativa histórica, seria a Europa. Assim como a pátria não é a negação de sua província de origem, também "a Europa não é a negação da pátria", diria o pai da Europa. Eleito por unanimidade Presidente do primeiro Parlamento Europeu por aclamação em 19 de março de 1958, e peregrino da Europa nascente, jamais deixou de repetir sua profunda convicção: "Não se trata de fundir os Estados associados, de criar um superestado. Nossos Estados europeus são uma realidade histórica. Seria psicologicamente impossível fazê-los desaparecer. Sua diversidade é uma bênção, e não queremos nivelá-los ou torná-los iguais. Para nós, a política europeia não contradiz em nada o ideal patriótico de cada um de nós.

Todos os países europeus foram imbuídos da civilização cristã. Esta é a alma da Europa que deve ser revivida. Que esta ideia de uma Europa reconciliada, unida e forte seja agora a palavra de ordem para as gerações mais jovens que desejam servir a uma humanidade finalmente livre do ódio e do medo e que, depois de tantas divisões, reaprenda a fraternidade cristã. A Europa deu à humanidade sua plena realização. É ela que deve mostrar um novo caminho, em vez da escravidão. Aceitar uma pluralidade de civilizações em que cada uma respeite as outras. Nós não somos..." E jamais seremos negadores de nossa pátria, esquecidos de nossos deveres para com ela. Mas acima de toda pátria, somos cada vez mais capazes de discernir que existe um bem comum, superior ao interesse nacional, aquele bem comum no qual os interesses individuais de nossos países se fundem e se unem. Numa época em que tudo está em turbulência, devemos saber ousar. É melhor tentar do que desistir. A busca pela perfeição é uma desculpa esfarrapada para a inação.

Robert Schuman foi um cristão engajado na política, da Lorena, França e Europa, que concretizou plenamente e ante litteram o ambicioso programa delineado pelo Papa João Paulo II em sua exortação apostólica Christifideles laici, de 30 de dezembro de 1988, sobre a vocação e a missão dos leigos na Igreja e no mundo: “Os fiéis leigos não podem, de forma alguma, renunciar à participação na política, isto é, nas múltiplas atividades econômicas, sociais, legislativas, administrativas e culturais destinadas a promover o bem comum, organicamente e por meio das instituições.”⁶ Pois, se tudo é política, a política não é a totalidade do homem, e o cristão engajado na política é chamado a dar-lhe alma. A Comunidade Europeia que ele nos deixa como legado é, para Robert Schuman, uma obra de paz que torna impossível a guerra entre países dilacerados há séculos e prefigura, em suas próprias palavras, a solidariedade universal do futuro, aberta a outros povos.

Notas

5 Georges Elogzy, Robert Schuman, Discretion in Power , in Le Figaro , 12 de janeiro de 1987.
6 João Paulo II, Exortação Apostólica Pós-Sinodal Christifideles Laici , sobre a vocação e missão dos leigos na Igreja e no mundo, 30 de dezembro de 1988, n. 42.

Fonte: https://www.30giorni.it/

Quando a resiliência profissional passa pela amizade

Voltar ao trabalho após uma doença grave não é "agir como se nada tivesse acontecido". Significa reconstruir uma identidade profissional e pessoal, encontrar um equilíbrio que permita contribuir, existir no coletivo, respeitando seus novos limites (Shutterstock)

Pierre D’Elbée - publicado em 27/02/26

A adversidade não leva diretamente ao sucesso, observa o consultor empresarial Pierre d'Elbée, mas sim à amizade que tornará o sucesso possível.

O mundo profissional não é conhecido por criar relações de amizade fortes ou por ver empreendedores saírem de um fracasso através de uma amizade inabalável. É mais comum citar o caso de Steve Jobs e John Sculley, inicialmente aliados e depois inimigos até a expulsão de Jobs da Apple em 1985 — empresa que ele mesmo havia cofundado. Outros exemplos, talvez menos emblemáticos, existem aos milhares. No entanto, um artigo recente do jornal Les Échos destaca uma experiência inversa: a de empreendedores que chegaram ao "fundo do poço" e viveram juntos uma resiliência que os levou ao sucesso de seus negócios.

Histórias de resiliência

Younes Qassimi e Nicolas Marette, mencionados no artigo, sofreram primeiro um "fracasso retumbante": a plataforma de apostas esportivas que criaram juntos teve que fechar abruptamente. Tal provação deveria, logicamente, destruir a colaboração entre eles. O ressentimento, a busca por um bode expiatório e as acusações mútuas poderiam ter prevalecido. Mas ocorreu o oposto: "Tínhamos a certeza de que poderíamos atravessar esses momentos difíceis juntos".

Existem histórias famosas de amizade entre empreendedores, como Bill Hewlett e David Packard ou os irmãos Michelin. Mas o que nos interessa aqui não é tanto a capacidade de ter sucesso juntos, mas sim ver uma amizade tornar-se sólida por ocasião de uma provação e levá-los ao êxito. Há aqui um evento em três tempos: provação-amizade-sucesso, que merece análise. Pois, neste caso, a provação não leva diretamente ao sucesso, mas à amizade — e é ela que tornará o sucesso possível.

A provação como oportunidade

A provação funciona como um batismo de fogo. Quando tudo vai bem, é fácil permanecer unido. O fracasso, a perda de dinheiro, um ego desestabilizado (às vezes até destruído), o medo ou mesmo a angústia diante de um amanhã incerto representam uma verdadeira prova profissional. É difícil manter um espírito minimamente positivo nesses momentos. No entanto, eles também podem se tornar a oportunidade de refundar uma aliança. Na adversidade, descobrimos com quem podemos contar.

O que a amizade profissional traz

A amizade aqui pressupõe sentir, primeiramente, uma confiança mútua forte. Não se trata mais de uma amizade fácil, "útil" ou "agradável", como diria Aristóteles, ou "estética", como diria Kant: a crise enfrentada atinge frontalmente os interesses de cada um e, obviamente, não gera prazer. Uma relação de amizade deve buscar em outro lugar os motivos para continuar. Aristóteles fala da amizade honesta; Kant, da amizade moral: um ápice da relação interpessoal feita de respeito, fidelidade, confiança e uma esperança compartilhada. E, se existem divergências, é possível falar a verdade e encontrar um caminho de aproximação, porque se mantém em todas as ocasiões a convicção de que é juntos que sairão daquela situação: "Tínhamos a certeza de que poderíamos atravessar os momentos difíceis juntos".

A propósito, é notável observar que os testemunhos convergem: a provação é "um verdadeiro crash-test relacional: ela nos [prova] que nossa complementaridade [resiste] à adversidade". A complementaridade é o fundamento de uma estima mútua, quando a excelência própria de cada um é valorizada e reconhecida pelo parceiro.

A resiliência profissional pela amizade

A resiliência profissional dos amigos é contagiosa. Não apenas quando o sucesso chega, mas porque cria uma dinâmica de alegria. Empreendedores que dão a volta por cima e estão alcançando o sucesso despertam admiração. Eles exercem um efeito de exemplaridade. Há algo de surpreendente e até admirável em um sucesso quando ele é tão inesperado quanto o fracasso anterior era evidente.

Na verdade, a cooperação em situação de crise é surpreendente porque é muito difícil; exige qualidades que vão muito além da técnica e do desempenho: qualidades puramente humanas, das quais esquecemos com frequência que, sem elas, nada é possível. A resiliência profissional pela amizade é uma vitória humana abundante; ela ultrapassa os limites objetivos de um fracasso através de uma dinâmica cheia de esperança e competência. O que desperta admiração não é apenas o sucesso, mas a maneira como ele foi tornado possível. Diante da qualidade relacional de uma dupla de amigos, percebe-se um "algo a mais", como um convite inspirador. Em um mundo profissional obcecado pelo desempenho, vale a pena lembrar que nada duradouro se constrói sem uma vitória que seja, antes de tudo, humana.

Fonte: https://pt.aleteia.org/

EDITORIAL: Os Papas e as guerras na era contemporânea

Leão XIV durante a vigília de oração pela paz, sábado, 11 de abril, na Basílica de São Pedro  (@Vatican Media)

Diante do poder destrutivo das armas modernas, é muito difícil falar, como se fazia nos séculos passados, da possibilidade de uma "guerra justa". Já em 1963, João XXIII, na Pacem in Terris, escreveu que, na era atômica, é quase impossível pensar na guerra como instrumento de justiça. Leão XIV segue essa linha, fazendo da paz um dos temas centrais de seu pontificado.

Andrea Tornielli

Enquanto se volta a falar de “guerra justa”, vale a pena recordar o magistério de paz dos Pontífices que se sucederam na Cátedra de Pedro nos últimos cem anos. Um magistério que foi-se enriquecendo e aprofundando gradualmente, chegando a definir como cada vez mais difícil a possibilidade de que exista uma “guerra justa”. As reflexões sobre a teologia dos séculos passados e sobre as possíveis justificativas para a guerra não levam em conta o fato de que, quando os teólogos do passado escreviam sobre esses temas, as guerras eram travadas com espadas e bastões, e não com bombas e drones controlados por máquinas — um fato que abre questões morais de intensidade dramática. De fato, amadureceu cada vez mais a consciência de que a guerra não é um caminho a seguir.

Desde a carta de Bento XV aos beligerantes, de 1917, que define a Primeira Guerra Mundial como um “massacre inútil”, até às tentativas de Pio XII de evitar o início da Segunda Guerra Mundial; das palavras de João XXIII na “Pacem in terris”, que já em 1963 escrevia que “é quase impossível pensar que, na era atômica, a guerra possa ser utilizada como instrumento de justiça”, ao grito de Paulo VI na ONU “nunca mais a guerra”, até às tentativas ignoradas de João Paulo II de evitar os desastrosos conflitos no Oriente Médio; os Sucessores de Pedro não deixaram de levantar a sua voz, marcada pela profecia e pelo realismo, infelizmente, na maioria das vezes, sem serem ouvidos.

O texto de referência é, antes de tudo, o Catecismo da Igreja Católica, que contempla o direito à legítima defesa, mas impõe “condições restritas” também à guerra defensiva: “É necessário, contemporaneamente: que o dano causado pelo agressor à nação ou à comunidade das nações seja duradouro, grave e certo; que todos os outros meios de eliminá-lo se tenham revelado impraticáveis ou ineficazes; que haja condições fundamentadas de sucesso; que o recurso às armas não provoque males e desordens mais graves do que o mal a eliminar. Na avaliação dessa condição, a potência dos meios modernos de destruição tem um peso enorme”. Quem pode negar que a humanidade se encontra hoje à beira do abismo justamente por causa da escalada do conflito e da potência dos “meios modernos de destruição”?

O “não” à guerra foi reiterado com cada vez mais força também durante o pontificado do Papa Francisco, que na Encíclica “Fratelli tutti” escreveu: “É fácil optar pela guerra, invocando todo tipo de desculpas aparentemente humanitárias, defensivas ou preventivas, recorrendo inclusive à manipulação da informação. De fato, nas últimas décadas, todas as guerras alegaram ter uma ‘justificativa’ (...). A questão é que, a partir do desenvolvimento de armas nucleares, químicas e biológicas, e das enormes e crescentes possibilidades oferecidas pelas novas tecnologias, foi conferido à guerra um poder destrutivo incontrolável, que atinge muitos civis inocentes. Na verdade, “nunca a humanidade teve tanto poder sobre si mesma e nada garante que o utilizará bem”. Portanto, não podemos mais pensar na guerra como solução, já que os riscos provavelmente serão sempre superiores à hipotética utilidade que se lhe atribui. Diante dessa realidade, hoje é muito difícil defender os critérios racionais desenvolvidos em outros séculos para falar de uma possível ‘guerra justa’. Nunca mais a guerra!”

Seu sucessor, Leão XIV, fez da paz um dos temas centrais de seu pontificado: diante da loucura da escalada bélica e dos gastos desmedidos com o rearmamento, ele trilha com igual realismo e profecia o caminho já aberto por seus antecessores, clamando por paz, diálogo e negociação. Os massacres de civis perpetrados nos últimos anos abalam as consciências de bilhões de pessoas em todo o mundo, que voltam os olhos para o Bispo de Roma. O Papa Leão, como fez Jesus no Getsêmani, convida com veemência a colocar a espada na bainha: “Por toda parte, se ouvem ameaças em vez de apelos à escuta e ao encontro”, disse ele durante a Vigília de oração no sábado, 11 de abril, explicando que “quem reza não mata nem ameaça com a morte, mas tem consciência dos próprios limites. Em vez disso, é escravo da morte aquele que virou as costas ao Deus vivo, para fazer de si mesmo e do próprio poder o ídolo mudo, cego e surdo, ao qual sacrifica todos os valores e diante do qual pretende que o mundo inteiro se ajoelhe. Basta com a idolatria de si mesmo e do dinheiro! Basta com a ostentação da força! Basta com a guerra! A verdadeira força manifesta-se no serviço à vida”.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/

terça-feira, 14 de abril de 2026

DOCUMENTO: Uma alma para a Europa (Parte 2/4)

Jean Monnet exibe o primeiro lingote de aço "europeu", Paris, 1952.

DOCUMENTO

retirado do nº 05 – 2003, Revista 30Dias.

Robert Schuman, 1886-1963

Uma alma para a Europa

Palestra proferida pelo Presidente do Pontifício Conselho para a Cultura na Catedral de Notre-Dame de Paris, em 9 de março de 2003, primeiro domingo da Quaresma. Esta palestra sobre o estadista francês faz parte de uma série de palestras do Cardeal Poupard intitulada: "Santidade que Desafia a História. Retratos de Seis Testemunhas do Terceiro Milênio".

Por Cardeal Paul Poupard

Um grande papa da época de Robert Schuman, o Papa Pio XI, não hesitou em afirmar, na hora trágica da chegada da Peste Vermelha e da Peste Negra à Europa: "O campo da política, que diz respeito aos interesses da sociedade como um todo, é o mais vasto campo da caridade, da caridade política, e pode-se dizer que não há nenhum maior, exceto o da religião."³ Situada na intersecção entre o presente e o possível, naquele difícil ponto de transição onde o projeto para o amanhã pode se tornar alcançável, a característica e a grandeza da ação política é tornar possível hoje o que é necessário para o futuro pacífico dos povos dentro da grande comunidade da humanidade. Inspirado por sua fé cristã e fortalecido pela experiência de uma excepcional longevidade parlamentar, Robert Schuman pôde encarnar, em meio às contingências políticas, seu ideal evangélico de serviço à humanidade. Como essa iniciativa, questionava a Semana dos Intelectuais Católicos em Paris, "alcançará, a partir de uma base econômica e jurídica, as formas da política e da moral, penetrará a cultura, ninguém pode dizer. Do que não devemos duvidar é que a alma da Europa aguardava esse corpo ampliado que são as Comunidades" (François Fontaine).

Uma Alma para a Europa

O volume de Pesquisas e Debates termina com uma importante posição assumida pelo Presidente Robert Schuman, que recordei quando me foi atribuído o Prémio Schuman para a Europa em Estrasburgo, a 23 de novembro de 1988. Meio século depois, permitam-me evocá-la às nossas vagas memórias: "Falo", disse o Presidente Schuman, "como um crente para crentes... As nossas democracias contemporâneas desenvolvem em nós um sentido de responsabilidade pessoal. É a feliz consequência e a contrapartida de qualquer regime baseado na liberdade. Mas a coragem cívica, individual ou coletiva numa assembleia, nem sempre é digna dessa responsabilidade...

Devemos perceber que a Europa não pode limitar-se, a longo prazo, a uma mera estrutura económica. Deve também tornar-se uma salvaguarda de tudo o que torna a nossa civilização cristã grandiosa: a dignidade da pessoa humana, a liberdade e a responsabilidade da iniciativa individual e coletiva, o desenvolvimento de todas as energias morais dos nossos povos. Tal missão cultural será o complemento e a realização necessários de uma Europa que até agora se fundou na cooperação económica." Isso lhe dará uma alma, um enobrecimento espiritual e uma genuína consciência compartilhada. Não devemos ter uma concepção limitada da Europa do futuro, confinando-a a preocupações materiais, se quisermos que ela resista ao ataque de coalizões racistas e fanatismos de todos os tipos. A Europa, após o descrédito que lhe foi lançado em grande parte do mundo, terá que retomar seu papel de educadora altruísta, especialmente para os povos recém-libertos.

A ajuda aos países subdesenvolvidos será, então, a grande tarefa na qual todos aqueles que têm o privilégio de estar à frente dos demais devem se unir. A humanidade de amanhã será o que fizermos dela. Se nos limitássemos a prover-lhes recursos econômicos e militares, sem simultaneamente lhes fornecer uma armadura moral, sem dar o exemplo de comportamento baseado em princípios espirituais, teríamos assumido uma tarefa perigosa, e não apenas fútil. Teríamos os afastado de suas tradições, sem lhes dar um novo ideal, um complemento e um contrapeso ao progresso técnico... Temos um genuíno dever moral para com eles. Falharíamos completamente em cumprir nosso dever, limitando nossa ação à construção de estradas e fábricas, escolas e clínicas, se lhes concedêssemos autonomia ou mesmo independência sem ensiná-los a usá-la adequadamente, sem alertá-los sobre os abusos que poderiam resultar. A emancipação deve ser acompanhada de educação moral e técnica, sem a qual corremos o risco de presenciar quedas vergonhosas na anarquia e na barbárie… E esta é outra tarefa especificamente europeia…⁴.

Esta é a mensagem que o cristão Robert Schuman nos deixa: devemos construir a Europa, não como uma pequena ilha de prosperidade egoísta voltada para si mesma em meio a um oceano de miséria, mas como uma comunidade generosa de homens e mulheres livres e fraternos, responsáveis ​​também por outros povos menos afortunados; devemos dar-lhe uma alma. "Tudo isso", disse ele, "não pode e não deve permanecer uma empresa econômica e técnica: precisa de uma alma; a Europa não viverá e não será salva a menos que tome consciência de si mesma e de suas responsabilidades, retornando aos princípios cristãos de solidariedade e fraternidade."

Um cristão engajado na política

O homem que fala é um político experiente que, inspirado por sua educação cristã, extrai de si um grande ideal de serviço, repleto de convicções profundas, confortado pela oração e pela adoração eucarística. Sua juventude foi crucial, marcada por um pai severo, um homem justo e íntegro no sentido bíblico do termo, e, acima de tudo, por uma mãe extraordinária, que vivia sua fé cristã como se fosse algo natural, em pensamento, palavra e ação, e a transmitia ao filho por osmose. Até a trágica morte de Eugénie Schuman, aos 47 anos, em um dramático acidente de carro que lhe fraturou a coluna, a criança, o adolescente, o jovem foi formado por seu exemplo, em uma intimidade pacífica, animada por uma fé profunda. Com a mãe, ele ia à missa diária pela manhã para receber luz e força na comunhão com Cristo na Eucaristia. Com ela, celebrava o mês de Maria, na doce primavera de maio, em Luxemburgo. Ele a acompanha em uma peregrinação a Lourdes, a cidade mariana, e a Roma, a cidade para sempre marcada pelo martírio dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, sede do ministério do Papa. Testemunha com gratidão e emoção a beatificação de Joana d'Arc, símbolo da pátria perdida e longe de ser reencontrada.

or ser filho de Lorena, Robert Schuman era cidadão alemão de nascimento, em virtude do Tratado de Frankfurt, que anexou a Alsácia e a Mosela-Lorena após a desastrosa guerra de 1870. Mas nasceu em Luxemburgo, um país independente, em uma família imbuída de patriotismo francês. No Ateneu de Luxemburgo, apesar de estar em um bairro de língua alemã, os estudos são ministrados em francês, permeados pelo humanismo clássico e pelos valores cristãos. Apaixonado por matemática, Robert, ainda adolescente, prepara-se, sem saber, para mais tarde, como ministro, assimilar as complexas finanças de um Estado moderno. Ele também amava a história, o que lhe permitia decifrar a desastrosa sucessão de invasões, desmembramentos e anexações entre países vizinhos e inimigos, avaliar sua dimensão trágica e ansiar fervorosamente por seu fim. Aluno exemplar, nunca deixou de estudar a Suma Teológica de São Tomás de Aquino em latim ao longo de sua vida, extraindo dela profundidade de pensamento e clareza de expressão. Sua familiaridade com os clássicos franceses foi logo complementada por um domínio do direito alemão, adquirido nas universidades de Bonn, Munique, Berlim e Estrasburgo, e pela descoberta do Romantismo de Goethe e Schiller, além do gosto pela leitura e pela música herdado de sua mãe.

É ela quem lhe transmite, com uma fé sólida e clara, uma consciência moral inabalável, imaculada pelas exigências da política, mesmo através dos tortuosos meandros da vida política. Tal como a sua contemporânea, a pequena Teresa de Lisieux, que detestava a "simulação", Robert Schuman abomina a mentira, e o seu caminho é reto desde muito jovem. A um colega que cola num exame, diz corajosamente: "Não posso impedi-lo, mas saiba que é um pecado". Já deputado e ministro, permanece completamente alheio às maquinações misteriosas e às combinações interesseiras. A um jovem colega que se mostra ingenuamente espantado, responde firmemente: "Ser honesto é a melhor forma de ser inteligente". E Deus sabe que Robert Schuman nunca deixou de ser inteligente. Poderíamos aplicar-lhe o belo provérbio português que diz: "Deus escreve reto com linhas curvas". Como observa seu biógrafo, para concretizar seu projeto central em um contexto político incapaz de aceitá-lo, ele foi forçado a usar de astúcia e ocultar sua importância do Conselho de Ministros. Sem essa artimanha, a declaração fundamental que deu origem à Comunidade Europeia não teria sido possível. Robert Schuman empregou uma estratégia de manobras e subterfúgios, jamais recorrendo à mentira. "Nunca se deve mentir, nem mesmo na política", costumava dizer. Este é o caminho difícil e frutífero que ele nos abre.

Notas

3 Pio XI, Discurso de 18 de dezembro de 1927 na Federação das Universidades Católicas Italianas.
4 Robert Schuman, É Tarde Demais para Fazer a Europa?, em Qual Europa? Pesquisa e Debates , nº 22, Fayard, Paris 1958, pp. 227 e 230-31, citado em Paul Poupard, A Herança Cristã da Cultura Europeia na Consciência dos Contemporâneos , Fundação Jean Monnet para a Europa, Centro de Pesquisa Europeia, Lausanne 1986, pp. 14-16.

Fonte: https://www.30giorni.it/

O ramo verde, a cruz redentora e a luz do Círio

O RAMO VERDE, A CRUZ REDENTORA E A LUZ DO CÍRIO 

10/04/2026

Dom Andherson Franklin Lustoza de Souza
Bispo Auxiliar de Vitória (ES)

Caminho de Formação do Discípulo Missionário 

Os séculos IV e V foram muito fecundos em experiências e escritos catequéticos, marcados por fortes acenos bíblicos, espirituais, teológicos e litúrgicos. Destacam-se as catequeses mistagógicas de Cirilo e João de Jerusalém, os escritos de cunho catequético e mistagógico de Santo Ambrósio, os discursos catequéticos e indicações sobre o batismo de Gregório de Nissa e Basílio e, ainda, os escritos e reflexões de Santo Agostinho. 

Com a celebração dos sacramentos, na Solenidade Pascal, iniciava-se o primeiro período da Mistagogia, que acontecia durante os oito dias depois da Páscoa. Nesse tempo de graça, os neófitos, ou os recém-nascidos para a fé, com as vestes brancas do Batismo, participavam diariamente das celebrações da Eucaristia e das catequeses sobre os mistérios celebrados. Muitas dessas catequeses eram ministradas pelos bispos, que aprofundavam o significado dos mistérios celebrados nos sacramentos, de maneira especial, ressaltando o quanto os ritos deveriam impactar na forma como deveriam viver, como cristãos e cristãs; destacando o valor da nova vida que receberam e as suas implicações na vida cotidiana. O intuito era o de oferecer aos novos cristãos um mergulho profundo no mistério celebrado e nas implicações existenciais da vida cristã. 

No caminho trilhado ao longo da Semana Santa, todos são conduzidos por um itinerário profundo de fé, no coração das comunidades eclesiais, por meio do qual celebra-se a memória atualizada dos mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, por meio da qual nascem os verdadeiros discípulos missionários. Nos passos dessa Semana, na qual o Santo de Deus se entrega, por amor, para salvar a humanidade, são entregues três símbolos: o ramo verde, a cruz do Senhor e a vela acesa com o fogo novo. 

A Semana Santa tem início com o Domingo de Ramos, no qual, com a bênção dos ramos verdes, todo o povo, com entusiasmo, acolhe Jesus, canta hosanas e o reconhece como Rei, mas, ainda não compreende plenamente quem Ele é. De fato, os gestos realizados e as expressões indicam um sim que precisa amadurecer e superar a superficialidade momentânea da multidão. O ramo verde é o símbolo do início de um caminho que pode levar ao compromisso maduro e comprometido do seguimento discipular. Porém, para que isso aconteça, é necessário superar a inconstância frágil dos que procuram somente por pão e milagres, indo na direção dos que, com coragem e amor, abraçam o ramo maduro da cruz. 

Na Sexta-feira Santa, com o silêncio eloquente, todos os olhares e corações se dirigem para a Cruz de Cristo, atraídos para o trono da graça, como indica a Carta aos Hebreus. As multidões entusiasmadas se calaram ou transformaram a sua acolhida em rejeição e escárnio diante da nudez daquele que tinham aclamado como Rei. Diante da Cruz estavam, de pé, a Mãe de Jesus e o seu discípulo amado, ambos silenciosos, na contemplação do amor que sempre vai além, até à plenitude. A cruz de Cristo é manifestação do amor de Deus que sempre, de forma incansável, encontra a sua estrada para entrar e tocar a vida dos homens, sobretudo a vida dos que mais sofrem. O silêncio da celebração é rompido com a proclamação contundente: “Eis o lenho da cruz do qual pendeu a salvação do mundo”. No beijo adorante da cruz, todos são convidados a assumir a sua verdade mais plena, como discípulos missionários de Jesus Cristo. Isto é, a escolha e a decisão cotidianas de viver segundo a nova lógica do amor, que nasce da própria entrega do Salvador no ramo seco da cruz. 

No Sábado Santo, a bênção do fogo novo dá início à Vigília, rompendo a escuridão da noite do pecado e de todo mal, iluminando o Círio Pascal, coluna luminosa no caminho dos discípulos missionários. Diante do vigoroso anúncio: “Eis a Luz de Cristo”, aos poucos a assembleia se ilumina com as velas acesas nesta luz, que deve misturar o seu brilho à luz das estrelas e, ao longo de toda a noite, fulgurar. A luz vitoriosa do Ressuscitado não é guardada, mas partilhada, pois o verdadeiro amor não se contenta em salvar e iluminar a si mesmo, mas, ao contrário, sempre se dirige ao encontro do outro. Desse modo, a cada vela acesa, um discípulo missionário, que disse sim com os ramos nas mãos e abraçou a lógica amorosa da cruz, compreende a sua missão. Pois a verdadeira e amadurecida profissão de fé, vivenciada no coração da comunidade eclesial, é traduzida no compromisso e na atitude missionária. 

A oitava da Páscoa é, então, o momento de experimentar e fazer memória de tudo o que foi vivenciado ao longo da Semana Santa, de maneira especial por meio da recordação dos símbolos apresentados ao longo desse caminho. Na realidade eclesial do Estado do Espírito Santo, onde está plantada a Igreja particular da Arquidiocese de Vitória, a alegria da Ressurreição encontra uma ressonância própria na vivência da Festa da Penha. Nesse horizonte de fé, o povo peregrino se coloca a caminho, reunindo oração, memória e esperança, como quem prolonga, pelas estradas da devoção e da piedade popular, a luz que brotou da noite santa da Vigília. Assim, aquilo que foi celebrado no silêncio fecundo dos mistérios pascais torna-se experiência viva na caminhada do povo fiel, que, sob o olhar materno de Maria, aprende a reconhecer os sinais do Ressuscitado e a renovar, com simplicidade e confiança, a sua vocação de discípulo missionário. 

A Virgem da Penha, a Senhora das Alegrias da Ressurreição, guardava e meditava todas as coisas em seu coração, como afirma o Evangelista Lucas. Que, a seu exemplo, todos possam compreender o mistério do amor divino que, no ramo verde, convida à acolhida do Seu Filho. Por meio da cruz revela a plenitude de seu infinito amor, que a todos alcança e redime. E, por fim, na vela iluminada com a luz do Círio, a todos envia como verdadeiros anunciadores do Evangelho, discípulos missionários de Jesus Cristo, como sal da terra e luz no mundo. 

Fonte: https://www.cnbb.org.br/

Nos passos de Agostinho, Papa em silêncio e oração entre as ruínas de Hipona

A visita do Papa às ruínas de Hipona   (@Vatican Media)

A área arqueológica da antiga sede episcopal do Padre da Igreja foi a primeira parada do segundo dia da viagem do Papa à Argélia. Devido ao mau tempo e à chuva torrencial, a visita pelas ruas da cidade portuária, outrora próspera, foi reduzida. O Pontífice plantou uma oliveira e depositou uma coroa de rosas brancas e amarelas.

Tiziana Campisi – enviada em Annaba, na Argélia

Chove torrencialmente em Annaba, e é um dia cinzento. Mas entre as ruínas da antiga Hipona, o passado e o presente parecem se fundir nesta terça-feira, 14 de abril. Duas épocas diferentes, distantes mais de 16 séculos, mas das quais chega ao mundo a mesma mensagem, de Santo Agostinho e de Leão XIV: é possível viver como irmãos se construirmos juntos a paz.

O momento da chegada de Leão XIV e as pombas brancas soltas no céu   (@Vatican Media)

É o segundo dia da viagem apostólica do Papa à África, umas das jornadas mais esperadas. O Pontífice agostiniano, sob a chuva torrencial, percorre um breve trecho da área arqueológica, parte de uma estrada tantas vezes atravessada pelo bispo Aurelio Agostinho, natural de Tagaste, a atual Souk Ahras, e bispo da florescente cidade portuária. Alargando o olhar, avista-se a colina de Annaba com a basílica dedicada ao grande pai da Igreja. Ontem e hoje, o primeiro Pontífice em solo argelino presta homenagem ao seu pai espiritual, para colher sua herança e dar voz novamente ao seu convite a viver em concórdia, para que haja harmonia entre os povos. Porque “a paz é o fim do nosso bem”, escreve Agostinho em “A Cidade de Deus”, no capítulo XIX (11), onde repete a palavra “paz” mais de cem vezes.

O momento em que o Papa ajudou a plantar uma oliveira, símbolo de paz   (@Vatican Media)

Entre as ruínas da cidade onde Agostinho viveu

Recebido na entrada das escavações por um responsável pelo local, Leão observa, visivelmente emocionado, as ruínas de Hippo Regius, habitada até o século V por pescadores, marinheiros, soldados, comerciantes, artesãos, além de funcionários públicos e agricultores, mas também por famílias abastadas, armadores e empresários. O mau tempo obriga a uma cerimônia mais breve, durante a qual o Papa, sob um gazebo, com a ajuda de dois jovens escoteiros, deposita uma coroa de rosas brancas e amarelas e depois planta uma oliveira, símbolo de paz e que remete àquela secular de sua cidade natal, que a tradição atribui à sua época. Leão XIV permanece por alguns instantes absorto em oração, com as mãos postas. Enquanto isso, pombas brancas são soltas no céu cinzento e carregado de chuva, enquanto o coro do Instituto de Música de Annaba entoa cantos em latim, berbere e argelino, com textos do bispo de Hipona sobre a paz e a fraternidade. Um grupo de jovens vestidos com trajes típicos, aos quais o Pontífice se aproxima para ouvir a execução da última música. O Papa os aplaude no final e lhes agradece; depois, ainda sob a chuva incessante, dirige-se para a saída do local para prosseguir este segundo dia de viagem seguindo os passos de Santo Agostinho.

A visita do Papa às ruínas de Hipona   (@Vatican Media)
Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/

segunda-feira, 13 de abril de 2026

DOCUMENTO: Uma alma para a Europa (Parte 1/4)

Robert Schuman | 30Giorni.

DOCUMENTO

retirado do nº 05 – 2003, Revista 30Dias.

Robert Schuman, 1886-1963

Uma alma para a Europa

Palestra proferida pelo Presidente do Pontifício Conselho para a Cultura na Catedral de Notre-Dame de Paris, em 9 de março de 2003, primeiro domingo da Quaresma. Esta palestra sobre o estadista francês faz parte de uma série de palestras do Cardeal Poupard intitulada: "Santidade que Desafia a História. Retratos de Seis Testemunhas do Terceiro Milênio".

Por Cardeal Paul Poupard

Robert Schuman: Dando uma Alma à Europa

Nesta galeria de seis retratos de católicos, fonte de inspiração para nossa vida cristã, escolhi deliberadamente um político, um pai da Europa, para liderar o caminho.

Estamos falando da Europa. Agora, vamos avaliar suas supostas vantagens, suas esperanças incertas, suas mudanças chocantes. Um homem, cristão, natural da Lorena, eleito deputado pela região do Mosela, que havia se tornado francesa novamente em 1919, e continuamente reeleito entre as duas guerras, Subsecretário de Estado com o General de Gaulle como Presidente do Conselho de Ministros em maio de 1940, renunciou em julho em Vichy, o primeiro parlamentar francês preso pela Gestapo nazista em Metz em setembro de 1940, depois forçado a permanecer no Palatinado, de onde corajosamente escapou dois anos depois para passar três anos escondido até a libertação da França, Ministro das Finanças, Presidente do Conselho de Ministros em 1947 e 1948 e, ininterruptamente, Ministro das Relações Exteriores nos governos que se sucederam em ritmo frenético sob a Quarta República, de 1948 a 1953: um homem como este teve a audácia de abrir um futuro de paz para a Europa, na sequência de uma guerra assassina. Era 9 de maio de 1950. Em uma declaração histórica inspirada por Jean Monnet e imediatamente acordada com seus pares Konrad Adenauer e Alcide De Gasperi, o ministro lançou o Plano Schuman, que reunia carvão e aço, a base da Comunidade Europeia, para reunir os irmãos inimigos que haviam sido separados pela guerra ao longo do século, a fim de construir uma Europa unida em paz, liberdade e prosperidade.

Ele, natural da Lorena, nasceu em Luxemburgo, e me lembro de uma visita que fiz um dia à sua pacata casa de infância, numa cidade então provinciana no coração da Europa. Seu pai, também natural da Lorena, sempre ligado à França, emigrou após a guerra de 1870 para a terra natal de sua esposa, uma luxemburguesa. Francês de coração desde a infância, a escola bilíngue de Luxemburgo o apresentou e o educou na incomparável riqueza de uma cultura dupla, francesa e alemã. De uma guerra para outra, ele vivenciou a loucura dos conflitos criminosos, a espiral interminável de violência cega e vingança implacável. Agora que a Europa se tornou tragicamente um triste campo de escombros coberto de mortos, ele, um cristão exausto pelas dificuldades, acusado de indignidade por ter servido no governo de Pétain, do qual nunca participou de fato, foi desqualificado pela intervenção pessoal do General de Gaulle, reeleito membro do parlamento, ministro e depois primeiro-ministro, assina o Plano Marshall em 1948 e, como Ministro das Relações Exteriores, transforma o carvão e o aço, até então meios de morte, peças-chave na dissensão franco-alemã, em instrumentos pacíficos de reconciliação. É a famosa declaração do Quai d'Orsay: "A paz mundial não pode ser salvaguardada sem esforços criativos tão grandes quanto os perigos que a ameaçam [...], todas as nações europeias exigem que a oposição franco-alemã secular seja eliminada." Uma utopia insensata para alguns, loucura para outros: hoje é um fato consumado, um benefício incomparável para as gerações futuras. Devemos isso a este político excepcional, um grande estadista e um grande cristão.

Testemunho de André Philip

Ouçamos André Philip, protestante, que foi deputado socialista e Ministro das Finanças e da Economia: "Conheci Robert Schuman durante quinze anos, no Parlamento, depois no governo e, por fim, no Movimento Europeu. O que me impressionou nele desde o início foi o brilho de sua vida interior. Deparei-me com um homem consagrado, sem desejos pessoais, sem ambição, de total sinceridade e humildade intelectual, que buscava apenas servir onde e quando se sentia chamado. Era conservador por tradição, hostil às novidades; pacífico, tímido e hesitante por temperamento. Muitas vezes procrastinava, adiava decisões, esperava enganar o chamado que se fazia sentir no fundo de sua consciência; então, quando não havia mais nada a fazer, quando tinha certeza do que sua voz interior lhe exigia, tomava abruptamente as decisões mais ousadas e as levava até o fim, insensível a críticas, ataques e ameaças."

Na atmosfera febril dos debates parlamentares, era reconfortante encontrar um homem sempre pronto ao diálogo, que buscava convencer, levando em conta as objeções, sempre com a mesma calma e inabalável cortesia. Para atingir seu objetivo, mesmo o mais importante, jamais recorria a meios vulgares, exagerava o peso de um argumento ou elevava a voz… Mas, acima de tudo, permanecerá na memória daqueles que o conheceram como o protótipo do verdadeiro democrata, imaginativo e criativo, combativo em sua gentileza, sempre respeitoso da humanidade, fiel a uma vocação íntima que dava sentido à vida.

René Lejeune, seu colaborador próximo, ao publicar este testemunho, acompanhou-o com o comentário: "O testemunho de André Philip é credível. O olhar que ele lança sobre ele vai além das aparências, captando a essência. Revela um 'homem consagrado', guiado por uma 'voz interior'. E que busca apenas 'servir'. Três palavras-chave na vida e nas ações desse político exemplar. Nos passos de Robert Schuman, de fato, a santidade da política se manifesta, não apenas pela habilidade e competência, mas também na consagração de um ser completamente entregue a Deus, de quem ele sabe ser instrumento. 2

A política, um caminho para a santidade

O caminho percorrido após esta iniciativa histórica, neste meio século, pela primeira vez, através da iniciativa decisiva de Robert Schuman, vê os irmãos inimigos reconciliados, França e Alemanha, tornarem-se o núcleo de um grupo de povos em paz, determinados a construir juntos o seu futuro comum. Robert Schuman, em meio à instabilidade política, consegue tomar uma decisão histórica que muda decisiva e irresistivelmente o rumo da política." A história, supera antagonismos seculares e constrói um futuro comum de prosperidade e paz. Ele, um cristão que entrou para a política, trilhou o caminho do compromisso político, que para os cristãos constitui um terreno privilegiado para exercer com seriedade e paixão a caridade dos discípulos de Cristo, a serviço do bem comum, no coração da cidade dos homens. Para Robert Schuman, esse caminho era o caminho para a santidade.

Notas:

1 Esta palestra toma seu título e conteúdo do belo livro que René Lejeune me deu, com dedicatória, na casa de Robert Schuman em Scy-Chazelles, em 1º de maio de 1993: Robert Schuman, uma Alma para a Europa , ed. Saint-Paul, 1986. Desejo expressar minha mais profunda gratidão a ele, e também por sua nova obra: Robert Schuman, Pai da Europa, 1886-1963 . Política, um Caminho para a Santidade , Fayard, 2000. Os textos de Robert Schuman são extraídos de sua coleção de Escritos Políticos. Para a Europa , 3ª edição, prefácio de Jacques Delors, ed. Nagel, Genebra, 2000.
Robert Schuman, Pai da Europa , op. cit., pp. 9-10.

Fonte: https://www.30giorni.it/

Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF