PAPAS E JUBILEUS
Dom Genival Saraiva
Bispo Emérito de Palmares (PE)
Usando uma expressão conhecida, Igreja é “coisa de Deus”.
Apropriadamente, ela é assim apresentada pelo Concílio Vaticano na Constituição
Dogmática Lumen Gentium: “O mistério da santa Igreja manifesta-se na sua
fundação. O Senhor Jesus deu início à Sua Igreja pregando a boa nova do advento
do Reino de Deus prometido desde há séculos nas Escrituras: ‘cumpriu-se o
tempo, o Reino de Deus está próximo’ (Mc. 1,15; cfr. Mt. 4,17). Este Reino
manifesta-se na palavra, nas obras e na presença de Cristo.” (LG n. 5). É
definida como “novo povo de Deus”. (LG n. 9) “Ao novo Povo de Deus todos os
homens são chamados. Por isso, este Povo, permanecendo uno e único, deve
estender-se a todo o mundo e por todos os séculos, para se cumprir o desígnio
da vontade de Deus que, no princípio, criou uma só natureza humana e resolveu
juntar em unidade todos os seus filhos que estavam dispersos (cfr. Jo.
11,52). (LG n. 13)” A Igreja, mais exatamente, “a Igreja católica foi
fundada por Deus, através de Jesus Cristo” (LG n. 14) Como ensina o
Catecismo da Igreja Católica e como rezam os católicos na oração do Credo, a
Igreja é una, santa, católica, apostólica. Dado que tem a marca pessoas e a
face da história, portanto, com expressões efetivas e vicissitudes possíveis de
sua fragilidade, Jesus assegura à sua Igreja a assistência do Espírito Santo, a
fim de que possa cumprir sua missão, com fidelidade. “O Senhor Jesus, depois de
ter orado ao Pai, chamando a Si os que Ele quis, elegeu doze para estarem com
Ele e para os enviar a pregar o Reino de Deus (cfr. Mc. 3, 13-19; Mt. 10,
1-42); e a estes Apóstolos (cfr. Luc. 6,13) constituiu-os em colégio ou grupo
estável e deu-lhes como chefe a Pedro, escolhido de entre eles (cfr. Jo. 21,
15-17).” (LG n. 19) “A missão divina confiada por Cristo aos Apóstolos durará
até ao fim dos tempos (cfr. Mt. 28,20), uma vez que o Evangelho que eles devem
anunciar é em todo o tempo o princípio de toda a vida na Igreja. Pelo que os
Apóstolos trataram de estabelecer sucessores, nesta sociedade hierarquicamente
constituída. Assim, não só tiveram vários auxiliares no ministério mas, para
que a missão que lhes fora entregue se continuasse após a sua morte, confiaram
a seus imediatos colaboradores, como em testamento, o encargo de completarem e
confirmarem a obra começada por eles, recomendando-lhes que velassem por todo o
rebanho, sobre o qual o Espírito Santo os restabelecera para apascentarem a
Igreja de Deus (cfr. At. 20, 28). […] Portanto, os Bispos receberam, com os
seus colaboradores os presbíteros e diáconos, o encargo da comunidade,
presidindo em lugar de Deus ao rebanho de que são pastores como mestres da
doutrina, sacerdotes do culto sagrado, ministros do governo.” “A Igreja é una
pela sua fonte. […] A Igreja é una pelo seu fundador.” Como instituição, “Deus
a congrega” na “multiplicidade das pessoas”, na diversidade de seus dons,
encargos, condições e modos de vida. Esta nota distintiva da Igreja, ser
católica, tem um duplo sentido conforme o ensinamento de seu Catecismo: “Ela é
católica porque nela Cristo está presente.” […] Ela é católica porque é enviada
em missão por Cristo à universalidade do gênero humano.” “A Igreja é apostólica
por ser fundada sobre os apóstolos” e “continua a ser ensinada, santificada e
dirigida pelos apóstolos”, “graças aos que a eles sucedem na missão pastoral: o
colégio dos bispos, ‘assistido pelos presbíteros, em união com o sucessor de
Pedro, pastor supremo da Igreja.”
No término/passagem do segundo milênio e início do terceiro,
destaca-se no ministério de João Paulo II, sucessor de Pedro, a celebração de
um Ano Jubilar na Igreja Católica, o Ano Santo, um especial tempo de
“graça, perdão e renovação espiritual” na vida dos fiéis. O “Grande
Jubileu do Ano 2000” foi proclamado por São João Paulo II na Bula
“Incarnationis mysterium”: “O nascimento de Jesus em Belém não é um fato que se
possa relegar para o passado. Diante d’Ele, com efeito, está a história humana
inteira: o nosso tempo atual e o futuro do mundo são iluminados pela sua
presença.” O Jubileu, precedido por um triênio bem preparado, nos termos da
Carta Apostólica “Tertio Millennio adveniente” foi vivido sob a inspiração do
tema “Jesus Cristo, ontem, hoje e sempre”. A participação no Jubileu propiciou
aos fiéis a graça de receber a Indulgência, observadas as normas previstas:
“confissão, Eucaristia, oração para o papa e da renúncia do apego ao pecado”.
Na preparação e na celebração do Ano Santo os fiéis rezaram a Oração do
Jubileu. São João Paulo II viveu o Jubileu do ano 2000 intensamente, com zelo,
doação e amor à Igreja, experimentando o peso do ofício, a limitação da idade e
a fragilidade da saúde, como se pôde constatar.
Já no curso do terceiro milênio do cristianismo, o Papa
Francisco, o 265º sucessor de Pedro, convocou a Igreja para celebrar o Jubileu
Ordinário de 2025, o Jubileu da Esperança, ao publicar a Bula “Spes non
confundit”. Assim começa o texto: “‘Spes non confundit – a esperança não
engana’ (Rm 5, 5). Sob o sinal da esperança, o apóstolo Paulo infunde coragem à
comunidade cristã de Roma. A esperança é também a mensagem central do próximo
Jubileu, que, segundo uma antiga tradição, o Papa proclama de vinte e cinco em
vinte e cinco anos. Penso em todos os peregrinos de esperança, que chegarão a
Roma para viver o Ano Santo e em quantos, não podendo vir à Cidade dos
apóstolos Pedro e Paulo, vão celebrá-lo nas Igrejas particulares. Possa ser,
para todos, um momento de encontro vivo e pessoal com o Senhor Jesus, ‘porta’
de salvação (cf. Jo 10, 7.9); com Ele, que a Igreja tem por missão anunciar
sempre, em toda a parte e a todos, como sendo a ‘nossa esperança’ (1 Tm 1, 1).”
Como em qualquer Ano Santo, os fiéis recebem as graças da Indulgência Plenária
indo, em peregrinação, a Roma e aos santuários e outros lugares sagrados,
indicados em cada Diocese do mundo. A oração do Jubileu mantém os fiéis unidos
a Deus e à Igreja ao longo deste tempo de bençãos. No Jubileu da Esperança, o
Papa Francisco está revelando um grande amor à Igreja, como Peregrino
Esperança, de modo especial, nesse momento de hospitalização, devido à
preocupação com o estado de sua saúde. A comunidade cristã, pessoas de outras
inspirações religiosas e não crentes o acompanham com proximidade, empatia,
afeto, esperança.
Que São João XXIII, São Paulo VI e São João Paulo II
intercedam junto ao Deus da vida para que o Papa Francisco possa continuar
servindo à Igreja e à humanidade, com sua simplicidade, generosidade,
autenticidade, verdade.
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