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sábado, 29 de março de 2025

Chamei-vos amigos (4): O melhor seguro de vida (IV)

Chamei-vos amigos (Opus Dei)

Chamei-vos amigos (4): O melhor seguro de vida

A amizade entre pessoas chamadas para a mesma missão permite que esta seja sempre um caminho cheio de felicidade.

29/07/2020

Final dos anos quarenta. Em Zurbarán, uma das primeiras residências universitárias femininas de Madri, há o costume fazer vigília uma noite por mês, adorando a Jesus na Eucaristia. Levantar-se de madrugada, fazendo um revezamento, para não deixar o Senhor sozinho, não deixa de ser emocionante para uma universitária. A bem-aventurada Guadalupe, que é a diretora, lidera essa aventura noturna; fica acordada escrevendo cartas em seu escritório, muito perto do oratório, para o caso de alguma das moças querer continuar esse momento de oração com uma boa conversa. No meio do silêncio da noite, compartilham então, sonhos, propósitos, preocupações... Guadalupe não dorme para oferecer  toda a sua amizade. Não é estranho que os que a conheceram recordem que “tinha uma facilidade extraordinária para fazer amizades. É óbvio que tinha um dom especial para as pessoas, uma simpatia muito atraente e muitos valores humanos; eu gostaria, no entanto, de enfatizar o seu forte sentido da amizade”[1].

Um relacionamento circular

A gratuidade sempre caracteriza a amizade; se for procurada por obrigação ou para alcançar um fim, ela simplesmente não surge de modo autêntico. Guadalupe, por exemplo, não aceitava o cansaço físico de dormir um pouco menos, por exigência de um contrato, nem as jovens, que iam depois ao seu escritório, faziam isso por ter que prestar contas da sua vida, muito menos àquelas horas da noite. Guadalupe e cada residente compartilhavam algo que as levava a abrir-se mutuamente. Talvez alguma delas fosse estudante de química, outra teria o sonho de viajar pelo mundo, uma terceira talvez tivesse perdido o pai fazia pouco; Guadalupe compartilharia com alguma delas, provavelmente, o anseio por ter uma vida interior mais profunda e com outra inclusive a vocação ao Opus Dei. Pensando nessa variedade de gostos e sonhos que podemos ter em comum com os outros, São João Crisóstomo faz notar que quanto mais importante é o que nos une, maiores serão sem dúvida os vínculos que dali podem surgir: “Se a simples circunstância de serem de uma mesma cidade é suficiente para que muitos se façam amigos, como não terá de ser o amor entre nós, que temos a mesma casa, a mesma mesa, o mesmo caminho, a mesma porta, idêntica vida, idêntica cabeça, o mesmo pastor e rei e mestre e juiz e criador e Pai?”[2].

COMPARTILHAR A MESMA CHAMADA OFERECE UMA BASE PARA UMA AUTÊNTICA AMIZADE QUE LEVE A AMBOS A SER SANTOS

O prelado do Opus Dei – que muitos chamam de Padre precisamente por presidir uma família – faz notar que “existe uma relação íntima entre fraternidade e amizade. A fraternidade, de uma simples relação baseada na filiação comum, transforma-se em amizade pelo carinho entre irmãos”[3]. E, ao mesmo tempo, Deus atua nas relações de amizade, chegando inclusive muitas vezes a escolher dois ou mais amigos para uma mesma missão, como aconteceu com tantos santos ao longo da história. Ou seja, entre fraternidade e amizade gera-se uma relação circular positiva: a primeira oferece permanentemente à pessoa uma sólida base comum – alicerçada, por exemplo, em ter recebido a mesma chamada – e a segunda contribui para que esses desejos permaneçam no tempo ao longo de um caminho feliz. São Josemaria, no ano de 1974, mal chegou ao local, na Argentina, onde teria uma reunião com filhos seus supernumerários, dizia: “Peço-vos hoje, ao começar, que vivais de tal forma vossa fraternidade, que quando algum de vós tiver dissabores não o deixeis, e tampouco quando tiver alegrias. Isto não é um seguro de vida, é muito mais: é um seguro de vida eterna”[4].

Aqui está o dedo de Deus

Em 1902, precisamente na Argentina, havia nascido Isidoro Zorzano, de pais espanhóis. Três anos depois a família voltou à Europa, para a cidade de Logronho onde Isidoro conheceu São Josemaria quando ambos eram adolescentes. Fizeram-se rapidamente amigos embora, ao terminarem o curso, um tenha optado por engenharia e outro pelo sacerdócio. Mas o contato entre os dois não terminou nisso, a correspondência epistolar entre ambos testemunha aquela amizade. “Meu querido amigo: como já estou mais descansado, podemos sair na tarde em que quiseres, para isso basta enviar-me um cartão. Um abraço de teu amigo, Isidoro”[5], escrevia um, enquanto o outro, que já morava na capital espanhola, respondia em uma carta: “Querido Isidoro: quando vieres a Madri, não deixes de vir me ver. Tenho coisas muito interessantes para contar. Um abraço de teu amigo”[6]. Pouco tempo depois, quando tinha vinte e nove anos, chegaria um momento crucial na vida de Isidoro. Por um lado, sentia em seu interior que Deus lhe pedia algo; por outro, o seu amigo Josemaria queria falar-lhe sobre o Opus Dei, que estava dando seus primeiros passos. Bastou um único encontro, no qual falaram sobre a santidade no meio do mundo, para que Isidoro percebesse que Deus havia se servido dessa amizade para presenteá-lo com a vocação ao Opus Dei. Aquele relacionamento que os unia desde a adolescência, aquela preocupação mútua, adquiria então um novo vigor e levou Isidoro a concluir: “O dedo de Deus está aqui”[7].

É lógico que a descoberta da vocação por Isidoro não deixasse em segundo plano os vínculos afetivos daqueles anos de amizade. Deus nos criou com alma e corpo, pelo que a união sobrenatural não anula os bens naturais que todos procuramos: vemo-lo no exemplo de Jesus, que compartilhava a sua vida com amigos. Por isso, São Josemaria faz notar que “Deus Nosso Senhor quer, na Obra, a caridade cristã e a convivência natural que se torna fraternidade sobrenatural, e não um convencionalismo formal”[8]. O carinho não é algo espiritualizado, mas concreto, encarnado, manifesta-se no relacionamento pessoal. Não é um formalismo que pode ficar em simples boas maneiras ou em cortesia que tranquiliza a própria consciência, mas procura amar a todos como o faria a sua própria mãe.

DEUS ATUA ENTRE OS AMIGOS, COMO ACONTECEU COM ISIDORO E SÃO JOSEMARIA

Em 14 de julho de 1943, pouco mais de dez anos depois daquele encontro crucial em Madri, ambos os amigos – que são agora pai e filho de uma família sobrenatural – mantêm a sua última conversa. Durante aqueles momentos recordam talvez a sua adolescência, as suas cartas, o trabalho lado a lado na Academia DYA, os trâmites para abrir a primeira residência, os vaivéns da guerra civil, o diagnóstico de câncer de Isidoro... São Josemaria despediu-se de Isidoro confessando um desejo: “Peço ao Senhor que me dê uma morte como a sua”[9]. Jesus nos ensinou que “ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15, 13) e é precisamente isso o que entusiasmava Isidoro durante os seus últimos dias: poder, do céu, continuar unido a todos da Obra, tal como tinha estado na terra.

O menos ciumento dos amores

Todos sabemos que, em relações humanas muito importantes, o vínculo objetivo que as une – como o fato de serem marido e mulher, ou irmão e irmã – não gera automaticamente uma relação de amizade. Inclusive quando existe uma verdadeira amizade, em algum momento, isso não garante que tal relação fique imune frente às sequelas normais da passagem do tempo. Bento XVI – sendo ainda cardeal – ao ponderar sobre a fraternidade sobrenatural entre os cristãos, fazia notar com realismo que “o fato de serem irmãos não significa automaticamente que sejam um modelo de amor”[10]. E recordava que na Sagrada Escritura há exemplos abundantes, desde o livro do Gênesis até as parábolas que Jesus conta.

Por isso, “a fraternidade baseada na vocação comum à Obra pede para se expressar em uma amizade”[11] que, como nas outras relações em que intervém a liberdade humana, não surge de um momento para o outro. Requer o paciente trabalho de ir ao encontro do outro, de abrir o próprio mundo interior para enriquecê-lo com o que Deus quiser dar-nos através dos outros. As tertúlias, ou reuniões familiares, por exemplo, nas quais cada um desenvolve a sua personalidade, constituem momentos para criar laços de autêntica amizade. Não há nelas coisas da vida dos outros – preocupações, alegrias, tristezas, interesses – que não nos toquem pessoalmente. Criar um lar com corredores luminosos e portas abertas aos outros faz parte de um processo de amadurecimento pessoal, já que “a criatura humana, na medida em que possui natureza espiritual, se realiza nas relações interpessoais. Quanto mais as vive de forma autêntica, tanto mais amadurece a própria identidade pessoal. Não é se isolando que o homem se valoriza a si mesmo, mas relacionando-se com os outros e com Deus”[12]. O homem só se explica de maneira satisfatória a si mesmo no interior do tecido social no qual desenvolve seus afetos.

CONSTRUIR UMA AMIZADE REQUER SEMPRE A PACIENTE TAREFA DE ABRIR-SE A OUTRA PESSOA

Isto acontece porque a amizade, quando procura ser autêntica, tenta não se misturar com um desejo de posse do outro. Tendo, pelo contrário, experimentado esse grande bem, sabe o que tem para oferecer para outras pessoas: uma amizade autêntica é escola de mais amizades, ensina-nos a desfrutar da companhia das outras pessoas embora, naturalmente, não se chegue a ter a mesma proximidade com todos. C. S. Lewis notava que “a verdadeira Amizade é o menos ciumento dos amores. Dois amigos ficam contentes quando chega um terceiro e três quando o quarto se reúne a eles, basta que o recém-chegado tenha as necessárias qualificações para tornar-se um verdadeiro amigo. Eles podem dizer, como as almas abençoadas dizem em Dante: "Está chegando alguém que vai ampliar o nosso amor". Pois neste tipo de amor "dividir não é remover"”[13]. Chega, inclusive, a comparar isso com a imagem que podemos fazer do céu, já que lá, cada bem-aventurado aumentará a alegria de todos, comunicando a sua singular visão de Deus aos outros.

Santo Agostinho, em suas Confissões, ao recordar com certa nostalgia um grupo de amigos, diz sem conter a emoção: “inflamavam nossas almas, como em uma centelha, fazendo de muitas uma só”[14]. Relata que o que os unia eram longas conversas acompanhadas de risadas, era o serviço mútuo com boa vontade, leitura juntos e, inclusive, os repentinos desacordos que ajudavam a colocar o foco em tudo o que tinham em comum; recorda a amarga sensação diante da ausência de algum deles, que logo se via compensada pela alegria da sua chegada. “A felicidade pessoal não depende dos sucessos que alcançamos, mas do amor que recebemos e do amor que damos”[15]; depende de sentir-nos queridos e de ter um lar, onde a nossa presença é insubstituível, lar ao qual sempre voltar, aconteça o que acontecer. É assim que São Josemaria queria que fossem as casas de seus filhos e filhas. É precisamente nesses termos que se recorda o primeiro trabalho apostólico do Opus Dei em Madri, no ano de 1936: “Se ao apartamento da rua Luchana se ia por ter sido convidado, o certo é que lá se permanecia por amizade”[16]; este é o amável vínculo que, humanamente, é capaz de manter a unidade. “Se vos amardes, cada uma de nossas casas será o lar que eu vi, o que eu quero que haja em cada um de nossos recantos. E cada um de vossos irmãos terá uma fome santa de chegar a casa, depois do dia de trabalho; e terá depois vontade de sair à rua, para a guerra santa, esta guerra de paz”[17].

Andrés Cárdenas


[1] Mercedes Montero, En vanguardia, Rialp, Madri, 2019, p. 79.

[2] São João Crisóstomo, In Matth Hom. 32,7.

[3] Mons. Fernando Ocáriz, Carta 1/11/2019, n. 14.

[4] São Josemaria, Anotações de uma reunião, 24-VI-1974.

[5] José Miguel Pero-Sanz, Isidoro Zorzano, Edições Palabra, Madri, 1996, p. 86.

[6] Ibid., p. 112-113.

[7] Ibid., p. 118.

[8] São Josemaria, Instrucción sobre la obra de San Miguel, n. 101.

[9] José Miguel Cejas, Amigos do fundador do Opus Dei, Palabra, Madri, 1992, p. 47.

[10] Joseph Ratzinger, La sal de la tierra, Palabra, Madri, 1997, p. 206.

[11] Mons. Fernando Ocáriz, Carta 1/11/2019, n. 14.

[12] Bento XVI, Carta encíclica Caritas in veritate, n. 53.

[13] C. S. Lewis, Os quatro amores, WMF Martins Fontes.

[14] Santo Agostinho, Confissões, IV, 8.

[15] Mons. Fernando Ocáriz, Carta 1/11/2019, n. 17.

[16] José Luis González Gullón, DYA, Rialp, Madri, 2016, p. 196.

[17] Crônica 1956, VII, p. 7.

Fonte: https://opusdei.org/pt-br/article/chamei-vos-amigos-4-o-melhor-seguro-de-vida/

A santidade de João Luiz Pozzobon

João Luiz Pozzobon: A santificação do trabalho (Schoenstatt)

A SANTIDADE DE JOÃO LUIZ POZZOBON

Dom Leomar Brustolin
Arcebispo de Santa Maria (RS)

No dia 6 de março de 2025, a Comissão Teológica da Santa Sé emitiu, de forma unânime, parecer favorável ao reconhecimento das virtudes heroicas e da fama de santidade do Servo de Deus João Luiz Pozzobon. Essa decisão representa não apenas um passo significativo no processo de sua beatificação, mas reforça a relevância de sua trajetória de fé e serviço no contexto da espiritualidade cristã contemporânea, em plena sintonia com os ensinamentos da Gaudete et Exsultate, Exortação Apostólica do Papa Francisco sobre o chamado universal à santidade. Neste documento, o Pontífice afirma que a santidade se manifesta, sobretudo, na vivência cotidiana, por meio de gestos concretos de amor, cuidado e compromisso com o próximo. À luz dessa visão, a vida e obra de Pozzobon representam um testemunho luminoso de santidade encarnada na simplicidade e no serviço. 

Nascido em 1904, em São João do Polêsine (RS), João Luiz Pozzobon destacou-se desde jovem por sua profunda espiritualidade e dedicação à vida eclesial. Homem de origem humilde e com formação escolar limitada, consagrou sua vida à difusão da fé e à promoção da devoção mariana, especialmente por meio da Campanha da Mãe Peregrina de Schoenstatt. Essa missão uniu evangelização e ação social, oferecendo não apenas apoio espiritual, mas também auxílio às populações mais vulneráveis. 

Sua atuação como leigo e, posteriormente, como diácono permanente ilustra de forma paradigmática a concepção de santidade apresentada na Gaudete et Exsultate. Para o Papa Francisco, a santidade se expressa no ordinário da existência, na perseverança nas pequenas tarefas, no cuidado amoroso e na disponibilidade para servir. Pozzobon encarnou esse ideal ao percorrer milhares de quilômetros levando a imagem da Mãe Rainha às famílias, escolas e comunidades, promovendo a oração, fortalecendo os vínculos comunitários e alimentado a fé popular. Sua missão, marcada pela proximidade e pela escuta atenta, ressignifica o papel do evangelizador como aquele que, inspirado pelo Espírito Santo, torna-se presença concreta da misericórdia De Deus na vida das pessoas. 

O legado espiritual de Pozzobon baseia-se na convicção de que a santidade é possível a todos – independentemente da classe social, do grau de instrução ou da função da Igreja. Ao assumir com humildade e generosidade a missão confiada, ele demonstrou que o seguimento de Cristo se realiza na entrega diária e silenciosa, fiel ao Evangelho e atento às necessidades dos irmãos. Como recorda o Papa Francisco, ser santo é tornar-se expressão da misericórdia divina no mundo. Nesse aspecto, Pozzobon se destacou ao dedicar-se à acolhida de desabrigados, à reintegração de pessoas afastadas da vida sacramental e ao fortalecimento da fé nas comunidades por onde passou. 

Além disso, sua trajetória revela que a santidade é um caminho dinâmico e contínuo de conversão. Conforme recorda Gaudete et Exsultate, o processo de santificação envolve crescimento espiritual e superação pessoal constantes. Pozzobon, embora sujeito às fragilidades humanas, buscou conformar-se a Cristo, perseverando com zelo, simplicidade e humildade na missão que abraçou. 

A vida de João Luiz Pozzobon oferece à Igreja de hoje um modelo concreto de santidade vivida no mundo, em meio aos desafios e limitações do cotidiano. Seu testemunho encoraja os fiéis a abraçar, com confiança e simplicidade, a vocação universal à santidade, promovendo a cultura do encontro e do serviço fraterno como expressões genuínas do amor cristão. 

Por fim, permanece a oração da comunidade eclesial para que, sob a condução do Espírito Santo, a Igreja continue o processo de reconhecimento oficial da santidade de João Luiz Pozzobon. Seu exemplo, atual e inspirador, continua a iluminar o caminho daqueles que buscam viver o discipulado fiel no tempo presente. 

Fonte: https://www.cnbb.org.br/

De Mendonça: Teilhard de Chardin, uma das figuras mais fascinantes do século XX

Teilhard de Chardin (Vatican News)

O prefácio do cardeal prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação ao livro de Mercè Prats, publicado pela Livraria Editora Vaticana, que, por meio de pesquisas em vários arquivos, traça uma biografia aprofundada do famoso jesuíta francês, teólogo e paleontólogo, cujo pensamento continua a “inspirar” gerações inteiras de pensadores e crentes.

Publicamos o prefácio do cardeal José Tolentino de Mendonça, prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação, ao livro de Mercè Prats “Pierre Teilhard de Chardin. Uma biografia” (Livraria Editora Vaticana, Cidade do Vaticano 2025, páginas 408), disponível nas livrarias a partir de segunda-feira, 31 de março. Resultado de um trabalho historiográfico que durou vários anos, baseado em pesquisas aprofundadas em vários arquivos, como o Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé, da Província francesa da Companhia de Jesus e da Universidade de Georgetown, em Washington, o trabalho de Mercè Prats é a biografia mais completa e documentada do famoso jesuíta, teólogo e paleontólogo. Para redigir esse poderoso ensaio biográfico, a autora se baseou em muitos materiais inéditos e reconstruiu a vida de Teilhard de Chardin também graças a suas numerosas cartas: basta dizer que somente a biografia citada no texto publicado pela LEV consiste em nada menos que 63 páginas.

Por José Tolentino de Mendonça

Pierre Teilhard de Chardin é uma das figuras mais fascinantes e complexas do pensamento do século XX. Sua obra, que se encontra na intersecção entre ciência, teologia e filosofia, representa uma tentativa ousada de integrar a evolução cósmica com uma visão espiritual do universo. Em sua vida e em seus escritos, surge uma síntese original que desafia as dicotomias tradicionais entre fé e razão, natureza e espírito, tempo e eternidade. Este volume se propõe a explorar o pensamento de Teilhard em profundidade, oferecendo uma perspectiva penetrante sobre seu legado intelectual e espiritual.

Mercè Prats, professora e documentarista da Fondation Teilhard de Chardin, é conhecida pelos acadêmicos por ter conseguido reconstruir a circulação clandestina dos escritos do pensador jesuíta francês. Ela consultou arquivos até então inacessíveis, reconstruindo a transmissão em estilo cíclico de seus textos. Esses escritos, que frequentemente apresentavam perspectivas teológicas inovadoras e, às vezes, controversas, foram copiados e distribuídos de forma privada durante décadas, alimentando uma rede de leitores e apoiadores.

O que torna este volume particularmente original em comparação com outros estudos sobre Teilhard de Chardin é também a abordagem inovadora e interdisciplinar adotada pela autora. Prats não apenas examina as ideias de Teilhard em seu contexto histórico e filosófico, mas também as relê à luz dos desafios do mundo contemporâneo. Essa capacidade de dialogar com questões atuais, como a crise ecológica, a globalização e a busca de significado espiritual na era tecnológica, confere ao seu trabalho uma relevância e um frescor extraordinários.

Outra característica distintiva do texto de Prats é sua capacidade de tornar conceitos complexos do Teilhardi acessíveis a um público amplo. Por meio de um estilo claro e envolvente, a autora consegue traduzir as profundas intuições de Teilhard em uma linguagem compreensível sem sacrificar sua profundidade.

Teilhard de Chardin foi um jesuíta, um paleontólogo e um místico. Sua vida foi marcada por uma busca incessante de significado, alimentada tanto pela observação científica quanto pela contemplação espiritual. Nascido em 1881 na França, ele cresceu em um ambiente rico em estímulos culturais e espirituais. Sua formação jesuíta lhe proporcionou uma sólida base teológica, enquanto seu trabalho como cientista o colocou frente a frente com as grandes questões da evolução e da natureza do homem. A fé e a ciência moldaram seu pensamento, que se distingue por sua capacidade de integrar diferentes perspectivas em uma visão de mundo unificada.

O ponto central do pensamento de Teilhard é a ideia de que o universo está evoluindo constantemente em direção a uma maior complexidade e a uma consciência mais profunda. Essa “teologia da evolução”, como foi frequentemente chamada, é uma de suas percepções mais originais e provocativas. Para Teilhard, a evolução não é simplesmente um processo biológico, mas um movimento cósmico que envolve toda a criação. O universo, em sua visão, é animado por uma força interna que o conduz ao ponto ômega, um termo cunhado por Teilhard para denotar o ápice da evolução, onde a consciência humana e a divina se unem em harmonia.

O pensamento de Teilhard - como Mercè Prats ilustra muito bem - provocou muitos debates, tanto na comunidade científica quanto no âmbito teológico. Por um lado, sua visão da evolução como um processo intrinsecamente orientado para o transcendente levantou questões sobre a compatibilidade de suas ideias com a teoria darwiniana. Por outro lado, sua ousadia em reinterpretar a fé católica à luz das descobertas científicas provocou reações contrastantes dentro da Igreja. Apesar das controvérsias, ou talvez por causa delas, seu pensamento continua exercendo uma profunda influência, inspirando novas gerações de pensadores e fiéis.

O Papa Francisco recordou a figura de Teilhard em setembro de 2023, durante sua viagem à Mongólia, no vizinho deserto de Ordos, exatamente onde, cem anos antes, o jesuíta rezou sua famosa “Missa sobre o mundo”. Francisco pronunciou as palavras dessa oração e depois disse: “Esse padre, muitas vezes incompreendido, intuiu que ‘a Eucaristia é sempre celebrada, em certo sentido, no altar do mundo’ e é ‘o centro vital do universo, o centro transbordante de amor e de vida inesgotável’, mesmo em uma época como a nossa, de tensões e de guerras”. Dessa forma, Francisco quis comemorar e enaltecer a figura desse pensador cristão a quem o então Santo Ofício impôs um Monitum em 1962, mas que também foi citado por vários Pontífices ao longo do tempo.

Um aspecto particularmente significativo do pensamento de Teilhard, que Prats explora com grande sensibilidade, é seu profundo otimismo. Em uma época em que o progresso é frequentemente associado a riscos e perigos, Teilhard nos convida a ver a evolução não apenas como uma fonte de conflito, mas também como uma oportunidade de crescer como espécie e como indivíduos. Seu otimismo não é ingênuo, mas está radicado em uma profunda confiança na capacidade do homem de colaborar com as forças criativas do universo.

Outra contribuição significativa de Teilhard é sua reflexão sobre o amor como uma força cósmica. Para Teilhard, o amor não é apenas um sentimento ou uma virtude moral, mas uma força fundamental que guia a evolução em direção a uma maior união e complexidade. Esse aspecto de seu pensamento, que Prats desenvolve com grande profundidade, oferece uma nova perspectiva sobre a natureza do amor e seu papel em nossa vida pessoal e coletiva.

O volume de Mercè Prats é uma contribuição importante não apenas para os estudiosos de Teilhard de Chardin, mas também para qualquer pessoa interessada em refletir sobre as grandes questões da existência. A capacidade da autora de tornar conceitos complexos acessíveis e de entrelaçar o pensamento de Teilhard com os desafios de nosso tempo faz deste livro uma leitura desafiadora, porém importante.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

sexta-feira, 28 de março de 2025

Carlo Acutis escolheu o Brasil, diz padre, sobre as ligações do futuro santo com o país

Beato Carlo Acutis | Associação Carlo Acutis

Por Natalia Zimbrão*

28 de mar de 2025 às 12:31

“Eu penso que o Carlo escolheu o Brasil”, disse à ACI Digital o padre Marlon Múcio, de Taubaté (SP), ao citar vários fatores que ligam o futuro santo ao Brasil. O milagre da beatificação de Carlo Acutis, por exemplo, aconteceu em Campo Grande (MS). E no dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. Para o sacerdote, “o Carlo é muito brasileiro”, embora nunca tenha visitado o país.

Carlo Acutis será canonizado em 27 de abril, no Jubileu dos Adolescentes, no Vaticano, depois do reconhecimento de um segundo milagre por sua intercessão: a cura de Valeria Valverde, de 21 anos, da Costa Rica, que estava perto da morte depois de ferir gravemente a cabeça em um acidente de bicicleta em 2022.

Ele foi beatificado em 10 de outubro de 2020, depois do reconhecimento da cura milagrosa do brasileiro Matheus Vianna, de Campo Grande, que sofria de uma malformação congênita conhecida como pâncreas anular.

Para o padre Marlon Múcio, a história do milagre da beatificação é um dos elementos que ligam Carlo ao Brasil.

“Primeiro, o milagre para a beatificação dele aconteceu numa festa de Nossa Senhora Aparecida, numa comunidade dedicada à Nossa Senhora Aparecida, onde o padre, conhecendo o Carlo, expôs a relíquia e pediu para os fiéis pedirem graças, milagres”, disse o padre Marlon. “Depois, o dia litúrgico do Carlo passa a ser o dia de Nossa Senhora Aparecida”, 12 de outubro, dia em que Carlo Acutis morreu, em 2006.

O milagre da beatificação aconteceu em 2013, na capela de Nossa Senhora Aparecida, pertencente à paróquia de São Sebastião. Matheus Vianna, então com três anos, foi levado pelo avô e recebeu uma bênção do pároco, padre Marcelo Tenório, com a relíquia de Carlo.  Depois disso, ficou curado.

O padre Fábio Vieira, de Corumbá (MS), que viveu com a família de Carlo durante um ano e é um dos maiores propagadores da devoção ao futuro santo no Brasil, contou à ACI Digital que ele e padre Marcelo estiveram na Itália em 2012 e conheceram a família Acutis. “Ele trouxe uma relíquia e eu trouxe outra. Todo 12 de outubro, eu fazia em Corumbá uma missa votiva ao Carlo para dar a bênção às crianças e ele em Campo Grande”, disse, destacando que foi em um desses momentos que aconteceu o milagre.

Para o padre Marlon Múcio, “o Carlo escolheu, de fato, o Brasil e os céus confirmaram. Essas coincidências de Deus nas ocasiões de Nossa Senhora Aparecida mostram a ligação que nós temos no céu e na terra”.

Nossa Senhora Aparecida talvez fosse uma das poucas coisas que Carlo conhecia do Brasil. Segundo o padre Fábio Vieira, o futuro santo não visitou o país, somente o pai dele, Andrea Acutis, que foi a Manaus (AM) a trabalho. “O que Carlo fez em relação ao Brasil foi uma pesquisa sobre Nossa Senhora Aparecida”, em uma pesquisa sobre as aparições de Nossa Senhora no mundo, que culminou em uma exposição sobre o tema.

“De um modo geral, ele conhecia o futebol, como todo jovem, e Nossa Senhora Aparecida”, disse padre Fábio. “Se ele tinha alguma coisa mais afetiva, ficou no coração dele, ele nunca veio ao Brasil. E tudo foi acontecendo aqui depois”.

O padre Marlon Múcio destacou que há outra ligação entre Carlo Acutis e o Brasil no local onde está o túmulo do futuro santo, o santuário do Despojamento, em Assis, Itália.

As Irmãs Missionárias Capuchinhas, congregação fundada pelo venerável frei João Pedro de Sexto São João, em 1904, em Belém (PA), têm uma missão em Assis, a fraternità Chiara d’Assisi, que fica no santuário do Despojamento. Atualmente, estão nessa missão as religiosas brasileiras Francisca Erineuda Bento e Vanda Monteiro, além da moçambicana Clara Lourenço. Elas cuidam do santuário e acolhem diariamente peregrinos de todo o mundo que querem visitar o túmulo de Carlo Acutis.

No Brasil, está a primeira paróquia universitária do mundo dedicada ao beato Carlo Acutis, que pertence à diocese de Santo Amaro (SP) e fica dentro do Centro Universitário Católico Ítalo Brasileiro. A paróquia foi erigida em 25 de janeiro de 2023 e tem uma relíquia de primeiro grau de Carlo, doada pela mãe dele, Antônia Salzano.

Para o padre Fábio Vieira, a devoção a Carlo Acutis “foi do Brasil para o mundo”. “O Brasil abraçou”, disse à ACI Digital. “Agora, se a gente for querer fazer um caminho racional para entender por que, nós não vamos chegar. Se a gente for pelo caminho da graça, nós vamos ter, mais ou menos, um encontro com os sinais”, disse.

“A devoção ao Carlo começou no Brasil de uma forma muito anônima, muito pequena, aqui no Mato Grosso do Sul. E de repente, foi um boom”, disse o padre.

“Nem lá em Assis se sabia que aquele jovem candidato a santo estava sepultado lá. Nem a Itália sabia. Falo isso porque tantas vezes passei nas ruas de Assis com dona Antonia [Salzano, mãe de Carlo] e ninguém sabia nem quem era. Dona Antonia andava na rua tranquilamente. Depois da beatificação, tudo mudou, ela não pode sair na rua”, acrescentou.

Segundo o sacerdote, depois da beatificação, em 2020, a devoção começou a se espalhar. “E coincidiu que eu estava lá [na casa da família Acutis, na Itália] e comecei a criar o apostolado no Brasil”.

“Quando eu estava lá recebia muitos e-mails, cartas do Brasil pedindo relíquias. Dos outros países quase não chegava. Do Brasil, as caixas de e-mail da associação estouravam”, contou.

Para o sacerdote, todas essas ligações entre o Brasil e Carlo Acutis são “o Brasil protagonizando uma grande ação do Espírito Santo para o mundo através de um jovem”.

O padre Fábio destacou que o Brasil é um país “de grande maioria jovem” e o Carlo Acutis “caiu no encantamento da juventude”. “No Nordeste principalmente, você não tem noção o que é o Nordeste com o Carlo Acutis”, disse o padre, que no último carnaval participou de um retiro em Campina Grande (PB), com “80 mil pessoas”, das quais muitos eram jovens e ficaram “em um silêncio” para ouvi-lo falar sobre Carlo.

Para o sacerdote, o que atrai os jovens brasileiros em relação ao Carlo Acutis, “no primeiro momento”, é “a imagem” dele, “a beleza”, porque “nós vivemos num mundo imagético”. “É o que eu vejo que vai me atrair, principalmente para os jovens. O que eles buscam nos outros? O que eles buscam nas coisas? Eles buscam beleza”, disse.

“Estamos acostumados com o santo de batina, o santo de hábito, de um outro estilo, os padres consagrados que se santificaram. De repente, um jovem que se veste como os jovens dos nossos tempos e que se tornou santo”, destacou.

Mas, o sacerdote ressaltou que, “mais do que a beleza física do Carlo, é a sua beleza interior, a sua beleza transcendental, que vem depois”.

Para o padre Fábio, a beleza física que atrai os jovens em relação ao Carlo “não é uma beleza isolada”, mas sim um aspecto que chama a atenção e, em seguida, leva os jovens a “buscarem conhecer, saber, pesquisar quem é”.

A partir daí, descobrem que “Carlo é a beleza prefigurada da santidade, do amor, do bem, de tanta coisa bonita”.

Nathália Queiroz colaborou com esta matéria.

*Natalia Zimbrão é formada em Jornalismo pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É jornalista da ACI Digital desde 2015. Tem experiência anterior em revista, rádio e jornalismo on-line.

Fonte: https://www.acidigital.com/noticia/61925/carlo-acutis-escolheu-o-brasil-diz-padre-sobre-as-ligacoes-do-futuro-santo-com-o-pais

O milagre do perdão e como ele pode salvar seu casamento

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Frei Nelson Medina OP - publicado em 27/05/21 - atualizado em 28/03/25

Uma das histórias mais lindas e emocionantes sobre o poder do amor no casamento.

Uma mulher que se dava muito mal com seu marido sofreu uma parada cardíaca. Quase a ponto de morrer, um anjo lhe apareceu para dizer-lhe que, avaliando suas boas ações e seus erros, ela não poderia entrar no céu; e lhe propôs continuar na terra por mais alguns dias, até conseguir cumprir as boas ações que lhe faltavam.

A mulher aceitou o trato e voltou para casa junto ao seu esposo. O homem nem falava mais com ela há um bom tempo, pois realmente estavam brigados.

Ela pensou:

– É conveniente que eu faça as pazes com este homem. Ele está dormindo no sofá. Ele está dormindo no sofá, faz tempo que parei de cozinhar para ele. Hoje ele vai passar sua camisa para ir trabalhar, mas vou lhe fazer uma surpresa.

Quando o homem sair de casa para trabalhar, ela começou a lavar e passar toda a roupa dele. Preparou um delicioso almoço, colocou flores na mesa e um cartão no sofá, que dizia: “Acho que você se sentiria mais confortável dormindo na cama que foi nossa, essa cama na qual o amor concebeu nossos filhos, na qual muitas vezes os abraços cobriram nossos medos e sentimos a proteção e companhia um do outro. Este amor, ainda vivo, nos espera nessa cama. Se você puder perdoar todos os meus erros, podemos nos encontrar lá. Sua esposa”.

Quando terminou de escrever a última linha do cartão, pensou:

– Será que eu fiquei louca? Vou pedir perdão, sendo que foi ele quem começou a vir para casa bravo quando ficou desempregado? Eu que tive de fazer malabarismos com minhas poucas economias, e ainda tinha que aguentar sua cara fechada. Ele começou a beber, a ficar jogado no sofá, exigindo silêncio das crianças, que só queriam brincar; começou a gritar comigo quando lhe disse que não poderíamos continuar assim e que precisávamos de dinheiro para nossos filhos. Ele arruinou tudo, e agora eu tenho que pedir perdão?

Enfurecida, rasgou o cartão, mas logo depois ouviu a voz do anjo, que dizia:

– Lembre-se: com algumas boas ações, você chegará ao céu; do contrário, não poderá entrar.

Então, a mulher refletiu:

– Será que vale a pena?

Ela resolveu reescrever o cartão, acrescentando palavras ainda mais carinhosas:

“Eu não soube compreender nada naquela época, não soube ver sua preocupação ao ficar desempregada, depois de tantos anos com o salário seguro daquela fábrica. Você deve ter sentido tanto medo! Agora me lembro dos seus sonhos para a nossa aposentadoria, de todas as coisas que você gostaria de ter feito. Eu poderia ter motivado você a fazer tudo isso, ao invés de obrigá-lo a aceitar ficar o dia todo sentado nesse táxi. Eu não soube ver a sua dor, seu medo e sua angústia. Por favor, perdoe-me, meu amor. Prometo que de hoje em diante tudo será diferente. Eu te amo. Sua esposa.”

Quando o marido voltou do trabalho, ao abrir a porta de casa, reparou em algo diferente: o cheiro da comida, as velas na mesa, sua música favorita tocando suavemente e o cartão no sofá. Quando a mulher saiu da cozinha com a panela na mão, encontrou-o no sofá chorando como uma criança. Foi correndo abraçá-lo e não precisaram dizer nada, apenas choraram juntos. Ele a pegou no colo e a levou até a cama; fizeram amor com a mesma paixão do primeiro dia. Depois jantaram a deliciosa comida que ela havia preparado, riram muito recordando velhas histórias das crianças fazendo travessuras na casa.

Ele a ajudou a recolher as coisas da mesa e, enquanto ela lavava a louça, viu pela janela da cozinha que o anjo estava no jardim. Foi chorando ao seu encontro e lhe disse:

– Por favor, anjo, interceda por mim. Não quero deixar meu marido sozinho. Preciso de mais tempo para poder motivá-lo e reconstruir nosso casamento. Prometo que, em pouco tempo, ele estará feliz e seguro, e então poderei ir para onde você quiser me levar.

O anjo respondeu:

– Eu não preciso levá-la a lugar algum. Agora você já sabe onde e como o céu começa. Lembre-se do inferno no qual você estava vivendo e nunca se esqueça de que o céu está muito perto.

A mulher ouviu a voz do seu marido que, da cozinha, dizia-lhe:

– Meu amor, está frio, venha deitar, amanhã será outro dia.

– Sim, pensou ela, graças a Deus, amanhã será outro dia.

Fonte: https://pt.aleteia.org/2021/05/27/o-milagre-do-perdao-e-como-ele-pode-salvar-seu-casamento-do-inferno

Caridade: amar com o amor de Cristo!

Caridade é querer bem ao outro (Catequizar)

CARIDADE: AMAR COM O AMOR DE CRISTO!

Dom Carlos José
Bispo de Apucarana (PR) 

“É agora o momento favorável, é agora o dia da salvação”. (2Cor 6,1-2) 

O período quaresmal é o tempo favorável para nos indagarmos: como cumpro os mandamentos de Deus? Para onde a minha vivência pessoal e comunitária está me levando? Rever os próprios passos, examinar atitudes pessoais e comunitárias é essencial para chegarmos à Páscoa  renovados na fé e nas atitudes.

Na Quaresma nos é dada a oportunidade de vivermos um verdadeiro retiro espiritual, onde, sob a unção do Espírito Santo, possamos nascer de novo para uma vida mais santa. Entre o saber o que devemos fazer e a pratica dessas atitudes há que se dar um passo corajoso para mudança de hábitos. Jesus nos ensina a prática da caridade e faz dela, a caridade, um novo mandamento de amor! Ele, o Filho de Deus, nos manifesta, caridosamente, o Amor do Pai que Ele recebeu! E, nos diz: “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei” (Jo 15,12).

A caridade é fruto do Espírito Santo e da plenitude da lei. “A caridade é paciente, prestativa e não é invejosa, não se ostenta nem se incha de orgulho. A caridade não procura seus próprios interesses e não guarda rancor. A caridade tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1Cor 13,4-7).

A prática da Caridade implica em fazer ao outro o que gostaríamos que fizessem conosco. Não é apenas dar algo ao outro, mas é dar-se ao outro! É olhar para o próximo, entender quais são suas necessidades:  materiais ou espirituais? É muito fácil dar algo: um dinheiro, uma comida ou roupas, porém, o mais difícil é dar nosso tempo, nossa palavra e um pouco de aconchego.

Caridade é olhar nos olhos do mais necessitado e, com amor, dar-lhe um pouco de nossa essência. Ao olharmos para Jesus na Cruz, vemos que Ele se deu por inteiro a todos, Ele não selecionou alguns para serem beneficiados pela sua morte! Porque então, nós deveríamos escolher a quem ajudar?

Quaresma é tempo de renovação, de autoavaliação e discernimento. O que eu aprendi de jesus, eu coloco em prática? Ou simplesmente doo o que me sobra para aliviar minha consciência? Aprender e exercitar a prática da caridade neste tempo quaresmal, nos fará chegarmos à Pascoa definitiva, à vida eterna, com as mãos carregadas daquilo que ofertamos aqui, aos nossos irmãos. 

A oração, o jejum, a penitência e a caridade são meios de crescimento espiritual e conversão. Olhemos para a Quaresma como uma excelente oportunidade de purificação interior, para que façamos escolhas que favoreçam a obra que Deus quer realizar em nós e através de nós. “Para onde irei, longe do vosso Espírito? Para onde fugir, apartado de vosso olhar? ”  (Sal 138, 7). Caminhamos para onde dirigimos nossos passos. Que a Virgem Maria, Mãe de Lourdes e  Senhora da Quaresma interceda por nossa conversão. 

Fonte: https://www.cnbb.org.br/

Pasolini: o amor de Deus não é imposição, mas liberdade no Espírito

O pregador da Casa Pontifícia, frei Roberto Pasolini   (Vatican Media)

Na manhã desta sexta-feira (28/03), na Sala Paulo VI, a segunda das quatro meditações para a Páscoa, realizada pelo pregador da Casa Pontifícia, frei Roberto Pasolini, e aberta a todos. O tema da “liberdade no Espírito” foi central: Cristo é profundamente livre porque nunca exige nada de ninguém e salva o mundo com verdade e amor. A alegria pelo retorno do Papa à Casa Santa Marta, após longa internação no Hospital Gemelli de Roma.

https://youtu.be/LGoF0KjfNcc

Isabella Piro - Vatican News

"Hoje a nossa saudação ao Santo Padre quase poderia chegar até ele, porque está aqui, perto de nós, mesmo que não possa estar conosco fisicamente. Mas estamos todos muito felizes pelo seu retorno à casa“: foi assim que o capuchinho Roberto Pasolini iniciou na manhã desta sexta-feira, 28 de março, na Sala Paulo VI, a segunda das quatro pregações quaresmais, abertas a todos, sobre o tema ”Ancorados em Cristo. Enraizados e fundamentados na esperança da Vida Nova".

Leia aqui o texto integral em italiano e inglês

Cristo é livre da tentação da onipotência

Depois da primeira reflexão, em 21 de março, centrada em “Aprender a receber - A lógica do Batismo”, nesta sexta-feira (28/03) o pregador da Casa Pontifícia se detém em “Ir para outro lugar - A liberdade no Espírito” e traça alguns episódios da vida pública de Jesus, nos quais se manifesta a sua profunda liberdade e o seu modo de levar a salvação ao mundo. Fiel à sua missão, de fato, Cristo é livre da tentação da onipotência e, através da oração, desmascara o risco de confundir o serviço autêntico com a busca de reconhecimento pessoal.

Não confiar imediatamente

A esse respeito, o frei Pasolini indica três ensinamentos do Filho de Deus: não confiar imediatamente, saber decepcionar e não exigir. Para explicar o primeiro, o pregador se refere a uma passagem do Evangelho de João (2, 23-25) na qual se narra como Jesus, embora seja aclamado por muitos em Jerusalém, não confia neles, porque “sabia o que havia no homem”. Essa reação de desapego, enfatiza o padre capuchinho, desorienta ainda hoje, em uma época em que o individualismo e a competição desenfreada dominam, e a necessidade de ser continuamente apreciado impulsiona a busca constante de likes e notificações.

O frágil coração do homem

Mas é justamente desse tipo de reconhecimento rápido e superficial que Cristo permanece distante, pois Ele sabe que o coração do homem, embora seja a morada do espírito e da voz de Deus, é também extremamente frágil, manipulável, inconstante, temeroso. Como Mestre, continua o pregador da Casa Pontifícia, Jesus espera do homem uma resposta mais consciente e madura. Um crescimento, em suma, que não represente um processo evolutivo mecânico, mas sim a capacidade de avaliar as circunstâncias e de saber administrar a complexidade das relações. Porque as coisas importantes exigem tempo, paciência, compromisso e dedicação. Portanto, o que aparece em Jesus como um frio desapego, enfatiza o frei Pasolini, na realidade é sabedoria e profundo respeito por si mesmo e pelos outros.

O pregador da Casa Pontifícia, frei Roberto Pasolini   (Vatican Media)

Saber decepcionar

O segundo ensinamento de Cristo refere-se, em vez disso, à capacidade de saber decepcionar às expectativas. Para analisar esse tema, o frei Pasolini toma como ponto de partida uma passagem do evangelista Mateus (15, 23b-24) na qual uma mulher pagã clama ao Senhor para curar a filha. No entanto, Ele “não lhe dirige sequer uma palavra”, nem a caridade de um olhar. A aparente insensibilidade de Jesus diante do sofrimento, explica o pregador, deriva do fato de que Cristo não segue os passos do Salvador para se sentir importante e não tem medo de ser irrelevante aos olhos dos outros. Pelo contrário: paradoxalmente, Ele salva o mundo precisamente porque não precisa se sentir necessário, mas sempre e somente útil.

A indiferença pedagógica de Jesus

Quando a mulher pagã insiste e se aproxima de Cristo de forma obstinada e corajosa, sem se fechar em seu orgulho e vitimismo, então Ele reconhece a grande fé, aquela - enfatiza o pregador - capaz de esperar que as coisas possam mudar para melhor. A aparente indiferença de Jesus, então, nada mais é do que uma pedagogia que traz à tona a confiança no coração do homem, a confiança em uma vida melhor.

A esperança que traz paz

O terceiro e último ensinamento de Cristo é sua capacidade de se distanciar do consenso das multidões. Um exemplo disso é o episódio da multiplicação dos pães e peixes, narrado no Evangelho de João (6, 14). Um evento que desperta muito entusiasmo entre as pessoas presentes; no entanto, Jesus se distancia dele, retirando-se para segundo plano, sozinho. Porque Ele conhece - ressalta o frei Pasolini - a fragilidade interior do homem, que se considera insignificante e é manipulado por todos os tipos de influências e de influencers, em vez de enfrentar o esforço de acreditar em si mesmo. Jesus retorna aos discípulos somente mais tarde, quando eles estão em apuros, arrastados por uma tempestade enquanto atravessam o Mar da Galileia. Uma tempestade que representa - destaca o padre capuchinho - todos os medos do homem e sua incapacidade de reconhecer a força escondida na fragilidade. No entanto, mesmo nas noites mais escuras, Jesus é a esperança que nunca decepciona e que acalma a tempestade e traz paz.

A segunda pregação de Quaresma na Sala Paulo VI   (VATICAN MEDIA Divisione Foto)

A importância da liberdade interior

Quando Cristo explica o profundo significado da multiplicação dos pães e peixes, ou seja, o significado do alimento que leva à vida eterna por meio da doação de si mesmo, muitos de seus discípulos o abandonam. Nesse momento, Jesus pergunta aos Doze, aos seguidores mais próximos: “Vocês também não querem ir?” E essa pergunta, diz o frei Pasolini, não é irônica ou chantagista, porque Jesus não precisa de confirmação para continuar seu caminho e não perde a direção de sua escolha de vida. Pelo contrário, sua pergunta é o espelho de uma profunda liberdade interior que não pede a ninguém, a não ser a si mesmo, o preço do próprio desejo.

Não se fechar nas complacências inúteis

Esse aspecto, continua o pregador, também é evidente nas modalidades verbais recorrentes nos Evangelhos, nos quais há uma mudança gradual do imperativo para o hipotético, de modo a colocar no centro as exigências de uma escolha, de um amor livre e consciente. O Senhor, de fato - acrescenta o frei Pasolini -, não pretende ter sempre filhos prontos e dispostos a fazer a sua vontade; ao contrário, Ele se preocupa se esses filhos não são livres para expressar os próprios sentimentos, acabando fechados no recinto de complacências inúteis, escravos de si mesmos e das expectativas dos outros. Ter a coragem de expressar sinceramente os próprios desejos, por outro lado, abre para uma vida melhor e aproxima do Reino de Deus. Porque a verdade e o amor não precisam se impor, conclui o pregador da Casa Pontifícia, mas sabem esperar que as coisas amadureçam, em plena adesão e liberdade. E é assim que Cristo salva o mundo.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

quinta-feira, 27 de março de 2025

EDITORIAL: Aquela praça vazia e o pastor em sintonia com o mundo

A praça vazia e o pastor (Vatican Media)

Há cinco anos da Statio Orbis para a oração em tempos de pandemia

Andrea Tornielli

Cinco anos se passaram desde que o Papa Francisco, sozinho, caminhava até o sagrado da Basílica de São Pedro. Chovia naquela noite. A praça estava dramaticamente vazia, embora milhões de pessoas em todo o mundo estivessem sintonizadas com ele, grudadas em suas telas de TV, ainda presas na longa quarentena de lockdown, com medo do vírus invisível que estava colhendo tantas vítimas e levando-as para as unidades de terapia intensiva dos hospitais, sem que seus parentes pudessem vê-las, saudá-las ou até mesmo celebrar as exéquias.

Com aquele gesto, com aquela oração e, depois, com a missa diária na capela de Santa Marta, o Sucessor de Pedro se fez próximo de todos. Havia incluído todos no abraço da praça vazia, na bênção com o Santíssimo, no simples gesto de beijar os pés do crucifixo que parecia lacrimejar por estar exposto às intempéries do clima inclemente de uma noite de início de primavera. “Estava em contato com as pessoas. Não estive sozinho em nenhum momento...”, contaria o Papa algum tempo depois. Só, mas não sozinho. Em oração por um mundo perdido. Uma imagem poderosa, inesquecível que marcou o pontificado.

Naquela ocasião, Francisco disse, dirigindo-se a Deus: “chamas-nos a aproveitar este tempo de prova como um tempo de decisão. Não é o tempo do teu juízo, mas do nosso juízo: o tempo de decidir o que conta e o que passa, de separar o que é necessário daquilo que não o é. É o tempo de reajustar a rota da vida rumo a Ti, Senhor, e aos outros”. Nos meses seguintes, teria repetido que “de uma crise nunca se sai como antes, nunca. Saímos melhores ou piores”. 

Cinco anos depois, olhando ao redor, é impossível afirmar que saímos melhores, com um mundo dilacerado pela violência dos senhores da guerra, que pensa em rearmamento em vez de combater a fome.

Não estamos mais em quarentena, e agora a situação se inverteu: a praça está cheia de pessoas que celebram o Jubileu, e quem não está lá agora é o bispo de Roma, que reza por nós e pela paz do seu quarto na Santa Marta, recuperando-se de uma grave pneumonia. Mas aquela harmonia não foi quebrada. E as suas palavras da época são mais atuais do que nunca: ainda hoje, especialmente hoje, é “tempo de escolher o que conta e o que passa”.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

A educação no "De Magistro" e a atualidade da pedagogia de Santo Tomás de Aquino

De Magistro (Facebook)

A EDUCAÇÃO NO "DE MAGISTRO" E A ATUALIDADE DA PEDAGOGIA DE SANTO TOMÁS DE AQUINO 

Dom João Santos Cardoso
Arcebispo de Natal (RS)

A leitura atenta do De Magistro, de Santo Tomás de Aquino, permite redescobrir a profundidade e a atualidade do pensamento tomasiano para a educação, superando preconceitos e lacunas que ainda marcam muitos manuais de Filosofia da Educação. Com frequência, o papel pedagógico de Santo Tomás é negligenciado ou reduzido a um breve apontamento histórico, inserido no contexto da escolástica e da relação entre fé e razão. Contudo, suas contribuições pedagógicas merecem reconhecimento próprio, sobretudo por seu rigor filosófico e clareza antropológica, que oferecem bases sólidas para uma filosofia da educação centrada na dignidade e na estrutura do ser humano. 

Embora não tenha escrito um tratado sistemático sobre educação, o De Magistro — conjunto de artigos da questão 11 do De Veritate — revela com profundidade o pensamento de Aquino sobre o ensino e a aprendizagem. Ao utilizar o método da quaestio disputata, típico da escolástica, Santo Tomás desenvolve reflexões em que debate com honestidade as posições contrárias e expõe sua própria solução, oferecendo um modelo exemplar de diálogo filosófico e acadêmico. 

Um dos principais méritos do De Magistro é sua antropologia unitária, que supera o dualismo corpo-alma herdado do platonismo. Contra as correntes que viam o corpo como obstáculo para o conhecimento e que concebiam a alma como possuidora de ideias inatas, Tomás, inspirado em Aristóteles, afirma que o ser humano é uma unidade substancial de corpo e alma. O conhecimento, nesse contexto, não é reminiscência de verdades preexistentes, mas processo dinâmico que se inicia pelos sentidos e culmina na abstração intelectual, mediante a atuação das faculdades humanas, especialmente o intelecto agente e o intelecto paciente. 

É precisamente nesse quadro que se insere o papel do mestre. Diferente das concepções que marginalizam o ensino exterior, Santo Tomás afirma que o professor não infunde diretamente o saber no aluno, mas é causa instrumental do conhecimento, estimulando, por meio de sinais sensíveis (palavras, exemplos, imagens), o intelecto do discípulo a atualizar em ato o que está em potência. O mestre, portanto, é verdadeiro colaborador do processo educativo, e não mero transmissor de conteúdo. 

Essa concepção pedagógica tem implicações importantes. Primeiro, destaca o protagonismo do educando, cuja atividade intelectual é condição essencial para a aprendizagem. Segundo, redefine o papel do educador, que não substitui, mas auxilia o discípulo no processo de busca da verdade. Em terceiro lugar, reforça a centralidade da razão como luz natural dada por Deus ao homem, tornando desnecessária a intervenção divina especial para cada ato de conhecimento, sem, contudo, excluir a ação da graça na plenitude do saber. 

No De Magistro, Santo Tomás também trata de temas como a possibilidade de alguém ser mestre de si mesmo ou de ser ensinado por anjos, concluindo que o ensino exige sempre um mediador que possua em ato aquilo que o discípulo possui em potência. Assim, o ensino é ato da vida ativa, pois visa o bem do outro, embora se alimente da vida contemplativa, já que trata de realidades inteligíveis e busca a verdade. 

A pedagogia tomasiana, nesse sentido, antecipa elementos valorizados por correntes modernas: a importância da experiência, da descoberta, da autonomia do aluno e da mediação significativa do professor. Para Santo Tomás, aprender é refletir e ensinar é provocar a reflexão. Seu método educativo integra razão, sensibilidade e transcendência, e permanece atual porque se funda numa antropologia realista, que respeita a natureza humana e aposta em sua capacidade de conhecer e se aperfeiçoar. 

Redescobrir Santo Tomás como pedagogo é, pois, um exercício fecundo para renovar a filosofia da educação a partir de fundamentos sólidos, capazes de unir verdade, liberdade e formação integral da pessoa. 

Fonte: https://www.cnbb.org.br/

A sabedoria de Deus na criação e a Campanha da Fraternidade 2025

O homem e o universo (Vatican News)

Nós estamos na Quaresma e na Campanha da Fraternidade 2025, organizada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), meditando a Palavra de Deus realizada na criação. Nós percebemos a sabedoria de Deus em criar tão bem as obras, e feitas com amor, pois, elas saíram de suas mãos poderosas, para o bem da humanidade e à gloria divina. Deus Uno e Trino é exaltado pelas suas criaturas, pela forma como foram realizadas.

Dom Vital Corbellini, Bispo de Marabá – PA.

A Campanha da Fraternidade tem presente a Ecologia Integral, sendo o seu tema central. Deus viu que tudo era muito bom(Gn 1,31). É preciso uma conversão integral para nós sermos guardiões da casa comum. Vejamos a seguir como esta descrição foi elaborada nos primeiros escritores cristãos na vida eclesial e no mundo social.

A obra dos seis dias em sua sabedoria

Teófilo de Antioquia, Bispo apologista, defensor do cristianismo, século II teve presentes a obra do Senhor nos seus seis dias. Ele disse que nenhuma pessoa explicaria tal grandiosidade, pois ninguém seria capaz de dizer algo digno dela, por causa da soberana grandeza e riqueza da sabedoria de Deus, contidas na criação dos seis dias, senão pela fé e pelo amor. Não foi possível, segundo o autor dizer tudo sobre a criação de Deus, tão grande e tão bela que ela é, de modo que é preciso preservá-la e amá-la por todas as pessoas[1].

O nada veio à criação e a do ser humano

Os autores sacros colocaram que a obra de Deus veio do nada de modo que Ele tirou tudo para fazer todas as coisas. Nada foi coetâneo com Deus; ele próprio é o seu lugar, sendo o Senhor anterior a todas as coisas. Ele criou o ser humano que conheceu o seu Criador, de modo que foi para ele que o preparou o mundo, pois aquele que é criado possui necessidades, sendo que o Incriado, Deus, não tem necessidades[2].

Tudo foi criado em vista do Verbo

Teófilo afirmou que tudo foi criado em vista do Verbo de Deus que se faria carne, gente como nós (cfr. Jo 1,14). Ele as gerou com a sua própria sabedoria, emitindo-a antes de todas coisas. O Verbo fez todas as coisas. Ele é o Senhor de todas as coisas que pelo bem comum foram feitas[3].

O Espírito de Deus

O Bispo Teófilo disse que o Espírito de Deus, desceu sobre os profetas e por meio deles falou sobre a criação do mundo. O Espírito de Deus pairava sobre as águas (Gn 1, 2 Na verdade não existiam profetas quando foi feito o mundo. No entanto existia sabedoria, e o seu Verbo santo, que sempre estava presente nele[4].

O verdadeiro Deus

Teófilo afirmou que era preciso, diante da criação, o conhecimento do verdadeiro Deus para que fosse amado pelas pessoas e pelos povos. Ele o foi por suas obras grandiosas e feitas com sabedoria, para que em nome do Verbo de Deus fizeram-se o céu e a terra. Logo é dito que a terra era invisível e informe, sem alguma forma de modo que as trevas estavam sobre o abismo, mas o Espírito de Deus pairava sobre as águas (cf. Gn 1,2)[5].

A terra foi dada ao ser humano

Deus deu a terra para o ser humano. Ele começou a construir aqui a sua vida e não o fez pelo telhado antes de ter assentados os alicerces. O poder de Deus se manifestou em fazer as coisas a partir do nada de modo que tudo o que é impossível aos olhos humanos, tudo é possível a partir de Deus. Nós cremos que tudo foi feito pelo Verbo de Deus e a terra é alicerçada pelo solo, colocada de uma forma diferente do abismo na imensidão das águas e também de trevas, porque o céu, criado por Deus, cobria como uma tampa tanto as águas como a terra[6].

Os nomes da criação vem de Deus

Deus deu os nomes para as coisas, segundo Teófilo de modo que o ser humano conheceu as criaturas nas quais ele conviveria juntos, unidos. O fato foi que a ordenação de Deus, isto é o Verbo iluminou a terra e assim Deus chamou à luz `dia` e à noite `trevas`, pois o ser humano não teria sabido chamar à luz dia, nem à noite trevas, como também não saberia dar nome às demais coisas, se não tivessem recebidos os nomes das coisas e dos animais por parte de Deus, que as criou[7].

A diversidade das coisas criadas e a ressurreição

O bispo Teófilo afirmou que a diversidade das coisas foi um dos pontos fundamentais na criação dada por Deus. É fundamental perceber a beleza, a multidão das coisas e como através delas manifestam-se a ressurreição, a vida nova que surge pelas coisas criadas que morrem e ressurgem novamente, sendo prova, testemunho da ressurreição que um dia se realizará pela graça divina em todos os seres humanos pelo bem realizado neste mundo[8].

As coisas criadas para o bem e para o amor

O autor grego, Teófilo afirmou que todas as coisas criadas por Deus tinham como meta a realização da vontade de Deus, em vista do bem, do amor. Assim também o ser humano quando foi criado para coisas boas, conforme a vontade do Senhor. Se as feras chamam-se assim por causa de sua ferocidade não era porque desde o principio fossem más ou venenosas, pois nada do que é mau criou Deus desde o inicio, mas pelo contrário tudo era bom e até muito bom (cf. Gn 1,31), no entanto o pecado do ser humano as tornou más. O fato foi que o ser humano se tornou transgressor, elas também transgrediram[9]. No entanto a graça de Cristo fez o ser humano e os seres vivos viverem a reconciliação com o Senhor Deus Pai criador, pelo seu Espírito.

A sabedoria divina na criação do ser humano

As coisas foram criadas por Deus com sabedoria, assim também a sabedoria divina criou o ser humano. Não existe palavra humana que expressa a sua grandeza: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gn 1,26). Ele não disse: “Façamos” a nenhuma outra criatura, a não ser a seu próprio Verbo, e à sua Sabedoria[10]. O Senhor também quis ao fazer o ser humano, homem e mulher que após os terem abençoados, se multiplicassem, enchessem a terra, submetendo as coisas para que os servissem, Ele ordenou que desde o principio, se alimentassem com os frutos da terra, sementes, ervas e arvores e os animais fossem os seus comensais, os quais também comeriam todas as sementes da terra (cf. Gn 1,29-30)[11].

Tudo foi feito através do Verbo, a Sabedoria de Deus

Atenágoras de Atenas, padre apologista grego do século II afirmou diante dos pagãos, a existência de um só Deus, incriado, eterno, impassível, rodeado de beleza, pelo qual tudo foi feito através do Verbo que Dele vem, e pelo qual tudo foi ordenado e se conserva. Estando o Filho no Pai e o Pai no Filho por unidade e poder do Espírito, o Filho de Deus é o Verbo do Pai. Desta forma a fé cristã admite a existência de um Deus Pai, um Deus Filho e um Espírito Santo que mostram seu poder na unidade e sua distinção na ordem. Todas as coisas procedem dele, os elementos que estão nos céus, do que há também no mundo, em vista do cuidado de sua boa ordem[12].

 Notas:

[1] Cfr. Segundo Livro a Autólico, 12 de Teófilo de Antioquia. In: Padres Apologistas. São Paulo; Paulus, 1995, pg. 242.

[2] Cfr. Idem, pg. 238.

[3] Cfr. Ibidem, pgs. 238-239.

[4] Cfr. Ibidem, pg. 239.

[5] Cfr. Ibidem, pg. 239.

[6] Cfr. Ibidem, pg. 243.

[7] Cfr. Ibidem, pg. 244.

[8] Cfr. Ibidem, pg. 244.

[9] Cfr. Ibidem, pg. 247.

[10] Cfr. Ibidem, pg. 248.

[11] Cfr. Ibidem, pg. 248.

[12] Cfr. Petição em favor dos cristãos, 10. In: Padres Apologistas, pgs. 130-132. 

Fpnte: https://www.vaticannews.va/pt

Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF