São Bráulio nasceu na Hispânia (Espanha), por volta de
585-590, não se sabe ao certo se em Gerona, Sevilha, Toledo ou
Saragoça. Seu pai Gregório e seu irmão mais velho, João, foram bispos; outro
irmão, Frumiano, era religioso (na sua mesma abadia), sua irmã Pompônia
abadessa, e somente sua irmã Basila foi casada, e depois viúva. Com 20
anos, entrou para a abadia de Santa Engrácia, onde seu irmão João o ajudou nos
estudos elementares, de cultura clássica, religião e vida ascética.
Dez anos depois, muda-se para Sevilha, o maior centro
cultural da Espanha na época, para aprofundar-se nos estudos, e ali tornou-se
grande amigo e aluno do maior sábio do seu tempo, Santo Isidoro de Sevilha. Este
o chamava de "amadíssimo senhor meu e caríssimo filho". Bráulio muito
estimulou Isidoro para que escrevesse sua obra enciclopédica, e acabou por
receber dele o encargo de revisá-la e ampliá-la, em 637. Na verdade, São
Bráulio foi o melhor escritor espanhol de seu tempo, depois de Santo
Isidoro, embora tenha trabalhado mais como incentivador da cultura do que como
escritor. Assim escreveu por exemplo a Vita (vida) de Santo Emiliano, mas
sobretudo preocupou-se com a formação e enriquecimento de bibliotecas (muito da
sua correspondência com Isidoro trata de manuscritos e aquisições para elas).
Em 625 volta para Saragoça, onde o irmão João era arcediago
(dignitário da Igreja que recebe do bispo certos poderes junto aos párocos,
curas, abades etc. no âmbito diocesano, para a administração de afazeres
eclesiásticos) e depois bispo, e o sucedeu em ambos os cargos, assumindo a
diocese em 631. Este foi um período difícil, quando grassaram pestes,
flagelos e carestias, exigindo muito do seu zelo.
São Bráulio participou de três concílios em Toledo, do
quarto ao sexto (respectivamente em 633, 636 e 638). Neste último, foi
incumbido pelos demais participantes (que incluíam alguns
Metropolitas, isto é, arcebispos, portanto de maior dignidade
eclesiástica) de comunicar-se com o Papa Honório I para esclarecer a
ele a posição dos bispos, que criticara por negligência nas suas funções.
São Bráulio também aconselhou e foi confidente de vários
reis visigodos. Recesvinto, filho de um deles (Quindasvinto),
recomendou que Bráulio fosse coroado como "rei associado". Por tudo
isso, Bráulio foi importantíssimo na consolidação da Igreja na região
espanhola.
Praticamente cego e esgotado em 650, São Bráulio
faleceu em 651, sendo considerado padroeiro das missões do Evangelho.
Colaboração: José Duarte de Barros Filho
Reflexão:
Além das grandes obras de caridade no bispado, diretamente
voltadas para este serviço, como o auxílio aos necessitados dos flagelos, temas
de concílios e diplomacia eclesiástica, São Bráulio destacou-se ainda mais pela
sua contribuição direta e indireta na cultura, com seus próprios escritos e
incentivo a outros autores – notadamente ninguém menos que Santo Isidoro – e
impulso para a criação e aumento das bibliotecas. Naturalmente, visava que se
enriquecessem verdadeiramente, com apenas volumes de valor; a literatura pagã,
esta considerava “vão palavreado, frivolidade que satisfaz a inquietação
humana, fumo impalpável e vento de ostentação”. Por contraste, ao pedir uma
cópia de “Etimologias” de Santo Isidoro, assim se expressa ao autor e amigo:
“Pensa que não tens o direito a conservar escondidos os talentos, nem a fugir à
distribuição dos alimentos que te foram confiados. Abre a mão, reparte os teus
bens entre os necessitados, para que estes não pereçam de fome”. Vê-se aqui
quão claramente São Bráulio entendia o valor do alimento espiritual; e
realmente, o alimento mais necessário ao Homem, sem desfazer da sua necessidade
física, é o pão Eucarístico. Uniu portanto perfeitamente a correta valorização
da cultura sem confundi-la com a mera vaidade do saber, dando o exemplo de que
a verdadeira sabedoria não é simples conhecimento, mas Caridade. Cego para as
coisas mundanas, esgotou-se na erudição da alma com suas boas obras, das quais
ensinar os ignorantes é uma das mais importantes.
Oração:
Deus de infinita sabedoria, que desejais que não somente
cresça a nossa Fé, mas também a nossa Razão, a qual também nos destes para
embasar corretamente o que cremos, concedei-nos por intercessão de São Bráulio
saber valorizar a cultura, tanto pessoal quanto como nação, e mais ainda como
Igreja; pois os indivíduos, países e fiéis mal formados são a presa fácil do
demônio. E deste modo, alimentando-nos da Palavra e provendo este santo
alimento aos irmãos, façamos como ele a nossa parte na consolidação da Igreja
nesse tempo, de modo a podermos ser futuramente associados ao Rei dos Céus que
sois Vós mesmo. Por Nosso Senhor Jesus Cristo e Nossa Senhora. Amém.
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