Mortificação e Penitência.
07 março 2025
O Sacrifício Voluntário
Conta-nos o Evangelho que Jesus, depois de ter repreendido
severamente São Pedro, porque – cheio de um carinho mal entendido – queria
afastá-Lo da Cruz (Mt 16,23), dirigiu o olhar aos outros discípulos e lhes
disse com firmeza: Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a
sua cruz e siga-me (Mt 16, 24).
Lemos também no Evangelho que, certa vez, Jesus estava
acompanhado de muito povo. Era o tempo em que as multidões o seguiam com um
entusiasmo, e em que a fé de muitos alternava com a emotividade superficial e
com o interesse. Cristo, que conhecia bem os homens e os amava, quis
gravar-lhes na alma a ideia clara de que, sem tomar a Cruz, era impossível
segui-lo pelo seu caminho, pois é caminho de amor. E assim, voltando-se para os
que o cercavam, alertou-os: Quem não carrega a sua cruz e me segue não pode ser
meu discípulo. E, para deixar essa afirmação bem vincada, ilustrou-a com uma
comparação: falou-lhes de um homem que, desejando construir uma torre, errou
nos cálculos e não previu os meios necessários para edificar. Aconteceu o
inevitável: fracassou, de modo que todos os que o viam ficavam zombando dele e
diziam: Este homem principiou a edificar, mas não pôde terminar! O Senhor
esclareceu que assim aconteceria com aqueles que quisessem segui-lo sem
renúncia e sem Cruz (cfr. Lc 14, 25-30).
Reparemos que, nessas passagens do Evangelho, Jesus fala de
algo que depende de nós. Algo que podemos fazer ou não – Se alguém quiser… -,
algo que pertence, portanto, à nossa livre iniciativa.
Sempre a Cruz deve ser tomada livremente. Em primeiro lugar,
a que Deus nos envia sem nós a procurarmos, ou seja, a Cruz do sofrimento
inesperado, que devemos saber abraçar com fé e amor. Mas há outra Cruz santa
que – com a ajuda da graça – depende totalmente da nossa decisão, da nossa
generosidade, e é justamente a dos sacrifícios voluntários. Se nós queremos,
sacrificamos um fim de semana para dar assistência aos pobres; se nós queremos,
deixamos de ir ao cinema para visitar um doente; se nós queremos, assumimos os
trabalhos mais pesados em casa. Mas ninguém nos impõe nada. Se não queremos,
não fazemos nada disso.
Homem Velho e Homem Novo
Sacrifícios voluntários? Mortificação? Penitência? Meter na
nossa vida mais “cruzes”, quando a vida já traz tantas sem que as procuremos?
Por quê?
Vamos deixar que, mais uma vez, o Espírito Santo nos
responda pela boca de São Paulo.
Este Apóstolo serve-se com frequência de uma comparação: a
imagem dos dois homens que estão sempre brigando dentro de nós: o homem velho e
o homem novo. Poderíamos traduzir por “homem modelado pelos parâmetros
mundanos, pagãos” e “homem modelado – conforme a imagem de Cristo – pela graça
do Espírito Santo”.
Assim, escrevendo aos Efésios, o Apóstolo pede-lhes: Não
persistais em viver como os pagãos, que andam à mercê das suas idéias frívolas
[…]. Renunciai à vida passada, despojai-vos do homem velho, corrompido pelos
desejos enganadores. Renovai sem cessar o sentimento da vossa alma, e
revesti-vos do homem novo, criado à imagem de Deus, em justiça e santidade
verdadeiras (Ef 4, 17.22-24). É claro que está lhes propondo uma luta árdua,
mediante a qual deverão arrancar – quase como se arranca a pele – o homem velho,
para revestir-se do homem novo.
As mesmas idéias, mais sinteticamente expostas,
encontramo-las na Carta aos Colossenses: Vós vos despistes do homem velho com
os seus vícios, e vos revestistes do novo, que se vai restaurando
constantemente à imagem dAquele que o criou (Cl 3, 9-10).
Um terceiro texto, dirigido aos Gálatas, completa os
anteriores: Os que são de Jesus Cristo crucificaram a carne, com as suas
paixões e concupiscências (Gál 5, 24). Para entender o que quer dizer, é
preciso ter presente que, na mesma carta, havia explicado o que é a carne e as
suas concupiscências (palavra que significa aqui maus desejos), mostrando que
por carne entende – como é comum em textos bíblicos – o homem egoísta, afastado
da graça de Deus e mergulhado no materialismo, cujo deus é o ventre […] e só
tem prazer no que é terreno (Fil 3, 19).
Característica típica do homem velho é a de se deixar
dominar pelos desejos da carne, que – como explica detalhadamente o Apóstolo –
se chamam fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, superstição,
inimizades, brigas, ciúmes, ódio, ambição, discórdia, facções, invejas,
bebedeiras, orgias e outras coisas semelhantes (Gl 5, 19-21).
Esta é a carne que deve ser crucificada, ou seja,
mortificada, dominada e vencida com a renúncia, com o sacrifício, com a Cruz.
Meio de Purificação
A mortificação voluntária – que faz parte essencial da luta
do cristão – é um meio necessário de purificação. Santo Agostinho tem um
pensamento muito profundo a este respeito. Lembra que o homem foi criado à
imagem e semelhança de Deus, e que o pecado “deformou” essa imagem e apagou a
semelhança. A graça de Deus, recebida no Batismo, fez-nos renascer para uma
vida nova. É tarefa nossa colaborar com a graça para limpar os males que nos
deformam; só assim ela nos devolverá à “forma” primeira, que é a imagem do ser
de Deus (1).
Como é sugestiva esta ideia, para nos ajudar a compreender
que a formação cristã não se limita ao conhecimento da verdade, da doutrina –
ler, estudar, aprender -, mas exige um trabalho de purificação – de limpar, de
extirpar, de endireitar, de podar o que procede do egoísmo -, para podermos
“arrancar a triste máscara que forjamos com as nossas misérias” (2), e estarmos
em condições de ir reproduzindo fielmente em nós os traços do nosso modelo,
Jesus Cristo.
Pensemos seriamente qual é o nosso homem velho, quais são as
nossas paixões e concupiscências, para assim podermos descobrir as
mortificações que precisamos fazer a fim de arrancar de nós as máscaras
deformantes. Não é muito difícil adivinhar. Difícil é concretizar… e fazer.
Na realidade, todos notamos em nós mesmos defeitos que nos
prejudicam, hábitos, vícios de diversas espécies, que nos dominam; falhas de
caráter que atrapalham o nosso trabalho; atitudes desagradáveis ou omissões no
nosso relacionamento com os outros… Pois bem, é aí que deve entrar a nossa
cruz, ou seja, os sacrifícios necessários para corrigir tais defeitos.
Fazer Penitência
A fé nos mostra o imenso valor que podem ter os padecimentos
– os sofrimentos que Deus manda ou permite -, como meio de nos unirmos à Cruz
de Cristo, a fim de reparar – expiar – pelos nossos pecados e pelos pecados de
todo o mundo.
Também o sacrifício voluntário pode ter – e muitas vezes
deve ter – uma função reparadora, de penitência pelos pecados.
O Catecismo da Igreja Católica, ao falar dos tempos e dias
de penitência, cita as práticas penitenciais que são mais tradicionais na
Igreja, porque o próprio Cristo se referiu a elas no Sermão da Montanha (cfr.
Mt 6, 1 e segs.), a saber: a oração, o jejum e a esmola. E frisa de modo
particular o valor que tem a mortificação – o jejum e outras privações
voluntárias -, como meio de reparação dos pecados (cfr. ns. 1434 e 1438).
É muito próprio do espírito de um cristão determinar-se a
cumprir algumas dessas práticas penitenciais – além do jejum e da abstinência
de carne prescritos pela lei da Igreja – sobretudo em dias ou períodos
especialmente relacionados com a Paixão de Jesus, como são as sextas-feiras e o
Tempo da Quaresma. Todo bom católico deveria definir bem, até por escrito, o
seu “plano” de penitências para a Quaresma (não comer tal ou qual doce ou
refrigerante, reduzir a assistência à tv, abster-nos de bebidas alcoólicas,
aumentar o tempo diário de oração, dedicar mais tempo a obras sociais, fazer frequentes
visitas à igreja para rezar algumas orações de joelhos, etc.).
Na realidade, porém, não deveríamos limitar-nos às obras de
penitência em datas ou tempos determinados. Todos os dias deveriam estar
enriquecidos – polvilhados – por algumas pequenas privações, oferecidas por
amor e com alegria, como atos de reparação pelos pecados próprios e alheios, e
também como exercícios de autodomínio que nos ajudassem a “converter-nos”: a
ser mais senhores de nós mesmos e a mudar, a “converter-nos”, com a graça de
Deus.
Em maio do ano 2000, o Papa celebrou em Fátima a
beatificação dos meninos Jacinta e Francisco. Ao elevar os dois pastorinhos à
glória dos altares, o Santo Padre fez questão de realçar a generosidade com que
ambos, a pedido de Nossa Senhora, se entregaram à penitência “pelos pobres
pecadores”. De Francisco, dizia o Papa que “suportou os grandes sofrimentos da
doença que o levou à morte sem nunca se lamentar. Tudo lhe parecia pouco para
consolar Jesus; morreu com um sorriso nos lábios. Grande era, no pequeno Francisco,
o desejo de reparar as ofensas dos pecadores, esforçando-se por ser bom e
oferecendo sacrifícios e oração. E Jacinta, sua irmã, quase dois anos mais nova
que ele, vivia animada dos mesmos sentimentos”. Citava depois o Papa as
palavras com que Jacinta se despediu de Francisco, pouco antes de este morrer:
“Dá muitas saudades minhas a Nosso Senhor e a Nossa Senhora e dize-lhes que
sofro tudo quanto Eles quiserem para converter os pecadores” (3).
Como é tocante essa lição dos pequeninos, dos simples, que
ouvem e entendem a voz de Deus, por meio de Maria! (cfr. Lc 10, 21). Podemos
ter a certeza de que a perda do sentido da penitência, entre os cristãos, anda
em paralelo com a perda do sentido do pecado, e que isto significa que
enfraqueceu muito ou se perdeu o sentido do amor de Deus.
É interessante recordar que, no mesmo Ano Santo de 2000, o Santo Padre
ajudou-nos a revigorar uma verdade da nossa fé que tem uma relação muito
estreita com a necessidade da penitência: a doutrina das indulgências. Com
elas, com efeito -ao realizar, com as devidas condições, as obras
indulgenciadas- , entramos em comunhão com o tesouro do “amor, do sofrimento
suportado, da pureza” de todos os nossos irmãos na fé, que deixaram atrás de si
como que um “saldo” de méritos, unidos às riquezas dos méritos de Cristo, de
Maria e dos santos; é um imenso tesouro que a Igreja encaminha a cada um de
nós, como uma transfusão de sangue puro (4), por meio da indulgência, para a
purificação da “pena temporal” devida pelos nossos pecados, ou seja, da pena
que deveríamos pagar no Purgatório, por não termos expiado suficientemente os
nossos pecados aqui na terra.
E esse mesmo dom da indulgência, esse tesouro de méritos e graças que “circula”
no Corpo místico de Cristo, pode ser aplicado sempre às almas do Purgatório,
com as quais estamos estreitamente unidos pela Comunhão dos santos. Mediante
esse “intercâmbio maravilhoso de bens espirituais” , podemos auxiliar pais, parentes,
amigos, conhecidos…, todos os que se encontram no estado de purificação que
chamamos Purgatório, para que possam ir logo ao encontro do abraço eterno de
Deus . É uma maravilhosa comunhão e ajuda mútua na penitência: na expiação e a
purificação (5) (Cfr. Bula pontifícia Incanationis mysterium, nn. 9 e 10).
(Adaptação de um trecho do livro de F. Faus, A sabedoria
da Cruz)
1 Sermão 125,4
2 São Josemaria Escrivá, Via Sacra, VI estação
3 João Paulo II, Homilia na Beatificação, Fátima 13.05.2000
4 Cf. São Josemaria Escrivá, Caminho, n. 544
5 Bula Incanationis mysterium, num. 9 e 10
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