Existem formas de perseguição ou
discriminação com base religiosa em mais de 60 países ao redor do mundo, e na maioria
deles, a situação em 2022 piorou em relação ao ano anterior. Estima-se que um
total de 325 milhões de cristãos sejam perseguidos. É o que destaca, entre
outros, o XVI relatório da Ajuda à Igreja que Sofre, apresentado em Roma na
quinta-feira.
Marco
Guerra – Cidade do Vaticano
E se
fôssemos impedidos até mesmo de elevar o olhar e rezar ao nosso Deus? Uma
resposta detalhada a esta pergunta vem do 16° Relatório sobre a liberdade
religiosa no mundo, elaborado pela Fundação de direito pontifício Ajuda à Igreja
que Sofre (ACS) e apresentado na quinta 22 de junho, na Embaixada da Itália
junto à Santa Sé.
Fundos italianos para cristãos perseguidos
O Relatório
de 2023 demonstra mais uma vez que não é possível prescindir da liberdade
religiosa sem afetar os fundamentos da estrutura social e antropológica de
qualquer sociedade humana, sem romper a harmonia e a convivência entre os
indivíduos e os povos, foi destacado por todos que participaram da
apresentação. Após a saudação de Francesco Di Nitto, embaixador da Itália junto
à Santa Sé, a apresentação do relatório foi aberta por uma mensagem em vídeo da
primeira-ministra, Giorgia Meloni, que anunciou a destinação de uma primeira
parcela de 10 milhões de euros de fundos para as comunidades cristãs
perseguidas ao redor do mundo. Seguiu-se a leitura de uma mensagem do chanceler
italiano, Antonio Tajani, e discursos na presença do subsecretário do
primeiro-ministro, Alfredo Mantovano, do presidente da ACS Internazionale,
cardeal Mauro Piacenza, e do presidente da ACS Italia , Sandra Alfaiates.
Perseguições cada vez mais graves
O conteúdo
do Relatório foi descrito por Alessandro Monteduro, diretor da ACS Italia, que
imediatamente destacou que a situação das perseguições não dá sinais de
melhorar. Com efeito, em 61 dos 196 países do mundo existem formas de
perseguição ou discriminação de natureza religiosa. Na prática, o direito
humano fundamental à liberdade de religião é violado em um país em cada três
(31%). No total, cerca de 4,9 bilhões de pessoas, ou 62% da população mundial,
vivem em países onde a liberdade religiosa é severamente restringida. De
maneria geral a perseguição por ódio à fé piorou e a impunidade dos
perseguidores está mais difundida.
O estudo
abrange o período de janeiro de 2021 a dezembro de 2022 e representa o único
relatório não governamental que analisa o respeito e as violações do direito à
liberdade religiosa consagrado no artigo 18 da Declaração Universal dos
Direitos Humanos. A ser destacado ainda que em 49 países onde se registam
violações, são os governos que perseguem os seus cidadãos por motivos
religiosos, com pouca reação da comunidade internacional.
Entre as
fileiras dos principais perseguidores, além de governos autoritários,
certamente aparecem o extremismo islâmico e o nacionalismo étnico-religioso. No
Relatório, 28 Estados estão marcados em vermelho, eles denotam os lugares mais
perigosos do mundo para praticar livremente a religião. Outros 33 Estados estão
em laranja, indicando altos níveis de discriminação.
Na África e da Ásia as áreas com maior sofrimento
A África
continua a ser o continente mais violento, com um aumento dos ataques
jihadistas que torna a situação da liberdade religiosa ainda mais alarmante.
Quase metade dos "países quentes" do planisfério do Relatório, ou
seja, 13 dos 28, estão na África. A concentração da atividade jihadista é
particularmente evidente na região do Sahel em torno do Lago Chade, em
Moçambique e na Somália, e está se espalhando para os países vizinhos.
China e
Coreia do Norte continuam sendo os dois países asiáticos com as piores
violações de direitos humanos, incluindo a liberdade religiosa. Lá, o Estado
exerce um controle totalitário por meio de vigilância e medidas extremas de
repressão contra a população.
O Relatório
da ACS também presta muita atenção à Índia, onde os níveis de perseguição estão
aumentando, por meio da imposição de um perigoso nacionalismo étnico-religioso,
particularmente prejudicial às minorias religiosas. Leis anticonversão foram
aprovadas ou estão sendo consideradas em 12 dos 28 Estados da Índia; esses
regulamentos prevêem sentenças de até dez anos de prisão e incluem benefícios
financeiros para aqueles que se converterem ou retornarem à religião
majoritária.
Os
incidentes de conversões religiosas forçadas, sequestros e violência sexual
(incluindo escravidão sexual) não diminuíram no período de dois anos em
análise, pelo contrário, continuam amplamente ignorados pelas forças policiais
e autoridades judiciais locais, como é o caso do Paquistão, onde jovens
cristãos e hindus são freqüentemente sequestradas e submetidas a casamentos
forçados.
Piacenza: perseguição com luvas brancas
Por fim, o
Relatório da ACS denuncia os crescentes limites à liberdade de pensamento,
consciência e religião nos países que pertencem à Organização para a Segurança
e Cooperação na Europa (OSCE). Nos últimos dois anos, em relação àqueles que
querem exprimir e viver abertamente a sua fé, o Ocidente passou de um clima de
"perseguição educada" para uma generalizada "cultura da anulação"
e do "discurso forçado", caracterizado por fortes pressões sociais
para induzir o cumprimento das correntes ideológicas mais em voga.
Sobre este
último ponto, o cardeal Piacenza citou a expressão “perseguição com luva de
pelica” usada pelo Papa Francisco. O cardeal recordou então que o próprio Jesus
Cristo viveu a experiência da perseguição e do martírio. "Em mais de vinte
séculos de história - observou o presidente da ACS -, nunca houve um tempo em
que os cristãos, com maior ou menor virulência, não fossem perseguidos". O
cardeal destacou então que "a liberdade religiosa é a mãe de todas as
liberdades, pois a ela estão ligadas: liberdade de pensamento e palavra,
liberdade de expressão e agregação, liberdade de consciência e de culto".
Monsenhor Nare: os jihadistas afetam a coexistência
A
apresentação do relatório foi concluída com o testemunho de Tabassum Yousaf,
advogado na Supremo Tribunal de Sindh, Paquistão, que defende legalmente os
cristãos perseguidos, e de monsenhor Théophile Nare, bispo de Kaya, Burkina
Faso.
O prelado africano contou como a convivência pacífica foi uma realidade generalizada em seu país até 2015, ano em que se intensificou a atividade de grupos extremistas islâmicos que recrutam jovens milicianos. “Atos de terrorismo islâmico estão na ordem do dia em quase toda a nação”, afirmou o bispo, referindo-se também aos ataques à sua diocese que causaram vítimas entre sacerdotes e leigos. Monsenhor Nare também se referiu aos esforços dos líderes religiosos e políticos para manter boas relações entre os grupos religiosos, mas há um forte temor de que a violência jihadista possa levar a divisões.
Fonte: https://www.vaticannews.va/pt
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