A FÉ CRISTÃ EXIGE COMPROMISSO SOCIAL
Dom Leomar Brustolin
Arcebispo de Santa Maria (RS)
Apesar das tentativas de prescindir da religião e do
sagrado, do secularismo e do indiferentismo religioso que emergem com força na
atualidade, o cristão sabe que sua identidade depende da sua relação com tudo o
que o circunda. Para não perder sua essência, a fé cristã precisa ocupar-se da
história, porque nela se realiza a abertura do ser humano para a
transcendência.
A fé cristã não prega a separação do mundo e nem a
plena identificação com as realidades terrestres. Permanece uma tensão
entre o anúncio das alegrias de tudo o que existe por obra de Deus e conforme
seu plano e as miopias do tempo que destroem a possibilidade de viver conforme
o desejo do Criador. Essa fé não pode ser entendida de modo unilateral,
intimista e espiritualista. Tal compreensão reduz o enfoque integral da
salvação que Cristo revelou.
O Cristianismo não há de se preocupar somente com as pessoas
individualmente, dando-lhes sentido para a existência, mas também e,
necessariamente, há de se ocupar com as relações sociais que determinam e
legitimam a vida do indivíduo como ser criado para a comunhão e não para a
solidão.
Na busca de uma nova racionalidade e novas razões para
sonhar com um futuro melhor, a Doutrina Social da Igreja oferece um novo
humanismo, cuja inspiração comunial vem da própria Santíssima
Trindade. Cada pessoa humana, na sua estrutura de ser e de agir, é
um ícone da Trindade, quando o Pai, o Filho e o Espírito Santo são distintos,
mas unidos, porque é comunhão infinita de amor. Em sendo a imagem de Deus, cada
ser humano é chamado a viver na comunhão, na reciprocidade do dom, na partilha
e na comunicação do próprio ser. Tudo em vista do serviço desinteressado
ao outro.
A comunidade dos seguidores de Jesus encontra, na fé
trinitária, uma casa e escola de comunhão, cuja meta é o Reino de Deus, e a
Trindade será tudo em todos. Tal percepção faz de cada pessoa um protagonista
de novas relações, vencendo o egoísmo e os interesses privados. A profecia,
assim, se expande nos relacionamentos qualificados pelo desejo de comunhão
solidária e na preocupação preferencial para com aqueles que têm seus direitos
fundamentais negados.
No confronto entre a mensagem evangélica e as vicissitudes
históricas, não pode haver neutralidade ou indiferença. Todas as formas de
exclusão, injustiça, violência e mentira afetam, profundamente, o ser
cristão e, por isso, geram posições e atitudes que desmascaram as forças que
desumanizam e se afastam do amor revelado por Jesus.
Não é possível conceber, então, a fé cristã sem o serviço na
construção de um mundo justo e fraterno. É evidente que a plena salvação não se
esgota na edificação de uma sociedade justa e solidária, pois o destino final
de todo ser humano é o Reino de Deus que é transcendente ao mundo visível.
Entretanto, esperar o reino vindouro divorciando fé e justiça, Evangelho e
vida, seria uma redução perigosa ao próprio conteúdo da fé cristã que não
separa o amor a Deus do amor ao próximo. A comunhão com Deus, portanto,
exige uma reorientação total da presença do ser humano no mundo e de
sua ação sobre o mundo.
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