Chamei-vos amigos (4): O melhor seguro de vida
A amizade entre pessoas chamadas para a mesma missão permite
que esta seja sempre um caminho cheio de felicidade.
29/07/2020
Final dos anos quarenta. Em Zurbarán, uma das primeiras
residências universitárias femininas de Madri, há o costume fazer vigília uma
noite por mês, adorando a Jesus na Eucaristia. Levantar-se de madrugada,
fazendo um revezamento, para não deixar o Senhor sozinho, não deixa de ser
emocionante para uma universitária. A bem-aventurada Guadalupe, que é a
diretora, lidera essa aventura noturna; fica acordada escrevendo cartas em seu
escritório, muito perto do oratório, para o caso de alguma das moças querer continuar
esse momento de oração com uma boa conversa. No meio do silêncio da noite,
compartilham então, sonhos, propósitos, preocupações... Guadalupe não dorme
para oferecer toda a sua amizade. Não é
estranho que os que a conheceram recordem que “tinha uma facilidade
extraordinária para fazer amizades. É óbvio que tinha um dom especial para as
pessoas, uma simpatia muito atraente e muitos valores humanos; eu gostaria, no
entanto, de enfatizar o seu forte sentido da amizade”[1].
Um relacionamento circular
A gratuidade sempre caracteriza a amizade; se for procurada
por obrigação ou para alcançar um fim, ela simplesmente não surge de modo
autêntico. Guadalupe, por exemplo, não aceitava o cansaço físico de dormir um
pouco menos, por exigência de um contrato, nem as jovens, que iam depois ao seu
escritório, faziam isso por ter que prestar contas da sua vida, muito menos
àquelas horas da noite. Guadalupe e cada residente compartilhavam algo que as
levava a abrir-se mutuamente. Talvez alguma delas fosse estudante de química,
outra teria o sonho de viajar pelo mundo, uma terceira talvez tivesse perdido o
pai fazia pouco; Guadalupe compartilharia com alguma delas, provavelmente, o
anseio por ter uma vida interior mais profunda e com outra inclusive a vocação
ao Opus Dei. Pensando nessa variedade de gostos e sonhos que podemos ter
em comum com os outros, São João Crisóstomo faz notar que quanto mais
importante é o que nos une, maiores serão sem dúvida os vínculos que dali podem
surgir: “Se a simples circunstância de serem de uma mesma cidade é suficiente
para que muitos se façam amigos, como não terá de ser o amor entre nós, que
temos a mesma casa, a mesma mesa, o mesmo caminho, a mesma porta, idêntica
vida, idêntica cabeça, o mesmo pastor e rei e mestre e juiz e criador e Pai?”[2].
COMPARTILHAR A
MESMA CHAMADA OFERECE UMA BASE PARA UMA AUTÊNTICA AMIZADE QUE LEVE A AMBOS A
SER SANTOS
O prelado do Opus Dei – que muitos chamam de Padre
precisamente por presidir uma família – faz notar que “existe uma relação
íntima entre fraternidade e amizade. A fraternidade, de uma simples relação
baseada na filiação comum, transforma-se em amizade pelo carinho entre irmãos”[3].
E, ao mesmo tempo, Deus atua nas relações de amizade, chegando inclusive muitas
vezes a escolher dois ou mais amigos para uma mesma missão, como aconteceu com
tantos santos ao longo da história. Ou seja, entre fraternidade e amizade
gera-se uma relação circular positiva: a primeira oferece permanentemente à
pessoa uma sólida base comum – alicerçada, por exemplo, em ter recebido a mesma
chamada – e a segunda contribui para que esses desejos permaneçam no tempo ao
longo de um caminho feliz. São Josemaria, no ano de 1974, mal chegou ao local,
na Argentina, onde teria uma reunião com filhos seus supernumerários, dizia:
“Peço-vos hoje, ao começar, que vivais de tal forma vossa fraternidade, que
quando algum de vós tiver dissabores não o deixeis, e tampouco quando tiver
alegrias. Isto não é um seguro de vida, é muito mais: é um seguro de vida
eterna”[4].
Aqui está o dedo de Deus
Em 1902, precisamente na Argentina, havia nascido Isidoro
Zorzano, de pais espanhóis. Três anos depois a família voltou à Europa, para a
cidade de Logronho onde Isidoro conheceu São Josemaria quando ambos eram
adolescentes. Fizeram-se rapidamente amigos embora, ao terminarem o curso, um
tenha optado por engenharia e outro pelo sacerdócio. Mas o contato entre os
dois não terminou nisso, a correspondência epistolar entre ambos testemunha
aquela amizade. “Meu querido amigo: como já estou mais descansado, podemos sair
na tarde em que quiseres, para isso basta enviar-me um cartão. Um abraço de teu
amigo, Isidoro”[5],
escrevia um, enquanto o outro, que já morava na capital espanhola, respondia em
uma carta: “Querido Isidoro: quando vieres a Madri, não deixes de vir me ver.
Tenho coisas muito interessantes para contar. Um abraço de teu amigo”[6].
Pouco tempo depois, quando tinha vinte e nove anos, chegaria um momento crucial
na vida de Isidoro. Por um lado, sentia em seu interior que Deus lhe pedia
algo; por outro, o seu amigo Josemaria queria falar-lhe sobre o Opus Dei,
que estava dando seus primeiros passos. Bastou um único encontro, no qual
falaram sobre a santidade no meio do mundo, para que Isidoro percebesse que
Deus havia se servido dessa amizade para presenteá-lo com a vocação ao
Opus Dei. Aquele relacionamento que os unia desde a adolescência, aquela
preocupação mútua, adquiria então um novo vigor e levou Isidoro a concluir: “O
dedo de Deus está aqui”[7].
É lógico que a descoberta da vocação por Isidoro não
deixasse em segundo plano os vínculos afetivos daqueles anos de amizade. Deus
nos criou com alma e corpo, pelo que a união sobrenatural não anula os bens
naturais que todos procuramos: vemo-lo no exemplo de Jesus, que compartilhava a
sua vida com amigos. Por isso, São Josemaria faz notar que “Deus Nosso Senhor
quer, na Obra, a caridade cristã e a convivência natural que se torna
fraternidade sobrenatural, e não um convencionalismo formal”[8].
O carinho não é algo espiritualizado, mas concreto, encarnado,
manifesta-se no relacionamento pessoal. Não é um formalismo que pode ficar em
simples boas maneiras ou em cortesia que tranquiliza a própria consciência, mas
procura amar a todos como o faria a sua própria mãe.
DEUS ATUA ENTRE
OS AMIGOS, COMO ACONTECEU COM ISIDORO E SÃO JOSEMARIA
Em 14 de julho de 1943, pouco mais de dez anos depois
daquele encontro crucial em Madri, ambos os amigos – que são agora pai e filho
de uma família sobrenatural – mantêm a sua última conversa. Durante aqueles
momentos recordam talvez a sua adolescência, as suas cartas, o trabalho lado a
lado na Academia DYA, os trâmites para abrir a primeira residência, os vaivéns
da guerra civil, o diagnóstico de câncer de Isidoro... São Josemaria
despediu-se de Isidoro confessando um desejo: “Peço ao Senhor que me dê uma morte
como a sua”[9].
Jesus nos ensinou que “ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida por
seus amigos” (Jo 15, 13) e é precisamente isso o que entusiasmava Isidoro
durante os seus últimos dias: poder, do céu, continuar unido a todos da Obra,
tal como tinha estado na terra.
O menos ciumento dos amores
Todos sabemos que, em relações humanas muito importantes, o
vínculo objetivo que as une – como o fato de serem marido e mulher, ou irmão e
irmã – não gera automaticamente uma relação de amizade. Inclusive quando existe
uma verdadeira amizade, em algum momento, isso não garante que tal relação
fique imune frente às sequelas normais da passagem do tempo. Bento XVI – sendo
ainda cardeal – ao ponderar sobre a fraternidade sobrenatural entre os
cristãos, fazia notar com realismo que “o fato de serem irmãos não significa
automaticamente que sejam um modelo de amor”[10].
E recordava que na Sagrada Escritura há exemplos abundantes, desde o livro do
Gênesis até as parábolas que Jesus conta.
Por isso, “a fraternidade baseada na vocação comum à Obra
pede para se expressar em uma amizade”[11] que,
como nas outras relações em que intervém a liberdade humana, não surge de um
momento para o outro. Requer o paciente trabalho de ir ao encontro do outro, de
abrir o próprio mundo interior para enriquecê-lo com o que Deus quiser dar-nos
através dos outros. As tertúlias, ou reuniões familiares, por exemplo, nas
quais cada um desenvolve a sua personalidade, constituem momentos para criar
laços de autêntica amizade. Não há nelas coisas da vida dos outros –
preocupações, alegrias, tristezas, interesses – que não nos toquem
pessoalmente. Criar um lar com corredores luminosos e portas abertas aos outros
faz parte de um processo de amadurecimento pessoal, já que “a criatura humana,
na medida em que possui natureza espiritual, se realiza nas relações interpessoais.
Quanto mais as vive de forma autêntica, tanto mais amadurece a própria
identidade pessoal. Não é se isolando que o homem se valoriza a si mesmo, mas
relacionando-se com os outros e com Deus”[12].
O homem só se explica de maneira satisfatória a si mesmo no interior do tecido
social no qual desenvolve seus afetos.
CONSTRUIR UMA
AMIZADE REQUER SEMPRE A PACIENTE TAREFA DE ABRIR-SE A OUTRA PESSOA
Isto acontece porque a amizade, quando procura ser
autêntica, tenta não se misturar com um desejo de posse do outro. Tendo, pelo
contrário, experimentado esse grande bem, sabe o que tem para oferecer para
outras pessoas: uma amizade autêntica é escola de mais amizades, ensina-nos a
desfrutar da companhia das outras pessoas embora, naturalmente, não se chegue a
ter a mesma proximidade com todos. C. S. Lewis notava que “a verdadeira Amizade
é o menos ciumento dos amores. Dois amigos ficam contentes quando chega um
terceiro e três quando o quarto se reúne a eles, basta que o recém-chegado
tenha as necessárias qualificações para tornar-se um verdadeiro amigo. Eles
podem dizer, como as almas abençoadas dizem em Dante: "Está chegando
alguém que vai ampliar o nosso amor". Pois neste tipo de amor
"dividir não é remover"”[13].
Chega, inclusive, a comparar isso com a imagem que podemos fazer do céu, já que
lá, cada bem-aventurado aumentará a alegria de todos, comunicando a sua
singular visão de Deus aos outros.
Santo Agostinho, em suas Confissões, ao
recordar com certa nostalgia um grupo de amigos, diz sem conter a emoção:
“inflamavam nossas almas, como em uma centelha, fazendo de muitas uma só”[14].
Relata que o que os unia eram longas conversas acompanhadas de risadas, era o
serviço mútuo com boa vontade, leitura juntos e, inclusive, os repentinos
desacordos que ajudavam a colocar o foco em tudo o que tinham em comum; recorda
a amarga sensação diante da ausência de algum deles, que logo se via compensada
pela alegria da sua chegada. “A felicidade pessoal não depende dos sucessos que
alcançamos, mas do amor que recebemos e do amor que damos”[15];
depende de sentir-nos queridos e de ter um lar, onde a nossa presença é
insubstituível, lar ao qual sempre voltar, aconteça o que acontecer. É assim
que São Josemaria queria que fossem as casas de seus filhos e filhas. É
precisamente nesses termos que se recorda o primeiro trabalho apostólico do
Opus Dei em Madri, no ano de 1936: “Se ao apartamento da rua Luchana se ia
por ter sido convidado, o certo é que lá se permanecia por amizade”[16];
este é o amável vínculo que, humanamente, é capaz de manter a unidade. “Se vos
amardes, cada uma de nossas casas será o lar que eu vi, o que eu quero que haja
em cada um de nossos recantos. E cada um de vossos irmãos terá uma fome santa
de chegar a casa, depois do dia de trabalho; e terá depois vontade de sair à
rua, para a guerra santa, esta guerra de paz”[17].
Andrés Cárdenas
[1] Mercedes
Montero, En vanguardia, Rialp, Madri, 2019, p. 79.
[2] São
João Crisóstomo, In Matth Hom. 32,7.
[3] Mons.
Fernando Ocáriz, Carta
1/11/2019, n. 14.
[4] São
Josemaria, Anotações de uma reunião, 24-VI-1974.
[5] José
Miguel Pero-Sanz, Isidoro Zorzano, Edições Palabra, Madri,
1996, p. 86.
[6] Ibid.,
p. 112-113.
[7] Ibid.,
p. 118.
[8] São
Josemaria, Instrucción sobre la obra de San Miguel, n. 101.
[9] José
Miguel Cejas, Amigos do fundador do Opus Dei, Palabra,
Madri, 1992, p. 47.
[10] Joseph
Ratzinger, La sal de la tierra, Palabra, Madri, 1997, p. 206.
[11] Mons.
Fernando Ocáriz, Carta
1/11/2019, n. 14.
[12] Bento
XVI, Carta encíclica Caritas in veritate, n. 53.
[13] C.
S. Lewis, Os quatro amores, WMF Martins Fontes.
[14] Santo
Agostinho, Confissões, IV, 8.
[15] Mons.
Fernando Ocáriz, Carta
1/11/2019, n. 17.
[16] José
Luis González Gullón, DYA, Rialp, Madri, 2016, p. 196.
[17] Crônica
1956, VII, p. 7.
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