Celibato eclesiástico: História e fundamentos teológicos
CARD. Alfons M. Stickler
6. Motivos da nova disciplina adotada: a mudança dos textos:
Os Padres do Concílio II Trullano não podiam encontrar nos seus
documentos motivos para a distinção entre as duas posições. Provavelmente não
queriam fazer referência ao Antigo Testamento porque, como já vimos, nos
argumentos ocidentais e, sobretudo nas disposições dos Romanos Pontífices a
favor da completa continência se rejeitava explicitamente e com razoes
convincentes este paralelismo, como inadequado em relação ao sacerdócio do Novo
Testamento. Mas tinham menos motivos ainda para apelar à legislação imperial,
que havia antecipado às decisões eclesiásticas ante uma situação possivelmente
já generalizada.
Posto que em Constantinopla tivesse consciência da falsidade do relato
de Pafnucio, não restava mais possibilidade para recorrer a testemunhos da
antiguidade cristã, que não procedesse da Igreja de Constantinopla, mas de uma
Igreja vizinha à deles, cujos cânones disciplinares tinham sido já incluídos no
próprio Código geral. Assim havia sucedido com os cânones do Código africano
que tratavam expressamente da continência clerical e também faziam referência
aos Apóstolos e à tradição antiga da Igreja.
Uma vez que tais cânones afirmavam a mesma disciplina, isto é, da
completa continência, para bispos, sacerdotes e diáconos, devia ser modificado
o texto autêntico dos cânones africanos. Não era algo perigoso, pois no Oriente
realmente muito poucos podiam verificar o latim genuíno do texto
original.
Deste modo as palavra do cânon 3 de Cartago: “gradus isti tres
(…) episcopos, presbyteros et diaconos (…) continentes in omnibus”, foram
substituídos no cânon 13 do Concílio Trullano por estas outras: “subdiaconi
(…) diaconi et presbyteri secundum easdem rationes a consortibus se
abstineant”, sendo que as palavras “easdem rationes”, opostas
às palavras do texto original de Cartago, representavam as mudanças
introduzidas pelos Padres trullanos.
Mas em todos estes textos, documentalmente manipulados, se conserva, ou
melhor, se busca a referência aos Apóstolos e à Igreja antiga para dar ao
celibato bizantino e oriental, através destes testemunhos autorizados, o mesmo
fundamento que tinha a tradição ocidental, explicitamente indicado por ela em
Cartago e noutros lugares.
Que podemos dizer diante deste procedimento trullano? Os Padres
orientais se sentiam, não há dúvidas, autorizados para decretar
disposições particulares para a Igreja bizantina, posto que desde muito tempo
antes haviam insistido em sua autonomia jurídica no âmbito da administração e
da disciplina. Somente se sentiam obrigados pelas decisões doutrinais da Igreja
universal, estabelecidas em Concílios Ecumênicos nos quais também eles tinham
participado. Pode-se, desde já, reconhecer naqueles Padres – que estabeleciam
as normas de validade geral na sua Igreja – o direito de levar em conta só a
situação de fato na questão do celibato dos ministros sagrados, para a que viam
possibilidade de reforma frutuosa. Que isto fosse possível em um campo no que,
como o caso do celibato, está implicada a Igreja universal é outra questão. Mas
o que sem dúvida podemos negar é o direito a fazê-lo com este método: ou seja,
mediante uma manipulação dos textos que transforma a verdade na sua
contrária.
Para a Igreja Católica ocidental esta atitude dos Padres trullanos pode
ser considerada com uma prova a mais, e não sem importância, a favor da própria
tradição celibatária, que se considera apostólica e se fundamenta realmente
sobre uma consciência comum à Igreja universal antiga; por isso a tradição
celibatária ocidental deve ser considerada verdadeira e justa.
Devemos ainda nos perguntar o que diz a história sobre essa mudança
dirigida a obter uma base de apoio para as novas e até agora definitivas
obrigações do celibato na Igreja oriental. Os comentários dos canonistas da
Igreja bizantina a essa leitura dos cânones africanos permitem compreender que
conheciam o texto original autêntico, e que desde o século XVI em adiante –
como, por exemplo o comentário de Mateo Blastares – recolhiam dúvidas sobre a
exatidão das referências dos Padres do Concílio Trullano II aos textos
africanos. Os intérpretes modernos das disposições trullanas sobre o celibato
admitem a inexatidão das referências, mas ao mesmo tempo afirmam que o Concílio
tinha autoridade para mudar qualquer lei disciplinar para a Igreja bizantina, e
para adaptá-la às condições dos tempos. Fazendo uso desta autoridade podiam
também mudar o sentido original dos textos para fazê-los concordar com o
parecer e a vontade do próprio Concílio. Mas com toda certeza não era
objetivamente lícito alterar o original atribuindo a esse uma autenticidade
falsa.
A historiografia do Ocidente reconheceu há muito tempo e se manifestou
também por escrito desde o século XVI a manipulação feita pelo Concílio
Trullano II, sobre os textos africanos referidos à continência dos ministros
sagrados. Cito, por exemplo, a Barônio e, sobretudo, aos editores das diversas
coleções de textos conciliares, entre os quais se destaca J. D. Mansi.
Falta-nos ainda fazer uma referência às marcas da disciplina genuína
disciplina celibatária antiga que permaneceu até nossos dias na nova
disciplina trullana, quer dizer, à constante preocupação da Igreja pelo perigo
grave e contínuo para os ministros sagrados e sua continência, que é a
coabitação com mulheres que estejam acima de qualquer suspeita. Seguindo ao já
referido cânone 3 do Concílio de Nicéia, de 325, os mesmos cânones trullanos,
examinados anteriormente, tratam dele repetidamente. Semelhante preocupação se
deve somente pela solicitude geral para salvaguardar a castidade e a
continência dos ministros sagrados em ambas as Igrejas.
O fato de haver conservado para os bispos da Igreja oriental a mesma
severa disciplina sobre a continência que se praticou sempre em toda a Igreja,
pode ser considerada como um resíduo na legislação trullana de uma tradição que
sempre considerou unidos a todos os graus da Ordem Sagrada numa mesma obrigação
de completa continência.
Também não se compreende por que se conservou, com todo rigor, na Igreja
oriental a condição de admitir um único matrimônio entre os candidatos ao
sacerdócio casados. Como já vimos (e veremos mais detalhadamente) essa condição
tem só um significado razoável em função de um empenho definitivo na
continência completa.
É ainda pouco compreensível a proibição absoluta de se contrair
matrimônio depois da sagrada Ordenação, que se mantém ainda quando aos
ministros sagrados, desde o sacerdote até abaixo, lhes está permitido o uso do
matrimônio.
Ao que se refere às inovações oficialmente introduzidas pelo Concílio
Trullano na questão da continência dos clérigos, que reconduzem o conceito
neo-testamentário do ministro sagrado ao conceito levítico do Antigo
Testamento, devemos nos perguntar como se podia continuar fazendo isso quando o
serviço efetivo do altar se estendeu, também na Igreja oriental, a todos os
dias da semana. Se fossem consideradas as razões adotadas para o uso do
matrimônio por parte dos sacerdotes vétero-testamentário, deveria ter voltado à
completa continência completa dos sacerdotes, diáconos e sub-diáconos tal como
se praticava no Ocidente, em atenção às disposições do mesmo Concílio Trullano.
Mas isto não se fez em nenhuma parte e desse modo o serviço do altar e o
ministério do Santo Sacrifício foram desligados da continência, apesar de que
sempre haviam estado unidos a ela, pois eram considerados seu motivo último.
Nas Igrejas particulares unidas à bizantina, que aceitaram a disciplina
trullana, não se verificou nos séculos seguintes nenhuma mudança na práxis do
celibato dos ministros sagrados. Às comunidades orientais que se uniram a Roma
foi concedido poder continuar na sua tradição celibatária diferente. Mas o
retorno dos “uniatas” à práxis latina de continência completa não só não
encontrou oposição, mas também foi positiva e favoravelmente aceita. O
reconhecimento da diversidade de disciplina concedido pelas autoridades
centrais de Roma pode ser considerado como um nobre respeito, mas dificilmente
como aprovação oficial da mudança da antiga disciplina da continência. Esta
opinião parece estar sustentada pela reação oficial que teve a Santa Sé frente
ao Concílio Trullano II, como já assinalamos anteriormente.
Alfons M. Stickler
Cardeal Diácono de São Giorgio in Velabro
CIDADE DO VATICANO
Tradução para o português:
Pe. Anderson Alves.
Contato: amralves_filo@yahoo.com.br
Fonte:
https://presbiteros.org.br/
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