Santa Inês da Bohemia | A12 |
Inês (Agnes, ou Aneska em Tcheco), filha de Premysl
Otokar I, rei da Bohemia (atual República Tcheca), e da rainha Constância da
Hungria, nasceu em Praga, no ano de 1205. Mas na sua maior nobreza,
espiritual, tinha como ascendentes do lado paterno Santa Ludmila e São
Venceslau; e por parte de mãe Santa Edwiges da Silésia era sua
tia-avó, Santa Isabel da Turíngia sua prima, e Santa Margarida da Hungria sua
sobrinha.
Como era o costume da época, ainda criança, foi prometida em casamento ao príncipe polonês Boleslav. A
fim de ser educada para este matrimônio, foi levada com sua irmã mais velha,
Ana, para a cidade de Trzebnica na Polônia, ao mosteiro cisterciense de sua
tia-avó Santa Edwiges. Com ela, aprendeu os fundamentos
do Catolicismo, e descobriu o desejo profundo de consagrar a Deus sua vida e
virgindade. Em 1217, com a morte do seu noivo, volta para a Bohemia,
em Doksani, no mosteiro premonstratense fundado por seu avô São Venceslau.
Aprendeu então a ler e a escrever, e desenvolveu acentuado amor
pela vida de oração, de modo que preferia rezar do que brincar como as meninas
da sua idade.
Novamente foi prometida em casamento, desta vez ao
rei Henrique VII da Sicília e da Alemanha, e de novo, em 1219, mudou-se para
completar a sua formação de rainha, agora na corte de Viena, a familiarizar-se
com a língua e os costumes germânicos. Inês sofria imensamente
com a perspectiva de um casamento que contrariava a sua vocação
religiosa. Mas confiando em Deus e implorando-Lhe que a
permitisse entrar para o convento, permaneceu cinco anos na corte, que a
desagradava, praticando os deveres cristãos – mortificava-se frequentemente
com jejuns, distribuía muitas esmolas, e consagrou-se totalmente a Maria
Santíssima, desejando preservar a virgindade.
E aconteceu que o duque Leopoldo, da Áustria, que a
recebera em Viena, pretendia que sua própria filha desposasse Henrique. Deste
modo, o noivado foi cancelado, e ela pôde voltar para Praga em 1225. Ali,
Inês dedicou-se mais intensamente às orações e obras de caridade. Neste mesmo
ano, os Frades Menores franciscanos, acolhidos na cidade pela família real,
mostravam a nova proposta de Francisco de Assis e Santa Clara para a vida
consagrada que surgia com eles na Itália.
Mas, ainda uma vez, Inês é pedida em
casamento, pelo rei Henrique III da Inglaterra e por Frederico II, imperador do
Sacro-Império Romano-Germânico. Apesar das objeções da princesa, seu
irmão e agora rei Venceslau I (Otokar I havia morrido neste mesmo ano de 1230)
a prometeu ao imperador. Inês, então ainda mais certa de sua vocação e
fortificada por sofrimentos, dispôs-se a lutar para unir-se totalmente a
Cristo. Aumentou as suas orações e penitências; acordando
frequentemente antes do nascer do sol, saía com outras donzelas devotas a
percorrer algumas igrejas da cidade – descalça e mal agasalhada; na volta ao
palácio, lavava os pés machucados, vestia-se e calçava-se com os trajes
principescos, tendo por baixo uma camisa rude feita de pelo e um cilício de
aço, para começar suas atividades diárias que incluíam as obrigações da corte e
as suas pessoais e características visitas aos doentes.
Não demonstrava a ninguém as mortificações que
fazia, desejando assim louvar a Deus e Dele obter a vida religiosa que
almejava. Assim preparada, escreveu ao Papa Gregório IX implorando-lhe
que impedisse o matrimônio, explicando o seu desejo de viver num convento e que
nunca havia consentido em se casar. Ora, o Papa havia acabado de
consolidar a paz com o imperador, e apoiou o pedido de Inês, enviando a ela uma
carta. Venceslau temia o imperador, mas preferiu ceder à missiva papal, e
igualmente não obrigar a irmã a contrariar a vontade de Deus. A reação
de Federico foi surpreendente e digna: ao saber que não se tratava de uma
manobra política, mas de um santo desejo da princesa, anulou o compromisso,
dizendo: “Se ela tivesse me deixado por um homem mortal, eu faria
sentir o peso da minha vingança; mas não posso me sentir ofendido por ela ter
preferido o Rei do Céu”. Este seu procedimento, certamente iluminado
pelo Espírito Santo, e a decisão de Inês em recusar os bens terrenos pela
glória de Deus, despertou enorme admiração nas cortes europeias.
Agora, definitivamente livre das perspectivas
mundanas, Inês dedicou-se a colocar em prática a imitação da vida de São
Francisco e Santa Clara. Desfazendo-se das joias,
vestidos suntuosos e outros adornos caros, investiu seu valor no auxílio dos
pobres da região. Também com os próprios recursos, e ajuda de
Venceslau, construiu o Hospital de São Francisco, que confiou à Fraternidade
dos Hospitaleiros, a qual deu origem à ordem dos
Crucíferos da Estrela Vermelha (Cônegos Regulares da Santa Cruz
da Estrela Vermelha), aprovada por Gregório IX. Em Praga, construiu ainda um
convento e uma Igreja para os Frades Menores franciscanos, e o Mosteiro das
Clarissas de São Salvador de Praga. O povo da Bohemia quis contribuir para as
despesas destas obras, mas o rei e a princesa, sabendo da sua condição humilde,
recusaram; porém os trabalhadores em muitos dias terminavam o expediente e
saíam escondidos, para não receber o salário e poderem desta forma auxiliar nos
custos.
Em 1234, Inês solicitou que um grupo de
irmãs clarissas viessem para o mosteiro que ela havia fundado; cinco
delas chegaram de Trento, com a permissão do Papa. Estas cinco e mais sete
donzelas nobres da Boehmia, incluindo a própria Inês, iniciaram a vida
monástica das clarissas na cidade. Por obediência a Gregório IX, Inês teve que
aceitar o cargo de abadessa, que em humildade não desejava. O exemplo da sua vocação foi seguido por muitas mulheres, o que
multiplicou o número destes conventos na Europa.
Neste mesmo ano, Inês recebe a primeira de muitas
cartas de Santa Clara de Assis (da correspondência entre elas, conservam-se só
quatro cartas). Clara elogiava sua fama de virtude e lhe dava
os parabéns por ter preferido “um esposo de linhagem mais nobre” e ter
renunciado às glórias do mundo. As duas nunca se encontraram
pessoalmente, mas desenvolveram uma imensa amizade e afinidade; Inês tinha Clara por mãe espiritual, e Clara a chamou de
“metade da minha alma e escrínio singular da minha afeição”.
Em 1238 o Papa, a contragosto, concede o privilégio
da pobreza solicitado por Inês para o seu mosteiro, isto é, a renúncia dos bens, de modo que a partir
de então este seria mantido apenas por esmolas. Inês viveu a humildade,
caridade e pobreza, e na sua dedicação fundou um segundo hospital, dirigido
pelas clarissas e dedicado aos pobres. Ali ela mesma cuidava deles,
incluindo os leprosos, de quem remendava as roupas. Com intensa
vida eucarística e de oração, nestes momentos podia entrar em êxtase; recebeu
os dons da cura e da profecia. Aconselhava com sabedoria,
incentivando o reino à fidelidade à Igreja, e buscava evitar conflitos.
Deus permitiu que Inês sentisse a perda de todos os
seus parentes, e também de Santa Clara (falecida em 1253). Mas teve a felicidade de ver a canonização de sua tia-avó, Santa
Edwiges, em 1267. Outro sofrimento foi a rebelião de Otokar,
filho do seu irmão o rei Venceslau I, em 1248; ela conseguiu a reconciliação
entre os dois. Com a morte de Venceslau em 1253, o trono passa ao herdeiro,
Premysl Otokar II: a trágica morte deste sobrinho, na batalha da Morávia em
1278, foi vista numa visão por Inês.
O falecimento do rei foi seguido pela invasão da
Bohemia por exércitos estrangeiros, abrindo um período de violência, fome e
peste, com muitas mortes. As clarissas atendiam a inúmeros moribundos. Neste
cenário caótico, faleceu Inês de causas naturais em 6 de março
de 1282, já com fama de santidade. Seu túmulo, na capela do seu
mosteiro, logo se tornou local de peregrinação.
Em 12 de novembro de 1989, Inês é canonizada por São João Paulo II; no dia 17 deste mês, termina a “Revolução de Veludo”, que libertou a Tchecoslováquia da opressão comunista – fato que muitos atribuíram à intercessão de Santa Inês, que é a padroeira de Praga.
Reflexão:
A vida de Santa Inês nos ensina o valor e a
importância de lutarmos pela nossa vocação, pois este é o caminho que Deus
prepara para a felicidade, santificação e salvação de cada um. Embora
obediente, Santa Inês não deixou de usar de todos os recursos – lícitos – de
que dispunha, para garantir a sua vida monástica. Em primeiro lugar, sempre, na
listagem destes recursos, estão a oração e a penitência, aliadas à confiança em
Deus e Nossa Senhora. Até que ponto aumentamos (ou ao menos iniciamos) nossa
dedicação à oração, e às penitências, para obtermos objetivos verdadeiramente
nobres? E, se o fazemos, fazemos com reta intenção, para agradar a Deus? Ou
para tentar “forçá-Lo” a algo que desejamos? Por exemplo, podemos pedir a cura
de uma doença, mas confiamos que o Senhor, se não a concede, está agindo para o
nosso bem, ou nos revoltamos? Por vezes, uma doença é o fator que levará alguém
a pensar seriamente na sua mortalidade, e assim buscar a comunhão com Deus; enquanto
que o desejo de saúde não estava voltado para a realização de boas obras, mas
para poder aproveitar melhor as tentações de uma vida mundana. Deus sabe o que
é melhor para a nossa salvação, e a salvação é exatamente o motivo pelo qual
vivemos nesta Terra. Mas Santa Inês tinha intenções honestas. E sua
persistência influenciou beneficamente os demais: seu irmão, o rei Venceslau,
por respeito à vocação da irmã e mesmo temendo o imperador Frederico II, foi
capaz de priorizar a vontade de Deus à dos homens; e por isso a Providência
pôde dignificar Frederico, que igualmente teve a humildade de aceitar a vontade
divina. A nobreza claramente se manifesta na alma, acima de qualquer outro
aspecto. Santificante foi a escolha livre dos trabalhadores de Praga, que para
contribuir com uma obra de caridade “desobedeceram” aos reis da Terra para,
cedendo seus salários, contribuírem para o hospital dedicado ao Rei do Céu.
Isto resume a própria natureza da união que Santa Inês e Santa Clara possuíam,
na espiritualidade elevada dos membros da família de Deus: filhos do Senhor, e
irmãos Nele: também nós o somos. O que temos, muito ou pouco, devemos por
consequência colocar concretamente à disposição do Primeiro Mandamento: amar a
Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.
Oração:
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