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terça-feira, 14 de abril de 2026

DOCUMENTO: Uma alma para a Europa (Parte 2/4)

Jean Monnet exibe o primeiro lingote de aço "europeu", Paris, 1952.

DOCUMENTO

retirado do nº 05 – 2003, Revista 30Dias.

Robert Schuman, 1886-1963

Uma alma para a Europa

Palestra proferida pelo Presidente do Pontifício Conselho para a Cultura na Catedral de Notre-Dame de Paris, em 9 de março de 2003, primeiro domingo da Quaresma. Esta palestra sobre o estadista francês faz parte de uma série de palestras do Cardeal Poupard intitulada: "Santidade que Desafia a História. Retratos de Seis Testemunhas do Terceiro Milênio".

Por Cardeal Paul Poupard

Um grande papa da época de Robert Schuman, o Papa Pio XI, não hesitou em afirmar, na hora trágica da chegada da Peste Vermelha e da Peste Negra à Europa: "O campo da política, que diz respeito aos interesses da sociedade como um todo, é o mais vasto campo da caridade, da caridade política, e pode-se dizer que não há nenhum maior, exceto o da religião."³ Situada na intersecção entre o presente e o possível, naquele difícil ponto de transição onde o projeto para o amanhã pode se tornar alcançável, a característica e a grandeza da ação política é tornar possível hoje o que é necessário para o futuro pacífico dos povos dentro da grande comunidade da humanidade. Inspirado por sua fé cristã e fortalecido pela experiência de uma excepcional longevidade parlamentar, Robert Schuman pôde encarnar, em meio às contingências políticas, seu ideal evangélico de serviço à humanidade. Como essa iniciativa, questionava a Semana dos Intelectuais Católicos em Paris, "alcançará, a partir de uma base econômica e jurídica, as formas da política e da moral, penetrará a cultura, ninguém pode dizer. Do que não devemos duvidar é que a alma da Europa aguardava esse corpo ampliado que são as Comunidades" (François Fontaine).

Uma Alma para a Europa

O volume de Pesquisas e Debates termina com uma importante posição assumida pelo Presidente Robert Schuman, que recordei quando me foi atribuído o Prémio Schuman para a Europa em Estrasburgo, a 23 de novembro de 1988. Meio século depois, permitam-me evocá-la às nossas vagas memórias: "Falo", disse o Presidente Schuman, "como um crente para crentes... As nossas democracias contemporâneas desenvolvem em nós um sentido de responsabilidade pessoal. É a feliz consequência e a contrapartida de qualquer regime baseado na liberdade. Mas a coragem cívica, individual ou coletiva numa assembleia, nem sempre é digna dessa responsabilidade...

Devemos perceber que a Europa não pode limitar-se, a longo prazo, a uma mera estrutura económica. Deve também tornar-se uma salvaguarda de tudo o que torna a nossa civilização cristã grandiosa: a dignidade da pessoa humana, a liberdade e a responsabilidade da iniciativa individual e coletiva, o desenvolvimento de todas as energias morais dos nossos povos. Tal missão cultural será o complemento e a realização necessários de uma Europa que até agora se fundou na cooperação económica." Isso lhe dará uma alma, um enobrecimento espiritual e uma genuína consciência compartilhada. Não devemos ter uma concepção limitada da Europa do futuro, confinando-a a preocupações materiais, se quisermos que ela resista ao ataque de coalizões racistas e fanatismos de todos os tipos. A Europa, após o descrédito que lhe foi lançado em grande parte do mundo, terá que retomar seu papel de educadora altruísta, especialmente para os povos recém-libertos.

A ajuda aos países subdesenvolvidos será, então, a grande tarefa na qual todos aqueles que têm o privilégio de estar à frente dos demais devem se unir. A humanidade de amanhã será o que fizermos dela. Se nos limitássemos a prover-lhes recursos econômicos e militares, sem simultaneamente lhes fornecer uma armadura moral, sem dar o exemplo de comportamento baseado em princípios espirituais, teríamos assumido uma tarefa perigosa, e não apenas fútil. Teríamos os afastado de suas tradições, sem lhes dar um novo ideal, um complemento e um contrapeso ao progresso técnico... Temos um genuíno dever moral para com eles. Falharíamos completamente em cumprir nosso dever, limitando nossa ação à construção de estradas e fábricas, escolas e clínicas, se lhes concedêssemos autonomia ou mesmo independência sem ensiná-los a usá-la adequadamente, sem alertá-los sobre os abusos que poderiam resultar. A emancipação deve ser acompanhada de educação moral e técnica, sem a qual corremos o risco de presenciar quedas vergonhosas na anarquia e na barbárie… E esta é outra tarefa especificamente europeia…⁴.

Esta é a mensagem que o cristão Robert Schuman nos deixa: devemos construir a Europa, não como uma pequena ilha de prosperidade egoísta voltada para si mesma em meio a um oceano de miséria, mas como uma comunidade generosa de homens e mulheres livres e fraternos, responsáveis ​​também por outros povos menos afortunados; devemos dar-lhe uma alma. "Tudo isso", disse ele, "não pode e não deve permanecer uma empresa econômica e técnica: precisa de uma alma; a Europa não viverá e não será salva a menos que tome consciência de si mesma e de suas responsabilidades, retornando aos princípios cristãos de solidariedade e fraternidade."

Um cristão engajado na política

O homem que fala é um político experiente que, inspirado por sua educação cristã, extrai de si um grande ideal de serviço, repleto de convicções profundas, confortado pela oração e pela adoração eucarística. Sua juventude foi crucial, marcada por um pai severo, um homem justo e íntegro no sentido bíblico do termo, e, acima de tudo, por uma mãe extraordinária, que vivia sua fé cristã como se fosse algo natural, em pensamento, palavra e ação, e a transmitia ao filho por osmose. Até a trágica morte de Eugénie Schuman, aos 47 anos, em um dramático acidente de carro que lhe fraturou a coluna, a criança, o adolescente, o jovem foi formado por seu exemplo, em uma intimidade pacífica, animada por uma fé profunda. Com a mãe, ele ia à missa diária pela manhã para receber luz e força na comunhão com Cristo na Eucaristia. Com ela, celebrava o mês de Maria, na doce primavera de maio, em Luxemburgo. Ele a acompanha em uma peregrinação a Lourdes, a cidade mariana, e a Roma, a cidade para sempre marcada pelo martírio dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, sede do ministério do Papa. Testemunha com gratidão e emoção a beatificação de Joana d'Arc, símbolo da pátria perdida e longe de ser reencontrada.

or ser filho de Lorena, Robert Schuman era cidadão alemão de nascimento, em virtude do Tratado de Frankfurt, que anexou a Alsácia e a Mosela-Lorena após a desastrosa guerra de 1870. Mas nasceu em Luxemburgo, um país independente, em uma família imbuída de patriotismo francês. No Ateneu de Luxemburgo, apesar de estar em um bairro de língua alemã, os estudos são ministrados em francês, permeados pelo humanismo clássico e pelos valores cristãos. Apaixonado por matemática, Robert, ainda adolescente, prepara-se, sem saber, para mais tarde, como ministro, assimilar as complexas finanças de um Estado moderno. Ele também amava a história, o que lhe permitia decifrar a desastrosa sucessão de invasões, desmembramentos e anexações entre países vizinhos e inimigos, avaliar sua dimensão trágica e ansiar fervorosamente por seu fim. Aluno exemplar, nunca deixou de estudar a Suma Teológica de São Tomás de Aquino em latim ao longo de sua vida, extraindo dela profundidade de pensamento e clareza de expressão. Sua familiaridade com os clássicos franceses foi logo complementada por um domínio do direito alemão, adquirido nas universidades de Bonn, Munique, Berlim e Estrasburgo, e pela descoberta do Romantismo de Goethe e Schiller, além do gosto pela leitura e pela música herdado de sua mãe.

É ela quem lhe transmite, com uma fé sólida e clara, uma consciência moral inabalável, imaculada pelas exigências da política, mesmo através dos tortuosos meandros da vida política. Tal como a sua contemporânea, a pequena Teresa de Lisieux, que detestava a "simulação", Robert Schuman abomina a mentira, e o seu caminho é reto desde muito jovem. A um colega que cola num exame, diz corajosamente: "Não posso impedi-lo, mas saiba que é um pecado". Já deputado e ministro, permanece completamente alheio às maquinações misteriosas e às combinações interesseiras. A um jovem colega que se mostra ingenuamente espantado, responde firmemente: "Ser honesto é a melhor forma de ser inteligente". E Deus sabe que Robert Schuman nunca deixou de ser inteligente. Poderíamos aplicar-lhe o belo provérbio português que diz: "Deus escreve reto com linhas curvas". Como observa seu biógrafo, para concretizar seu projeto central em um contexto político incapaz de aceitá-lo, ele foi forçado a usar de astúcia e ocultar sua importância do Conselho de Ministros. Sem essa artimanha, a declaração fundamental que deu origem à Comunidade Europeia não teria sido possível. Robert Schuman empregou uma estratégia de manobras e subterfúgios, jamais recorrendo à mentira. "Nunca se deve mentir, nem mesmo na política", costumava dizer. Este é o caminho difícil e frutífero que ele nos abre.

Notas

3 Pio XI, Discurso de 18 de dezembro de 1927 na Federação das Universidades Católicas Italianas.
4 Robert Schuman, É Tarde Demais para Fazer a Europa?, em Qual Europa? Pesquisa e Debates , nº 22, Fayard, Paris 1958, pp. 227 e 230-31, citado em Paul Poupard, A Herança Cristã da Cultura Europeia na Consciência dos Contemporâneos , Fundação Jean Monnet para a Europa, Centro de Pesquisa Europeia, Lausanne 1986, pp. 14-16.

Fonte: https://www.30giorni.it/

O ramo verde, a cruz redentora e a luz do Círio

O RAMO VERDE, A CRUZ REDENTORA E A LUZ DO CÍRIO 

10/04/2026

Dom Andherson Franklin Lustoza de Souza
Bispo Auxiliar de Vitória (ES)

Caminho de Formação do Discípulo Missionário 

Os séculos IV e V foram muito fecundos em experiências e escritos catequéticos, marcados por fortes acenos bíblicos, espirituais, teológicos e litúrgicos. Destacam-se as catequeses mistagógicas de Cirilo e João de Jerusalém, os escritos de cunho catequético e mistagógico de Santo Ambrósio, os discursos catequéticos e indicações sobre o batismo de Gregório de Nissa e Basílio e, ainda, os escritos e reflexões de Santo Agostinho. 

Com a celebração dos sacramentos, na Solenidade Pascal, iniciava-se o primeiro período da Mistagogia, que acontecia durante os oito dias depois da Páscoa. Nesse tempo de graça, os neófitos, ou os recém-nascidos para a fé, com as vestes brancas do Batismo, participavam diariamente das celebrações da Eucaristia e das catequeses sobre os mistérios celebrados. Muitas dessas catequeses eram ministradas pelos bispos, que aprofundavam o significado dos mistérios celebrados nos sacramentos, de maneira especial, ressaltando o quanto os ritos deveriam impactar na forma como deveriam viver, como cristãos e cristãs; destacando o valor da nova vida que receberam e as suas implicações na vida cotidiana. O intuito era o de oferecer aos novos cristãos um mergulho profundo no mistério celebrado e nas implicações existenciais da vida cristã. 

No caminho trilhado ao longo da Semana Santa, todos são conduzidos por um itinerário profundo de fé, no coração das comunidades eclesiais, por meio do qual celebra-se a memória atualizada dos mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, por meio da qual nascem os verdadeiros discípulos missionários. Nos passos dessa Semana, na qual o Santo de Deus se entrega, por amor, para salvar a humanidade, são entregues três símbolos: o ramo verde, a cruz do Senhor e a vela acesa com o fogo novo. 

A Semana Santa tem início com o Domingo de Ramos, no qual, com a bênção dos ramos verdes, todo o povo, com entusiasmo, acolhe Jesus, canta hosanas e o reconhece como Rei, mas, ainda não compreende plenamente quem Ele é. De fato, os gestos realizados e as expressões indicam um sim que precisa amadurecer e superar a superficialidade momentânea da multidão. O ramo verde é o símbolo do início de um caminho que pode levar ao compromisso maduro e comprometido do seguimento discipular. Porém, para que isso aconteça, é necessário superar a inconstância frágil dos que procuram somente por pão e milagres, indo na direção dos que, com coragem e amor, abraçam o ramo maduro da cruz. 

Na Sexta-feira Santa, com o silêncio eloquente, todos os olhares e corações se dirigem para a Cruz de Cristo, atraídos para o trono da graça, como indica a Carta aos Hebreus. As multidões entusiasmadas se calaram ou transformaram a sua acolhida em rejeição e escárnio diante da nudez daquele que tinham aclamado como Rei. Diante da Cruz estavam, de pé, a Mãe de Jesus e o seu discípulo amado, ambos silenciosos, na contemplação do amor que sempre vai além, até à plenitude. A cruz de Cristo é manifestação do amor de Deus que sempre, de forma incansável, encontra a sua estrada para entrar e tocar a vida dos homens, sobretudo a vida dos que mais sofrem. O silêncio da celebração é rompido com a proclamação contundente: “Eis o lenho da cruz do qual pendeu a salvação do mundo”. No beijo adorante da cruz, todos são convidados a assumir a sua verdade mais plena, como discípulos missionários de Jesus Cristo. Isto é, a escolha e a decisão cotidianas de viver segundo a nova lógica do amor, que nasce da própria entrega do Salvador no ramo seco da cruz. 

No Sábado Santo, a bênção do fogo novo dá início à Vigília, rompendo a escuridão da noite do pecado e de todo mal, iluminando o Círio Pascal, coluna luminosa no caminho dos discípulos missionários. Diante do vigoroso anúncio: “Eis a Luz de Cristo”, aos poucos a assembleia se ilumina com as velas acesas nesta luz, que deve misturar o seu brilho à luz das estrelas e, ao longo de toda a noite, fulgurar. A luz vitoriosa do Ressuscitado não é guardada, mas partilhada, pois o verdadeiro amor não se contenta em salvar e iluminar a si mesmo, mas, ao contrário, sempre se dirige ao encontro do outro. Desse modo, a cada vela acesa, um discípulo missionário, que disse sim com os ramos nas mãos e abraçou a lógica amorosa da cruz, compreende a sua missão. Pois a verdadeira e amadurecida profissão de fé, vivenciada no coração da comunidade eclesial, é traduzida no compromisso e na atitude missionária. 

A oitava da Páscoa é, então, o momento de experimentar e fazer memória de tudo o que foi vivenciado ao longo da Semana Santa, de maneira especial por meio da recordação dos símbolos apresentados ao longo desse caminho. Na realidade eclesial do Estado do Espírito Santo, onde está plantada a Igreja particular da Arquidiocese de Vitória, a alegria da Ressurreição encontra uma ressonância própria na vivência da Festa da Penha. Nesse horizonte de fé, o povo peregrino se coloca a caminho, reunindo oração, memória e esperança, como quem prolonga, pelas estradas da devoção e da piedade popular, a luz que brotou da noite santa da Vigília. Assim, aquilo que foi celebrado no silêncio fecundo dos mistérios pascais torna-se experiência viva na caminhada do povo fiel, que, sob o olhar materno de Maria, aprende a reconhecer os sinais do Ressuscitado e a renovar, com simplicidade e confiança, a sua vocação de discípulo missionário. 

A Virgem da Penha, a Senhora das Alegrias da Ressurreição, guardava e meditava todas as coisas em seu coração, como afirma o Evangelista Lucas. Que, a seu exemplo, todos possam compreender o mistério do amor divino que, no ramo verde, convida à acolhida do Seu Filho. Por meio da cruz revela a plenitude de seu infinito amor, que a todos alcança e redime. E, por fim, na vela iluminada com a luz do Círio, a todos envia como verdadeiros anunciadores do Evangelho, discípulos missionários de Jesus Cristo, como sal da terra e luz no mundo. 

Fonte: https://www.cnbb.org.br/

Nos passos de Agostinho, Papa em silêncio e oração entre as ruínas de Hipona

A visita do Papa às ruínas de Hipona   (@Vatican Media)

A área arqueológica da antiga sede episcopal do Padre da Igreja foi a primeira parada do segundo dia da viagem do Papa à Argélia. Devido ao mau tempo e à chuva torrencial, a visita pelas ruas da cidade portuária, outrora próspera, foi reduzida. O Pontífice plantou uma oliveira e depositou uma coroa de rosas brancas e amarelas.

Tiziana Campisi – enviada em Annaba, na Argélia

Chove torrencialmente em Annaba, e é um dia cinzento. Mas entre as ruínas da antiga Hipona, o passado e o presente parecem se fundir nesta terça-feira, 14 de abril. Duas épocas diferentes, distantes mais de 16 séculos, mas das quais chega ao mundo a mesma mensagem, de Santo Agostinho e de Leão XIV: é possível viver como irmãos se construirmos juntos a paz.

O momento da chegada de Leão XIV e as pombas brancas soltas no céu   (@Vatican Media)

É o segundo dia da viagem apostólica do Papa à África, umas das jornadas mais esperadas. O Pontífice agostiniano, sob a chuva torrencial, percorre um breve trecho da área arqueológica, parte de uma estrada tantas vezes atravessada pelo bispo Aurelio Agostinho, natural de Tagaste, a atual Souk Ahras, e bispo da florescente cidade portuária. Alargando o olhar, avista-se a colina de Annaba com a basílica dedicada ao grande pai da Igreja. Ontem e hoje, o primeiro Pontífice em solo argelino presta homenagem ao seu pai espiritual, para colher sua herança e dar voz novamente ao seu convite a viver em concórdia, para que haja harmonia entre os povos. Porque “a paz é o fim do nosso bem”, escreve Agostinho em “A Cidade de Deus”, no capítulo XIX (11), onde repete a palavra “paz” mais de cem vezes.

O momento em que o Papa ajudou a plantar uma oliveira, símbolo de paz   (@Vatican Media)

Entre as ruínas da cidade onde Agostinho viveu

Recebido na entrada das escavações por um responsável pelo local, Leão observa, visivelmente emocionado, as ruínas de Hippo Regius, habitada até o século V por pescadores, marinheiros, soldados, comerciantes, artesãos, além de funcionários públicos e agricultores, mas também por famílias abastadas, armadores e empresários. O mau tempo obriga a uma cerimônia mais breve, durante a qual o Papa, sob um gazebo, com a ajuda de dois jovens escoteiros, deposita uma coroa de rosas brancas e amarelas e depois planta uma oliveira, símbolo de paz e que remete àquela secular de sua cidade natal, que a tradição atribui à sua época. Leão XIV permanece por alguns instantes absorto em oração, com as mãos postas. Enquanto isso, pombas brancas são soltas no céu cinzento e carregado de chuva, enquanto o coro do Instituto de Música de Annaba entoa cantos em latim, berbere e argelino, com textos do bispo de Hipona sobre a paz e a fraternidade. Um grupo de jovens vestidos com trajes típicos, aos quais o Pontífice se aproxima para ouvir a execução da última música. O Papa os aplaude no final e lhes agradece; depois, ainda sob a chuva incessante, dirige-se para a saída do local para prosseguir este segundo dia de viagem seguindo os passos de Santo Agostinho.

A visita do Papa às ruínas de Hipona   (@Vatican Media)
Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/

segunda-feira, 13 de abril de 2026

DOCUMENTO: Uma alma para a Europa (Parte 1/4)

Robert Schuman | 30Giorni.

DOCUMENTO

retirado do nº 05 – 2003, Revista 30Dias.

Robert Schuman, 1886-1963

Uma alma para a Europa

Palestra proferida pelo Presidente do Pontifício Conselho para a Cultura na Catedral de Notre-Dame de Paris, em 9 de março de 2003, primeiro domingo da Quaresma. Esta palestra sobre o estadista francês faz parte de uma série de palestras do Cardeal Poupard intitulada: "Santidade que Desafia a História. Retratos de Seis Testemunhas do Terceiro Milênio".

Por Cardeal Paul Poupard

Robert Schuman: Dando uma Alma à Europa

Nesta galeria de seis retratos de católicos, fonte de inspiração para nossa vida cristã, escolhi deliberadamente um político, um pai da Europa, para liderar o caminho.

Estamos falando da Europa. Agora, vamos avaliar suas supostas vantagens, suas esperanças incertas, suas mudanças chocantes. Um homem, cristão, natural da Lorena, eleito deputado pela região do Mosela, que havia se tornado francesa novamente em 1919, e continuamente reeleito entre as duas guerras, Subsecretário de Estado com o General de Gaulle como Presidente do Conselho de Ministros em maio de 1940, renunciou em julho em Vichy, o primeiro parlamentar francês preso pela Gestapo nazista em Metz em setembro de 1940, depois forçado a permanecer no Palatinado, de onde corajosamente escapou dois anos depois para passar três anos escondido até a libertação da França, Ministro das Finanças, Presidente do Conselho de Ministros em 1947 e 1948 e, ininterruptamente, Ministro das Relações Exteriores nos governos que se sucederam em ritmo frenético sob a Quarta República, de 1948 a 1953: um homem como este teve a audácia de abrir um futuro de paz para a Europa, na sequência de uma guerra assassina. Era 9 de maio de 1950. Em uma declaração histórica inspirada por Jean Monnet e imediatamente acordada com seus pares Konrad Adenauer e Alcide De Gasperi, o ministro lançou o Plano Schuman, que reunia carvão e aço, a base da Comunidade Europeia, para reunir os irmãos inimigos que haviam sido separados pela guerra ao longo do século, a fim de construir uma Europa unida em paz, liberdade e prosperidade.

Ele, natural da Lorena, nasceu em Luxemburgo, e me lembro de uma visita que fiz um dia à sua pacata casa de infância, numa cidade então provinciana no coração da Europa. Seu pai, também natural da Lorena, sempre ligado à França, emigrou após a guerra de 1870 para a terra natal de sua esposa, uma luxemburguesa. Francês de coração desde a infância, a escola bilíngue de Luxemburgo o apresentou e o educou na incomparável riqueza de uma cultura dupla, francesa e alemã. De uma guerra para outra, ele vivenciou a loucura dos conflitos criminosos, a espiral interminável de violência cega e vingança implacável. Agora que a Europa se tornou tragicamente um triste campo de escombros coberto de mortos, ele, um cristão exausto pelas dificuldades, acusado de indignidade por ter servido no governo de Pétain, do qual nunca participou de fato, foi desqualificado pela intervenção pessoal do General de Gaulle, reeleito membro do parlamento, ministro e depois primeiro-ministro, assina o Plano Marshall em 1948 e, como Ministro das Relações Exteriores, transforma o carvão e o aço, até então meios de morte, peças-chave na dissensão franco-alemã, em instrumentos pacíficos de reconciliação. É a famosa declaração do Quai d'Orsay: "A paz mundial não pode ser salvaguardada sem esforços criativos tão grandes quanto os perigos que a ameaçam [...], todas as nações europeias exigem que a oposição franco-alemã secular seja eliminada." Uma utopia insensata para alguns, loucura para outros: hoje é um fato consumado, um benefício incomparável para as gerações futuras. Devemos isso a este político excepcional, um grande estadista e um grande cristão.

Testemunho de André Philip

Ouçamos André Philip, protestante, que foi deputado socialista e Ministro das Finanças e da Economia: "Conheci Robert Schuman durante quinze anos, no Parlamento, depois no governo e, por fim, no Movimento Europeu. O que me impressionou nele desde o início foi o brilho de sua vida interior. Deparei-me com um homem consagrado, sem desejos pessoais, sem ambição, de total sinceridade e humildade intelectual, que buscava apenas servir onde e quando se sentia chamado. Era conservador por tradição, hostil às novidades; pacífico, tímido e hesitante por temperamento. Muitas vezes procrastinava, adiava decisões, esperava enganar o chamado que se fazia sentir no fundo de sua consciência; então, quando não havia mais nada a fazer, quando tinha certeza do que sua voz interior lhe exigia, tomava abruptamente as decisões mais ousadas e as levava até o fim, insensível a críticas, ataques e ameaças."

Na atmosfera febril dos debates parlamentares, era reconfortante encontrar um homem sempre pronto ao diálogo, que buscava convencer, levando em conta as objeções, sempre com a mesma calma e inabalável cortesia. Para atingir seu objetivo, mesmo o mais importante, jamais recorria a meios vulgares, exagerava o peso de um argumento ou elevava a voz… Mas, acima de tudo, permanecerá na memória daqueles que o conheceram como o protótipo do verdadeiro democrata, imaginativo e criativo, combativo em sua gentileza, sempre respeitoso da humanidade, fiel a uma vocação íntima que dava sentido à vida.

René Lejeune, seu colaborador próximo, ao publicar este testemunho, acompanhou-o com o comentário: "O testemunho de André Philip é credível. O olhar que ele lança sobre ele vai além das aparências, captando a essência. Revela um 'homem consagrado', guiado por uma 'voz interior'. E que busca apenas 'servir'. Três palavras-chave na vida e nas ações desse político exemplar. Nos passos de Robert Schuman, de fato, a santidade da política se manifesta, não apenas pela habilidade e competência, mas também na consagração de um ser completamente entregue a Deus, de quem ele sabe ser instrumento. 2

A política, um caminho para a santidade

O caminho percorrido após esta iniciativa histórica, neste meio século, pela primeira vez, através da iniciativa decisiva de Robert Schuman, vê os irmãos inimigos reconciliados, França e Alemanha, tornarem-se o núcleo de um grupo de povos em paz, determinados a construir juntos o seu futuro comum. Robert Schuman, em meio à instabilidade política, consegue tomar uma decisão histórica que muda decisiva e irresistivelmente o rumo da política." A história, supera antagonismos seculares e constrói um futuro comum de prosperidade e paz. Ele, um cristão que entrou para a política, trilhou o caminho do compromisso político, que para os cristãos constitui um terreno privilegiado para exercer com seriedade e paixão a caridade dos discípulos de Cristo, a serviço do bem comum, no coração da cidade dos homens. Para Robert Schuman, esse caminho era o caminho para a santidade.

Notas:

1 Esta palestra toma seu título e conteúdo do belo livro que René Lejeune me deu, com dedicatória, na casa de Robert Schuman em Scy-Chazelles, em 1º de maio de 1993: Robert Schuman, uma Alma para a Europa , ed. Saint-Paul, 1986. Desejo expressar minha mais profunda gratidão a ele, e também por sua nova obra: Robert Schuman, Pai da Europa, 1886-1963 . Política, um Caminho para a Santidade , Fayard, 2000. Os textos de Robert Schuman são extraídos de sua coleção de Escritos Políticos. Para a Europa , 3ª edição, prefácio de Jacques Delors, ed. Nagel, Genebra, 2000.
Robert Schuman, Pai da Europa , op. cit., pp. 9-10.

Fonte: https://www.30giorni.it/

As renovações na Igreja humana-divina

Praça São Pedro (Vatican News)

"O Concílio começa logo falando da revelação pessoal e histórica de Deus que culmina em Jesus Cristo (DV, 2-4), como também da fé como resposta adequada à revelação sobrenatural (DV, 5), assegurando assim, desde o início, o caráter específico da revelação e da fé bíblico-cristãs; de outro lado, a ausência de um contexto apologético de defesa contra erros doutrinais permite ao Vaticano II oferecer-nos uma teologia mais expositiva do mistério e dos conteúdos da revelação sobrenatural.".

Jackson Erpen - Cidade do Vaticano

"A Igreja é uma comunidade de homens e mulheres que partilham a alegria e o esforço de ser cristãos, com as suas qualidades e os seus defeitos, anunciando o Evangelho e tornando-se sinal da presença de Cristo que nos acompanha ao longo do caminho da vida. No entanto, este aspeto – que se manifesta inclusive na organização institucional – não é suficiente para descrever a verdadeira natureza da Igreja, dado que ela possui também uma dimensão divina. Esta última não consiste numa perfeição ideal, nem numa superioridade espiritual dos seus membros, mas na constatação de que a Igreja é gerada pelo desígnio de amor de Deus para a humanidade, realizado em Cristo. Por isso, a Igreja é comunidade terrena e ao mesmo tempo corpo místico de Cristo, assembleia visível e mistério espiritual, realidade presente na história e povo peregrino rumo ao céu".

Inspirado nas palavras de Leão XIV na catequese da Audiência Geral de 4 de março de 2026, Pe. Gerson Schmidt* nos propõe hoje "As renovações na Igreja humana-divina": 

"Há uma comparativa do Concílio Vaticano I com o Concílio Vaticano II. As controvérsias e rupturas dos lefebvrianos justamente é porque não aceitam as renovações do Concílio Vaticano II. Da comparação dos dois textos - Vaticano I e Vaticano II - surgem algumas diferenças dignas de relevo.

Primeiramente, sobre a relação entre revelação sobrenatural e natural — O Vaticano I parte da revelação natural e da possibilidade do conhecimento de Deus (esse Concílio fala de conhecimento, não de demonstração) à luz da razão humana, para chegar depois à revelação sobrenatural. Ele defendia a primeira contra os que humilhavam a razão humana negando-lhe toda possibilidade de chegar, por via ascendente, ao conhecimento de Deus; defendia a segunda, contra os que concedendo à razão humana plena autonomia e plena suficiência, reduziam a revelação cristã à realidade puramente imanente ao homem.

A perspectiva do Vaticano II é de certa forma inversa. O Concílio começa logo falando da revelação pessoal e histórica de Deus que culmina em Jesus Cristo (DV, 2-4), como também da fé como resposta adequada à revelação sobrenatural (DV, 5), assegurando assim, desde o início, o caráter específico da revelação e da fé bíblico-cristãs; de outro lado, a ausência de um contexto apologético de defesa contra erros doutrinais permite ao Vaticano II oferecer-nos uma teologia mais expositiva do mistério e dos conteúdos da revelação sobrenatural. Somente no fim do capítulo I, na Constituição dogmática Dei Verbum, número 6, recupera-se o dado do Vaticano I sobre a revelação natural e sobre a possibilidade que o homem tem de conhecer a Deus, uma recuperação indubitavelmente importante.

O Papa Leão XIV, dedicando suas catequeses nas Audiências Gerais de quartas feiras, está adentrando nos documentos fundamentais do Concilio Vaticano II. Falou-nos por um período da Dei Verbum. Na Praça de São Pedro, na quarta-feira, 4 de março de 2026, aprofunda a Lumen Gentium, a Constituição que fala da identidade da Igreja. Pela primeira vez a Igreja se debruçou num Concílio sobre sua própria realidade. Papa Leão falou sobre “A Igreja, realidade visível e espiritual”.

O Papa discursa assim: “No primeiro capítulo, onde se tenciona responder sobretudo à pergunta sobre o que é a Igreja, ela é descrita como «uma realidade complexa» (LG, n. 8). Agora perguntemo-nos: em que consiste tal complexidade? Alguém poderia responder que a Igreja é complexa porque “complicada” e, portanto, difícil de explicar; outros poderiam pensar que a sua complexidade deriva da constatação de ser uma instituição com dois mil anos de história, com caraterísticas diferentes em relação a qualquer outra agregação social ou religiosa. Mas na língua latina a palavra “complexa” indica sobretudo a união ordenada de diferentes aspetos ou dimensões, no seio de uma única realidade. Por isso, a Lumen Gentium pode afirmar que a Igreja é um organismo bem articulado, no qual coexistem a dimensão humana e a dimensão divina, sem separação nem confusão”. De fato, a Igreja não é simplesmente um clube, uma ONG, uma associação humana, uma obra de cunho social desvinculada do divino. A Igreja é uma realidade humana-divina.

Segundo o Sumo Pontífice, a dimensão humana e a dimensão divina integram-se harmoniosamente, sem que uma se sobreponha à outra; assim, a Igreja vive neste paradoxo: é uma realidade humana e ao mesmo tempo divina que acolhe o homem pecador, conduzindo-o a Deus.  Conclui o Papa Leão assim: “Por isso, a Igreja é comunidade terrena e ao mesmo tempo corpo místico de Cristo, assembleia visível e mistério espiritual, realidade presente na história e povo peregrino rumo ao céu (LG, 8; CIC, 771)”".

*Padre Gerson Schmidt foi ordenado em 2 de janeiro de 1993, em Estrela (RS). Além da Filosofia e Teologia, também é graduado em Jornalismo e é Mestre em Comunicação pela FAMECOS/PUCRS.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt.html

"Terra, vocês são uma tripulação", diz astronauta da Artemis II

Da esquerda para a direita: os astronautas Jeremy Hansen, Reid Wiseman, Christina Koch e Victor Glover, durante a cerimônia de boas-vindas, em Houston (Texas) - (crédito: Ronaldo Schemidt/AFP)

"Terra, vocês são uma tripulação", diz astronauta da Artemis II

Os quatro tripulantes da missão Artemis II falam pela primeira vez sobre a jornada, depois de nove dias no espaço. Primeira mulher a participar de uma viagem ao satélite natural, Cristina Koch interrompeu o discurso para segurar o choro.

Por Rodrigo Craveiro

postado em 12/04/2026 05:50

Às 15h48 deste sábado (11/4) pelo horário local (17h48 em Brasília) e menos de 24 horas após o retorno à Terra, os quatro tripulantes da missão Artemis II foram recebidos com aplausos, e de pé, pela plateia — formada por familiares, políticos e executivos da indústria aeroespacial — reunida no Centro Espacial Jonhnson da Nasa (agência espacial dos EUA), em Houston (Texas). Vestidos com macacão azul e usando boné, o comandante Reid Wiseman; a especialista de missão Christina Koch; o astronauta canadense e especialista de missão Jeremy Hansen; e o piloto Victor Glover estavam emocionados. Ainda tentavam processar a façanha nos últimos 9 dias, 1 hora e 32 minutos, quando fizeram um sobrevoo na Lua. Foi a primeira viagem ao satélite natural da Terra desde 1972. Os quatro astronautas quebraram o recorde de maior distância percorrida no espaço: 406.773km.

"Victor, Christina e Jeremy, nós estamos ligados para todo o sempre. Ninguém aqui embaixo vai saber o que passamos. Foi a coisa mais especial de toda a minha vida", declarou Wiseman. "Antes do lançamento, parece que é o maior sonho do mundo. E quando você está lá fora, tudo o que você quer é voltar para sua família e seus amigos. Ser humano é algo especial, e estar no planeta Terra é algo especial", acrescentou o astronauta. Na sexta-feira, a cápsula Órion pousou no Oceano Pacífico, perto da costa de San Diego (Califórnia), depois de enfrentar temperaturas de quase 3.800 graus Celsius, a uma velocidade de 39.693km/h, durante a entrada na atmosfera.

Victor Glover disse não ter processado o que ele e os três colegas tinham acabado de fazer. "Quando isso começou, em 3 de abril, eu quis agradecer a Deus em público, e quero agradecer a Deus novamente. A gratidão de ver o que vimos, fazer o que fizemos e estar com quem eu estava, é grande demais para caber em um só corpo", reconheceu. Christina Koch precisou interromper sua fala por cerca de 10 segundos para segurar o choro. Foi abraçada pelos outros três tripulantes da sonda Orion. "Quando vimos a Terra, minúscula, (...) o que me arrebatou foi toda a escuridão em torno dela. A Terra é um bote salva-vidas pendurado inabalavelmente no Universo", descreveu, ao parar o discurso momentaneamente. "Tudo nessa jornada tem a me ensinar. Mas, há uma coisa que eu sei. Planeta Terra, vocês são uma tripulação", concluiu Cristina, de forma pausada, como se quisesse destacar cada palavra. 

Jeremy Hansen parecia emocionado com o discurso da colega. "Quando você vê um grupo que se ama e dá uma contribuição significativa, e extrai alegria disso, isso é algo especial a testemunhar", declarou. "Nós ouvimos muito falarem sobre a ciência e sobre as coisas que aprendemos. Mas, a experiência humana é extraordinária para nós", lembrou, ao ressaltar a "coragem" e a "bravura" da tripulação.

Ex-astronauta da Nasa, Clayton C. Anderson esteve em duas expedições à Estação Espacial Internacional — em 2007, permaneceu 152 dias a bordo. "A missão Artemis II foi um imenso sucesso para toda a humanidade! Os testes bem-sucedidos de todos os sistemas da espaçonave nos prepararam para a Artemis 3 e a Artemis 4 nos próximos anos. Provamos que temos conhecimento e tecnologia para retornar em segurança à Lua. Agora, estamos nos preparando para construir uma base lunar", afirmou ao Correio, por e-mail.

Segundo Anderson, a Lua é um "trampolim". "É um lugar próximo da Terra (três dias de viagem), onde podemos testar as tecnologias e construir a infraestrutura necessária para extrair água e gelo das crateras lunares. Todo esse conhecimento adquirido nos ajudará a planejar o envio seguro de humanos a Marte para atingir objetivos semelhantes", explicou. 

Fonte: https://www.correiobraziliense.com.br/

domingo, 12 de abril de 2026

Foco na História: as grandes civilizações africanas. História da África Portuguesa - Angola

Foco na História: as grandes civilizações africanas (Vatican News)

Localizada na costa ocidental da África, Angola conta com uma rica e diversificada história que remonta aos tempos antigos. Sua história é marcada por períodos de colonização, em que fez parte do Império Colonial Português, conflitos internos e lutas pela independência, seguidos por anos de instabilidade política e guerra civil.

Padre José Inácio de Medeiros, CSsR - Instituto Histórico Redentorista

Desde o texto da semana passada, onde fizemos uma introdução geral, começamos a estudar a África Portuguesa, formada pelos países marcados pela língua, por elementos culturais e religiosos advindos dessa metrópole europeia que, apesar de sua pequena dimensão conseguiu consolidar um vasto império colonial a partir dos séculos XV e XVI.

Como bem sabemos, o atual território africano foi retalhado numa série de colônias propriedade de várias nações europeias, e o país lusitano foi aquele que consolidou um dos maiores impérios.

O nome Angola deriva da palavra banto n’gola, título utilizado pelos reis do antigo Reino de Ndongo, no século XVI, localizado na atual região do país. Os portugueses adaptaram o título do monarca, como o "Angola Kiluange", para "Angola" ao se referirem às terras de Ndongo. Ngola era um termo banto que significa "força" ou "rei/poderoso" na língua quimbundo.

Da ocupação à colonização portuguesa

Localizada na costa ocidental da África, Angola conta com uma rica e diversificada história que remonta aos tempos antigos. Sua história é marcada por períodos de colonização, em que fez parte do Império Colonial Português, conflitos internos e lutas pela independência, seguidos por anos de instabilidade política e guerra civil.

Os primeiros habitantes conhecidos da região eram os San, grupo de caçadores-coletores que deixaram evidências de sua presença na forma de pinturas rupestres em várias partes do país. Esses grupos foram posteriormente deslocados pelos povos bantos, que chegaram à região por volta do século III a.C. formando diversos reinos ao longo da costa e no interior.

Durante a Idade Média europeia, o Reino do Congo se tornou uma importante potência na região, formando um dos grandes reinos africanos, estendendo-se seu domínio numa grande parte do que é hoje Angola, bem como em partes da atual  República Democrática do Congo e Gabão. O comércio de marfim e escravos era importante para a economia do reino e a religião cristã foi introduzida pelos missionários portugueses no final do século XV.

Em 1482, o navegador português Diogo Cão chegou à foz do rio Congo, marcando o início do contato português com os povos da região. Em 1575, os portugueses fundaram a cidade de Luanda, que se tornou a capital da colônia de Angola. Durante o período colonial, os portugueses estabeleceram plantações de café, algodão e sisal, bem como exploraram  minas de diamantes e cobre.

Durante o século XIX, Angola tristemente se tornou um importante centro de comércio de escravos, com milhares de pessoas sendo capturadas e levadas para trabalhar nas plantações das Américas. A abolição da escravatura em 1865, teve um impacto significativo na economia de Angola, levando à mudança para o comércio de matérias-primas.

Na década de 1950, surgiram os primeiros movimentos nacionalistas em Angola, com o objetivo de conquistar a independência em relação a Portugal. O Movimento Popular de Libertação de Angola (conhecido pela sigla MPLA) foi fundado em 1956, seguido pelo Exército de Libertação Nacional de Angola (ELNA) em 1961 e pela União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) em 1966.

A luta pela independência se intensificou durante a década de 1960, com os movimentos nacionalistas lutando contra as forças portuguesas. A guerra se estendeu até a década de 1970, quando a Revolução dos Cravos em Portugal levou à retirada das forças portuguesas de Angola. Em novembro de 1975, o MPLA, que contava com o apoio da União Soviética e Cuba declarou a independência de Angola.

A independência não trouxe a desejada paz para Angola. A luta pelo poder entre o MPLA e a UNITA provocou uma guerra civil que durou quase 30 anos. Ainda hoje existem milhões de minas terrestres plantadas em diversas regiões do pais e essa continuam fazendo suas vítimas.

Angola hoje

O português é a língua oficial de Angola e 60% dos moradores declararam ser sua língua materna, embora estimativas indiquem que 70% da população fale uma das línguas nativas como primeira ou segunda língua. Além do português, Angola abriga cerca de onze grupos linguísticos principais, que podem ser subdivididos em cerca de noventa dialetos.

Alguns dos mais importantes escritores em língua portuguesa da atualidade são angolanos. Sua literatura costuma representar com realismo a dor e o preconceito sofridos pelo povo do país. Entre os principais nomes da literatura angolana estão José Luandino Vieira, José Eduardo Agualusa e Pepetela.

O cenário de Angola hoje é marcada por um contexto socioeconómico desafiador, caracterizado por elevada pobreza, desigualdade e insegurança alimentar, afetando grande parte da população. Apesar de ser um país rico em recursos como petróleo e diamantes, os desafios incluem a necessidade de muitas melhorias na saúde, educação e infraestrutura, além do combate à corrupção. Apesar dos esforços de reconstrução, a infraestrutura ainda enfrenta dificuldades em todo o país.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/

Como tomar decisões na vida profissional?

Shutterstock I William Potter

Pierre D’Elbée - publicado em 10/04/26

Num mundo que busca controlar tudo, mas onde o futuro é cada vez mais incerto, o conhecimento bruto não oferece as chaves para uma boa decisão. Na incerteza, explica o consultor de empresas Pierre d’Elbée, um bom tomador de decisões compromete-se com todos os recursos de sua pessoa.

Para qual futuro da vida profissional estamos caminhando? Não é fácil responder a essa pergunta, tamanha foi a transformação da paisagem nos últimos anos. A irrupção da Inteligência Artificial (IA) desperta o medo da substituição de muitas competências a curto ou médio prazo. Se os efeitos econômicos dos conflitos globais já são visíveis, qual será sua duração e impacto real? O clima social, cada vez mais tenso, como irá evoluir? Como desenvolver um pensamento sólido diante do fluxo de informações que nos inunda diariamente?

A consequência desta incerteza crescente não é apenas prática, mas existencial. A IA parece questionar nossa contribuição ao mundo, agindo de forma mais rápida e melhor do que nós em atividades intelectuais e criativas antes reservadas aos seres humanos. Daí surge uma sensação de desestabilização profunda: que contribuição ainda podemos trazer ao nosso planeta? Estaremos condenados a nos tornar espectadores de um mundo que já não precisa de nossas habilidades? Eis-nos diante de uma incerteza global, persistente e difícil de analisar.

Renunciar ao conhecimento total

Diz-se que Leibniz foi o último "espírito universal" capaz de dominar todo o conhecimento de seu tempo. Depois dele, o sonho de um saber enciclopédico nunca mais esteve acessível... até a chegada da IA, que hoje coloca ao alcance das mãos um reservatório imenso de conhecimento em todos os registros.

Montaigne já defendia uma "cabeça bem feita" em vez de uma "cabeça bem cheia": integrar a sabedoria ao conhecimento, o sentido à erudição. Para ele, um julgamento iluminado prevalece sobre o conhecimento acumulado; isso pressupõe pensamento crítico e discernimento para separar o essencial do acessório. A última palavra do saber não seria, portanto, o conhecimento bruto, mas a precisão com a qual entendemos o mundo e agimos sobre ele.

Simplificar a vida profissional

Segundo Paul Valéry: "Tudo o que é simples é falso; mas tudo o que não o é, é inutilizável". É necessário, então, encontrar o equilíbrio certo entre a simplicidade que trai a realidade e a complexidade que paralisa a ação. Em um mundo incerto, o perigo não está em simplificar, mas em esquecer que simplificamos: devemos ter em mente que a realidade é muito mais complexa do que percebemos.

Associar a nuance à simplificação é dar prova de sabedoria. O "bom senso" não é uma simplificação ingênua de uma situação complexa, mas uma forma de discernimento encarnado.

Sentir

Em uma situação de incerteza, deve-se apelar a todos os recursos do seu íntimo para avançar apesar da imprecisão. Para aqueles que eram chamados a tomar decisões difíceis em tempo real, o General Colin Powell dava este conselho:

"Use a fórmula P = 40 a 70. P é a probabilidade de sucesso. Quando a porcentagem de informações obtidas atingir entre 40% e 70%, vá em frente com coragem!"

Se essa fórmula visa mobilizar energia e paixão, podemos aplicá-la também à intuição — ao nosso conhecimento difuso e às "pequenas percepções" que captam sinais fracos em situações complexas. Na incerteza, a decisão torna-se melhor quando associa o julgamento objetivo a um sentimento subjetivo. O compromisso que alguém assume ao sustentar uma decisão aumenta as chances de sucesso, mesmo que ela não seja "objetivamente" a melhor opção inicial.

Aristóteles nos dizia...

...que a prudência diz respeito ao que "pode ser de outra forma", ou seja, às situações mutáveis, pouco previsíveis e novas. Neste contexto, o phronimos — o homem prudente — é capaz de deliberar e decidir sem a garantia de um modelo pronto. Na ausência de certeza, ele busca a precisão.

O homem prudente hoje é aquele que visa um equilíbrio praticável, discernindo o que importa aqui e agora, ajustando sua ação à realidade em tempo real. Ele não substitui seu julgamento por um algoritmo. Sua habilidade decisiva não é buscar um saber exaustivo, mas sim a qualidade do julgar. Num mundo incerto, esta é uma virtude a ser redescoberta.

Fonte: https://pt.aleteia.org/

Papa: a fé deve ser alimentada com a Eucaristia todos os domingos, em comunidade

Regina Caeli, 12/04/2026 - Papa Leão XIV (Vatican News)

A exemplo de Tomé, que encontrou Jesus Ressuscitado oito dias após a Páscoa com a comunidade reunida, Leão XIV disse que "nem sempre é fácil acreditar. Não foi fácil para Tomé e também não o é para nós". Por isso a Igreja convida a fazer como os primeiros discípulos, reunindo-se para a Eucaristia dominical, "indispensável para a vida cristã": "é através da Eucaristia que também as nossas mãos se tornam 'mãos do Ressuscitado'", tanto nos sinais dos sacrifícios, como naqueles de gesto de caridade.

Andressa Collet - Vatican News

Em véspera de viagem apostólica à África e após a Vigília de Oração pela Paz na Basílica Vaticana, o Papa Leão XIV recordou aos 18 mil fiéis presentes na Praça São Pedro para a oração mariana do Regina Caeli deste domingo (12/04), o segundo da Páscoa, dedicado à Divina Misericórdia, que "a fé precisa ser alimentada e sustentada". A reflexão veio através do Evangelho, quando João narra a aparição de Jesus ressuscitado ao apóstolo Tomé, oito dias após a Páscoa, enquanto a comunidade está reunida. O encontro de Tomé com Cristo, que "o convida a olhar para os sinais dos pregos, a colocar a mão na ferida", também é nosso quando temos dificuldades em acreditar: "onde encontrá-lo? Como reconhecê-lo? Como acreditar?". A resposta é: diante de todos, "com a comunidade reunida, e reconhece-o pelos sinais do seu sacrifício":

"É claro que nem sempre é fácil acreditar. Não foi fácil para Tomé e também não o é para nós. A fé precisa ser alimentada e sustentada. Por isso, no 'oitavo dia', isto é, todos os domingos, a Igreja convida-nos a fazer como os primeiros discípulos: a nos reunirmos e a celebrarmos juntos a Eucaristia. Nela, ouvimos as palavras de Jesus, rezamos, professamos a nossa fé, partilhamos os dons de Deus na caridade, oferecemos a nossa vida em união com o Sacrifício de Cristo, alimentamo-nos do seu Corpo e do seu Sangue, para depois sermos, por nossa vez, testemunhas da sua Ressurreição, como indica o termo 'Missa', isto é, 'envio', 'missão'."

Leia a íntegra da reflexão do Papa Leão XIV

"A Eucaristia dominical é indispensável para a vida cristã", reforça o Papa que, nesta segunda-feira (13/04), parte para a viagem apostólica à África, onde alguns mártires da Igreja local dos primeiros séculos "nos deixaram um belíssimo testemunho": diante da oferta de terem a vida poupada, contou o Pontífice, "desde que renunciassem à celebração da Eucaristia, responderam que não podiam viver sem celebrar o Dia do Senhor. É ali que a nossa fé se alimenta e cresce":

“É através da Eucaristia que também as nossas mãos se tornam 'mãos do Ressuscitado' – testemunhas da sua presença, da sua misericórdia, da sua paz – nos sinais do trabalho, dos sacrifícios, da doença, do passar dos anos, que frequentemente nelas ficam gravados, tal como na ternura de uma carícia, de um aperto de mão, de um gesto de caridade. Queridos irmãos e irmãs, num mundo que tanto necessita de paz, isto compromete-nos, mais do que nunca, a ser assíduos e fiéis ao nosso encontro eucarístico com o Ressuscitado, para daí partirmos como testemunhas da caridade e portadores da reconciliação. Que nos ajude a fazê-lo a Virgem Maria, bem-aventurada porque foi a primeira que acreditou sem ver.”

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/

sábado, 11 de abril de 2026

LEITURAS: "Mulher, não chore"

As mulheres veem, escutam e anunciam (Igreja Nossa Senhora da Glória)

LEITURAS

retirado do nº 05 – 2002, Revista 30Duas.

"Mulher, não chore"

Anotações do discurso de encerramento de Luigi Giussani nos Exercícios Espirituais da Fraternidade de Comunhão e Libertação. Rimini, 5 de maio de 2002.

Por Luigi Giussani

Naquela noite, Jesus foi interrompido, parado em sua jornada para a aldeia para onde estava destinado, para onde fora destinado, por causa do choro lancinante de uma mulher, um grito de dor que atingiu o coração de todos os presentes, mas que atingiu, que atingiu, antes de tudo, o coração de Cristo.

"Mulher, não chore!" Nunca visto, nunca ouvido antes.

"Mulher, não chore!" Que apoio poderia ter aquela mulher que ouvia as palavras de Jesus?

"Mulher, não chore!" quando você volta para casa, quando anda de bonde, quando embarca no trem, quando vê a fila de carros nas ruas, quando pensa em toda a confusão de coisas que afetam a vida de milhões e milhões de pessoas, centenas de milhões de pessoas... Quão decisivo é o olhar que uma criança ou um grande "grande" teria lançado àquele homem, que liderava um pequeno grupo de amigos e nunca tinha visto aquela mulher, mas parou quando o som, a reverberação de seu choro o alcançou! "Mulher, não chore!" Como se ninguém a conhecesse, como se ninguém a reconhecesse com mais intensidade, mais plenamente, mais decisivamente do que Ele!

"Mulher, não chore!" Quando vemos — como eu disse antes — todo o movimento do mundo, em cujo rio, em cujas correntes todos os homens se fazem presentes à vida, fazem a vida presente a si mesmos, o desconhecido do fim nada mais é do que o desconhecido de como chegamos a essa novidade, essa novidade que nos faz encontrar um homem, nos faz deparar com um homem que nunca vimos antes, que, diante da dor da mulher que vê pela primeira vez, diz a ela: "Mulher, não chore!" "Mulher, não chore!"

"Mulher, não chore!" Este é o coração com o qual nos colocamos diante do olhar e diante da tristeza, diante da dor de todas as pessoas com quem entramos em contato, na estrada ou na jornada, em nossas jornadas.

"Mulher, não chore!" Como é inimaginável que Deus — "Deus", Aquele que cria o mundo inteiro neste instante — vendo e ouvindo o homem, possa dizer: "Homem, não chore!", "Você, não chore!", "Não chore, pois não é pela morte, mas pela vida que eu criei para você! Eu o trouxe ao mundo e o coloquei em uma grande companhia de pessoas!"

Homem, mulher, menino, menina, você, todos vocês, não chorem! Não chorem! Há um olhar e um coração que penetram até a medula dos seus ossos e amam vocês até o seu destino, um olhar e um coração que ninguém pode enganar, ninguém pode tornar incapaz de dizer o que pensa e o que sente, ninguém pode tornar impotente!

"Gloria Dei vivens homo." A glória de Deus, a grandeza Daquele que faz as estrelas do céu, que derrama no mar gota a gota todo o azul que o define, é o homem que vive.

Nada pode suspender essa onda imediata de amor, apego, estima e esperança. Porque se tornou esperança para todos que O viram, que ouviram: "Mulher, não chore!", que ouviram Jesus dizer: "Mulher, não chore!".

Nada pode deter a certeza de um destino misterioso e bom!

Permanecemos unidos, dizendo: "Você, eu nunca te vi, não sei quem você é: não chore!" Porque chorar é o seu destino, parece ser o seu destino inevitável: "Homem, não chore!"

"Gloria Dei vivens homo": a glória de Deus — aquilo pelo qual Ele sustenta o mundo, o universo — é o homem vivo, todo homem vivo: o homem vivo, a mulher que chora, a mulher que sorri, a criança, a mulher que morre como mãe.

"Gloria Dei vivens homo." Queremos isso e nada mais: que a glória de Deus seja revelada ao mundo inteiro e toque todas as esferas da terra: as folhas, todas as folhas das flores e todos os corações dos homens.

Nunca nos encontramos, mas é isto que vemos um no outro, o que sentimos um pelo outro.
Tchau!

Fonte: https://www.30giorni.it/articoli_id_269_l1.htm

Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF