SÃO JOÃO EVANGELISTA
Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)
A partir do dia 25 de dezembro entramos no período litúrgico
denominado como Oitava do Natal, que são oito dias como se fosse um só. Ou
seja, o Natal é tão importante que não pode ser celebrado em um dia só, mas se
estende por oito dias. É como se a cada dia desses oito dias fosse Natal, e
podemos desejar uns aos outros um Santo e Abençoado Natal. É um período de
grande alegria, pois o Emanuel, o Deus conosco, o Príncipe da Paz, está no meio
de nós. Após a Oitava do Natal, que se encerra no dia 1º de janeiro, continua o
tempo do Natal, que segue até a festa do Batismo do Senhor.
O período da Oitava do Natal é especial, pois, conforme
dissemos, celebramos em primeiro lugar o nascimento de Jesus, o grande mistério
da Encarnação, mas praticamente em todos os dias da Oitava celebramos a festa
de um santo. No dia 26 de dezembro celebramos a festa litúrgica de Santo
Estevão; no dia 27, celebramos São João Evangelista; no dia 28, os Santos
Inocentes; neste ano, no domingo dia 29, a Festa da Sagrada Família; e, por
fim, no dia 1º de janeiro, a Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus.
Seria enriquecedor se pudéssemos participar da Santa Missa
todos os dias do período da Oitava do Natal, pois, afinal de contas, conforme
dissemos, cada dia é Natal. E, em cada dia, a celebração de um santo em
especial. Cada um desses santos tem uma particularidade com a vida de Jesus.
Santo Estevão foi o primeiro mártir; São João foi apóstolo e evangelista; os
Santos Inocentes não puderam se defender e morreram ainda recém-nascidos, em
sua maioria, por maldade de Herodes; na Sagrada Família recordamos que o
Messias teve uma família aqui na terra e nasceu pelo seio de Maria; e, no dia
1º de janeiro, recordamos Nossa Senhora como a Mãe de Jesus e Mãe de Deus,
quando comemoramos também o Dia Mundial da Paz, neste ano o 58º.
São João Evangelista foi um dos doze apóstolos de Jesus,
considerado o discípulo amado, um dos mais jovens entre os doze. Foi a João
Evangelista que Jesus, na agonia da Cruz, entregou a sua Mãe para que João
cuidasse. João e Maria estavam aos pés da cruz, e Jesus, ao entregar sua Mãe a
João, entrega-a a todos nós. João acolhe Maria consigo e cuida dela até ela
subir ao céu.
João segundo algumas tradições, morreu de velhice, uma morte
natural, quando tinha noventa e quatro anos. João, além de ser o autor do
quarto Evangelho, escreveu também três cartas. Nesses escritos, João revela,
sobretudo, o amor de Deus por nós, manifestado em Jesus Cristo. Um dos escritos
mais famosos de João, além de seu Evangelho, é o livro do Apocalipse de São
João.
Não podemos confundir João Evangelista com João Batista,
pois são diferentes. Ambos viveram em tempos um pouco distintos. João Batista é
o primo de Jesus, o precursor, que preparou o caminho para a chegada de Jesus.
Já João Evangelista foi o discípulo amado de Jesus e o autor do Evangelho e das
cartas. A festa de São João Batista comemora-se duas vezes: no dia 24 de junho,
o nascimento, e no dia 29 de agosto, o martírio. Já João Evangelista veio
posteriormente, escolhido como apóstolo de Jesus, e celebra-se a sua festa
litúrgica no dia 27 de dezembro. Os dois têm uma grande importância na história
da salvação, mas aparecem em momentos diferentes dessa história.
João seria o mais novo dos doze apóstolos, com provavelmente
cerca de vinte e quatro anos de idade quando foi chamado por Jesus. Consta que
seria solteiro e vivia com os seus pais em Betsaida. Nasceu em Betsaida e
ocupou um lugar de primeiro plano entre os apóstolos. Era pescador de
profissão, consertava as redes de pesca. Trabalhava junto com seu irmão Tiago
Maior e em provável sociedade com André e Pedro, todos apóstolos.
O nome de João significa “Deus misericordioso”. Trata-se de
uma profecia que foi se cumprindo na vida do mais jovem dos apóstolos. João,
sobretudo, anunciava a face desse Deus misericordioso, que nos revelou o seu
Filho, Jesus Cristo, a fim de nos salvar e resgatar aqueles que andavam nas
trevas do pecado.
João esteve presente em momentos marcantes da vida de Jesus,
por isso era considerado o discípulo amado. No episódio da transfiguração no
Monte Tabor, Jesus chama Pedro, Tiago e João. Na Santa Ceia, quem reclina a
cabeça no peito de Jesus é João. E, no momento da agonia de Jesus na Cruz, foi
o apóstolo que esteve presente até os últimos momentos de Jesus, ao lado da
Virgem Maria, enquanto os outros fugiram. João é sempre o homem da elevação
espiritual, tanto que Jesus chamou a ele e a seu irmão Tiago de Boanerges, que
significa “filhos do trovão”.
O Apocalipse e as três cartas de João testemunham igualmente
que o autor vivia na Ásia e lá gozava de extraordinária autoridade. E não era
para menos: em nenhuma outra parte do mundo, nem sequer em Roma, havia
apóstolos que sobrevivessem. É de imaginar a veneração que tinham os cristãos
dos fins do século I por aquele ancião de mais de 90 anos, que tinha ouvido
falar o Senhor Jesus, o tinha visto com os próprios olhos, o tinha tocado com
as próprias mãos, o tinha contemplado na sua vida terrena e depois de ressuscitado,
e presenciara a sua ascensão aos céus. Por isso, o valor dos seus ensinamentos
e o peso das suas afirmações não podiam deixar de ser excepcionais e mesmo
únicos.
São João, já no auge de sua velhice, se deparou com uma
perseguição por parte do Império Romano à Igreja de Cristo e aos cristãos.
Alguns desses fatos são até relatados no livro do Apocalipse. Além dessas
perseguições, ainda havia muitas heresias que desencadearam o movimento
religioso gnóstico, nascido e propagado fora e dentro da Igreja, procurando
corroer a essência mesma do Cristianismo. São João só não foi assassinado ou
preso pelo Império, primeiro por graça de Deus e, segundo, porque soube se refugiar
e ficar recluso na Ásia.
Completada a sua jornada aqui na terra, o santo evangelista
morreu quase centenário, sem sabermos uma data exata. Foi no fim do primeiro
século ou no início do segundo século, no tempo do imperador Trajano (98–117
d.C.).
Portanto, celebremos com alegria a festa de São João
Evangelista nesse dia 27 e peçamos a Deus que, por intercessão desse grande
santo da Igreja, possamos defender até o fim nossa Igreja Católica e, da mesma
forma, defender a nossa fé. Aprendamos do apóstolo a nutrir o amor a Jesus e à
Virgem Maria, e que eles nos guiem no caminho do bem.
Que o Espírito Santo, que sempre faz novas todas as coisas,
nos faça seguir os passos de Jesus e ouvir a sua voz, tornando-nos fiéis à sua
missão. Amém.
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