“CUIDADO PARA NÃO CAIR”
Dom Rodolfo Luís Weber
Arcebispo de Passo Fundo (RS)
“Portanto, quem julga estar de pé tome cuidado para não
cair”. Esta sentença de São Paulo é provocativa para fazer o exame de
consciência neste momento oportuno da quaresma, para tomar consciência da
realidade e do lugar onde nos encontramos pessoalmente, como Igreja e como
sociedade (Êxodo, 3,1-8.13-15, Salmo 102, 1 Coríntios 10,1.6.10-12 e Lucas
13,1-9).
O santo Evangelho relata que algumas pessoas trazem duas
notícias trágicas para Jesus. Elas são semelhantes a tantas notícias do nosso
cotidiano. A primeira é um massacre ordenado por Pilatos contra um grupo de
galileus no templo, tendo o sangue deles misturado com as ofertas. A segundo
relato é o desabamento de uma torre que mata dezoito pessoas. Jesus
comenta os dois fatos trágicos. Ajuda a fazer o discernimento para conduzir a
reta interpretação e, deste modo, corrigir as falsas conclusões ou as condenações
injustas.
Os fatos motivam Jesus a guiar seus ouvintes à necessidade
da conversão. Não propõe a conversão em termos moralistas, mas realistas.
Perante certas desgraças as certezas humanas entram em crise. Não se pode
simplesmente descarregar a culpa em alguém. Diante da precariedade da
existência humana deve-se assumir uma atitude de responsabilidade. A atitude
correta, segundo Jesus, é converter-se. Ninguém está isento de ser vítima de
desastres. Também não se pode gastar todo tempo em procurar culpados. Faz-se necessário
rever o próprio agir e assumir a própria responsabilidade no
contexto.
São Paulo escrevendo aos Coríntios deseja formar uma
comunidade que esteja ciente do modo como estão vivendo. Recorda a eles o
comportamento do povo de Deus na travessia do deserto conduzido por Moisés. O
povo era bem conduzido e protegido, mesmo assim murmurava, isto é, sempre
insatisfeito e reclamando constantemente contra Deus e Moisés. Como
consequência morreram antes de chegar ao destino, por isso convida que a
comunidade “não deseje coisas más” e mude o que for necessário para viver
melhor.
A advertência de Paulo: “Portanto, quem julga estar de pé
tome cuidado para não cair” também serve a Campanha da Fraternidade:
“Fraternidade e Ecologia Integral”. A temática da ecologia passou a fazer parte
do cotidiano. A globalização das informações permite que todos tenham acesso a
notícias sobre os eventos climáticos de qualquer parte do mundo. É uma
infinidade de informações que requerem um constante discernimento, assim como
Jesus fez com os fatos trágicos que lhe contaram. Empenhar-se para encontrar a
verdade dos fatos é uma atitude sábia e necessária. “A verdade vos libertará”
afirmou Jesus. A verdade deve ser aceita. Ela se torna o ponto de partida para
compreender as causas e encontrar as soluções.
O final do evangelho apresenta a parábola da figueira
infrutífera. A primeira solução simplista apresentada é cortar a figueira, mas
também surge uma segunda proposta: dar um tempo, colocar adubo e melhorar os
arredores para torná-la frutífera. A proposta fundamental da Campanha da
Fraternidade é esta: conhecer e reconhecer a crise socioambiental que estamos
vivendo, oferecer ensinamentos da Escritura que dizem toda criação é obra de
Deus e tudo foi feito muito bom e, por fim, tornar a vida do cristão frutífera
produzindo frutos de conversão ecológica, isto é, mudar hábitos de consumo,
relacionar-se com todas as criaturas de forma fraterna, cuidar e guardar com
zelo da Casa Comum.
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